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| Perfil de identidad do Instituto Missões Consolata há cem anos da sua fondação |
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| Por Pe. Alberto Trevisiol, imc | |
| 03 de April de 2006 | |
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O tema aqui tratado não pretende apresentar um panorama, ainda que sintético, da história do Instituto Missões Consolata, sobre o qual já existe consistente bibliografia, mas visa colher aquilo que tal história fala do “coração" do nosso Instituto. A palavra “coração” anda impregnada de significado misterioso, que pode ser facilmente intuído, mas nunca completamente compreendido. Aplicada ao nosso tema, quer significar a dimensão metastórica dos eventos, aos quais confere significado e valor; significado e valor que só podem ser colhidos quando se lhes acolhem as diferentes relações, à luz de um idealismo espiritual, que as une e sustenta. Os historiadores sabem que sua disciplina é uma ciência humilde, que não pretende chegar à compreensão total da realidade, ainda que disponha de uma documentação excelente, porque nenhum arquivo é capaz de conter por completo as tensões e as razões que induzem uma ou mais pessoas a dar a vida por determinada causa. A longa gestação de um “ideal”... No dia 29 de janeiro de 2001 recorrem duas datas importantes: o aniversário de fundação do Instituto Missões Consolata e seu primeiro centenário de vida (29 de janeiro de 1901 – 29 de janeiro de 2001). A obra surgiu em Turim por iniciativa do Padre José Allamano, nascido aos 21 de janeiro de 1851, em Castelnuovo d’Asti, filho de José e Maria Ana Cafasso, falecido a 16 de fevereiro de 1926 junto ao santuário da Consolata, beatificado pelo Papa João Paulo II no dia 7 de outubro de 1990. Durante 64 anos, isto é, desde o seu ingresso no seminário em 1866 até à morte, Allamano foi permeado pelos eventos sociais e eclesiais que transformaram a cidade na qual viveu. José Tuninetti traçou recentemente uma luminosa análise do impacto que tais eventos exerceram sobre a pessoa e a obra do Allamano, dizendo entre outras coisas: “As profundas transformações culturais que se verificaram em Turim nos tempos do Allamano, interessam e abrangem sobretudo dois períodos: os últimos 30 anos do Oitocentos, com a imposição da hegemonia positivista, e o imediato pós-guerra com a irrupção prepotente da cultura política marxista-gramsciana e com o propor-se da cultura gobettiana, marcada por forte tensão civil. Tanto a positivista quanto a marxista-gramsciana eram culturas totalizantes, à medida que absolutizavam respectivamente a ciência e a política, propondo a marginalização e a eliminação da religião” (1). Neste contexto, durante a vida sacerdotal do Allamano exerceram seu ministério episcopal cinco arcebispos: Lorenzo Gastaldi (1871-1883), Gaetano Alimonda (1883-1891), Davide Riccardi (1892-1897), Agostino Richelmy (1897-1923) e Giuseppe Gamba (1923-1926). Diferentes no caráter e na orientação ideológica, todos porém tiveram que assumir a solicitude pastoral num contexto cheio de dificuldades e propenso a profundas mudanças do senso religioso que, por vezes, tinha a tendência a fechar-se hermeticamente perante as transformações sociais e culturais, mas que, outras vezes, conseguia colher também as exigências de aberturas significativas que lhe teriam determinado o futuro. Os dados descarnados que delimitam o contexto e o tempo em que se situa a figura de José Allamano têm apenas a finalidade de lembrar que ele se colocou, em seu contexto, como uma personalidade capaz de realizar uma maravilhosa atividade pastoral e social, dotada de equilíbrio, de sabedoria, de profunda abertura aos valores do espírito, à dimensão universal do anúncio do Evangelho. Diversos autores escreveram sobre ele (2), mas o trabalho mais exaustivo e completo é a grande biografia traçada pelo Pe. Igino Tubaldo (3) e a extraordinária publicação da correspondência, a cargo do Pe. Cândido Bona (4). Na prospectiva desta análise, entretanto, procura-se pesquisar somente sobre o papel que o Allamano desempenhou na fundação e ao dar uma identidade ao Instituto dos Missionários da Consolata, ainda que, dez anos mais tarde, se acrescente a este também o das Missionárias. Tal evento foi precedido de lenta incubação formal, durante a qual, aos momentos de fáceis prospectivas, que induziam o Fundador a traçar projetos de regulamentos para a sua obra, alternaram-se para ele também: desilusões, silêncio, sofrimento e uma grave doença. A primeira tentativa, projetada entre 1885 e 1886, reduziu-se a um nada de fato. Maior sorte teve o Regulamento para um Instituto Missionário, sobre o qual, aos 30 de setembro de 1891, escreveu para a Propagação da Fé. Acerca do projeto, elaborado na plena maturidade física e psicológica do Autor, ficou uma rica documentação, que permite descobrir as finalidades que Allamano prefixava à sua instituição. A obra era motivada pela disponibilidade ao trabalho missionário, encontrada por Allamano em sacerdotes e seminaristas do Piemonte, e pelo desejo que ele próprio tinha de dar continuidade à atividade do Cardeal Massaia, missionário na Etiópia. A instituição era concebida como “Pia Sociedade” para sacerdotes diocesanos, desejosos de consagrar-se às missões por um período de tempo limitado, ou por toda a vida. Ter-se-iam empenhado “à maneira dos religiosos”, para garantia de estabilidade e segurança. O Instituto devia ter caráter regional, para poder promover com maior agilidade a união dos membros e o espírito comunitário. Roma aceitou o projeto, já exposto anteriormente numa carta de 6 de abril de 1891, endereçada ao Prefeito da Propagação da Fé, João Simeoni. Recebido o parecer favorável, Allamano julgou que chegara o momento certo de informar também o seu arcebispo, ao qual escreveu em abril do mesmo ano. Mas o Cardeal Gaetano Alimonda, doente, protelou a resposta. O arcebispo morreu dois meses depois, aos 20 de maio de 1891. Durante todo o governo episcopal de seu sucessor, Dom Davi Riccardi (1892-1897), que coincidiu com o cargo de Prefeito da Propagação da Fé do Cardeal Ledochowski, não se falou mais da fundação. Allamano, entretanto, perseverava na firme convicção, que vinha alimentando desde o tempo de neo-sacerdote, a saber: de ter sido chamado ao serviço das missões; e a fundação do Instituto teria sido a atuação concreta desta convicção. Com a vinda à cátedra de São Máximo de um companheiro de escola e amigo de Allamano, o Cardeal Agostinho Richelmy (1897-1923), surgiu um novo clima para o nascimento do Instituto, tornando-o possível. De tudo isto se deduz, antes de mais nada, que o Instituto é uma idéia. Uma idéia que está na mente do Fundador como percepção de um conteúdo a ser definido, como um valor a ser atingido. É intuição abstrata de uma realidade e necessidade a ser transformada em compromisso moral. É conhecimento gerador de vida. Desta alma do “Instituto”, que ainda não tem corpo material, Allamano vive por longos anos. Seu coração transborda deste ideal, percebido como um dom e um privilégio, que o induz a pensar que outros teriam podido fundar o Instituto, e levando-o a buscar segurança nas palavras do seu Arcebispo, do qual espera uma espécie de ordem formal, antes de iniciar a fundação. Seu mundo emocional é penetrado profundamente por interrogações, a ponto de sentir-se aterrorizado perante a responsabilidade de começar tal empreendimento, e percebe que sua fé é posta à prova como a de Abraão e dos profetas. O conteúdo da idéia do Instituto que povoa a mente de Allamano é a evangelização dos não cristãos; conteúdo sobre o qual o Fundador insistiu muitas vezes, a ponto de traduzi-lo na plástica expressão: “Nós somos para os pagãos”. Não se pode, certamente, negar a evolução realizada a nível teológico e operativo da dimensão missionária do ser cristãos, nem excluir que as formulações utilizadas por Allamano, para exprimi-la, contenham elementos restritivos, culturalmente condicionados e teologicamente superados. Mas o Instituto que ele pretende fundar, concebe a evangelização como uma obra de amor, em benefício dos que não conhecem o Evangelho. Tudo o mais vem depois, tanto cronológica como teologicamente. No Instituto pode-se entrar e permanecer somente com esta finalidade, de forma exclusiva e para sempre, de sorte que, se hipoteticamente fosse possível concluir o ciclo da missão, ela terá sempre um novo começo, um ponto de retomada, porque a tarefa de anunciar o Evangelho não terminará nunca. O seu, é um Instituto que nasce para a missão, identifica-se com a missão e não oferece parâmetros para colocar-se fora dela. Mas, somos missionários na cabeça, na boca e no coração – como ele dizia – à medida que somos capazes de experimentar algo de profundamente envolvente por aqueles aos quais queremos anunciar o Evangelho. Em 1903, Allamano já escrevia: “Deveis ter entranhas de caridade”. Não há jeito de traduzir em italiano corrente esta expressão. Deve ser entendida intuitivamente, fora de qualquer definição possível, fora de qualquer desilusão já provada, fora de qualquer incerteza futura. Quem ama, sabe que o amor não é força, mas fraqueza; sabe que o amor são os “não” jamais pronunciados, os “sim” sem condicionamento, as razões sem argumento, as justificações – ainda que verdadeiras – mas sempre inúteis. Fundamento da evangelização, para Allamano, é a paixão pelo povo, antes mesmo que paixão pelo Evangelho, e que por isso é preciso partir, primeiro para sustentar a dignidade das pessoas, depois para torná-las cristãs. O Instituto é o fruto deste movimento interior provado por Allamano. É a experiência atualizada desta atração da mente e do coração. Não pode subtrair-se a ela e não concebe que alguém possa ser membro do Instituto sem ter uma experiência pessoal do mesmo. Como foi para o Fundador, assim para nós: somos membros do mesmo Instituto à medida que não conseguimos entender a nós mesmos sem ele. Aberto às missões, o arcebispo Richelmy intuiu o sentimento de Allamano e, sem mais, apoiou o projeto da pessoa que estimava e que tanto amava. Outros homens de valor, dentre eles o Pe. João Bonzano, futuro cardeal, encorajaram a iniciativa. Aos 23 de junho de 1900, Allamano escreveu novamente à Propagação da Fé, propondo como território de missão a ser confiado ao futuro Instituto, a parte da África oriental, limitada ao sul pela margem esquerda do rio Tana; pela parte setentrional, pelo monte Quênia; ao oeste, por uma linha que, passando pelos lagos Baringo e Rodolfo, continuava até às nascentes do rio Omo; ao norte, pelas altas bacias do Omo e do Giuba; ao leste, pela margem direita do rio Uebi Scebeli, até às costas do Benadir, sob o protetorado italiano. O consentimento da Congregação da Propagação da Fé veio condicionado ao do Ordinário de Turim e ao do Vigário Apostólico, do qual dependia o território solicitado. Ambos foram obtidos em breve tempo. Não só o Cardeal Richelmy, mas toda a Conferência Episcopal subalpina, reunida junto ao santuário da Consolata nos dias 12 e 13 de setembro de 1900, aprovou o projeto recomendado pelo arcebispo de Turim, que, através de um decreto datado de 29 de janeiro de 1901, erigia o novo “Instituto da Consolata para as Missões Estrangeiras”. Em contrapartida, a este evento certamente feliz para Allamano, sucedeu um fato surpreendente: ele viu-se forçado a mudar, na última hora, a destinação do primeiro grupo de missionários que partiam. De fato, num primeiro tempo, haviam sido destinados ao Vicariato Apostólico dos Gala, onde Monsenhor André Jarosseau manifestara a disposição de acolhê-los, mas não puderam chegar lá, em razão de oposições políticas e religiosas suscitadas pelas autoridades locais e européias, inclusive com a cooperação do governo italiano. Assim, no dia 8 de maio de 1902, quatro missionários (5) partiam para a África oriental inglesa. Graças à mediação do cônsul italiano em Zanzibar, Júlio Pestalozza, e à disponibilidade de Mons. Emílio Allgeyer, dos Missionários do Espírito Santo, Vigário Apostólico de Zanzibar, Allamano conseguiu enviar os seus missionários àquele território. Um ano depois da partida dos missionários, partiram também as religiosas do Cottolengo de Turim, às quais Allamano pedira uma colaboração, que desde o começo se manifestava indispensável. A fundação do Instituto e o envio dos primeiros missionários não teriam sido possíveis sem a colaboração e amizade que Allamano encontrou em Tiago Camisassa. Nascido em Caramagna, no Piemonte, aos 27 de setembro de 1850, filho de Gabriel e Inês Perlo, durante 42 anos, isto é, até 18 de agosto de 1922, dia em que faleceu, foi o homem sem o qual Allamano não teria podido conduzir o Instituto. Era o braço direito de Allamano e o homem de suas obras e realizações materiais. Ao solicitar o “Decretum Laudis” para o Instituto masculino, em 1909, Allamano deu a Tiago Camisassa o seu mesmo título: chamou-o de “Fundador” do Instituto Missões Consolata. O ideal se faz “carne”... O Instituto, portanto, apareceu como “logos que se faz carne”, história e história de amor. Ao se fazer história, o Instituto, necessariamente, se configura e se define, mas também se autodestina a assumir todas as limitações e condicionamentos do real e do possível. Para compreender quanto foi áspero e exigente este processo inicial, basta pensar nas duras labutas e “fracassos” do Allamano na escolha do lugar de missão, onde enviaria os seus primeiros missionários: da tentativa de continuar o trabalho do Cardeal Massaia, na Etiópia, às peripécias para obter a Missão independente do Quênia, em 1905. Considerando todos estes eventos, já se pode perceber quanto trabalho teve que enfrentar Allamano para transformar a idéia de Instituto num projeto operativo. Mas ainda mais difícil é individuar e atuar atitudes que exprimam o valor moral do próprio projeto. Para realizá-lo, sente-se a necessidade de fazer referência aos parâmetros costumeiros, aos modelos de missão preexistentes, de recorrer àquilo que os mestres ensinam. Allamano se submete humildemente a esta lei já quase universal, mas não se deixa determinar por ela. Vive a fundação do Instituto em atitude de busca, até que nasce, improvisa, a fisionomia da sua específica diversidade. Um bom livro referente a Allamano, define-o: “Pai e Mestre de Missionários”; mas ele é também “discípulo” dos eventos, dos povos e dos seus missionários (6). Esta primordial intuição de si mesmo e da sua obra – como discípulo da missão – torna o Allamano receptivo aos acontecimentos da história, com a qual saberá caminhar e crescer. Poucos institutos, mais ou menos contemporâneos ao que ele fundou, receberam tanto influxo da vivência e da experiência adquirida no tempo. As Constituições, que sancionavam de certo modo uma maturidade alcançada, foram analisadas no primeiro Capítulo Geral do Instituto, realizado em 1922, e aprovadas somente em 1923, à distância de apenas três anos da morte do Allamano. E, fato ainda mais importante, embora tivessem sido elaboradas pelo Fundador durante longos anos, no momento de serem aprovadas ainda não satisfaziam plenamente. Em todo o caso, elas não são a expressão de um Instituto fundado unicamente por Allamano, com a colaboração do Camisassa, mas encerram uma dimensão essencial, que tem suas raízes na missionariedade vivida pelos missionários, à cuja escola o próprio Allamano se formou. Ele, que nunca esteve na África, aceitou como componente da identidade da sua obra o ideal vivenciado pelos que trabalhavam diretamente no campo missionário. Transformava em carisma a realidade da missão, a missão vivida, em perfeita sintonia com a sua vocação: colocar-se a serviço de quem queria fazer missão. Por isso, estabeleceu com os seus uma correspondência constante e os obrigou a confiar o trabalho cotidiano da missão ao papel dos diários, que ele considerava como fonte para o aprendizado e a formação (7). Esta foi a primeira lição que acolheu no carisma: a missão nunca é uma escolha humana, nem tão-somente uma determinação que parte das iniciativas humanas. O Espírito a precede, como se vê no livro dos Atos dos Apóstolos. Não são os Galla da Etiópia, mas os Kikuyu do Quênia o povo que Deus escolheu para o Instituto. Os “sinais” conduzem a eles. E Allamano obedece a Deus antes que aos homens. Desde o começo, a missão se mostra imprevisível, a ponto de desmontar as proteções preparadas cuidadosamente em Turim. Ao invés de morrer de calor, como parecia lógico esperar da África que se conhecia então, os primeiros quatro missionários que partiram em maio de 1902, correram o risco de morrer de frio, no final de junho, nas proximidades do lugar onde se instalaram a primeira vez. Acolheu-os uma realidade que não tinha parâmetros de confronto. Três vezes estrangeiros – na cabeça, na língua e na cor da pele -, logo entenderam que a característica mais certa da missão era o irromper do novo, que desperta estupor. Não era somente o distante Allamano que devia aprender tudo; a missão fazia com que todos se tornassem discípulos. Contudo, uma coisa continuava certa, embora perante um horizonte tão indefinido: poder anunciar o Evangelho permanecia um objetivo nítido e vinculante para todos. Do coração do Instituto partirá sempre o forte apelo de fixar toda atenção ao objetivo da evangelização, com uma ação convergente, concorde e iluminada por parte de todos (8). Tênue, ao invés, se erguerá a voz do Fundador, no sentido de indicar meios e métodos para alcançar o objetivo proposto. Assim, os missionários decidiram elaborar eles próprios uma metodologia de trabalho apostólico. As Conferências anuaisNo final de 1903, os Missionários da Consolata já marcavam estas presenças no Kikuyu: em sete estações de missão, numa escola para catequistas, no trabalho de uma serraria, na organização de uma fazenda para agricultura e criação de gado. Tal sistematização exigira um grande esforço de trabalho material, que constituía uma contribuição só indireta à evangelização, mediante contatos irregulares e ocasionais com a população. O início de 1904 marcou uma relativa pausa na obra de construção. Os pedidos de terrenos, feitos ao governo inglês pelo Pe. Filipe Perlo, que em 1903 substituíra o Pe. Tomás Gays no cargo de superior, garantiam a possibilidade de um futuro desenvolvimento, um desenvolvimento livre do "perigo protestante”, ou seja, sem penetração de algumas confissões religiosas naquele território, que os Missionários da Consolata consideravam como exclusivamente próprio. Foi neste clima que amadureceu a idéia de realizar um encontro de todos os sacerdotes, para um curso de exercícios espirituais e uma série de Conferências, a fim de traçar linhas orientativas comuns acerca da metodologia missionária. Estes encontros anuais realizaram-se também em seguida, e as normas e diretivas que integravam as decisões tomadas em tais ocasiões foram assumidas também pelos Ordinários do lugar, através de breves cartas circulares (9). Do conjunto, resulta que Allamano talvez só compreendesse em parte o alcance de cada decisão, mas intuía perfeitamente o que estava acontecendo no campo de trabalho: para fazer missão era necessário cerrar fileiras e reunir forças, decidir com coragem e depois empenhar-se seriamente para atuar as decisões tomadas em comum. Neste estilo, ele via encarnado o “espírito de corpo” (esforço de viver, programar e trabalhar bem unidos), que tantas vezes ensinara. Decidir com liberdade e atuar com fidelidade quanto fora decidido, eis o caminho que desejava que seus missionários seguissem. Desta forma, as escolhas operativas, adotadas durante os encontros, e que formaram o método pastoral dos Missionários da Consolata, tornaram-se também para ele o modo de sentir a missão, o modo com o qual ele queria que os missionários se identificassem com ela. Linhas de identidade
Uma coisa que aparece com mais evidência, no período da história do Instituto, da fundação à morte de Allamano, é uma espécie de dualismo. De um lado, a tentativa de levar o Instituto a assumir a fisionomia tranquilizante de uma instituição eclesiástica fiel a um modelo bem reconhecível aos olhos dos bons e das autoridades constituídas; de outro lado, o Instituto mostra-se inclinado a tornar-se algo que ainda ninguém conhece. Nesta prospectiva, não é de estranhar se, convidados a dar um parecer acerca de mudanças constitucionais desejadas pelo Fundador, como a transformação do Instituto numa verdadeira congregação religiosa, muitos missionários delegassem a ele a decisão, sem manifestar-se acerca do valor das propostas. A evolução do Instituto não se apresentava como um processo contínuo de um menos para um mais. O que estava acontecendo era, sem dúvida, considerado um bem. A realidade do Kikuyu, como se apresentava em 1902, deixava entrever um campo de trabalho a longa distância. A própria pobreza numérica de missionários, o estupor provocado pelas “descobertas” cotidianas no trabalho de aproximação dos africanos, não deixavam supor que algo de novo pudesse modificar a situação existente. A missão real descortinava um amplo horizonte, embora sempre estático. Todavia, exatamente neste vasto horizonte é que se mostra a outra dimensão do dualismo anunciado. Allamano leva o Instituto a acolher o surgir das novidades que se vão firmando. Ele sabe por experiência pessoal que a própria fundação do Instituto é uma idéia nova sobreposta a uma realidade estática. Quer, portanto, que sua obra sobreviva e se identifique com o surgir de novas idéias, novas inteligências, ou seja, com toda nova capacidade de ler o presente e a simples evidência dos fatos. Percebe que o “sólito”, o habitual, o seguro do passado, também daquele que tal será, há de ser considerado apenas na prospectiva do presente, porque está destinado a mudar e, talvez, também a desaparecer. Como frequentemente acontece com os protagonistas de novas idéias, nem Allamano viu a atuação completa das suas, mas somente a capacidade de colher a “novidade” por ele introduzida, permitirá o acontecer e o subsistir do Instituto no tempo. A história narrada e compreendida dos cem anos de vida do Instituto da Consolata revela-se apaixonante, exatamente por esta sua surpreendente abertura. A Missão com uma almaNo começo tudo era novidade: o espírito do Instituto, que Allamano movido pela força do Espírito sentia o dever de transmitir; o estilo de vida, calmo e profundo, que ele exigia de seus missionários; o forte sentido de pertença ao Instituto; o íntimo relacionamento de fraternidade que se respirava; a ascese simples e austera que alimentava o ideal da busca de Deus; a intensa emoção com que se vivia a partida para as missões... Solicitada por este incessante irromper do novo, a vida do Instituto resultava permeada de dinamismo. Allamano incitava ao zelo, ao ardor. A missão, no campo de trabalho, era marcada por um formidável vigor de atividade. Se lêssemos os Diários dos missionários e as estatísticas das missões, sem recorrer à contraprova de outras fontes sobre a autenticidade de quanto está escrito neles, vem a vontade de pensar em exagero. A abertura e o trabalho das novas missões têm ritmos frenéticos e vencimentos urgentes. A pilotagem desta atividade, até 1924, fica nas mãos de um estrategista, Mons. Filipe Perlo, homem que conhece poucos limites. Tudo isto se concretiza no vocábulo “zelo”, juntamente com o sentido de urgência que justificava o provisório, relativizava todo sofrimento e admitia poucos erros. Os resultados garantiam que se estava realizando um bom trabalho. A consciência tinha a sensação de estar no lugar certo. E era também um lugar geograficamente bonito. O Kikuyu era sempre descrito com o fascínio da poesia. À luz deste horizonte, corria-se o risco de negar à missão aquilo que o Allamano colhera nela, como dimensão essencial: o seu contínuo "sair e passar além”. Como a fundação do Instituto lhe pedira que saísse da imobilidade da Igreja de Turim e olhasse o mundo como âmbito da própria ação, agora Allamano olhava para a “imobilidade” do Kikuyu e indicava aos seus missionários um “além” a ser atingido, cuja primeira etapa não poderia ser outra que a Etiópia. O querer chegar lá, surge como o exemplo mais significativo da tensão entre idéia e realização, entre fatos e busca de valores que Allamano sempre teve, em sua vocação de fundador. A Etiópia lhe ficara impressa no íntimo, como uma espécie de chamado do Espírito, e as pegadas dos passos do Massaia eram pistas de uma identidade espiritual, que ele teria gostado ver impressa no rosto e no coração dos seus missionários. Em 1911, durante a visita que Tiago Camisassa fez às missões do Quênia, o projeto do Kaffa foi retomado. Allamano expôs os objetivos da ida dos missionários ao Kaffa no dia 2 de abril de 1911, durante a conferência dominical que costumava fazer aos missionários. No dia 28 de janeiro de 1913 a Congregação da Propagação da Fé promulgava o decreto que erigia a Prefeitura Apostólica do Kaffa Meridional, e pouco depois nomeava o Pe. Gaudêncio Barlassina como Prefeito da mesma. Padre Giovanni Crippa publicou em 1988 um poderoso volume sobre a presença dos Missionários da Consolata na Etiópia, da sua chegada à sua expulsão, depois dos acontecimentos coloniais da Itália naquele país. Mas, para o Instituto, o caso etiópico foi sentido como atuação de uma componente da identidade com a qual Allamano queria que ele fosse marcado (10). Depois da Etiópia foi a vez do Tanganika, da Somália; e, nos últimos dias de vida de Allamano, do Moçambique. Toda nova abertura é um “logos” que se faz carne, que se reduz, portanto; mas é também a afirmação do princípio fontal, que gera a missão e faz subsistir o Instituto. Toda nova abertura é a ressonância do eco: “Nós somos para os pagãos”. A história conta que os Missionários da Consolata sabem que não podem ignorar isso; eis a razão pela qual este “eco” foi mais uma vez reproposto pelo último Capítulo Geral do Instituto. Não pode ser diferente, porque o “passar além”, para o Instituto que Allamano quis, não é a simples consequência de uma tarefa levada a termo, de um trabalho plenamente realizado. Entre as novas aberturas realizadas por Allamano, não houve nenhuma que correspondesse a estes critérios. O “sair” para encontrar o “novo” é o sinal/sacramento da natureza do Instituto. Em relação à experiência histórica do Fundador, mas em íntima conexão com o seu ideal de Instituto, as situações e os âmbitos aos quais o Instituto se abriu mudaram e mudam continuamente: Europa, América do Norte e do Sul, Ásia, os novos areópagos indicados pela Redemptoris Missio, a realidade de um mundo que não acredita na existência de Deus, que gerou uma cultura centralizada em muitas “divindades” alternativas ao mistério do transcendente. Trata-se de um caminho legítimo, mas não fácil e nunca concluído. De fato, é vasto como o mundo, dirige-se a todos os seres humanos que não conhecem o Evangelho. Por isso, ainda que deva necessariamente reduzir-se ao âmbito do concreto, escolher um lugar ao invés de outro, o Instituto não achará e nunca deve achar a meta final. A abertura é um parâmetro de controle da autenticidade do Instituto que aprendeu, da sua própria história, não só a interrogar-se quanto ao valor daquilo que está fazendo, mas também a contemplar o “além” para onde deve estender-se. O ponto no qual os missionários chegaram, nas realidades e nos contextos onde trabalham, não pode ser considerado como modelo de um perpétuo voltar a fazer as mesmas coisas, mas o simples ponto de partida para um algo de novo que ultrapassa as fronteiras da geografia e também dos conteúdos. Como se tentou verificar, a data dos cem anos do Instituto da Consolata faz memória de uma história jubilosa, tecida de alegrias e sofrimentos, de angústias e esperanças, de sucessos e falhas, de misérias e grandezas, em suma, feita de vida real. Contudo, em nenhum sentido foi um permanecer em ponto morto; antes, foi um contínuo educar para não sucumbir ao presente, um contínuo formar à capacidade de ver, com um olhar desencantado, isto é, com uma visão que sabe mudar. O princípio da transformaçãoCom esta capacidade de ver, Allamano pôs-se a ouvir o que a realidade da missão dizia e compreendeu que ela se alimentava de outro elemento essencial: o compromisso de “transformar o ambiente” que a acolhia, e a “deixar-se transformar” por ele. As escolhas operativas dos inícios, assumidas pelos missionários para atingir a primeira meta, poderiam todas reduzir-se a um denominador comum: permanecer com o povo. O cuidado dos doentes, escolas, catequeses e, sobretudo, as visitas cotidianas aos povoados, faziam desaparecer até mesmo a necessidade da missão, entendida como residência dos missionários. Vista um pouco de longe, ainda que vista da própria África, esta novidade poderia aparecer no mínimo extravagante. Verdadeiras missões eram então considerados os centros, a partir dos quais os missionários irradiavam sua presença sobre os “pobres negros”. Ao invés, os novos chegados, contrariando inconscientemente até mesmo as determinações do regulamento interno, adotavam como estratégia de trabalho o permanecer tão longamente com o povo, a ponto de reduzir a sede da missão a um armazém ou simples refúgio noturno. Padres, irmãs e irmãos percorreram tantas vezes o Kikuyu, que acabaram por aprender a olhar de perto as pessoas que encontravam, envolvendo-se totalmente com elas, através de profundos relacionamentos humanos. Foram por muito tempo apontados e ridicularizados, porque falavam somente o Kikuyu, não sabiam incutir submissão, prejudicavam o prestígio dos brancos com um modo de viver até mesmo inferior ao dos africanos mais evoluídos. Em 1948, o governo inglês deu a Mons. Carlos Cavallera a ordem de elevar os missionários ao “nível dos brancos”. Outros lhes pediram mais respeito pela “dignidade sacerdotal”, entendendo dizer-lhes com isso que assumissem um nível de vida mais “civilizado”. Os africanos, ao invés, logo se habituaram a dispor dos missionários; os missionários, por sua vez, consideravam isso como um direito dos africanos. Nenhum centro era considerado missão, enquanto não encontrasse respostas concretas às necessidades reais da população: a ela pertencia o tempo, o dinheiro, as fadigas, as capacidades pessoais. Allamano, durante sua vida, em suas cartas aos missionários, insistiu com frequência sobre a necessidade de formar deste modo o ambiente. Os missionários do Quênia fizeram deste “slogan” o cabeçalho (o endereço, o rumo) de seus trabalhos em Murang’a, em 1904. Allamano o apresentou nas Conferências realizadas na Casa Mãe, lembrava-o no ato de abençoar os missionários que partiam para diversos países. Repetido de boca em boca, ou impresso no papel, este “slogan” ressoava, às vezes, como uma admoestação utópica ou quimérica. Proferido pelo Fundador, adquiria, ao invés, valor de paradigma. Encarnado pelos seus, produziu muitos frutos. E também muitos sofrimentos. Quem inicialmente o compreendeu de forma mais adequada foram as melhores cabeças do grupo: Filipe Perlo, Francisco Cagliero, Gaudêncio Barlassina, Antônio Borda Bossana e alguns outros. Não todos. De fato, a transformação do ambiente passava necessariamente pela transformação do próprio missionário, incluindo cabeça e coração. A tendência instintiva de quem partia era sempre a de agarrar-se às certezas daquilo que se tinha e daquilo que se era. As colinas do Kikuyu, em 1902, lembravam muito as de Monferrato; as capelas que surgiam recebiam os nomes familiares dos títulos de Nossa Senhora. Conceitos e categorias davam a entender que o ideal parecia consistir nisto: reproduzir na missão um ângulo, um pedacinho da própria identidade. A missão era assim entendida como cópia ou xerox de uma realidade conhecida. A transformação, pelo contrário, era um processo que desestruturava tudo e todos, inclusive as coisas mais sagradas. A entrada neste processo só tinha um ponto firme de partida: a realidade. E para os missionários se tratava sempre de uma realidade ignota, por várias razões: não havia estudos e textos que explicassem e ajudassem a compreender este fato; e, principalmente, porque tal conhecimento não podia acontecer sem o envolvimento pessoal e total do missionário. A primeira coisa que a realidade impunha ao próprio missionário era tornar-se aluno: devia aprender a falar, a comer, a administrar, a vestir-se, a labutar de um modo diferente do habitual. Aquilo que agora aqui dizemos, parece óbvio, mas criou não poucos dramas, provocou desistências e a busca de bodes expiatórios, sobre os quais se pudesse lançar as desgraças e prejuízos! Mas, por fim, emergiu uma verdadeira conquista: a importância do cotidiano, ou seja, das pequenas coisas, que são como que os vasos capilares da existência humana. Para transformar o ambiente foi preciso tornar-se parte dele, aceitar seus valores, os riscos, a irracionalidade, a pobreza e as numerosas facetas representadas pela diversidade das pessoas. Este processo inicial aparece bem claro sobretudo nas primeiras horas da missão: encontram-se “pobres negros”, “costumes bárbaros”... Às vezes aparecem “selvagens”, aos quais é preciso levar a “civilização”. Não é apenas uma linguagem do tempo; são categorias que correspondem ao modo de ver e de sentir. É a afirmação da própria superior diversidade, que separa dos outros. Tudo isto muda, quando o missionário começa a saborear o gosto de pedir e o povo dá: a própria língua, a própria jovialidade, a própria fé, a acolhida isenta de qualquer interesse egoísta, a confiança sincera. Os missionários descobrem que seus nomes são cantados nas intermináveis nênias das caravanas... Que cada um deles tem um apelido, como se costuma em família... Que sua presença suscita perguntas e seu modo de viver é considerado diferente do das outras categorias... Mais importante daquilo que dizem, é aquilo que são. Sentem-se objeto de infinita paciência. Aqui nasce uma simbiose: a língua indígena se simplifica, torna-se natural, às vezes também em casa; os costumes revelam profunda sabedoria; os pedidos não são sinais de mendicância mas de partilha. Felipe Perlo entende que a catequese deve ser precedida pelo dom do conhecimento e dos meios de que dispõe, para melhorar a vida do povo; e parte para o ensino das “artes e ofícios”, que os filhos da terra aprendem com facilidade. O trabalho é missãoA autenticidade da transformação realizada e do novo espírito que invade os missionários é confirmada pelo grande volume de trabalho realizado nas missões. Por livre intuição, Allamano anexou o trabalho ao carisma do seu Instituto. Não o trabalho elegante dos gestos simbólicos, mas o humilde e duro trabalho que a dificuldade da vida impõe a quem deve manter-se. É lavrado de seu próprio punho o parágrafo do Regulamento de 1901, que diz: “A exemplo do apóstolo Paulo, os missionários devem trabalhar para se manter”. Quem entrava no Instituto devia aprender a trabalhar, e a laboriosidade do Camisassa ajudava melhor a pôr em prática este princípio. Em Turim, tal novidade institucionalizada para clérigos, irmãs e padres – e não somente para os irmãos leigos, para os quais o trabalho era tradição comum – despertava sorrisos ou admiração, de acordo com o ponto de vista dos indivíduos. Allamano tinha o seu ponto de vista e, confortado pelo grande bom senso que o animava, seguia em frente, chegando a estabelecer um horário determinado para as atividades manuais. Assim exercitados, os missionários partiram para a África. Aqui, o trabalho era algo que todos podiam fazer. Uma coisa que durou muito tempo, realizada com maior intensidade. Criou um estilo de fazer missão. Para Allamano, nada era mais estranho que uma vida de padre que se abeirasse do conceito de cômoda (vida “sine cura”, despreocupada). Tão longe estava ele psicologicamente de ridicularizar a si mesmo, pensando que teria podido levar vida cômoda, quando, na verdade, se sobrecarregou de mil incumbências, para não falar da árdua tarefa de fundar o Instituto. Considerava o trabalho uma missão e não um simples enfeite para o missionário. Eis porque quis que também as irmãs fossem um pouco “viris”, “mulheres de calças”, capazes de “trabalhar com energia”. A primeira fazenda do Quênia, organizada pelos Missionários da Consolata, foi comprada com o dinheiro pessoal do Allamano, com a explícita intenção de ajudar a financiar, pelo menos em parte, as despesas das missões. Era evidente que cabia aos missionários trabalhar, mas eles souberam contar também com a cooperação dos africanos, e isso os levou a partilhar uma dimensão importante de vida. Este é o espírito com que Allamano queria que os seus fizessem missão. Achava que as missões (obras materiais) deviam ser construídas pelas mãos dos missionários. Entre as motivações que apresentou em Roma, para obter a separação do Kikuyu do Vicariato Apostólico de Zanzibar, em favor do seu Instituto, Allamano deu grande destaque ao aspecto econômico e ao trabalho realizado naquele território. Lê-se: “... Aqueles meses foram marcados por um período de intenso trabalho... Antes que findasse o ano de 1903, três novas estações eram fundadas e três novas casas em pedra eram construídas...! Graças à colaboração de uma estação industrial, também fundada durante aqueles meses, perto de Tusu, e equipada com serraria hidráulica, oficinas de serralheiro e carpinteiro, quase todas as estações eram fornecidas de mobílias mais urgentes e necessárias, tais como: altares e bancos para as capelas, esquadrias, caixilhos e grades para janelas e portas, coisas necessárias à segurança das casas... Em diversas missões, na África, já foram adquiridos e cultivados vários terrenos; entre eles há um que mede 1.200 hectares, sob a proteção do Fort-Niere... Nos terrenos adquiridos ou anexos a cada estação de missão, cultivam-se hortaliças, cereais, café e outras plantas que, segundo experiências realizadas pelo governo, fazem esperar uma produção remuneradora... Desta forma, algumas estações das missões da Consolata poderão, em breve, tornar-se autosuficientes” (11). É um texto sobre o qual já se refletiu e passou por várias correções. A aridez dos números e a exatidão das cifras transpiram uma mística: o trabalho é missão, ou seja, instrumento para o anúncio do Reino. Esta foi a releitura que o próprio Allamano fez ao constatar que, no decreto pontifício de aprovação do Instituto, era confirmado não somente o valor do trabalho dos seus missionários, mas também o objetivo que através dele buscavam: oferecer à população do Kikuyu a possibilidade de adquirir uma vida humana mais decorosa, para depois enxertar nela a vida cristã. Assim, ficou convencionado para sempre o valor que o Instituto tencionava dar ao esforço, ao trabalho, à economia: valiam enquanto davam credibilidade ao anúncio do Reino e contribuíam para um digno desenvolvimento humano. Nasceu assim, de forma espontânea, uma recíproca convivência social, que faz reduzir as diferenças. A amizade torna-se razão para superar as diversidades. E favorece a estruturação das presenças missionárias, fato que constitui uma novidade absoluta: às grandes obras, às vistosas moradias que se tornam “farol de atração” para os africanos, preferem-se estruturas muitos simples (às vezes até demais), que não ostentem poder, mas que ajudem a permanecer com o povo. Foi esta a intuição fundamental do método apostólico do Instituto, que se tornou uma componente do carisma. Quando um Missionário da Consolata foge deste modo de ser, torna-se como que um corpo estranho ao grupo, em qualquer parte do mundo se encontre. Só o sinal que traça a partilha da sorte, da vida e do pensamento, no contexto onde se trabalha, é que faz o missionário ser conhecido como parte da unidade do Instituto. Os missionários são reconhecidos pelo modo como sentem e falam do ambiente onde se encontram. Tornando-se parte do Instituto, sentem-se também eles diretamente envolvidos no processo de transformação do mesmo, como elementos integrados na maneira própria de compreender e de sentir do povo, com o qual partilham o dom da existência. Conhecer para amar, partilhar para transformar: eis a síntese da missão entendida pelo Instituto. Os círculos da onda envolvem todo o Instituto... Deste comportamento, brotam algumas consequências que marcaram a história do Instituto. Em primeiro lugar, a superação do “mito” da Casa Mãe. Ela constituía o centro afetivo, o ponto de referência, a dimensão estética, o sonho espiritual do Instituto. Mas o coração verdadeiro de cada missionário pulsava com o da missão onde se encontrava. A transformação dos missionários, que brotou do seu contato com o povo, envolvia o próprio centro do Instituto, que assim se alargava, a tal ponto de abranger as realidades mais remotas. Tal processo de crescimento do Instituto fora desejado e acompanhado por Allamano, que em 1913 conseguiu que fosse criada a Prefeitura Apostólica do Kaffa, na Etiópia; em 1922 a do Iringa, no então Tanganika; em 1924 a Somália; e havia pressentido também a ida de alguns dos seus missionários ao Moçambique. Entretanto, a mão que operava este rápido crescimento das missões confiadas ao Instituto era a de Mons. Filipe Perlo, que o Capítulo Geral de 1922 elegeu como Vice-Superior Geral e como sucessor do Allamano, caso este viesse a falecer. Em 1926 a herança de guia do Instituto passou assim a um homem diferente do Allamano, mas que tinha em comum o amor pelas missões, embora Mons. Filipe Perlo as concebesse como uma conquista contínua e uma expansão sem freio. Com a morte de Allamano, Mons. Perlo aplicou à Itália o método por ele adotado na África, para aumentar o número das missões. A exigência de desenvolver algumas estruturas do Instituto no país de origem era compartilhada por todos e em parte programada também por Allamano. Isto oferecia, portanto, ao Superior Geral a possibilidade de fazer convergir as próprias energias para um campo que lhe era congenial: em dois anos ampliou a Casa Mãe, fez abrir em toda a Itália centros de animação vocacional para meninos, de acordo com um plano de grandiosas proporções, que visava duplo objetivo: aumentar o número de missionários e obter meios abundantes para a manutenção e o desenvolvimento do Instituto. Durante seu governo, na África trabalhavam 167 missionários e 164 irmãs, ao passo que na Itália havia 220 missionários (somando padres, irmãos e clérigos), 320 irmãs e 510 aspirantes, perfazendo um total de 1.372. As realidades que apareciam não eram, contudo, as únicas a caracterizar o governo de Mons. Perlo. Elas exigiam um preço oculto de sacrifícios e de mal-entendidos, que acabou por lançar em crise toda a instituição guiada por ele. Enquanto esta situação galopava no Instituto, no dia 2 de janeiro de 1929 chegou à Casa Mãe de Turim o bispo capuchinho Monsenhor Lucas Ermenegildo Pasetto, que leu aos superiores reunidos o decreto através do qual a Propagação da Fé os suspendia de suas funções, agora confiadas a ele. Com este ato começava o longo período da Visita Apostólica ao Instituto, que terminou somente em 1933 quando, mediante decreto de 28 de junho, a Propagação da Fé nomeava o Pe. Gaudêncio Barlassina, Prefeito Apostólico do Kaffa, como Superior Geral do Instituto. São exatamente estes tumultuosos acontecimentos que revelam a íntima reciprocidade existente entre as missões e o centro do Instituto; é um fato tão verídico este, que podemos afirmar: foi precisamente esta reciprocidade que deu ao Instituto a possibilidade de viver aqueles difíceis momentos, marcados por muito sofrimento e por diversos afastamentos, mas que o tornaram capaz também de enfrentar mudanças insuspeitáveis. A nomeação de Pe. Barlassina, como Superior Geral, não só obteve o consentimento de todo o Instituto, como também o fez reencontrar um centro de unidade e de identificação, a ponto de ser definido por muitos missionários como continuador ideal de Allamano. O programa de governo do Pe. Barlassina volta-se para o campo da recuperação da dimensão “religiosa” do Instituto, à qual procurou infundir novo vigor, ouvindo o parecer de todos, mas sem seguir a vontade de todos, antes, fazendo o esforço para não se deixar influenciar por ninguém, a não ser pela vontade do espírito de Deus – como ele próprio escreveu em sua primeira circular (12). Padre Gaudêncio Barlassina não era diferente de Mons. Perlo, no que se refere ao dinamismo, ao amor pelas missões, ao senso do Instituto; porém, era mais sagaz e mais prudente: um incomparável homem de relações e conhecedor das pessoas. Ao assumir o cargo, anunciou que teria desempenhado a tarefa de Superior com o peso que então tinha esta palavra, e jamais renunciou a isso. Seus primeiros atos de governo fixaram esta meta: trazer de volta o espírito de família e a simplicidade de relacionamento entre os membros do Instituto. Depois, também ele pensou em alargar as fronteiras do Instituto, fora do âmbito da África, onde ninguém imaginava estendê-lo. Em Padre Barlassina, a idéia de abrir ao Instituto o caminho da “América”, nascera da necessidade de encontrar fontes econômicas capazes de garantir uma melhor ordem financeira. O desenvolvimento dos territórios de missão africanos; a reestruturação das casas na Itália que, apesar de reduzidas em número após a Visita Apostólica, exigiam somas elevadas para serem equipadas decorosamente; a necessidade de adquirir outras sedes para enfrentar as situações de emergência; a oportunidade mais vezes lembrada de não concentrar os investimentos do Instituto somente na África e na Itália, eram razões válidas para fazer pensar num país além do oceano. Às motivações econômicas acrescentava-se também a intuição alimentada com a troca de notícias entre os institutos religiosos, que consideravam os países da América Latina como viveiros de vocações. Padre Barlassina compreendia que o Instituto fundado por Allamano não podia ter fronteiras, precisamente em razão de sua finalidade – a Missão – que é intrinsecamente universal. Além disso, bastava olhar para o campo de atividade confiado ao Instituto, para entender que era necessário multiplicar os operários. Uma nova fundação teria sido necessariamente realizada num país capaz de responder a duas exigências: oferecer ajuda econômica e prospectar um favorável recrutamento de futuros missionários. Antes de fixar estas linhas orientativas num programa escrito, o Superior Geral as inculcou na cabeça do Pe. João Batista Bísio, desde o momento de sua partida para o Brasil. A eles (aos futuros missionários) referiu-se constantemente o Pe. Bísio, ao sonhar com seu trabalho e ao dar os primeiros passos em terra brasileira. Este lento processo de inserção do Instituto na “América”, iniciado em 1937, foi reforçado entre 1946 e 1948. No fim da Segunda Guerra Mundial o mapa das missões, onde trabalhavam os Missionários da Consolata, resultava mexido e desarrumado. Alguns padres e irmãos haviam deixado a África; a Etiópia fora completamente abandonada. O excessivo número de pessoal concentrado na Itália fez com que se retomasse um projeto anteriormente elaborado de uma nova presença na América. No dia 22 de fevereiro de 1946 Pe. João Batista Bísio foi convocado à presença do Conselho Geral do Instituto para apresentar eventuais possibilidades de novas aberturas. As nações que pareciam oferecer melhores oportunidades eram o Canadá e os Estados Unidos. E sem fazer nenhuma distinção entre América do Norte e do Sul, tomou-se em consideração também a Argentina. Por fim, a escolha caiu sobre ambos, ainda que a primeira partida de missionários fosse efetuada para a Argentina, para a qual se estabeleceram metas e finalidades análogas às do Brasil (13). Dois anos depois chegou a vez da Colômbia, onde porém ficou claro, desde o começo, que os missionários não poderiam angariar ajudas financeiras nem grande número de vocações, mas se empenhariam numa típica atividade missionária ao longo do rio Madalena. Ainda que estes acenos sobre as novas aberturas sejam breves, percebe-se claramente quanto tenha sido lenta e sofrida a compreensão do papel a ser desenvolvido pelos missionários, num mundo muito diferente daquele onde até então o Instituto trabalhara. Somente no Capítulo Geral de 1949 foi alcançada uma total compreensão, especialmente pela mediação do Pe. Domingos Fiorina que, naquela assembléia, foi eleito Superior Geral. O Capítulo iniciara a 1º de setembro de 1949 e no dia 10 já tinha sido eleito o Pe. Fiorina, que participava como delegado do Brasil. Até 22 de outubro, data de encerramento da assembléia, os capitulares analisaram a vida do Instituto, elaboraram um estatuto para as missões e, sem perder de vista o desenvolvimento do mesmo em diversos países, decidiram instituir as “Delegações”, entidades que, embora conservando ligames de unidade com o centro, teriam gozado de certa autonomia, assumindo cada qual um particular aspecto, de acordo com o país onde se localizava e o trabalho que os missionários desenvolviam. Mas, naquela assembléia, foi sobretudo compreendido o senso específico das novas aberturas e percebeu-se conscientemente a transformação que elas teriam operado no Instituto. Em troca, Turim garantia às missões a continuidade de pessoal e de meios para levar adiante o processo iniciado. Do observatório privilegiado do Capítulo Geral tornava-se mais fácil compreender a necessidade de não reduzir o mundo à própria situação experimental; procurou-se, portanto, convencer os missionários a adquirirem um senso mais profundo do Instituto, como realidade global. Para alcançar o objetivo de uma profunda transformação do próprio ambiente, o missionário necessitava de reflexão e sentir-se em comunhão. O isolamento não teria favorecido o desabrochar das idéias; pelo contrário, tê-las-ia levado antecipadamente à morte. Estas indicações do Capítulo revelaram-se em breve tempo extremamente intuitivas, pois chegara um determinado momento da história do Instituto em que o processo de transformação se evidenciou como momento essencial da atividade missionária: o tempo do esforço para a independência e sua acolhida nos países africanos. Para analisar este evento, poder-se-ia começar pelos fatos que precederam a guerra etiópica de 1936, vivida com três atitudes fundamentais, expressas na dignidade de Mons. Santa, no equilíbrio de Pe. Barlassina, na politização fascista do Pe. M. Borello. São atitudes que voltaram a emergir nos anos sessenta, quando a África assumia sua nova identidade política. Por fim, o que sobrou de tudo isto foi a conscientização desta nova realidade, acolhida na mente e no coração dos missionários. Acontecera um processo de identificação com a realidade que mudava, que havia transformado os missionários e o povo em protagonistas, como na recepção das mudanças que estavam em curso. A evolução das situações e das pessoas era a mesma que acontecia nos missionários, a mesma que eles haviam sentido, às vezes inconscientemente, ou mostrando resistência, como o irresistível percurso de sua vicissitude humana e missionária. Na aparência menos evidente, mas talvez ainda mais profundo, foi o processo de transformação do ambiente e do Instituto realizado na América Latina e pela América Latina. Quando os Missionários da Consolata chegaram ao Brasil e Argentina procuravam apêndices da Itália, isto é, grupos provenientes de lugares conhecidos. Encontraram-nos e inseriram-se neles. Mas até quando – e o tempo foi breve – os olharam como italianos deslocados, aos quais deviam prestar o ministério de padres europeus, experimentaram forte sensação de mal-estar. Homens como Pe. João Batista Bísio e Pe. Pedro Borello sentiam-se constrangidos a ser o que não queriam. Embora naqueles tempos a obediência operasse milagres, não exitaram em tomar um novo caminho, pouco sustentado em Turim. Logo compreenderam que, não obstante os grupos de oriundos procurassem manter forte a identidade de proveniência, no Brasil ter-se-iam tornado brasileiros, na Argentina – argentinos. Bastava o clima a enxertar tal movimento (no Rio de Janeiro a festa do Natal era celebrada sob um calor de 40 graus e mais!), que a pluricultura das relações, dos intercâmbios econômicos, dos interesses políticos teria feito desembocar em identidades culturais determinadas e diversificadas. Quando, nos anos ’70, os Missionários da Consolata abriram novas missões na Venezuela e Equador, seu modo de olhar para a realidade dos países nos quais procuravam inserir-se havia mudado completamente. As diversas identidades culturais são hoje uma evidência que envolve de forma muito relevante a realidade do Instituto, seu modo de pensar, seu projeto de missão. O que caracterizou este processo poderia ser apontado como uma espécie de “desobediência intelectual”, visto que se usavam as estruturas existentes e se criavam outras estruturas novas, escutava-se o que se dizia acerca do mundo de proveniência, acerca dos parâmetros que ele ainda estabelecia para agir, mas sem realmente crer nele, sem senti-lo como algo de vital, sonhando uma realidade que se destacasse do passado e produzisse “outra coisa”. Uma “outra coisa” que ainda não se atuou plenamente, mas que, entre os anos 1980 e 1987, produziu, por exemplo, no Brasil o “movimento da utopia”, ou seja, a busca de uma total identidade brasileira, de cuja formação os Missionários da Consolata se sentem participantes em dar e em receber. Eles contribuem com a autenticidade de uma cultura latino-americana, alinhando-se sempre mais significativamente do lado dos pobres e dos marginalizados, das minorias indígenas e afro, para promover as diversidades específicas, o valor cultural e a importância social. A nova consciência que estas diversas áreas culturais manifestam a este respeito foi adquirida também graças ao significativo empenho dos missionários. O sinal de uma maturidade alcançada: a visibilidadePara uma instituição, como o Instituto Missões Consolata, cem anos de vida podem ser considerados um período suficiente para que se possa lançar um olhar retrospectivo. A extensão geográfica, a evangelização realizada, as inúmeras obras, através das quais a missão se expressou, tornaram o Instituto sempre mais visível. Tal visibilidade se evidencia, paradoxalmente, naqueles lugares onde o Instituto trabalhou e, pouco a pouco, foi passando a outros. Era este o sinal mais visível do trabalho realizado, do fim alcançado; a aspiração mais autêntica de cada missionário. O desejo da “visibilidade”, embora envolvido de discreção e pudor, permeava a mente do Allamano: sua é a Casa Mãe; por ele foram sempre, pelo menos aprovadas, as obras que surgiam nas missões. Pode-se dizer, com certeza, que este conceito dominasse o modo de sentir de Mons. Perlo, cujo ideal parece ter sido o de tornar o Instituto uma realidade visível e atuante, através da “conquista” de sempre novos territórios de missão, a ponto de levá-lo a enviar, em 1928, uma falida expedição à Índia, até sonhar com uma presença em cada diocese. Seu exemplo envolveu muitos missionários e circunscrições. Ao Mathari de Nieri juntaram-se, sem solução de continuidade, os grandes colégios da América Latina. No tempo em que foram geradas, estas estruturas serviam para dar resposta a algumas necessidades e expunham sempre o ícone da Consolata e o nome do Instituto. Dar-se a conhecer, era uma obrigação; irradiar presença, era uma necessidade. A esta visibilidade, que podemos chamar de “horizontal”, juntava-se sempre outra, que podemos denominar “vertical”, isto é, a visibilidade concernente à esfera do espírito. Por mais difícil que seja apresentar-lhe os contornos ou delimitá-la com estatísticas, a visibilidade moral do Instituto foi sempre o valor que ele perseguiu com maior perseverança. “Poucos, mas bons” – era o refrão que todos ouviam a cada pequena falha cometida. O conceito da “porta estreita” para entrar e do “portão” para sair era feito remontar ao Allamano que, em poucas palavras, afirmou categoricamente querer um Instituto de alto perfil qualitativo. Hoje, talvez, não seja mais possível propor os métodos da otimização inculcados pelo Fundador, mas a exigência da qualidade, que mostra a vida do IMC de maneira correta e justa, ao nível de pessoas e de trabalho missionário, é testemunhada pela inteira tradição do Instituto. Entretanto, a par desta exigente visão do Instituto, Allamano inculcou ao mesmo também a obrigação de uma profunda humanidade, cujo contorno mais visível foi a sua capacidade de sempre transmitir coragem. A coragem de sempre transmitir “coragem”, Allamano a encontrou nesta simples constatação: os missionários amavam a missão. A finalidade única que o Fundador quis determinar para o Instituto, nunca precisou de apelos. Também não foi somente um ideal. Desde o começo, constituiu a dimensão radical da identidade coletiva. De fato, não aparecia certamente coisa apreciável, sob o ponto de vista do bom senso, a primeira expedição de missionários, metade da qual era formada por rapazes: Irmão Luís Falda tinha apenas 19 anos e Irmão Celeste Lusso 18 anos. Entretanto, partir foi sempre julgado um privilégio, a tal ponto de se considerar um “desaforo” o não ser escolhido. Allamano bem sabia que a missão é sentir, antes de fazer, e o sentir do Instituto devia ser missão. Esta realidade penetrou na identidade do Instituto, e sem ela ninguém sabe dizer o que ele seja. Os missionários, frequentemente, a vêem com os óculos que trazem, e se lançam à procura de um conceito de missão que ainda não assumiu contornos bem definidos. A Igreja de Deus está sempre em tensão entre o “já” e o “ainda não” e espera da missão as antecipações sobre o futuro da própria identidade. O Instituto também vive deste dinamismo, por isso não podia ter sempre parâmetros certos para o agir. Isto explica o esforço do seu procurar e a multiplicidade das respostas possíveis ao seu modo de fazer missão. Entretanto, há um fato de grande peso: a missão tornou-se companhia, identidade, coração das pessoas que compõem esta instituição. Cascas grosseiras, capazes de fazer esfriar toda a banalidade com um simples olhar; e capazes também, com quatro palavras, de reduzir ao essencial uma longa conversação... Mas são homens que transpiram missão. O desenrolar-se dos acontecimentos que delineiam a história do Instituto mostra com clareza uma corrente de sucessos e de falhas, que se alteram, embora não seja possível fazer abaixar o prato da balança sempre no positivo, mas a sensação de fundo que se tem é que, não obstante tudo, o ideal permaneceu claro, e o Instituto ainda vive hoje de “espírito de missão” – como diria Allamano. Para ele, era este “espírito de...” a dimensão que transcende tudo, que penetra, rege e nobilita tudo. O espírito de missão sustentou o Instituto na travessia destes seus cem anos de vida; e continua a mantê-lo tenso na busca de um algo mais que inquieta o presente, confrontando-o com aquilo que poderia ser, ou com aquilo que seria bom que fosse. A nascente do “espírito de”... Para Allamano, o espírito de missão é alimentado com a vivência da dimensão contemplativa da própria missão. Que ele rezasse, não cabe dúvida; muitos o lembram como um padre de grande oração, forte e misericordioso. Tinha familiaridade com as coisas de Deus e, por isso, era normal que falasse delas, sobretudo aos seus missionários (14). A confiança que tinha com eles, levava-o a falar familiarmente; assim o ensinamento se tornava mais fácil. Falou-lhes muitas vezes da “sua oração” e das devoções que lhe eram caras. Eram ensinamentos comuns, às vezes simples detalhes, fórmulas que poderiam parecer “coisinhas de nada”. Pois bem, tornaram-se “doutrina”, pela maneira com que eram ditas, deixando transparecer um mundo em que a reflexão contínua alimentava uma oração fervorosa. Os missionários que viveram perto dele, ainda que por breve tempo, compreendiam que Allamano os queria homens de oração, sobretudo na missão. De fato, exatamente na hora da despedida e da entrega do crucifixo, o Fundador recomendava-lhes ainda mais intensamente a oração. Em tais circunstâncias, não falava mais de práticas ou de tempos de oração, pois sabia que o horário da vida cotidiana lhes regulava o tempo e lhes fixava os momentos. Com os missionários que partiam, não se limitava a falar da iniciação da oração, mas insistia sobre a necessidade do aprofundamento da mesma, falava de uma oração transformadora da vida, da oração contemplativa. No dia 13 de abril de 1902, ao saudar os primeiros que partiam, chamou-os de “holocausto”, e rezou com as palavras do cânon da missa, a fim de que se tornassem um sacrifício oferecido a Deus, abençoado por Deus. Para ele, a missão era culto, e a vida do apóstolo estava enraizada na Eucaristia e encontrava seu pleno significado somente como projeção da ação litúrgica. Para Allamano, a Missão-Eucaristia tornava-se mistério de fé, crido com todas as forças e vivenciado com humilde intensidade. A atividade do missionário era, portanto, uma missa que se prolonga no tempo e chegava a criar nele um estado de participação no mistério de Deus, no qual ele suplica, oferece, intercede e relê os acontecimentos do seu dia-a-dia à luz do Deus que o acompanha. Isto superava todos os tempos de oração, tornava-se um constante permanecer em Deus. Allamano dirá: “O Senhor estará convosco no santo tabernáculo, Jesus vivo como está no céu; estará convosco no crucifixo que trazeis. Nem todas as estações de missão têm a sorte de contar com a presença de Jesus no sacrário, mas o crucifixo o tereis sempre. Quando não se pode permanecer com Jesus sacramentado, como durante a viagem, ou por causa de outros empenhos..., basta dirigir um olhar ao crucifixo, que já se entende” (15). Aquele olhar é comunhão, reciprocidade de quem sabe ser conhecido, intimidade que faz olhar na mesma direção e do mesmo modo, para descobrir a beleza das mesmas coisas. A cabeça do missionário parte e volta a se fixar no vulto do seu Senhor, através de tudo aquilo que diz e realiza. Desta certeza de fé jorra a dimensão contemplativa do missionário, o espírito de oração que o Allamano queria como componente essencial para os seus, ao anunciarem o Reino de Deus. Destas convicções, que visavam conservar no Instituto o ensinamento de Allamano para uma profundidade vertical do ser missionário, tornaram-se instâncias privilegiadas e momentos de aprofundamento os dez Capítulos Gerais. Padre Giovanni Tebaldi, em seu livro La Missione racconta (16), dá a cada um deles um título que colhe o valor essencial de cada Capítulo Geral. Todos eles buscam o mesmo objetivo: encontrar o caminho que conduz ao “aprofundamento”, alimentar uma visibilidade que nasça de dentro, embora os temas tratados desfiem também programas organizativos. Os Capítulos têm consciência de que não será a atuação de um programa qualquer que ajudará o Instituto a tornar-se profundamente visível, nem mesmo a erradicação dos repetidos defeitos de cada indivíduo, mas a sua capacidade de exprimir autêntica profundidade na percepção dos valores, no fazer emergir novas idéias que lhe formem e renovem a identidade. O cansaço da mudança |