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| Anunciar hoje Jesus Cristo, único salvador |
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| Por Mons. Bruno Forte | |
| 03 de April de 2006 | |
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Teólogo é aquele que pensa e reflete sobre o encontro do êxodo – que é a condição humana – e do advento de Deus, tal como se realizou na cruz e na ressurreição do Salvador, conjugando à cruz do Ressuscitado a humilde e pesada cruz da dor do tempo. É assim que a teologia fala atualmente: a rosa da cruz só se deixa pegar se unida aos espinhos do agora. A reflexão que apresentamos aqui tenta unir as duas cruzes em torno de uma pergunta simples e exigente: Como o cristão é chamado hoje a viver o seguimento e o anúncio de Jesus Cristo nas inquietações da época “pós-moderna”, na qual entrou a “aldeia global”, que é o planeta? Ou então, como a fé Nele, que abre os olhos da mente e do coração à leitura teológica da história, nos pede que vivamos o encontro histórico deste Jubileu do 2000, para que não seja apenas uma renovada experiência de encontro com Cristo, que muda a vida, mas também a fonte de um novo e apaixonado anúncio do mesmo Cristo? Explicar a razão da esperança que brota da cruz, nos tempos difíceis em que vivemos, é o grande apelo que o Papa João Paulo II dirige a todos nós através da reflexão proposta na Tertio Millennio Adveniente: corresponder a este apelo significa reconhecer nos estigmas do tempo presente as feridas do Senhor Jesus, para atualizar nelas a vitória pascal, revelação do infinito amor da Trindade. 1. Hoje: à procura do sentido perdidoa) A parábola da época moderna – da qual todos somos herdeiros – coincide com o processo que vai do triunfo da “razão adulta”, caracterizada pelas maiores ambições, à experiência difusa da fragmentação e do não-sentido, que surgiu após a queda dos fortes horizontes da ideologia. Ao “século comprido” – o Oitocentos burguês e liberal – que começou com o mito da revolução francesa e terminou com a tragédia da Primeira Guerra Mundial, segue o assim chamado “século breve” (E. Hobsbawm), assinalado pelo afirmar-se dos frutos extremos do totalitarismo dos modelos ideológicos e pelo seu declínio, do qual é metáfora o fatídico 1989, ano da queda do muro de Berlim. A luz – metáfora do princípio inspirador da modernidade, plasmada pelo sonho de uma razão capaz de explicar tudo, iluminando a vida e o mundo com a potência do conceito – cede o lugar à noite. Max Horkheimer e Theodor W. Adorno afirmam, no início da sua Dialética do Iluminismo, publicada no final da Segunda Guerra Mundial: “A terra inteiramente iluminada resplandece irradiando o desastre triunfal”. (Turim 1966, 11; “The fully enlightened erath radiates disaster triumphant” ( O sonho que inspira os grandes processos de emancipação da época moderna – dos processos dos povos do assim chamado “terceiro mundo” aos das classes exploradas e das raças oprimidas, bem como aos da mulher na variedade dos contextos culturais e sociais – impele o homem “moderno” a querer uma realidade totalmente iluminada pelo conceito, no qual se expresse o poder da razão. A realidade deve inclinar-se sob o poder do pensamento: por isso, o abraço total da razão converte-se em totalitarismo. Nietzsche denunciará este gérmen violento, denominando-o “vontade de poder”: é a vontade que o homem tem de dominar a vida e a história, portanto também os outros seres humanos, para submetê-los às pretensões da sua própria idéia. Não foi por acaso, nem por um simples acidente de percurso, que todas as aventuras da ideologia moderna, tanto da direita como da esquerda, da ideologia burguesa à ideologia revolucionária, desembocaram em formas totalitárias e violentas. A parábola das ideologias é, neste sentido, semelhante nas suas diferentes formulações. Foi precisamente a experiência histórica dos totalitarismos ideológicos que produziu a crise da razão moderna. O pensamento totalmente iluminado vem a ser a causa do desastre triunfal: ao invés de gerar emancipação, produz sofrimento, alienação e morte. b) Se a razão iluminada pretende explicar tudo, a pós-modernidade oferece-se como o tempo que está para além da totalidade luminosa da ideologia, tempo pós-ideológico ou do longo adeus, tempo do abandono da violência totalizante da idéia e do declínio das suas pretensões. Se para a razão adulta tudo tinha sentido, para o fraco pensamento da condição pós-moderna já nada mais parece ter sentido. É tempo de naufrágio e de queda. A crise do sentido passa a ser a característica peculiar da inquietação pós-moderna. Neste tempo de pobreza, que, como observa Martin Heidegger, é “noite do mundo”, não por causa da falta de Deus, mas porque os homens já não sofrem com essa falta, a doença mortal é a indiferença, a perda do gosto na busca das razões últimas pelas quais valha a pena viver e morrer, a falta de “paixão pela verdade”, como afirma a Fides et Ratio. É a condição expressa pela afirmação hebraica: “O verdadeiro exílio de Israel no Egito aconteceu quando os hebreus se acostumaram a ele, quando aprenderam a superá-lo”. O exílio não começa quando se deixa a pátria, mas quando não se alimenta no coração nenhuma saudade da pátria... Desenha-se assim o extremo rosto da crise “epocal” do século que chega ao fim: o rosto da décadence (assim a define com singular antecipação Dietrich Bonhoeffer). A decadência não é o abandono dos valores, não é renunciar a viver por alguma coisa pela qual se pensa que valha a pena viver. A decadência é o processo bem mais subtil que priva o homem da paixão pela verdade, tirando-lhe o gosto de combater por uma razão mais elevada. A decadência procura persuadir as pessoas a entrarem num otimismo ingênuo, universal, barato: ela não precisa manter firme a negatividade do adversário, porque só procura submetê-lo aos próprios cálculos e ao próprio interesse, sem se preocupar com a verdade. O decadente está disposto a concordar com tudo e com todos, desde que consiga firmar a si mesmo: a décadence esvazia a força do valor, porque não lhe interessa medir-se com ele. Desta forma, a pior doença de hoje grassa no mundo é a falta de paixão pela verdade: este é o rosto trágico da condição pós-moderna. O clima da decadência leva os homens a não pensarem mais, a evitarem o esforço e a paixão pela busca do verdadeiro, e os impele a buscar vantagens imediatistas, a procurar o único interesse do consumo imediato. É o triunfo da máscara à custa da verdade: é o niilismo da renúncia do amor, quando os homens fogem à dor infinita da evidência do nada, fabricando para si máscaras para cobrir com elas a “tragicidade” do vazio. No clima da decadência, até o amor torna-se máscara e os valores reduzem-se a coberturas desfraldadas para esconder a falta de significado e de verdadeiras paixões: o homem resume-se a uma “paixão inútil” (J. P. Sartre). Este realizar-se da parábola da modernidade que, partindo da embriaguez das paixões ideológicas chega à perda de todo o valor e ao tempo da “décadence”, é o horizonte do nosso atual agir e pensar de cristãos; a “cultura forte”, expressão da ideologia, dividiu-se nos muitos riachos das “culturas fracas”, na multidão de solidões, onde especialmente se destacam: a falta de horizontes comuns, a penúria de grandes esperanças. Cada qual se curva sobre o curto horizonte do seu interesse particular. Onde morrem as esperanças verdadeiras, aí triunfa o cálculo de fraca consistência: as razões do viver e do viver juntos são substituídas pela reivindicação do imediatamente útil e conveniente, pelo protesto baseado no interesse da visão limitada, frequentemente obtusa e vã. Na verdade, o fim das ideologias aparece assim como a pálida vanguarda do advento do ídolo, que é o relativismo total de quem já não tem mais nenhuma confiança na força da verdade. A cultura pós-ideológica apresenta-se em toda a parte pobre de esperança e de grandes razões: onde falta a paixão pela verdade, tudo pode acontecer, e até mesmo a solidariedade pode casar-se com interesses vulgares... c) A análise da parábola da modernidade, que da embriaguez das visões ideológicas leva à indiferença típica do tempo da décadence, não exclui sinais de luz e de esperança. Há uma “saudade de perfeita e consumada justiça” (Max Horkheimer), que se revela nas inquietações do presente: é como uma espécie de busca do sentido perdido. Não se trata “d’une recherche du temps perdu”, de uma operação da saudade, mas do esforço de reencontrar o sentido para além do naufrágio, do esforço para reconhecer o horizonte último sobre o qual medir o caminho daquilo que é penúltimo. A metáfora do “naufrágio com espectador”, escolhida por Hans Blumenberg para designar o moderno e seus êxitos, mostra ao mesmo tempo como todos os protagonistas da atual complexidade sejam filhos do moderno – náufragos e espectadores do naufrágio ao mesmo tempo – e, exatamente por isso, conjuguem em si a deriva e a resistência a ela. É possível assinalar algumas expressões desta procura do sentido perdido: em primeiro lugar, a redescoberta do outro. O próximo, pelo simples fato de existir, é razão do viver e do viver juntos, porque é desafio a sair de si, para viver o êxodo sem retorno do empenho pelos outros, do empenho de viver o amor. Junto à “felicidade de consumo” do decadente, que visa apenas alcançar o objetivo e consumá-lo num vazio de sentido sempre maior, há uma “felicidade de produção”, de quem entende que as razões do viver consistem em fazer os outros felizes, e que por isso há um verdadeiro motivo de viver quando se tem alguém para amar. O voluntariado, com toda a complexidade e até a ambiguidade de suas formas, capazes de acolher ao mesmo tempo a gratuidade como a gratificação, o novo interesse pelo próximo mais fraco, a crescente consciência das exigências da solidariedade, inclusive a nível mundial, a sensibilidade pelo serviço missionário, podem desenhar-se aos nossos olhos como algumas expressões desta procura do sentido perdido. Em segundo lugar, é preciso assinalar uma reencontrada “saudade do Totalmente Outro” (Max Horkheimer), uma espécie de redescoberta do Último: é o despertar de uma necessidade, que genericamente se poderia definir como religiosa, necessidade de fundamento, de sentido, de horizontes últimos, de uma pátria final, que não seja a pátria sedutora, manipuladora e violenta da ideologia. Reacende-se a sede de um horizonte de sentido pessoal, capaz de fundamentar a relação ética como uma relação de amor. Finalmente, é possível descobrir uma exigência difusa de um novo consenso a respeito das evidências éticas: uma exigência que nasce da necessidade de definir com clareza as coisas como são, e de fazer o bem, não tanto pelo resultado que daí possa advir, mas pela força do bem em si mesmo. Percebe-se que há o desejo de reencontrar a paixão pela verdade, o amor àquilo pelo qual valha verdadeiramente a pena viver para além de qualquer cálculo, ou de qualquer projeto medido apenas sobre o horizonte penúltimo. Delineia-se assim também o verdadeiro conflito em jogo, o conflito entre a verdade e a máscara: não obstante o aparente triunfo de décadence, emergem os sinais de uma espera e de um possível encontro do nosso presente com o Evangelho da salvação. O sopro do Espírito manifesta-se neste tempo de penúria como inquietação, espera, como o despertar e envolvimento a favor dos outros, pelo OUTRO, que oferecem razões de vida e de esperança. Já o tinha intuído o Concílio Vaticano II, quando afirmou: “Pode-se legitimamente pensar que o futuro da humanidade seja recolocado nas mãos daqueles que serão capazes de transmitir às gerações futuras razões de vida e de esperança” (Gaudium et Spes 31). O Outro – fundamento último das razões do viver e do viver juntos – é a pergunta aberta da crise do nosso presente, a saudade da dor do tempo que nos foi dado viver... 2. Jesus Cristo: onde habita o Outro Para a fé cristã é o grito das três horas da tarde a transpassar o encerramento totalizante da ideologia, deixando irromper no penúltimo a iminência soberana do Último. Cristo crucificado é o lugar onde o Outro veio em plenitude a dizer-se (e a calar-se) para nós. O encontro com a Palavra da Cruz liberta e muda o coração e a vida: Cristo diante de Pilatos nos recorda que a verdade não é algo que se mostra como um sistema lógico, ou como um castelo de palavras bem montadas. A verdade é o Inocente, que nos alcança com a discrição de sua presença de amor; a Verdade não é algo que se possui, mas Alguém que nos possui na comunhão do seu povo fiel. Para reconhecer o rosto do Outro, o único que pode hoje vivificar a complexidade das culturas, é preciso então perguntar-se: Que traços de Cristo a Igreja deve redescobrir e testemunhar em si mesma, para falar Dele com credibilidade a este tempo de penúria da paixão pela Verdade, depois da crise da modernidade e o despontar da inquietude pós-moderna, frente ao abandono do sentido totalizante e ao emergir de uma reencontrada saudade do sentido? Por outro lado, o itinerário trinitário do Jubileu tem sido um forte convite a responder a esta pergunta... a) Em primeiro lugar, o Senhor Jesus oferece-se como a Palavra que sai do Silêncio, o êxodo de Deus de si mesmo por nosso amor, o santuário vivo e santo, no qual a doação generosa do Filho em relação ao Pai nos abre à Trindade de Deus. Na tradição teológica da época moderna este aspecto decisivo foi obscurecido: a dialética da revelação, feita de abertura e de ocultamento, de palavra e de silêncio, expressa no termo “re-velatio” (re-velar como tirar o véu e novamente velar, analogamente ao que exprime o grego apokalupsis) foi sempre mais esquecida em favor da idéia de revelação como abertura total (offenbarung em alemão, de offen abrir). Assim foi aplainado o caminho para o triunfo da ideologia, e portanto para aquela presunção de compreender tudo – inclusive o mistério de Deus! –, que gerou a visão totalitária do mundo, matriz de toda possível violência sobre o outro. O Deus de Jesus Cristo é totalmente diferente do Deus da manifestação total e indiscreta: é o Deus que resiste a ser resolvido por fórmulas ideológicas que tendem à explicação de tudo. À revelação não se responde com a arrogância ideológica, mas com a atitude que o Novo Testamento define como obediência da fé (upakoé tes písteos). Também aqui a etimologia ilumina e esclarece: ob-audire, upo-akouein, querem dizer “escutar aquilo que está debaixo, detrás, escondido”. À revelação responde-se aderindo à Palavra, como discípulos do único Verbo de Deus; mas a Palavra é porta que nos introduz nos abismos do divino Silêncio. Por isso, o encontro com Cristo na obediência da fé é convite a transcender a Palavra rumo aos abismos do Silêncio nos quais ela introduz, e por isso é o “não” radical a qualquer redução ideológica do cristianismo. Se o cristianismo é a religião da revelatio e da obediência da fé, não deve ser contrabandeado com fórmulas totalizantes, ideológicas, políticas, nem poderá ser vendido como produto barato para servir de suporte a uma das forças em jogo na história. A fé na revelação é alimento de uma permanente vigilância crítica. Obedece-se à Palavra, escutando o Silêncio: “O Pai pronunciou uma Palavra, que foi o seu Filho, e repete-a sempre num eterno Silêncio; por isso, no silêncio ela deve ser escutada pela alma” (São João da Cruz, Sentenças. Ditos de luz e amor, n. 21). Portanto, se Cristo é a “revelação” do Pai, dele se deverá falar calando, e calar falando. À Igreja pede-se então um estilo de anúncio missionário feito de presença não clamorosa e ao mesmo tempo evocadora, irradiante na sua discrição, capaz de suscitar o maior amor, sem violentar a realidade ou o coração do homem. Um estilo de testemunho, que confirme a palavra, e de palavra que ilumine a eloquência silenciosa dos gestos... b) Jesus de Nazaré nos oferece o dom da reconciliação com o Pai através de um ulterior e duplo êxodo: o êxodo de si até ao abandono da cruz, e o êxodo rumo ao Pai no poder da ressurreição. Aceitando existir para o Pai e para os homens, Jesus é livre de si de maneira incondicionada. Nele, a experiência do pôr-se como outro torna-se liberdade para amar: a existência do Filho na carne é totalmente uma existência acolhida e doada. Por isso, se há uma característica constante, que os Evangelhos sublinham no Profeta galileu, é o de apresentá-lo como o homem livre. É suficiente pensar que sua vida pública começa e termina com duas grandes agonias da liberdade: a agonia das tentações e a agonia do Getsêmani. Que são estas agonias senão o estar diante de uma alternativa radical e exercitar a escolha da liberdade? Agostinho comenta este aspecto da vida de Cristo e do cristão com uma poderosa fórmula, que descreve a grande escolha da liberdade: “O amor de si até ao esquecimento de Deus ou o amor de Deus até ao esquecimento de si” (De Civitate Dei, XIV, 28). Cristo é aquele que fez a escolha radical por Deus, livre de si, livre para existir para os outros. Esta liberdade chega até ao êxodo de si sem retorno da hora da Cruz: no auge do seu caminho de liberdade Jesus se oferece como o Abandonado da cruz. No silêncio da Sexta-feira Santa a escolha do Profeta galileu atinge o seu cume: “In humilitate et ignominia crucis revelatur Deus” (Lutero). Quando esquecêssemos o rosto do Crucificado, esqueceríamos o Evangelho do seu amor. Ele pede esta mesma liberdade aos seus discípulos para poderem entrar no dom da vida divina e para o anunciarem ao mundo: portanto, a Igreja do Crucificado se esboça antes de tudo como uma comunidade livre de interesses mundanos, decidida a não se servir dos homens, mas a servi-los pela causa de Deus e do Evangelho; uma comunidade que vive do seguimento do Abandonado, disposta a deixar-se reconhecer no dom de si mesma sem retorno, ainda que, humanamente falando, isto resultasse improdutivo ou alienante: assim livre de si, de sorte a não procurar sucessos e lucros materiais, livre para o seu Deus, disposta a pagar o mais alto preço para viver a obediência à vontade do Senhor. O “amou-os até ao fim” (Jo 13,1) significa que o amor de Cristo é o amor pelo qual ele eceita ser lançado totalmente à morte, abandonado por nós, pagando o preço até ao fim: a Igreja que anuncia ao mundo a salvação com dinamismo e paixão missionária é, antes de tudo, a Igreja do seguimento do Crucificado, do Abandonado, a “Ecclesia Crucis”. c) Finalmente, Jesus é o Cristo, o Ressuscitado, o Senhor da Vida, que vive o êxodo deste mundo ao Pai, o “reditus” à glória da qual veio. Ele é a testemunha da doação generosa de Deus em relação a este mundo, do Último em relação ao que é penúltimo, revelado como tal no julgamento da Cruz e Ressurreição do Pobre. Ele é o doador do Espírito Santo, a água viva que brota das fontes eternas para atualizar no tempo o dom de Deus e conduzir os homens à sua glória, tudo em todos. “Tu solus Sanctus, tu solus Dominus, tu solus Altissimus”, canta a fé da Igreja. Isto significa que o cristianismo não é a religião do negativo vitorioso, mas é e continua a ser, apesar de tudo e contra tudo, a religião da esperança, e que por isso os cristãos, embora vivendo num mundo que perdeu o gosto de se perguntar a respeito do sentido, devem amar intensamente o Eterno, continuando a viver e a propor a paixão da Verdade salvífica, como sentido da vida e da história. Testemunhar o horizonte mais vasto, aberto pela promessa libertadora de Deus: eis o que é anunciar o Evangelho da caridade à inquietude sem sentido do niilismo pós-moderno. Caridade não é somente a partilha da liberdade que ama ou da cruz que paga pessoalmente por este amor, mas também o anúncio alegre e irradiante de um horizonte de esperança, que alicerça a vida, que motiva o cansaço de viver. A missão é o anúncio da esperança que não desilude! 3. No seguimento de Jesus Cristo, hoje Ler a dor do tempo como crise das falsas seguranças da ideologia e relacionar esta crise com a revelação realizada no Senhor Jesus, crucificado e ressuscitado, permite afirmar que nunca, como hoje, os cristãos – empenhados a viver e atuar neste mundo em mudança – são chamados a explicar a razão da própria esperança, com bondade e respeito para com todos (cf. 1 Pd 3,15), tornando-se lugar de irrupção e de presença do Outro, como discípulos do Único, servos por amor e testemunhas do sentido. Aqui se fundamenta a sua tarefa missionária no seguimento do Missionário do Pai, consagrado e enviado para levar a Boa Nova aos pobres (cf. Lc 4, 16ss), que lhes confiou explicitamente a missão de anunciar a Boa Nova do Reino a toda a criatura (cf. Mt 28,16-20; Mc 16,15-20), e de oferecer a todos a graça, mediante os sacramentos da vida nova. a) Perante a perda do sentido, perante o fato de não querer questionar-se a respeito do sentido, os crentes são chamados, mais que nunca, em primeiro lugar a pôr Cristo no centro da própria vida e do próprio anúncio, qualificando-se como seus discípulos, apaixonados pela sua Verdade, a única que liberta e salva. “Vem e segue-me” é o apelo que hoje, mais que em outros tempos, ressoa para os crentes, porque é necessário manifestar através da própria vida que há razões de viver e de viver juntos, e que estas razões não estão em nós mesmos, mas naquele último horizonte, que a fé nos faz reconhecer como revelado e dado em Jesus Cristo. Trata-se de redescobrir o primado de Deus na fé, e por isso o primado da dimensão contemplativa da vida, entendida como união fiel a Cristo em Deus, com o coração voltado para o último horizonte, que nos é oferecido Nele. Trata-se de viver a memória do Deus conosco, arriscando Nele toda a nossa vida. Necessitamos de cristãos adultos, convencidos da própria fé, conhecedores da vida segundo o Espírito, prontos a dar explicações da própria esperança. Neste sentido, a maior caridade que hoje é pedida aos discípulos do Crucificado-Ressuscitado é de testemunharem com a vida que são discípulos e testemunhas d’Aquele que é o sentido verdadeiro que não desilude, missionários apaixonados pela Verdade que salva. É necessário que estejamos prontos a renunciar àquilo que, à primeira vista, pode parecer mais seguro, para que brilhe Deus em Cristo no centro do nosso coração, no coração da Igreja. É-nos pedido, finalmente, que vivamos o primado da fé, escondidos com Cristo em Deus, tornando-nos assim capazes de vivificar, a partir de dentro, com o seu amor, todo comportamento e relacionamento histórico, como Francisco, do qual afirma a Vida Segunda de Tomás de Celano: “Não era tanto um homem que rezava; antes, ele próprio era uma oração vivente”. b) Em segundo lugar, os cristãos são hoje chamados, mais que nunca, a se tornarem servos por amor, vivendo o êxodo de si próprios sem retorno, seguindo o Abandonado, construindo o caminho em comunhão, solidários sobretudo com os mais fracos e com os mais pobres dentre os seus companheiros de caminhada. Se Cristo está no centro da nossa vida e da vida da Igreja inteira, se permanecemos agarrados a Ele, unidos à sua cruz, iluminados pela sua ressurreição, então não podemos considerar-nos fora da história de sofrimento e de lágrimas, na qual ele veio, e onde consolidou a sua cruz para estender aí a potência da sua vitória pascal. Os discípulos da Verdade que salva nunca estão sós: estão com Ele, a serviço do próximo, vivendo assim a companhia do Deus conosco. Não se realiza a tarefa missionária que o Mestre nos confiou, não se constrói o amanhã de Deus no presente dos homens através de aventuras solitárias, ou fugindo das responsabilidades do serviço; aos cristãos é pedido que permaneçam unidos e testemunhem o Evangelho na força da comunhão fraterna e da caridade que a vivifica e dela se irradia. Querer ser Igreja, amar a Igreja, é tornar a Igreja uma comunidade habitável, acolhedora, atrativa, onde nos sentimos acolhidos, respeitados, pessoalmente reconciliados na caridade: isto se chama viver a missão como irradiação do Evangelho, que atraia a peregrinação universal dos povos anunciada pelos profetas (cf., por exemplo: Is 2, 1-3; 56,6-8; 60,11-14; Miq 4,1-3; Zc 8,20ss; 14, 16). O mundo, saído do naufrágio dos totalitarismos ideológicos, necessita como nunca desta caridade concreta, discreta e solidária, que sabe tornar-se companhia da vida e sabe construir o caminho em comunhão, irradiando o Cristo Salvador. O renovado testemunho do Crucificado-Ressuscitado, exigido pelo caminho do Jubileu, pede aos crentes de hoje que ofereçam modelos concretos de uma “cordialidade” vivida, na qual nos possamos sentir acolhidos e amados, para nos tornarmos, na solidariedade, o rosto do Deus compassivo. É claro, este estilo de serviço solidário comportará também a necessidade de tomar posição, de denunciar: amar concretamente os homens significa também transformar sua maneira de agir. Trata-se de dar precedência não a um interesse mundano, não a um cálculo político, mas ao exclusivo interesse profético pela causa da verdade de Cristo e da sua justiça; trata-se de arriscar a vida em nome disto, comprometendo-a com o testemunho, carregando a cruz se necessário, procurando sempre com todos o caminho da comunhão. A dor do tempo, a ausência de esperança – que é a verdadeira lepra da alma – pede à Igreja do Jubileu do 2000 a audácia dos gestos significativos e inequívocos de caridade no seguimento do Abandonado da Cruz... d) Finalmente, discípulos de Deus somente na “imitatio Christi crucifixi”, perante a trágica falta de paixão pela Verdade, somos solicitados a ser testemunhas do sentido maior da vida e da história, pondo nossa fé Naquele que realizou o seu êxodo rumo ao Pai e nos abriu as portas do Reino, qual vivente profecia do Deus conosco. Isto exige que amemos a Verdade e estejamos prontos a pagar o preço por ela na labuta cotidiana que nos relaciona àquilo que é penúltimo: só assim poderemos ser suas testemunhas para os outros. É preciso reencontrar a força da paixão pela verdade, na qual se fundamenta de maneira mais autêntica a dimensão missionária da vida eclesial. Não se trata apenas de fazer uma escolha pelo sentido da nossa vida e da história, revelado em Jesus Cristo, mas de oferecer também um corajoso testemunho de esperança, como serviço aos outros, com o olhar voltado para o Deus que vem. Esta é a atitude que deve ser assumida por aquele que acredita que a verdade foi dita em Jesus Cristo e deve ser anunciada como caminho e promessa para o Reino. Amar a verdade significa voltar o olhar para o cumprimento desta promessa. O arrojo missionário associado à “nova evangelização” exige o testemunho da doação pura e forte de Deus, proclamada em Jesus Cristo, a única que pode encher o nosso coração de esperança e de paz. Estar dispostos a pagar o preço por esta verdade em cada comportamento é a dimensão de caridade missionária que é pedida, hoje, aos que crêem em Cristo, especialmente no caminho de renovação que nos foi proposto pelo Jubileu do 2000. Trata-se de fazer amadurecer consciências adultas, desejosas de agradar a Deus em tudo, e dispostas a pagar o preço da fidelidade a Ele em cada escolha. |
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| Última Atualização ( 03 de April de 2006 ) |
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