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Padre Carlos da Silva Pires (1928 - 2005) PDF Imprimir E-mail
Por Pe Norberto Louro   
14 de March de 2006

Era filho de Eugénio da Silva Pires e Maria Luísa Dias e nasceu em Fundada, Vila de Rei, Portugal, a 28 de Dezembro de 1928. Entrou para o Instituto em 1951 depois de ter trabalhado como dourador de igrejas e altares. Professou em 1957 e foi ordenado sacerdote em 1963. Depois de um ano de serviço pastoral na paróquia de Campolide, que estava confiada ao Instituto em Lisboa, foi nomeado Director Espiritual do Seminário de Fátima – cargo esse que desempenhou até 1969. Como era dotado de grande afabilidade e disponibilidade, que empregou no atendimento dos seminaristas, continuou a ser procurado por eles para receber orientação humana e espiritual, bem como para gozar da sua presença sempre alegre, amiga e carinhosa.

Foi pároco de Campolide desde 1969 até 1972, onde era apreciado pela disponibilidade que sempre tinha para as pessoas que a ele recorriam quando tinham dificuldades. Neste período, a casa paroquial também acolhia um pequeno grupo de seminaristas professos que frequentavam o Curso de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa. Nos anos seguintes, o P. Carlos cumpriu o seu serviço missionário na qualidade de superior da casa regional de Lisboa (1990-1993) e da comunidade do Seminário de Fátima (1993-1996). Era grande devoto de Nossa Senhora e um verdadeiro enamorado da liturgia, tendo assim oferecido os seus últimos dez anos de vida ao serviço do Hotel Pax e na direcção da animação litúrgica do Santuário de Fátima.

A 8 de Dezembro de 2004, escrevera no seu diário espiritual: «Tenho reflectido sobre o meu estado de saúde e sobre a minha situação espiritual. Encontro-me bem disposto, mas ainda tenho que trabalhar muito para a minha “festa de passagem”». Poucos dias antes de falecer, voltou a escrever: «Gostaria que a missa do meu funeral fosse cantada com cânticos de Páscoa. Aquele será o momento mais solene da minha vida. É a festa da “passagem” e do encontro definitivo com o Senhor. Deve ser um momento de alegria e não de lágrimas. Agora encontro-me sereno e espero com muita fé esse momento de “passagem”».

O funeral foi uma enorme manifestação de pesar, amizade e fé. O velório durou 24 horas, num suceder-se de visitas e orações: os parentes, os amigos, os vários sacerdotes, religiosos e religiosas, pessoal ao serviço do Santuário de Fátima, gente do serviço de hotelaria, todos o vieram ver. O Bispo de Leiria-Fátima, Dom Serafim Ferreira e Silva, como não poderia estar presente no dia do funeral, presidiu a uma concelebração de corpo presente, fazendo uma comovente homilia perante grande multidão.

O funeral foi no Domingo, dia 10 de Julho, pelas 15 horas. A missa, que foi concelebrada por cerca de setenta sacerdotes, entre os quais se contava o Reitor do Santuário de Fátima, foi presidida por Dom João Alves, Bispo Emérito de Coimbra, grande amigo do Padre Carlos e dos Missionários da Consolata desde os tempos em que era pároco em Setúbal e hóspede habitual do Hotel Pax. A nossa igreja foi afinal pequena de mais para acolher tanta gente e tantas flores. As exéquias foram conduzidas pelo P. Norberto R. Louro, superior regional. Agora, o P. Carlos repousa no cemitério de Fátima ao lado dos seus colegas Missionários da Consolata portugueses.

P. Norberto R. Louro



TESTEMUNHOS

De simplicidade cativante

Aquilo que mais apreciava no P. Carlos era a sua simplicidade, a sua capacidade de a todos acolher, a sua bondade, a sua pureza. Era uma alma pura. A sua sabedoria não vinha dos livros mas sim directamente de Deus. As pessoas sentiam que ele sabia tocar os corações e dar respostas certas na altura certa. Para mim, foi mais que um amigo: era o meu confidente – na direcção espiritual, na confissão… era um verdadeiro confessor. As pessoas abriam-lhe o seu coração, revelando-lhe até os segredos mais íntimos, com toda a confiança. Quando eu andava triste ou tinha qualquer problema, era a ele que eu ia e logo se fazia luz.

A sua simplicidade era cativante: vinha-lhe espontânea. Não precisava de se apoiar na responsabilidade que detinha. Sempre foi um ponto de referência na minha vida, tal como uma luz que brilhasse diante de mim. Agora que ela se apagou na terra, espero que continue a brilhar do céu.

Foi-se embora com toda a serenidade. Pouco antes de falecer, ainda me disse: «Se soubesse que paz interior eu sinto e a alegria que me dá a sua visita em que me é dado desabafar consigo!». Abraçámo-nos e chorámos juntos. Eu agradecia-lhe pelo bem que me fez durante estes 23 anos de amizade e de auxílio espiritual; e ele agradecia-me por aqueles minutos de conversa e intimidade, naquele momento supremo, apenas 24 horas antes de morrer. Saí de pé dele comovido e, com alguns amigos, fui celebrar missa na capela do Hotel Pax. Eram 22 horas. Depois fizemos a via-sacra e rezámos até de manhã.

P. Luís Oliveira Ribeiro Pereira
Missionários Monfortinos –Fátima



Em memória do P. Carlos Pires

O P. Carlos deixou-nos porque o Senhor o chamou. Mas ele deixou cá em baixo muita gente na maior tristeza, gente que o conhecia e com ele trabalhava nos serviços que sempre prestou à Senhora de Fátima, de quem tinha estado sempre tão próximo, pois que a amava de verdade. E deixou gente que trabalhou directamente com ele no Hotel Pax, que sempre o viram como um amigo e não como um patrão.

Foi sempre grato para com quem trabalhava com ele, dentro e fora da instituição. Muitas vezes lhe ouvi dizer: «O nosso Fundador recomendava-nos: “não vos canseis de agradecer àqueles que nos ajudam”». E foi isso que sempre fez: seguir o caminho apontado pelo Fundador. É por esta razão que tinha um coração tão cheio de bondade para com todos. Eu próprio, enquanto trabalhava às suas ordens no Hotel Pax, fui com ele visitar os seus parentes: os seus irmãos, os seus primos e outros. Fomos a Abrantes, a casa de amigos que tinha em Lisboa e a casa da sua madrinha que o ajudara na sua caminhada para o sacerdócio.

Depois de ter trabalhado com ele durante alguns anos no Hotel Pax como chefe de mesa, fui convidado a trabalhar no hotel dos Missionários do Verbo Divino, que eram nossos amigos. Eu gostava de trabalhar no Hotel Pax e foi para mim muito difícil sair. Só o fiz porque me dava maiores vantagens para o futuro. Pois bem, o P. Carlos sempre se manteve à minha beira, mesmo depois de eu ter saído. Mais tarde ofereceu um almoço a mim e aos meus novos patrões no Hotel Pax. Ainda hoje recordo as palavras que então pronunciou: «Os padres estão agarrados ao Sr. Jaime porque é a pessoa certa para a sua casa. Ele saiu daqui não por motivos de salário mas porque subia de categoria profissional e isso nós o compreendemos». Por esta razão o meu amigo P. Carlos foi para mim quase como um pai.

Jaime Mateus
Gerente do Hotel Verbo Divino



No seio de Deus

Vim a conhecer o P. Carlos em Abrantes desde seminarista. Fiquei em constante contacto com ele, sobretudo como meu colaborador no Santuário da Senhora de Fátima em Paris, onde fui reitor vários anos. O P. Carlos era uma pessoa de muitos talentos que sempre soube valorizar. Quanto a mim, foi verdadeiro homem, verdadeiro sacerdote e verdadeiro santo.

Verdadeiro homem: na casa de seus pais, na Ribeira da Fundada (Vila de Rei), aprendeu desde pequeno a cultivar o seu carácter e a ser homem no verdadeiro sentido da palavra. E foi isso que revelou ser: na escola, no trabalho, na profissão de dourador de igrejas e altares, no serviço militar e mais tarde como sacerdote e missionário. Os seus pais, Eugénio da Silva Pires e Maria Luísa Dias, foram os primeiros formadores do seu carácter e fizeram dele uma pessoa de bem e um homem de Deus. Os irmãos, principalmente o José Maria, que era o mais velho, embora o considerassem como o benjamim do grupo de oito, ensinavam-no a ser homem.

Verdadeiro sacerdote: No contacto com a Sagrada Eucaristia e ajudado pela sua cunhada Beatriz Serras e Silva, bem como pela Senhora Maria Cristina Moura Neves, veio a sentir o chamamento ao sacerdócio. Decidiu ser padre, mas padre a sério. O seminário, o noviciado, os superiores, os colegas e o Fundador, todos o animaram a ser verdadeiro sacerdote. Desde a sua ordenação sacerdotal na Casa Mãe, em Turim, sempre teve como meta espiritual e vocacional ser um bom sacerdote. E foi. Todos os que o vieram a encontrar ou o tiveram por colega, professor, confessor ou director espiritual dão testemunho disso.

Verdadeiro Missionário: Na sua caminhada de membro do Instituto da Consolata, o P. Carlos foi verdadeiro missionário. Embora não tivesse estado no assim chamado “campo de missão”, ele foi missionário nas suas comunidades. Foi missionário em Fátima, no Seminário, no Hotel Pax, no Santuário, na paróquia de Campolide, no Santuário da Senhora de Fátima em Paris e em todo o lugar e circunstância.

Verdadeiro santo: É santo todo aquele que vive de Deus no mais íntimo do seu coração e vive em Deus. O P. Carlos, com a força de Deus que dele irradiava, deixou um rasto de santidade por todos os lugares onde passou. Agora que a sua missão na terra chegou a termo, começa outra no céu. O meu testemunho nesta hora de tristeza pretende também exprimir a certeza de que a sua intercessão no céu, junta à da Consolata e à do Beato José Allamano, bem como à dos outros missionários da Congregação – entre os quais o Padre José Pequito – será fonte certa de vocações.

Feliz do Instituto que produz padres e irmãos da têmpera do P. Carlos da Silva Pires!
Mons. José Genro Carvalheira



Caros Missionários da Consolata:

Não consigo resistir a dizer algumas pobres palavras que apenas poderão transmitir uma pálida ideia de tudo o que recebi por intermédio do P. Carlos. O senhor chamou-o para a sua casa, mas ele, ao ir-se, deixou-nos aqui a imagem de homem inteligente e de padre consciencioso. A sua inteligência brilhava na humildade do seu espírito de serviço e na discrição com que desempenhava, com inigualável competência, as responsabilidades que tinha recebido.
Fez da liturgia no Santuário da Senhora de Fátima a pupila dos seus olhos. Olhos de filho que faz do seu melhor para exaltar a sua Mãe. Não se perdia em banalidades ou em conversas inúteis. Tinha os ouvidos atentos e agilidade no cumprimento do seu dever. O seu espírito de serviço vivia num invólucro silencioso, num sorriso apenas esboçado, como quem habita no interior da sua própria pele.

Tinha agudo espírito apostólico e tão fino que quase não dávamos por ele. Entrava nas almas e lá ficava. Todas as ocasiões eram boas para a sua subtil perspicácia, ao modo missionário, e aí deixar o seu sinal de servo. Era mais rico em gestos que em palavras. Estava muito atento e não se perdia atrás de pormenores efémeros. Tinha um delicado senso do essencial.

O meu contacto com o P. Carlos foi mínimo, mas as lições que dele recebi foram grandes e maravilhosas. É meu dever de consciência recordá-las. Venho declarar com simplicidade e clareza a minha maior estima por este homem que serviu Deus, mas que ficava na sombra para deixar que a luz divina brilhasse. Tenho muitos livros bons, mas aquele livrinho que o P. Carlos me deu, da única vez que estive no seu gabinete, nunca mais saiu da minha mesinha de cabeceira. Ofereceu-mo com simplicidade dizendo: «Leve este livrinho e leia-o se puder. Contém um pensamento para cada dia do ano: são palavras do nosso Fundador. São muito simples, tal como o são as coisas dos santos».

Tem por título Pontos de Luz. E agora, sem ponto de luz, mas na luz total e plena, que venha a nós a consolação da Mãe que ele amou e obtenha do seu coração a paz e o bem de que o mundo precisa. Que interceda pelas vocações de consagração total ao seu Instituto Missionário e à santa Igreja de Jesus Cristo. Da minha parte dou graças a Deus pelo dom da sua vida e da sua morte que o identificou com a sua Páscoa.

Maria da Conceição Primitivo

Última Atualização ( 14 de March de 2006 )

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