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Padre Tarcisio Rossi (1922-2005) PDF Imprimir E-mail
Por Redacção do “Da Casa Madre”   
14 de March de 2006

Filho de Luigi e Letizia Montalti, nasceu a 16 de Agosto de 1922 em Roversano (Forlì) e entrou para o Instituto em 1934. Professou em 1943 e foi ordenado sacerdote em 1947.

Partiu para a África do Sul em 1949, onde conseguiu o grau de Bachelor of Arts na Universidade de Cape Town. Foi destinado ao Quénia em 1952 e aí trabalhou 11 anos, dedicando-se principalmente aos assuntos escolares. Foi director da escola de professores de Kamwenja e superintendente das escolas católicas de Nyeri.

Ao escrever ao P. Domenico Fiorina, superior geral, exprime-lhe a satisfação que tem com o seu trabalho, trabalho que confiara aos cuidados de Nossa Senhora: «Sinto-me bem aqui e o meu único ideal é fazer destes professores almas de apóstolos na oração e no espírito de dedicação. Por esta razão nós introduzimos a Legio Mariae e, pelo que de mim depender, procurarei fazer com que seja Nossa Senhora a mandar nisto. Já pensei em fazer a consagração da escola ao Imaculado Coração de Maria porque acredito que quando Ela for aqui rainha, tudo correrá pelo melhor» (8.12.1952).

Em 1960 fundou a escola secundária de Kerugoya de que foi director até 1967. Em 1968 criou o complexo de Sagana, onde fundou a escola Técnica para Rapazes. Em 1970 saiu do Quénia para a Inglaterra, onde exerceu a função de superior delegado até 1978.

Depois foi destinado à Etiópia. Também ali veio a exercer as funções de director das escolas superiores de Nazaret, Diredawa e Wonji, no Vicariato de Meki. Em Wonji também foi pároco; e em 1992, na altura de ser transferido, a comunidade cristã agradeceu-lhe com uma placa que reza nestes termos: «Da fraquinha chama que, antes da tua chegada, tremulava nesta paróquia com uma comunidade de apenas 150 cristãos, a sua luz passou hoje a deslumbrante, com mais de 6000 fiéis, graças a ti, padre. São mais de 1500 os paroquianos arrancados por ti à morte para lhes dares dupla vida: a corporal e a espiritual. O teu comportamento, feito de amor e caridade, é um exemplo que nos deixas como ponto de referência para nos agarrarmos com fé à linha do Evangelho que difundiste. Invocamos para ti e para a Congregação da Consolata graças e bênçãos celestes. Com imensa gratidão, os crentes de Wonji» (22.9.1992).

Entre 1992 e 1997 o Padre Tarcisio foi pároco de Gambo e, depois, até 2001 foi vigário geral e administrador do Vicariato de Meki. A seguir, voltou a fazer serviço pastoral em Gambo. Consumido pelos anos de trabalho, voltou para a Itália no mês de Maio de 2005, vindo a ser internado pouco depois no Cottolengo para tratamento, onde, a 5 de Setembro, amorosamente assistido pelo seu irmão, o P. Giancarlo, voltou para a casa do Pai.

A celebração fúnebre foi na Quarta-feira, dia 7 de Setembro, em Alpignano. Presidiu o P. Edoardo Rasera. A seguir, o seu corpo, acompanhado pelo P. Francesco Cialini, partiu para S. Carlo di Cesena onde foi sepultado na Sexta-feira. Tinha 83 anos de idade, sendo 61 de profissão religiosa e 58 de sacerdócio.

Redacção do “Da Casa Madre”



No mês de Maio de 1997, por ocasião do 50º aniversário de sacerdócio, o P. Tarcísio Rossi escreveu uma carta circular aos seus colegas de turma em que traçava, em linhas gerais, a sua vida missionária.

«No já distante ano de 1947, depois da minha ordenação, voltei a Cereseto, nas dificuldades do pós-guerra. Esperava-me o estudo, a experiência de paróquia em Forneglio di Crea, e o ensino. Em Turim, esperavam-me os exames e a universidade. Depois veio a Cidade do Cabo: foram três anos de estudo e de ensino no mundo africano. Era um ambiente de choques raciais e confrontos entre várias culturas.

Em 1952, veio a chamada para o Quénia: foram 18 anos de ensino e de escolas dentro da moldura do mundo colonial inglês, a crise dos Mau-Mau, ensopada em sangue e angústia, a meta da independência. Vieram os momentos de férias e a ordenação dos meus dois irmãos, - o Alfonso que partiu para a Argentina, e o Giancarlo, que foi destinado ao Quénia. Gostei do Quénia, da sua caminhada cristã, do seu crescimento na fé. Amei o povo e os jovens a que tinha sido destinado.

De 1970 a 1977 estive na Inglaterra e… na Irlanda. Foram dias alegres e de autoridade (?), de afã… de profunda amargura…(?). Meu Deus, vós quisestes que fosse vosso!

Depois, mais uma ordem de obediência, inesperada: a Etiópia – Diredawa, Nazaret, Wonji, Gambo. Descobri o dom de Deus: a paróquia, os pobres, os famintos, os trabalhadores, na planície sem fim, da cana-de-açúcar. Foram 13 os anos que passei em Wonji com um governo comunista sem religião e sem Deus. Mas nós em Wonji amávamo-nos: novas igrejas, escolas, meninos que era preciso alimentar, os campos dos trabalhadores, todo o dia e todos os dias com eles… e assim crescia a comunidade cristã.

Peripécias? Espingardas apontadas, espionagem, raiva, saques…, mas também multidões a caminho de Deus, igrejas resplandecentes de cores, baptizados… Meu Deus, um presente dos teus!

Entretanto, o Alfonso partiu. Morreu de leucemia. Era o dia 13 de Outubro de 1983. A última etapa, seria a de Gambo? Do hospital para a leprosaria e para a paróquia. Contemplo-os agora na igreja apinhada para a missa de Domingo: os jovens às centenas. Antes eram muçulmanos. Por todo o lado, só Ele!

Obrigado Senhor, perdoai-me o que bem conheceis. Dai-me a alegria de sempre servir. Obrigado pelos colegas que me destes: Stallone e Parisi, que morreram e eram meus amigos. Fico-vos grato por nos terdes orientado até aqui. Que nenhum de nós falte ao encontro final! Ficai connosco Senhor, porque já anoitece».



TESTEMUNHOS

Homilia do P. Edoardo Rasera durante o funeral

O Padre Tarcisio nunca falava muito daquilo que fazia ou tinha feito na sua vida de missão. Gostava de recordar que, no período que passou na Inglaterra como superior, fizera uma autêntica conversão que o impelia a dedicar a sua vida missionária a Deus e ao anúncio da palavra. Quando lhe foi proposto voltar para a missão, tinha 56 anos. Era lógico que esperasse que o mandassem de novo para o Quénia, onde trabalhara com êxito na organização das escolas, na escola de Kerugoya e na fundação da missão de Sagana. Ao contrário, propuseram-lhe a ida para a Etiópia. Tratava-se duma missão com muitas dificuldades políticas naqueles tempos, mas sobretudo tinha uma língua difícil para aprender; e ele já não era criança nenhuma.

Aceitou a decisão dos superiores e, sem queixa alguma, começou o seu trabalho na Etiópia. Aprendeu a língua, auxiliado pela sua inteligência viva e pela clareza dos objectivos da sua vocação missionária. A pastoral e o empenho do anúncio da Palavra sempre foram a sua prioridade absoluta. Foi um grande organizador. E fez muitas construções: de escolas, de asilos, de igrejas… E tudo levado a bom termo – Deus era o centro de qualquer iniciativa sua: o resto eram apenas meios para este fim.

O Padre Tarcisio falava muito do seu empenho missionário enquanto ministro da palavra, nunca do seu compromisso social com os pobres. Se na parábola dos talentos, aquele que recebera cinco os soubera duplicar, o Padre Tarcisio certamente centuplicou os que recebeu de Deus.

Na missão de Wonji, criou uma linda comunidade cristã e vários catecumenatos: tinha organizado e estabilizado as obras sociais; aquela era uma missão onde se sentia bem. No zénite da sua actividade, aos 69 anos de idade, foi-lhe pedido para deixar tudo para assumir a responsabilidade pela missão de Gambo. No seu diálogo com o superior, apresentou-lhe as dificuldades decorrentes da idade na direcção duma missão tão complicada e cheia de problemas. A resposta tendia para o não. Mas só juntou uma cláusula: «se o senhor padre me der uma carta com essa destinação, eu vou». O superior logo ali lhe escreveu essa carta. Leu-a e, sem comentários, pediu vinte dias para arrumar as coisas da missão de Wonji; depois iria para Gambo. E assim fez.

Nunca fez queixinhas ou manifestou arrependimento por essa decisão. Trabalhou com dedicação na nova missão e nunca mais voltou a Wonji, tanto para não ser um obstáculo para o novo superior como em sinal de desapego. Gambo era uma palavra que significava um programa: organizar o hospital, as escolas, a leprosaria; e como se todas estas actividades não chegassem, começou a construir novas capelas e, sobretudo, deu impulso à construção da nova missão de Arsi Neghelli, a pequena cidade que se encontra a 18 km da missão de Gambo. E trabalhou nisto tudo até aos últimos meses de vida.

De que morreu o padre Tarcisio? De desgaste! Deu tudo tal como a viúva no templo e, certamente por esta razão, Deus o chamou dizendo-lhe: «Muito bem, servo bom e fiel! Foste fiel no pouco, far-te-ei senhor de muito».
O que se faz e se constrói é de facto pouco se levarmos em conta as necessidades objectivas da pobreza; e é pouco se olharmos para o curto espaço de vida que nos é concedida; mas se formos fiéis neste pouco, o Senhor nos fará participar do “muito” que é a comunhão com ele. A nossa vida fica fundida na dele – e esse é o salário que nos é pago.

O Padre Tarcisio, mais que obras de Deus, escolheu Deus; por isso foi abençoado no trabalho que fez pelos pobres. Viveu pobre e, por isso, soube partilhar tudo com os pobres.



Empenhado em formar líderes católicos

Encontrei-me com o Padre Tarcisio em 1967 e esse foi um encontro profundo, formativo. Era então “headmaster” da escola secundária de Kerugoya, apadrinhada pelo Instituto da Consolata. Eu tinha sido encarregado pelo Bispo de Nyeri, Dom Cesare Gatimu, para fazer um recenseamento, com mapas, das escolas que a diocese tinha construído e que se pensava confiar ao governo. Assim, na minha correria pelos diversos distritos administrativos espalhados pela diocese de Nyeri, também cheguei à “Kerugoya Boys’ Secondary School”.

O Padre Tarcisio acolheu-me com toda a cordialidade, um tanto brincalhona, mas sempre discreta. Visitámos juntos a escola, detendo-nos demoradamente no bloco das aulas que, embora construídas recentemente, já não correspondiam às normas governamentais; detivemo-nos também no bloco dos dormitórios, que precisavam de ser melhorados; e no refeitório e na cozinha, acabados de construir segundo as ditas normas.

Por fim entrámos na igreja que ele tinha construído no centro da escola. Linda, espaçosa, com ampla capela-mor e duas sacristias. Sentámo-nos num banco e foi então que ele me contou o seguinte: «A igreja, numa escola-colégio católica como esta, tem o objectivo de fazer amadurecer a vida cristã que os alunos receberam no baptismo, mediante a oração espontânea e a livre participação na celebração eucarística. O estudo da religião, que se realiza conforme os programas governamentais, não chega para fazer verdadeiros cristãos. Os estudantes desta escola são, na grande maioria, católicos e é justo que se lhes dê a possibilidade de crescer na vida espiritual. Ora esta possibilidade é-lhes dada pela igreja, que foi erguida na escola só para eles. Para tal, será preciso um padre que sirva de capelão e tenha a peito a prática da religião para formar os futuros líderes católicos».

Tal era o seu espírito missionário, que sempre conservou em Kerugoya, tal como quando passou para Sagana para fundar a escola técnica, que ainda hoje continua a funcionar, bem como quando, depois de longa estadia na Inglaterra, partiu para as missões da Etiópia. Gosto de o recordar com este perfil. No meu trabalho nas escolas do Quénia, tentei pôr em prática a sua sugestão…

P. Antonio Giordano



Fundador da escola de Kerugoya

Celebrámos no dia 18 de Setembro de 2004 os 45 anos da fundação da escola secundária masculina de Kerugoya. Nessa ocasião, fez-se uma grande assembleia de pessoas que vieram de toda a região. Foi uma linda festa, cheia de alegria.

A escola começou em 1960, por obra do Padre Tarcisio Rossi, que dela foi director até 1967. Começou com um pequeno grupo de alunos para em pouco tempo se tornar a melhor da região.

Foi fundada em sólidos alicerces, propondo-se preparar, através do estudo, os homens de amanhã, capazes de assumir as suas próprias responsabilidades perante a vida. O lema que a orienta reza: «Seguir o caminho: 3 D que levam a 3 S»: Disciplina, Diligência, Dignidade – que levam ao Sucesso, à Santificação e à Moral (Strength).
Para a festa foi convidado Dom Peter Kihara, Bispo de Muranga, que, na altura da homilia, pediu ao Padre Rossi que a fizesse. Com toda a simplicidade e clareza, fez algumas reflexões, insistindo na responsabilidade pessoal e, por isso, no empenho pelo estudo com a séria intenção de construir não só o futuro pessoal, mas o da sociedade também – um futuro baseado em valores cristãos: «Sem valores cristãos não haverá futuro nenhum, nem para nós nem para a sociedade».

Comentando o trecho de São Paulo aos Coríntios 3, 16-21, acrescentou: «Sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus vive em vós… Esta presença de Deus em vós deveria ser a base do vosso sucesso na vida e deveria dar-vos a força de perseverar no bem. Não vos deixeis enganar! Se algum de vós se considera sábio, no sentido vulgar da palavra, deve antes aprender a ser parvo: não adianta orgulhar-se das coisas humanas. Só Deus dá significado à nossa vida. Vós sois o templo de Deus; portanto, permiti-lhe que vos forme psicologicamente, mentalmente e espiritualmente».

Concluindo com as palavras do Evangelho de João 15, 9-15, disse: «Isto só pode acontecer se permanecerdes no seu amor. Amor de Deus e do próximo. Porque ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos irmãos».

Depois da celebração, alguns antigos alunos do Padre Rossi deram o seu testemunho e falaram do seu sucesso na área governativa, nas empresas e nos negócios. Recordaram, com alegria, aquilo que ele fazia por amor deles: não só o ensino ou o lema da escola – mas a maneira como ele próprio o punha em prática.

Dom Peter Kihara e o pároco de Kerugoya, Padre Chege, agradeceram ao Padre Rossi pelo trabalho que desenvolvera na formação dos jovens para os preparar para o futuro. O director também manifestou toda a sua gratidão ao Padre Rossi, que viera expressamente da Etiópia para participar da celebração.

Terminados os discursos, o Bispo ofereceu presentes simbólicos ao festejado: uma linda escultura de madeira que exprime a vida de cada dia segundo a tradição dos kikuyos. Depois nomeou-o “Ancião Kikuyo” (Mzee), fazendo-o vestir os símbolos característicos da cultura kikuyo – sem esquecer, claro, a tradicional oferta de uma cabra.

Também foi inaugurada uma lápide deste 45.º aniversário da escola. Nela, com o nome e o lema da instituição, aparece também a efígie do Padre Rossi. Assim ele fica para sempre na escola de Kerugoya como exemplo das coisas maravilhosas que o Senhor sempre realiza por meio das pessoas que o amam.

Ir. José Miguel Reyes

Última Atualização ( 14 de March de 2006 )

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