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“O ESPÍRITO DA ORAÇÃO CONTÍNUA” PDF Imprimir E-mail
Por P. Piero Trabucco, IMC   
12 de March de 2006

15 de Agosto de 2001

Festa da Assunção de Nossa Senhora

 Caríssimos Missionários,

 

 Neste ano do Centenário, todas as iniciativas de celebração, assim como os momentos de reflexão, que estão a decorrer dentro do Instituto, visam chegar aos alicerces da nossa vida e da nossa vocação. Na verdade, foi esta a intenção prioritária da programação do Centenário. Em segundo lugar, tencionava-se também animar o povo de Deus através da partilha da vida e do dinamismo apostólico a que o carisma do Beato Allamano deu origem, nos seus Missionários e na Igreja.

 Gostaria agora de me deter sobre o primeiro objectivo e fazer algumas considerações sobre um dos elementos-base da nossa vida - a oração, principalmente sobre o espírito de oração entendido à maneira do Beato Fundador, quando insistia sobre a sua necessidade e sobre a importância da oração contínua. De facto, ao desfolharmos a Vida Espiritual (VE), notamos, com alguma surpresa, que José Allamano não propõe aos seus Missionários uma simples oração ordinária, pouco exigente ou, pelo menos, mais afastada daquela oração profunda e mais elaborada que as pessoas dedicadas a Deus e os contemplativos gostam de fazer. Ele não aponta para uma oração “qualquer”, mas para um “espírito de oração”. Visto que sabia estar a dedicar os seus discípulos a um tipo de apostolado muito exigente, ele quis equipá-los, antes de mais, com uma vida interior. E para lhes assegurar êxito nos seus empreendimentos, preparou-os cuidadosamente e pediu-lhes que aprendessem bem a fazer “oração contínua” e o exercício da presença de Deus. A este respeito, venho lembrar algumas das suas expressões mais conhecidas e mais significativas:

- «O recolhimento é absolutamente necessário para poder tirar proveito daquilo que se faz; senão, só nos ficam os “oásis” das práticas espirituais, para além dos quais tudo o resto é aridez» (VE 422).

-  «Jesus, no Evangelho, diz-nos que devemos rezar sempre; o que significa estarmos como que revestidos do espírito de oração, tal como o hábito reveste o corpo» (VE 423).

- «Felizes de vós se procurardes avançar cada vez mais na vida interior mediante o espírito de recolhimento e de oração! Um Religioso, um Sacerdote, que não tenha este espírito, nunca será bom Religioso ou bom Sacerdote. Pode ter a ilusão de o ser, mas não o é!» (VE 424).

A ousadia, que Allamano revelou aos seus Missionários há cem anos, é a mesma de João Paulo II que, na sua Carta Apostólica Novo millenio ineunte (NMI), convida todos os cristãos não só a praticar a oração, como também a aprender a arte da oração. A esta Igreja, que dá os primeiros passos no seu terceiro milénio de vida, o Santo Padre pede que as comunidades se transformem em “autênticas escolas de oração, onde o encontro com Cristo tenha expressão, não apenas na imploração do auxílio divino, mas também na acção de graças, louvor, adoração, contemplação, escuta, e ardor, até ao ponto da verdadeira paixão. Trata-se, portanto, duma oração intensa que, sem nos subtrair ao envolvimento na história, nos leva a abrir o coração ao amor de Deus e ao amor dos nossos irmãos, e nos capacita para construirmos a história segundo os desígnios de Deus» (NMI 33).

 Convencidos da necessidade de voltar a apropriar-nos cada vez mais do nosso carisma e, animados pelas palavras do Papa que exortam a cristandade a voltar à oração para que possa percorrer os caminhos do compromisso cristão no final do Grande Jubileu, entramos num tema familiar mas, ao mesmo tempo, nada livre de dificuldades e desafios. Faço votos por que viva sempre em nós a convicção do Beato Fundador - a de que, para ser missionário, «é preciso ter muito espírito de oração. Não basta correr de um lado para o outro para realizar muita coisa; é necessário estar em união com Deus e, então sim, fica tudo feito» (Pietre vive per la Missione - 46).

A oração contínua

São as Constituições a propô-la como elemento constitutivo da nossa espiritualidade que nos habilita a “fazer missão”. Depois de ter afirmado que a oração é o primeiro dever do Missionário, o número 56 das Constituições explica-nos o motivo dessa afirmação, fazendo referência a uma passagem célebre da Evangelii Nuntiandi de Paulo VI, que vou citar por completo:

«Reflitamos agora na pessoa dos evangelizadores. Hoje, ouve-se dizer muitas vezes que o nosso século tem sede de autenticidade. A respeito dos jovens, em particular, diz-se que têm horror ao que é fictício ou falso, e procuram a verdade e a transparência acima de tudo. Estes sinais dos tempos deveriam encontrar-nos vigilantes. Quer tacitamente quer em altos brados, mas sempre com vigor, devemos interrogar-nos assim: acreditamos mesmo naquilo que anunciamos? Vivemos aquilo em que cremos? Pregamos, de facto, aquilo que vivemos? O testemunho de vida tornou-se mais que nunca uma condição essencial para a eficácia profunda da pregação. Por esta razão, eis que somos responsáveis, até certo ponto, pelos bons resultados do evangelho que proclamamos. (…) O mundo, que apesar dos numerosos sinais de recusa de Deus, no entanto quase paradoxalmente O procura por caminhos inesperados e d’Ele sente dolorosamente necessidade, exige evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conheçam e que lhes seja familiar, quase como se vissem o Invisível» (EN 76).

Ora, a oração é o instrumento privilegiado para o Missionário entrar em contacto com Deus e se lhe tornar tão “familiar” que possa vir a dizer como São João: «O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos apalparam acerca do Verbo da vida…, o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos» (1Jo 1, 1-3).

Feitas estas observações introdutórias, aliás profundas e exigentes, as Constituições passam a delinear o papel da oração contínua na nossa vida, as suas características, e como é que ela se constitui em fonte do nosso ministério apostólico: «Procuramos adquirir o espírito de oração contínua (cf. Lc. 18, 1), a fim de que todas as nossas acções sejam inspiradas por Deus, tenham n’Ele a sua origem, e sejam realizadas na presença d’Ele e só para Ele. A procura de Deus na oração e a ajuda aos irmãos no apostolado são actividades que se complementam e nos ajudam a crescer na santidade» (Const. 57).

Mas, no fundo, porque haverá de ser mesmo “contínua” essa oração? Não será ela demasiado exigente para o tipo de vida que o Missionário leva? Afinal, nós não somos monges nem contemplativos…O texto das Constituições convida-nos a encontrar uma resposta na parábola da viúva importuna e do juiz desonesto - referida por Lucas no seu evangelho. Os exegetas têm explicado que a parábola está embutida no assim chamado “pequeno apocalipse” e dá uma resposta à comunidade cristã primitiva: quando voltará o Senhor? De facto, sem Ele, o discípulo sente-se tal como a viúva a quem foi tirado o esposo, ficando assim não só sem sustento como também sem aquilo que dava sentido à sua vida.

A oração contínua e a súplica insistente tornam-se, então, expressão e maturação da fé, evitando que caiamos na tentação de viver com a ideia de que a nossa existência é perfeitamente possível mesmo sem Ele, e a de que nós somos perfeitamente capazes de organizar a nossa vida sem precisarmos da Sua presença. É preciso rezar sempre, diz-nos, por outro lado, o texto evangélico, porque o Reino de Deus só virá na proporção em que nós o pedirmos. O Reino de Deus, radicando na nossa história “profana”, que é composta de coisas normais e diárias, sabe transformá-la em história sagrada e em momento de salvação, porque o Ressuscitado está no meio de nós. Portanto, rezar é abrir o espaço e o tempo da nossa história a fim de que Deus venha e nela implante o Seu Reino.

A mesma passagem evangélica também nos pede que perseveremos na oração sem nunca perdermos a esperança. Muitas vezes, a oração aparece à nossa “eficiência” como tempo mal empregado, até porque não conseguimos alcançar aquilo que queremos aqui e agora, especialmente quando sentimos a nossa pobreza e a nossa impotência perante acontecimentos que nos ultrapassam! Mas é precisamente quando tocamos com a mão a nossa pobreza é que a oração alcança o seu objectivo, que é o de tudo esperar de Deus. Para isso, é preciso esvaziarmos o nosso “eu”; e isso exige perseverança e constância, visto que, sem querermos, tendemos sempre a encher-nos de nós mesmos e das nossas coisinhas, negando-Lhe entrada e morada na nossa existência.

O n.º 57 das Constituições também nos alerta para o facto de que oração e existência se integram e se sustentam mutuamente. O que quer dizer que uma não pode passar sem a outra. Se assim não fosse, elas seriam penalizadas até ao ponto de se tornarem inúteis. A oração sem a vida seria uma inútil exibição de palavras; ao passo que a vida sem oração se transformaria em vã agitação. A oração e a actividade apostólica, quando plenamente integradas, constituem, para nós e para os outros, um verdadeiro projecto de salvação. Assim, a oração capacita-nos para anunciar a centralidade de Deus a um mundo em que cada qual faz de tudo por se colocar no centro e por demonstrar que até pode “passar sem” Ele.

Quatro maneiras para chegar à oração contínua

Permiti-me agora que apresente uma lista e uma exemplificação de quatro modos ou maneiras que poderão ajudar a concretizar esta ideia da oração contínua nas nossas vidas. São os que estão mais ligados à nossa tradição e à doutrina do Fundador - e até aos mestres clássicos de espiritualidade.

a. Administrar o tempo

A vida moderna em que estamos metidos, tal como as numerosas actividades que tecem a nossa realidade diária tornam verdadeiramente crucial este aspecto. Parece que nunca temos tempo suficiente; e quando pensamos que o temos já à disposição, logo notamos que voou das nossas mãos quase sem darmos por isso. E no entanto, pensando bem, não é o tempo que voa; talvez sejamos nós a não saber administrá-lo como devemos. De facto, debatemo-nos muitas vezes entre o passado e o futuro, quer refugiando-nos no passando com alguma saudade, quer projectando-nos para o futuro, que ainda não nos pertence. E afinal, o único tempo verdadeiramente importante - e de que podemos fazer uso - é o tempo presente, aquele em que Deus escreve a Sua história de salvação. “Tu bem o sabes, Deus meu: - dizia amiúde Santa Teresinha do Menino Jesus a este respeito - para Te amar nesta terra só tenho o dia de hoje” (Gli Scritti - 1970, p. 818).

Mas como é que se consegue fazer com que o nosso presente se transforme em tempo de Deus, em tempo de salvação, em oração? Sirvam-nos três simples, mas importantes, conselhos:

- Concentrarmo-nos no nosso dia a dia, viver a hora presente, colocando-nos na presença de Deus, lembrando-nos das palavras de São Paulo: «Tudo o que fizerdes, em palavras ou em acções, seja tudo feito em nome do Senhor Jesus» (Col 3,17). O Beato João XXIII tinha adoptado este conselho como regra de ouro da sua vida: “Devo fazer tudo, recitar todas as orações e seguir aquela regra como se não tivesse mais que fazer, como se Deus me tivesse colocado neste mundo só para rezar aquela oração” (Il giornale dell’anima - 1970, p. 102).

- Procurar e cumprir a vontade de Deus a cada momento e em cada circunstância. Tal como ensinava o nosso Fundador, é esta a via régia para a santidade (cfr. VE 208-212). Não interessa quanto ou o que fizermos: o que interessa é como. E este como é simplesmente aquilo que Deus quer e pede que façamos neste momento exacto.

- Semear pelos nossos dias momentos de silêncio que nos permitam percepcionar e ouvir a presença do Outro e dos outros. Equivale a parar de vez em quando para voltar a pegar no leme do nosso dia e encaminhar todas as nossas actividades para o ponto do equilíbrio total - que é Deus. Também equivale a fazer uma conversa significativa e íntima com Deus, parar para falar um pouco com Ele, sobretudo nós que estamos tão habituados a falar d’Ele!

b. Viver a Palavra

A Palavra de Deus está sempre presente na nossa vida missionária, sobretudo no ministério dos sacerdotes. Ela tornou-se um dos principais instrumentos do nosso “trabalho”. É com ela que nós instruímos, consolamos, indicamos caminhos a percorrer, fazemos claro nos momentos de escuridão…Ela tornou-se, e justamente, o esqueleto da nossa pregação e o objecto das nossas reflexões nas ocasiões mais exigentes da catequese e na formação do povo de Deus.

Todavia, a este respeito, nós não podemos evitar certas perguntas. Por exemplo, nós, que nos servimos da Palavra, sabemos “conservá-la” dentro de nós, tal como fez Maria, e sabemos vivê-la de maneira que sirva de estrutura à nossa existência e ao nosso ministério? Já vemos que não se trata de estudo ou de meditação da Palavra. Trata-se de deixar que ela desça ao nosso íntimo e dê forma à nossa vida. Só assim estaremos à altura de receber a própria vida de Jesus em nós e de viver continuamente em comunhão com Ele, cumprindo as palavras que São João refere: «Se alguém Me ama, guardará a Minha Palavra; Meu Pai amá-lo-á e viremos a ele e faremos nele morada» (Jo 14, 23). É exactamente este o objectivo da Lectio Divina, que está a tornar-se cada vez mais familiar às comunidades cristãs, ajudando-as a passar da reflexão sobre a Palavra à Palavra vivida. Manter a “Palavra” significa dar forma à oração contínua durante o dia, sempre tão sobrecarregado de afazeres; significa também manter vivo um tipo de diálogo em que Deus é o meu “Tu”, o meu interlocutor; consiste, e melhor ainda, em transformar a Palavra lida em Palavra vivida.

Os frutos que este exercício de oração contínua produzem em quem o pratica são muitos e até inesperados: ele mantém constante e viva a perspectiva de fé a respeito de tudo; traz alegria, serenidade e iluminação; torna-nos livres, favorecendo a coragem de anunciar; provoca uma mudança de mentalidade, reevangelizando o nosso modo de pensar, de querer e de amar; gera comunhão e reforça os laços comunitários.

c. A Eucaristia na nossa vida

Gostaria de principiar com aquela figura que o Fundador usou para descrever o lugar que a Eucaristia deve ocupar na nossa vida, ou melhor ainda, o nosso lugar face à Eucaristia. Na Casa dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, a capela da comunidade fica logo no centro do edifício, e os quartos ficam todos em redor. José Allamano acrescentava: é assim que nós devemos ser em relação à Eucaristia: ela que fique no centro, e nós, todos à sua volta!

Foi mesmo o próprio Allamano a pedir-nos para não relegarmos a Eucaristia só para as ocasiões de celebração e de acção litúrgica: devemos deixar que ela se estenda pelas 24 horas do dia. E para o cumprir, indicou alguns estratagemas concretos, aliás muito interessantes do ponto de vista pedagógico. O Fundador acentuava dois, em especial:

- Uma presença adoradora, silenciosa e prolongada diante do Santíssimo. O Beato Allamano insistia em que, para o missionário, é preciso “parar” diante de Jesus na Eucaristia. Estes momentos de adoração talvez acabem por ser apenas “paragens”, mas será delas que emanará luz suficiente para alumiar os nossos dias. Ele não gastava tempo a inventar motivos para esta sua convicção: Era como se dissesse: experimentem e logo verão!

- A vida inteira do missionário deve ser uma Eucaristia. Convencido como estava de que «o nosso Instituto deve formar homens enamorados de Jesus Eucarístico» (VE 508), o Fundador gostava de ver toda a vida do Missionário na perspectiva duma celebração contínua da Eucaristia. O peso e o esforço do trabalho missionário, tal como a doação quotidiana ao ministério tornam-se, assim, o prolongamento do “sacrifício” da Eucaristia e a preparação para a próxima celebração. A Eucaristia, enquanto sacramento de amor, traz o coração do missionário continuamente a arder. A presença de Jesus no seu coração deve durar para sempre (cfr. VE 514): de facto, ele não pode dar aos outros aquilo que não tiver cultivado em si mesmo.

d. Purificar o coração em Deus

A história da espiritualidade mostra-nos como cada época soube conceber meios e estratégias para ajudar o cristão a manter viva em si a presença de Deus. Assim, surgiram: o exame de consciência com Santo Inácio de Loiola, a lembrança de Deus com São Bento, o abandono com Santa Teresinha do Menino Jesus, o “deserto” com Charles de Foucauld. Manter o coração da pessoa em contacto com a divindade foi sempre o propósito de todos os santos e directores espirituais, precisamente porque isso continua a ser a passagem obrigatória em qualquer caminhada séria para a santidade e para a realização da vocação cristã. Uma vida cristã que não cultiva o interesse por uma oração realmente significativa está condenada à esterilidade e à morte.

A civilização contemporânea despeja sobre as pessoas miríades de imagens, de vozes e de ruídos que, à maneira de um rio numa cheia, nos arrastam num turbilhão de desejos, emoções e impressões. Como vamos conseguir estar sempre presentes a nós mesmos, a Deus e aos irmãos? Uma saída simples e eficaz - aliás muitas vezes sugerida pelo Fundador - é aquela que alguns escritores chamam de “purificação do coração”. Já em 1961, o nosso Padre E. Oggé escrevera um livro intitulado “Frecce di Vittoria”. Partindo dos ensinamentos do Fundador e do testemunho de muitas pessoas santas, ele mostra a eficácia e a utilidade desta oração e também sugere os modos mais eficazes de a conseguir.

A “purificação do coração” é o exercício da presença de Deus, sempre: no âmago das nossas acções diárias, nos compromissos por vezes absorventes que constituem as constelações dos nossos dias, ou quando temos de encarar problemas que nos manietam e que frequentemente nos fazem sofrer. Esta oração leva este nome porque ajuda a purificar as intenções da nossa acção e a dirigi-la para Deus, fugindo, assim, à perda da sua eficácia. Ela ajuda a colocar na devida proporção as dificuldades, fazendo aumentar em nós a perspectiva da fé. Dá sentido realista aos nossos projectos e realizações, precisamente porque reduz o nosso desejo de protagonismo ao esvaziar-nos do nosso “eu” e preenchendo-nos com a presença de Deus.

É de recomendar principalmente a missionários, que são gente de vida activa. Muitas vezes, nós sentimos que não temos o tempo que desejamos para fazer “momentos de oração”, ao passo que, mediante a “purificação do coração”, podemos ficar com todos os momentos do dia à nossa disposição.

Em que consiste então esta oração? Como se faz? Consiste fundamentalmente em elevar a mente até Deus em qualquer momento e em qualquer situação, servindo-nos duma breve oração vocal, um pensamento, um versículo da Bíblia. É a recordação purificadora, do nome de Jesus. É uma ligação directa, rápida e fácil com a divindade, que nenhuma situação, obra ou problema poderá impedir. O peregrino russo preenchia a sua caminhada com repetições do nome de Jesus, seguindo o ritmo da respiração dos seus pulmões; o Fundador comparava tal oração a um telefonema para o Céu (cfr. VE 514); a gente do povo chama-lhe “jaculatória”; os autores espirituais descrevem-na como um engate com Deus no pleno andamento das nossas actividades…Trata-se de modos diferentes de ligação que visam purificar o nosso coração, para que tenha cumprimento em nós a norma paulina que reza: «E tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus Pai» (Col 3,17).

Tudo o que foi dito sobre o espírito de oração contínua deveria afastar de nós o pensamento de que ela é um ideal para os privilegiados, ou então um exercício que está reservado apenas para alguns períodos especiais da nossa vida, como o Noviciado ou os Exercícios Espirituais anuais. Mas visto que a dimensão contemplativa faz parte do nosso projecto de vida e é um dos seus alicerces, devemos sentir, tal como se nos tivesse sido dirigida de modo muito especial, a admoestação do Santo Padre na Novo millenio ineunte: a de que todas as comunidades cristãs se tornem “autênticas escolas de oração” (cfr. 33).

Dei abertura a esta reflexão deixando-me guiar pelas Constituições. Agora, gostaria de a encerrar voltando às indicações que o Directório Geral sugere a respeito do mesmo texto constitucional: «A vida de oração constrói-se, pacientemente, por meio do crescimento na fé, da meditação e da Sagrada Escritura, do estudo aprofundado das ciências teológicas e da observância atenta das realidades humanas. A fidelidade às práticas de oração, realizadas com regularidade e “com verdadeiro espírito”, contribui para manter e desenvolver o espírito de oração» (57.1).

Que nos sustentem e nos ajudem o Beato Fundador e São Francisco de Sales, nosso Patrono anual e mestre de oração contínua.

Saúdo-vos fraternalmente em Nossa Senhora da Consolata,

P. Piero Trabucco, IMC

(Padre Geral)

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