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PADRE FRANCISCO MARQUES 1923 - 2001 PDF Imprimir E-mail
Por P. Mário Silva   
12 de March de 2006

Era filho de Faustino e Maria Rosa e nasceu em Caldelas, na freguesia da Caranguejeira, concelho de Leiria, no dia de Todos os Santos - 1 de Novembro de 1923.

De família simples, teve de deixar a escola bastante cedo para ir aprender o ofício de carpinteiro. Naquela altura, o seu irmão Manuel entrou no Seminário dos Franciscanos e era o Francisco quem ia ganhando o dinheiro necessário para lhe pagar a mensalidade.

Entrou na Acção Católica e tornou-se um dos fundadores da secção jovem daquele movimento na sua aldeia. A Acção Católica foi precisamente a sua escola de formação humana e espiritual onde nasceu a sua vocação missionária.

A 12 de Agosto de 1944, conheceu o Padre João De Marchi que estava a fundar o Seminário Menor da Consolata em Fátima, tendo para lá entrado imediatamente, onde ficou matriculado com o número 3. Fez depois o Noviciado na Certosa di Pesio e fez a profissão religiosa a 31.12.1950. Frequentou os estudos teológicos em Turim.

Foi ordenado sacerdote em 1955 e começou a trabalhar como professor e prefeito na Casa de Biadene, na Itália. Em 1960 foi enviado para Moçambique, onde foi Coadjutor do Pároco da Missão de Matola Rio durante cinco anos. Regressou depois a Portugal e foi Pároco em Lisboa entre 1965 e 1968, e logo a seguir Superior e Ecónomo das casas de Vila Nova de Poiares (1968-1974) e Fátima (1974-1978). Entre 1974 e 1979 fez um curso de formação em Paris.

De regresso a Portugal, dedicou-se com decisão à formação, animação e promoção vocacional. Percorreu muitíssimas paróquias do Norte e do Centro do país animando os fiéis para o envolvimento missionário. Bem lhe serviram as capacidades oratórias de que era dotado, pregando em centenas de festas paroquiais, dirigindo retiros, cursos de cristandade, do Mundo Melhor, de casais e cursos bíblicos.

A Bíblia era o seu livro preferido: era mesmo o manual para toda a ocasião. Tinha sempre pronta, e na ponta da língua, a citação condizente com a discussão em que estivesse envolvido. A sua pregação era de tipo radical: de poucos arabescos e com muita doutrina, feita de Bíblia e Documentos Conciliares.

Também tinha uma grande inclinação para cuidar dos assuntos materiais da comunidade em que se encontrasse. Em várias ocasiões, foi administrador e dirigiu muitas construções. Em assuntos de carpintaria, marcenaria e conserto de máquinas, era mestre consumado. Costumava dizer: “A minha inteligência está na ponta dos dedos”.

Em 1996, aos 73 anos, regressou a Moçambique, onde foi superior da casa da Beira, passando depois para Lichinga.

Mas foi obrigado a voltar a Portugal para férias por razões de saúde, passando os últimos meses da sua vida em Fátima. Ali foi oferecendo a sua generosa colaboração no serviço de confissões do Santuário. E ao fazê-lo, sentia-se feliz. Tinha um amor terno a Nossa Senhora; à noitinha, lá ia o Padre Francisco de terço na mão a caminho da capelinha das aparições, na Cova da Iria...

Mas em 22 de Agosto de 2000 teve de ser internado no Hospital da Universidade de Coimbra para uma operação a um tumor no pâncreas. A doença foi entretanto alastrando de maneira que só um milagre o teria podido salvar. O seu irmão Manuel, padre franciscano, residia em Coimbra e, assim, pôde acompanhá-lo durante todo o período de convalescença, informando diariamente a nossa comunidade sobre a evolução da sua situação clínica.

A 12 de Outubro, teve alta do hospital e voltou para a comunidade. Iluminou-se-lhe o rosto com uma grande alegria, voltando a viver com entusiasmo conforme lhe permitiam as limitações impostas pela doença. Juntava-se sempre à comunidade para a oração, a eucaristia e o almoço. Mas as forças foram-se desvanecendo e, em certo dia, já não conseguiu levantar-se do seu leito. Teve a assistência solícita de todos os confrades da comunidade.

A 3 de Janeiro de 2001, na sequência dum forte ataque de diabetes, foi de novo internado no hospital de Torres Novas. Apesar do tratamento que lhe foi feito, não conseguiu sair da crise em que entrara. A 10 de Janeiro, às 22 horas, entregava a sua alma a Deus. Partiu serenamente, apagando-se pouco a pouco como a luz duma vela.

As exéquias foram a 12 de Janeiro na capela do nosso Seminário de Fátima. Presidiu o Bispo de Leiria-Fátima, Dom Serafim Ferreira e Silva. Concelebraram 60 sacerdotes, entre diocesanos e religiosos, sobretudo da Consolata e Franciscanos. Nos bancos da Igreja ajoelharam-se, juntamente aos seus parentes, Missionárias da Cosnolata e Irmãs de muitas outras comunidades religiosas.

Durante a Missa de exéquias, o Padre Luís Ribeiro Tomás, Superior Regional, apresentou um breve perfil biográfico do confrade defunto. Os seus restos mortais descansam na nossa capela do cemitério de Fátima.

 Padre Jaime Marques, IMC e Redacção de Da Casa Madre

ERA UM BOM RELIGIOSO

Conheci o P. Francisco Marques desde que o Seminário da Consolata abriu as suas portas em Fátima. Era mais velho do que nós e por isso quando nos fazia alguma observação no estudo, no recreio, no trabalho ou na capela, era como se fosse dada pelo assistente. Sempre o conheci como um homem de carácter forte, que não tinha medo de enfrentar as dificuldades. O que tinha a dizer dizia-o sem rodeios. Sabia valorizar o tempo. Quando a conversa era superficial ia fazer outra coisa mais útil.

Às vezes convidava-me para ir passar as férias na sua casa. Levantávamo-nos cedo e fazíamos três quilómetros a pé para ir à missa. E logo depois do pequeno almoço íamos trabalhar para o campo: regar o milho, os feijões as batatas, etc… Antes de entrar para o seminário tinha o ofício de carpinteiro, ofício que ele aprendeu muito bem. Coisas que ele fizesse eram sempre bem feitas e para durar. Que o digam as cadeiras, mesas, carteiras, bancos, portas e janelas que fez no seminário. Tinha gosto de ver o trabalho bem feito. Por onde passou, Fátima, Cacém, Poiares, Carregado, deixou a marca do seu trabalho e do seu suor.

Era um homem muito prático, mas também de grande vida interior e de grande devoção para com Nossa Senhora.

Lembro-me ainda da sua missa nova. Via-se que estava feliz. E no agradecimento no fim da festa ainda me lembro dos compromissos que tomou: Ser coerente na sua vida sacerdotal com o que tinha prometido a Deus e ser pontual nos empenhos que tomaria com as pessoas na sua vida pastoral.

Foi também perseverante na sua formação permanente. Participava nos cursos que podia e quando não lhe era possível pedia informações sobre os temas tratados. Lia muito: livros, revistas, jornais.

Foi um óptimo religioso e missionário, que soube viver a sua vida com intensidade e com muita alegria. Sentia-se feliz em ajudar as pessoas. Sentia os problemas da humanidade e sofria com os que sofrem. Que o Senhor lhe dê a recompensa e nos ajude a nós a saber viver como ele viveu, com tanta coragem e tanta fé.

      Ir. Albino Henriques 

P. FRANCISCO MARQUES: COMO EU GOSTO DE O RECORDAR

Os nossos encontros foram muitos, mas sempre ocasionais; isto acontecia normalmente quando eu, que estava fora do país, vinha de férias e passava pela sua comunidade.

Acolhia-me com muita cordialidade, poucas formalidades e bem depressa me levava para assuntos que lhe estavam a peito e que em geral eram temas com que ele se debatia no âmbito da teologia, da pastoral e de cultura geral. Foi sobretudo através destes encontros culturais, muito animados e renhidos, com um parceiro exigente e rigoroso, que só cedia à força da evidência, que fiquei a conhecer este missionário que me impressionou, me influenciou e me deixou uma imagem que eu muito prezo.

 Homem intelectualmente ambicioso

O p. Francisco Marques estava em contínua formação permanente, movido por uma grande sede de conhecimentos e de actualização. Todos os temas que tinham nele suscitado interesse no tempo da sua formação no seminário continuavam ainda a ocupar-lhe a atenção e a orientar as suas leituras. Queria acompanhar a vida da Igreja no país e no mundo e era sobretudo isso que ditava e limitava a sua escolha de programas de televisão. Seguia os passos do Santo Padre nas suas múltiplas viagens e vibrava com o impacto dos seus gestos e discursos. Às revistas de actualidade religiosa e de temática teológica que chegavam à comunidade era ele o primeiro a deitar-lhes a mão e desfolhava-as logo à procura daquilo que suscitava o seu interesse, para ler e depois comentar com um parceiro que ele conseguisse angariar para a conversa. Era frequente ouvi-lo queixar-se de que a biblioteca da casa estava fora de mão, mal equipada ou desactualizada.

Homem de convicções fortes

As conversas com ele depressa se transformavam em debates acesos, veementes até à paixão, porque ele tinha a capacidade de manobrar as questões, libertando-as da complexidade e reduzindo-as a fórmulas simples, que aos ouvintes soavam a simplistas, e os sacudiam da indiferença para a arena do debate.

Era homem de convicções fortes e arraigadas que ele defendia com toda a tenacidade. Não só as expunha como se esforçava por as propor e fazer aceitar, com verdadeiro zelo missionário, em nome da verdade já por ele esposada. É entre este tipo de pessoas que muitas vezes se encontram os conservadores retrógrados, que se entrincheiram nas suas verdades e não cedem um milímetro. Não pertence a esta categoria o p. Francisco: pelo contrário, sentir-se-ia horrorizado de ser posto no mesmo lote. E de facto a sua preocupação, a fonte mesmo da sua inquietação, era a busca da verdade; com a leitura, o estudo e o intercâmbio de ideias perscrutava o panorama para obter mais luz, mais certeza. Dado o seu pendor para a dialéctica, o seu carácter de rigor e exigência, a sua firmeza nos princípios, só cedia quando intelectualmente convencido. Não tinha paciência para temas considerados frívolos, como a crónica mundana ou o desporto, que evitava e desdenhava como perda de tempo.

Homem de mensagem

Desde que fez um ano sabático no Movimento por um Mundo Melhor e saiu de lá imbuído do espírito e da teologia do Vaticano II, encontrou o seu campo de trabalho ideal na actividade pastoral. Gostava do ministério sacerdotal em todas as suas expressões e estava sempre disposto a oferecer-se para as tarefas mais árduas, perante as quais outros se encolhiam. Aceitava encargos de pregar novenas, missões populares, quaresmais, sermões com tradição, que outros menos ousados de boamente deixavam para ele. Gostava de aproveitar estes encontros com o povo para, como ele mesmo se exprimia, "dar doutrina sólida". Na verdade ele tinha a preocupação de, a partir da Palavra de Deus e da sã teologia, elucidar as pessoas e afastar as trevas do erro. Incomodava-o muito a ignorância do povo espelhada em muitos usos e tradições populares, que ele tentava debelar. Dificuldades de aceitação que teve com algumas comunidades litúrgicas vieram daí, da sua pressa e ânsia em ver as coisas mudar. O seu zelo e disponibilidade impressionou muito os párocos de perto e de longe, que continuamente recorriam a ele para serviços religiosos. E isso viu-se confirmado no dia do seu funeral com a presença e o testemunho de numerosos párocos que ele serviu. Quando já a doença lhe não permitia grandes saídas, arranjou um horário de confissões no santuário de Fátima que lhe preenchia a manhã e a tarde e que ele observava mesmo com grande sacrifício: vinha de lá impressionado com o que ouvia no confessionário e comentava a nível dos princípios morais e canónicos os casos que tinha encontrado e as soluções que tivera que dar.

Homem de missão

Nos primeiros tempos do seu serviço passou alguns anos em Moçambique. Mas a sua grande prestação foi nos longos anos de animação missionária e vocacional na Região portuguesa. Foi assíduo e constante neste trabalho; deixou obra feita que ainda hoje perdura e foi mesmo inovador em métodos e programas. Levava para a animação a sua grande carga pastoral e traduzia na busca de vocações para os nossos seminários, o seu grande amor ao Instituto. Não se contentava em acompanhar os novos candidatos até à porta do seminário. Interessava-o também e muito a formação que se lhes dava lá dentro.

Foi o seu amor às missões que fez com que ele, já com mais de setenta anos, jovem no seu ardor, se tenha oferecido para voltar a Moçambique, à acção missionária directa. E foi à missão que ele dedicou o resto das suas forças, pois só regressou quando abalado na sua saúde, exausto, consumido. De facto a sua saída para Moçambique na última hora foi um verdadeiro acto de consagração à missão.

Homem de pobreza

Por todas as comunidades onde passou deixou bem vincada a sua preocupação com a economia e a poupança. Sentia-se talhado para ecónomo, mesmo onde o não era por ofício. Tendo crescido numa certa austeridade no seio da família e entrado cedo nos cuidados do ganha-pão, desenvolveu uma grande sensibilidade para os gastos racionais, os cálculos atentos, a despesa mínima. Tudo o que à sua volta lhe parecia excesso, luxo ou desperdício fazia-lhe levantar a voz em protesto. Desleixo com os bens da comunidade, negligência na manutenção, uso leviano de carros ou instrumentos, eram para ele uma fonte de sofrimento que não conseguia calar.

A profissão de carpinteiro, que exercera antes de entrar no seminário e nunca deixara de cultivar, criara nele um pendor para a escolha acertada, as medidas correctas tiradas a tempo, o produto acabado. Queria que ao encomendar-se um armário ou uma mesa, um genuflexório ou um banco de igreja, uma carteira ou uma cadeira, se pensasse na elegância e apresentação, sim, mas antes na utilidade, praticidade e preço. E estava sempre a maquinar processos para economizar: obter bons resultados e conter os gastos.

O padre Francisco Marques deixava a impressão de um homem insatisfeito, porque estava numa busca não acabada. Sempre à procura do melhor, para si e para os outros. No sentido de S. Paulo, sentia-se devedor a todos. Ai de mim se não evangelizar. Recordo-o com admiração e gratidão: um grande pastor, um grande missionário.

P. Luís Tomás

HOMEM FORTE E PRUDENTE

Conheci o Padre Francisco Marques em Ermesinde, logo após a minha ordenação em 1979. Eu entrei na equipe formadora e ele passou a ser o superior da casa. Percebi de imediato que era um homem de acção, organizado, exigente e missionário de corpo inteiro.

Na comunidade havia quem se impressionasse com a sua dureza de carácter e maneira de agir, comigo foi sempre uma pessoa de diálogo, bom conselheiro com quem procurava partilhar ideias. Dois anos depois, deixou para mim o cargo de superior de boa vontade para assumir outro trabalho noutra comunidade. Durante uns vinte anos vivemos separados, ele em Moçambique e eu no Brasil, mas sempre nos comunicámos de vez em quando pelos aniversários e festividades.

Quando fui destinado a Fátima, ele aí e encontrava de volta de Moçambique e com alguns achaques que disfarçava ocupando-se de tarefas pastorais. Via nele o entusiasmo de sempre mas era já visível a doença que o ia consumindo fisicamente.

Acompanhei-o de perto nos seus últimos meses de vida e fiquei impressionado com a vontade e resistência que sempre mostrou para vencer o mal que o dominava progressivamente. Foi um homem que terminou como sempre foi. Só se entregou ao cuidado dos irmãos nos últimos dias de vida, sem lamentos, com muita vontade de viver; fiquei com a impressão que pessoas destas não são vulgares.

Sinto muita gratidão a Deus pelo testemunho que dele recebi. Todos sabemos como gostaríamos de ser diferentes do que somos; por vezes também achamos que os outros deveriam ser diferentes daquilo que são. No que me diz respeito em relação ao Francisco Marques, seria injusto que quisesse que fosse diferente, sobretudo nesta sua última fase de vida, tão difícil para ele.

Sei que o meu pedido feito a Deus por ele nos últimos dias, foi atendido. Que as portas do Céu se abrissem para ele. É de lá que espero a sua ajuda e encorajamento, em horas difíceis, enquanto para lá caminhamos. 

      P. Mário Silva

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