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IRMÃO GUERRINO VOLPATO 1915-2001 PDF Imprimir E-mail
Por P. Guido Guerra   
12 de March de 2006

Nasceu em 5 de Junho do ano de 1915 em Piombino Dese (PD), de Giuseppe e Regina Montin. Entrou para o Instituto em 1928, consagrando-se a Deus com a profissão religiosa em 1935. Trabalhou na Itália durante 13 anos cumprindo várias missões, de porteiro a fornecedor, hortelão, sacristão, etc. - nas casas de Turim, Casellette, Cereseto e Parabita.

Em 1948 foi enviado para a Argentina. Na missão de Pirané teve ocasião de dar expressão ao seu espírito missionário junto dos indígenas pobres e marginalizados do Chaco. Ao escrever ao Padre Vitório Sandrone, então vice-superior geral, dizia: «Colaboro com o Rev.do padre Burati na catequese dos jovens, etc. Estou sempre a cavalo da mota desde as 6 da manhã às 19 da noite. A seguir, vêm os indispensáveis biscatos domésticos…e o tempo assim vai voando…cansado mas contente…nem já sinto o reumático. Desde que me encontro aqui na missão, já aprendi a fazer muita coisa…e dou graças a Nosso Senhor e à Santíssima Virgem da Consolata por me ter feito religioso, Missionário da Consolata» (1.8.1947).

Procurava suprir às numerosas necessidades materiais do povo com sacrifício e com espírito de caridade. Com a sua palavra espiritual e fraterna preparava o terreno para os encontros sacramentais das pessoas com o sacerdote. Estava animado de um espírito verdadeiramente sacerdotal, a pontos de o povo o tratar por “padre hermano”. Ao escrever ao Padre Fiorina, superior geral, diz-lhe a este respeito: «Claro…que ao ver a grande necessidade que aqui há de padres, até eu gostaria de ser padre para poder pregar; assim, sofro ao observar grande tranquilidade em quem o é e não vai…» (29.6.1956).

Em 1958, o Irmão Guerrino regressou à Itália, dedicando o resto da sua vida ao serviço dos confrades e do Instituto, primeiro como porteiro e ao serviço da casa de Turim (1959-1963); depois, dando assistência ao padre Gaudêncio Barlassina e como porteiro em Roma (1963-1971); e depois, uma vez mais, na Casa Mãe de Turim como auxiliar, colaborador do CIM e sacristão da igreja do Fundador. Lá no seu humilde gabinete, sentia-se contente por se dedicar dia e noite à Casa Mãe: «Dá-me gosto receber todos os confrades que chegam e cumprimentar os felizardos que partem em missão». No ano 2000, depois de vários enfartes, retirou-se para a Casa de Alpignano. Foi lá que o Senhor o foi buscar para Si, no dia 30 de Janeiro do ano 2001.

De carácter afável e serviçal, tinha uma maneira simples de se aproximar das pessoas, infundindo serenidade e esperança. Tinha um espírito de oração admirável e um grande amor pela sagrada liturgia.

A missa de exéquias foi presidida pelo Padre Gotardo Pasqualetti, superior regional. Foram numerosos os parentes presentes, que vieram das várias partes da Itália. O padre Guido Guerra, na homilia, deu testemunho do irmão defunto. Agora, repousa no cemitério de Alpignano.

P. Giuseppe Villa

TESTEMUNHOS

Um “padre-irmão”

 O Irmão Guerrino já tinha chegado à Casa Beato José Allamano havia quase um ano. Não tinha pedido para vir porque pensava em acabar os seus dias na Casa Mãe, onde vivera durante quase 30 anos. Estivemos juntos anos e anos. Desde os tempos de Comotto…- ou seja, muito tempo. Mas o seu estilo era único, e eu não notei que tivesse mudado ao ingressar em Alpignano. Não lhe foi fácil adaptar-se aos novos ritmos que a pouca saúde lhe impusera, depois de muitos enfartes. Dei logo por ele no serviço espontâneo das cadeiras de rodas. O Padre Riccardo Rossi, por exemplo, gostava dele por causa da sua disponibilidade silenciosa, paciente e sorridente. O Irmão Guerrino provinha da casa de Pederobba. Uma vez feita a profissão temporária em 1935, fora enviado, poucos anos depois, para a Argentina. Tendo lá chegado logo no início da fundação, conheceu e amou loucamente as fronteiras do Pirané, com o chaco, as savanas, os rios traiçoeiros, encontrando-se com gente pobre e com indígenas ao abandono. Os padres logo notaram uma característica especial deste Irmão: embora se desse todo até ao sacrifício para dar resposta, e suprir, a todas as necessidades da população, era sob a marca do Espírito que o fazia. A conversa ia logo dar ao mistério da salvação da alma, a Jesus como Redentor, a Maria sua Mãe - que amava com a simplicidade duma criança. E ia preparando o terreno para os encontros sacramentais das pessoas com o sacerdote. Foi um facto notável que o povo tivesse começado a chamar-lhe de “padre-irmão”, um título que, por quanto recordo, a mais nenhum outro Irmão dos nossos foi dado.

Na Casa Mãe, tinha prestado os serviços mais variados: encarregado da portaria e da hospedagem, das encomendas sem fim, como motorista…Mas foi na de sacristão e encarregado da igreja-santuário, e por tudo o que dizia respeito à capela do Fundador, que se distinguiu melhor.

Quando me encontrava com ele no eléctrico, era lindo vê-lo a cumprimentar esta e aquela pessoa, como se conhecesse toda a gente. Também era capaz de dizer das suas a qualquer mal educado, mas sempre com tal delicadeza que o outro acabava por pedir desculpa. Frequentava diversos hospitais e casas de repouso. Pelo Natal, por vezes convidava-me para uma santa missa, sobretudo em situações mais difíceis. Era bem visto em certos bairros porque era amigo dos pobres - de corpo e de espírito.

Havia pessoas que lhe entregavam quantias de respeito ou, então, uma série de notas de mil liras para distribuir a quem tivesse necessidade. E de facto, fazia-o com uma exactidão verdadeiramente escrupulosa.

Frequentava os centros de oração, carismáticos ou não - contanto que aí se rezasse. Vivia, talvez à sua maneira, de oração, de Deus, da Sua misericórdia e da sua Mãe Maria. Não havia festa, fosse ela mariana ou não, a que faltasse, contanto que lhe fosse possível. E depois, tinha gosto em me contar o que vira e quanto tinha gostado de lá ir.

A 31 de Janeiro, na altura da concelebração fúnebre de despedida, nunca se tinha visto tanta gente na nossa capela. Não só parentes, mas toda a gente que, ao saber que tinha falecido, tinham acorrido para se despedir dele, para lhe agradecer e para rezar por ele. Foi então que notámos, de facto, que este “padre-irmão” tinha sido um ministro de consolação e de reconciliação.

P. Giuseppe Mina

Um colaborador fiel

O Irmão Guerrino tinha chegado à Argentina vários anos antes de mim. Estávamos em Dezembro de 1952. Eu tinha chegado finalmente à “terra prometida”. No porto fluvial de Formosa, no rio Paraguay, o Irmão Guerrino estava à minha espera para me levar para Pirané. Já com três ou quatro anos de experiência da Argentina às costas, ele levava vantagem e fazia de guia e intérprete.

Ficámos juntos por quatro anos e partilhámos da missão, primeiro em Pirané; depois em El Colorado, na margem do rio Bermejo, no extremo sul da nossa paróquia.

O Irmão Guerrino punha-se espontaneamente ao lado do missionário sacerdote para ajudar, resolvendo-lhe muitos problemas de ordem prática, procurando apoio, organizando reuniões, festas dos padroeiros, dirigindo obras, etc. As pessoas tinham plena confiança nas suas capacidades organizadoras. Assumia espontaneamente responsabilidade pelos grupos de fiéis nas “colónias”; ensinava catecismo e cânticos litúrgicos às crianças; caminhava sem aparente fadiga pelas estradas da região ou entre os “ranchos” daqueles que viviam dispersos pela savana. Tinha um zelo pastoral espontâneo que o levava a bater a cada porta sem timidez, para convidar as pessoas para novenas ou festas.

Tinha grande habilidade para recolher fundos e apoio oficial para levar as obras por diante. Apresentava-se sem timidez às autoridades provinciais e militares e não havia quem lhe negasse o que pedia para a sua Pirané ou para qualquer outra aldeia ou “colónia” a nós confiada. A sua humildade nas maneiras e a sua (diria) ingenuidade simples e convicta impressionava as pessoas, de forma que até os mais duros cediam. Para os simples, ele era o “padre hermano”, aquele que ultrapassava facilmente todas as resistências para levar os casais a resolverem as suas situações irregulares perante a Igreja. Convenceu muitos a fazerem casamento religioso. Fazia a sua pastoral prática, mas em que precisava da ajuda do sacerdote para a parte que lhe competia. E era ele quem preparava tudo para as missas, os baptizados, os casamentos, os funerais. Com aquele mínimo de preparação, mas com enorme bom senso, o Irmão Guerrino fazia muita coisa.

Tinha grande confiança no seu confrade sacerdote. Durante as longas cavalgadas que fazíamos juntos, ou então nas paragens que fazíamos nas aldeias tão afastadas, o seu coração abria-se, confiante, tanto a dar como a receber conselhos e apoio espiritual. Enquanto viajava, quer a pé quer a cavalo, ia sempre a debulhar as contas do seu terço, tal como faziam os nossos missionários clássicos. Era um homem afectuoso e de bom coração -que nunca falhava (como é tradicional entre a gente da região de Pádua). Agora que se foi, peço-lhe que venha outra vez esperar-me ao porto, tal como fez em Formosa.

P. Guido Guerra

Fundador

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