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| PADRE GIUSEPPE RIOLI 1916-2001 |
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| Por P. Egidio Crema | |
| 12 de March de 2006 | |
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Nasceu a 12.2.1916 em Monzone di Pavullo (MO) e era filho de Giuseppe Gaetano e Assunta Manfredini. Entrou para a nossa família em 1928 pela Casa de Sassuolo e terminou a sua formação nas casas de Turim, Sanfré, Camerleto e Favria. Consagrou-se a Deus com a profissão religiosa em 1935 e, em 1937, foi ordenado sacerdote mediante a imposição das mãos do Cardeal Maurílio Fossatti. No mesmo ano foi destinado à Tanzânia, onde trabalhou, excepto por alguns breves períodos de férias, até ao ano 2000. Deu início à sua missão como coadjutor do Pároco nas paróquias de Nyabula (1939-1940), Mufindi (1940-1944) e Ujewa (1944-46). Em 1947 foi nomeado pároco da igreja que futuramente será a Paróquia da Consolata de Iringa. Aí trabalhou até 1970 e construiu a grande igreja construiu, mas sobretudo a Igreja-Povo de Deus. Em 1970 foi eleito superior regional e reconduzido em 1973. Durante o seu mandato, foi um animador solícito dos confrades na vida comunitária e no espírito de família. Ao agradecer-lhes por o terem eleito superior, assim se dirigiu a eles na sua primeira carta circular: «”amemo-nos uns aos outros; o resto virá espontâneo”»; seja este o nosso programa: assim, mesmo que houvesse uma multidão de pecados, será a nossa caridade a cobri-los; portanto, respeito, compreensão, e caridade, tal como Jesus mandou. Procuremos compreender e respeitar os carismas uns dos outros, sempre numa constante procura de entendimento e de serviço mútuo. Que cada um esteja sempre pronto a sentir alegria até pelo bem que outro confrade faça, nunca pensando que detém o monopólio da bondade» (27.10.1970). O padre Rioli era um homem realista e misericordioso: bem sabia que cada um tem o seu temperamento, o seu passado, a sua formação básica, os seus problemas pessoais, a sua missão específica, a sua própria orientação espiritual. Também sabia que as diferenças de idade às vezes criam conflitos de gerações; no entanto, estava convencido de que Deus é que é a fonte dessa diversidade e é nela que os confrades se devem amar, aceitar e complementar. Entendia que nunca podemos reduzir os outros aos nossos esquemas: «A verdadeira caridade consiste em dar-se, sair de si próprio - ou seja, é a vitória perfeita sobre o egoísmo -; ela consiste em servir, estar disponível - ou seja, é a perfeita vitória sobre a soberba». O espírito de família «exige uma atenção cheia de amor para com os outros, uma vontade ardente de os compreender na sua realidade interior e de descobrir tudo o que em potência já possuem. Ora isto nem sempre será fácil; mas nós haveremos de o conseguir: antes de mais, pedindo essa graça ao Espírito Santo todos os dias (já que é por Ele que se espalha nos nossos corações a caridade divina), e depois, esforçando-nos pessoalmente por colaborar com a Sua graça» (27.10.1970). A vida comunitária foi o tema dominante do seu serviço como superior. Para ajudar os confrades a desenvolverem-se neste aspecto essencial da vida religiosa, o Padre Rioli examinava e exortava ao empenhamento dos seus confrades com pontos concretos que contribuem para o crescimento e desenvolvimento de cada um. Antes de mais, vem a celebração eucarística, que considera como base duma comunidade de vida e de trabalho: «Lembremo-nos de que aquilo que nos une é principalmente o sacerdócio; e a sua expressão concreta está principalmente na acção de graças que, em nome da comunidade cristã, fazemos a Deus na eucaristia. Devemos saber exprimir esta grande realidade da unidade do sacerdócio também mediante o sinal externo da concelebração; que o povo possa ver que somos “um só” naquilo que mais profundamente nos liga uns aos outros. A santa missa diária deve ser a fonte e a alma do nosso apostolado e da nossa renovação espiritual» (10.2.1973). A comunhão na oração deve levar à comunhão na convivência de todos os dias: «Que se deve entender por ‘comunidade’? Será trabalhar na mesma paróquia, viver sob o mesmo tecto, alimentar-se à mesma mesa? No céu estas acções não existirão e, no entanto, o céu é, por antonomásia, a verdadeira comunidade, porque todos são um só, todos se amam n’Aquele que nos amou desde a eternidade. O que faz com que um grupo de pessoas seja comunidade é o seguinte: amar-se, querer-se bem mutuamente, ajudar-se, respeitar-se, querer em conjunto, decidir em conjunto, pôr tudo em comum. Ora isto só se pode realizar mediante um diálogo aberto e cordial, que seja a expressão verbal do amor, ou seja, disponibilidade para dar e receber, para falar e ouvir; e tudo isto apesar da necessidade natural de cada qual ter a sua vida, ser à sua maneira e evoluir. O verdadeiro diálogo não esmaga a nossa personalidade; antes, até a enriquece. À medida que um pouco do “eu” desaparece da cena, será Deus e o Seu Reino a crescerem em nós.» (ibid.). Outro instrumento útil para a vida comunitária é a leitura espiritual. «Em cada comunidade deve escolher-se um dia por semana em que os confrades se devem sentar para, em conjunto, se alimentarem de uma mesma palavra. Não poderá ser uma leitura fria e material do texto, mas sim um ponto de partida para uma troca de ideias sobre o que se leu, para benefício de todos. Cada um tem a capacidade de pensar, de ajuizar e também possui uma riqueza interior de ideias para comunicar: não deixemos essas ideias morrer sem dar fruto, pensando que talvez não interessem ao nosso confrade do lado» (ibid.). Quando terminou o seu mandato como superior, o Padre Rioli foi coadjutor do pároco em Madibira (1976-1977) e, a seguir, pároco de Kaning’ombe. O tempo foi passando e o seu sistema foi-se ressentindo. Foram especialmente demorados os tratamentos que teve de ir fazer à Itália, em várias ocasiões, relacionados com problemas nas cordas vocais e com dores reumáticas que lhe dificultavam o caminhar. Mas nunca se rendeu. Igualmente frequentes foram as cartas que, durante a hospitalização e a convalescença enviou ao Padre Goletto, que era o novo superior regional da Tanzânia, exprimindo-lhe a sua ânsia de voltar para o seu trabalho. Em 1985 foi obrigado a ficar na casa regional, em Iringa, tomando conta do armazém e da contabilidade da Região. Em 1986 foi ajudante na administração regional. Em 1999 voltou à Itália de férias. No princípio de Agosto, antes de regressar à Tanzânia, foi despedir-se dos seus conterrâneos e, embora admitisse os achaques da idade, garantiu-lhes que não se sentia nada mal, afirmando que era «pessoa contente, satisfeita, afortunada e feliz: devo dar graças a Deus por tantos dons e graças que me fez; sempre me ajudou e me guardou; sempre tudo me correu bem; sinto-me realizado como sacerdote e como missionário e estaria pronto a recomeçar do princípio». O povo perguntava-lhe que ia fazer para as missões já na casa dos oitenta. O padre Rioli respondeu-lhes, por fim: «Creio que até a simples presença é útil, positiva e construtiva. Na missão há sempre muito que fazer e até os velhos podem ajudar, materialmente e sobretudo moralmente. As missões são um ponto de referência muito importante para a população: há sempre gente a chegar, a bater à porta, a pedir alguma coisa… Se eu agora me ficasse aqui pela Itália, sentir-me-ia como um soldado que abandona o campo de batalha; creio que é importante continuar com eles e continuar a colaborar, a ajudar». Passados poucos dias, a 24 de Agosto, escrevia de Dar es Salam ao padre Giacomo Rabino, superior regional emérito, dizendo-lhe: «Sei que tenho capacidades limitadas por causa da voz, e também um pouco por causa da vista. Eu próprio, para não perturbar os outros e ser um peso, fecho-me, retiro-me, mas não me considero acabado: a vontade é muita; às vezes só falta a força. Decidi e pedi para regressar, não só porque quero ser enterrado na África, na Tanzânia: estou convencido de que ainda presto para muita coisa…declaro estar disponível e penso que ainda posso fazer algum bem…; desta forma gostaria eu de me preparar para uma boa morte». E a saúde foi-se deteriorando rapidamente. Depois de um colapso muito grave, regressou à Itália a 9 de Março de 2000, ficando a integrar a comunidade de Alpignano. Lá foi levando a sua cruz com paciência e resignação, com o conforto dos confrades e das Irmãs. Na noite de 9 de Março de 2001, foi para o Pai serenamente, depois de ter recebido do padre Genta a bênção papal “em artigo de morte”. O funeral foi na segunda-feira, dia 12. Presidiu o Padre Lucio Abrami que, com palavras comovidas, pôs em relevo a sua bondade e o seu empenho apostólico. Também o Padre Soldati acrescentou uma sua saudação. O Padre Ignazio Mondin leu as mensagens recebidas do Superior Geral e do Padre Giuseppe Inverardi. Ao lado do presidente da liturgia concelebraram o Padre Igino Carnera, seu colega de ordenação e o seu sobrinho sacerdote. O corpo foi para Monzone di Pavullo onde, pela tarde, foi celebrada missa de exéquias, a que se seguiu o enterro. A Redacção de Da Casa Madre
Mensagem do Padre Giuseppe Inverardi, Superior Regional da Tanzânia aos parentes do Padre Rioli
Estamos todos unidos no mesmo luto. O nosso querido Padre José foi chamado a receber o prémio de tantos anos de vida missionária, que gastou com zelo, solidariedade e energia sem igual. A todos vós os pêsames sentidos de todos nós missionários da Consolata na Tanzânia. Apenas recebi a triste notícia, logo a comuniquei por telefone a quem pude. Aos restantes, fi-lo esta noite pela rádio. Também informei logo o Senhor Bispo, que é grande admirador dos nossos veteranos. Disse-me que passaria a notícia às paróquias ligadas à diocese, também pela rádio. Garantiu-me uma lembrança especial e encarregou-me de apresentar os seus pêsames aos parentes. Também informei logo a paróquia da Consolata. A igreja e a paróquia da Consolata - de que o podemos considerar fundador - era o grande amor do padre José. Recordo-me de quando o levei a Dar es Salam para poder voltar á Itália. Ao passar diante daquela igreja, levantou a mão. Era um gesto melancólico de saudação. Ficou comovido. Era ali que tinha querido ficar até ao fim. Ali, queria bem a todos e todos lhe queriam bem. A Tanzânia era a sua grande paixão. Tinha desejado ser enterrado aqui, como quem queria continuar a amar este país como sempre. Custou-lhe muito tomar a decisão, totalmente pessoal, de voltar para a Itália. Tinha notado que as forças lhe faltavam cada vez mais e que aqui não podia encontrar o tratamento de que precisava. Mas, confidenciou-me mais tarde, por carta, que partira com a esperança secreta de retomar as forças e voltar. O desejo de se gastar até ao fim ao serviço dos outros era enorme. Até mesmo só ouvir confissões o realizava. Só queria poder ajudar na paróquia e ajudar as pessoas - que afinal recorriam a ele com gosto para receberem este sacramento. Rezo por ele e sabei que vos recordo a todos. A nossa Consolata seja a vossa consolação. P. Giuseppe Inverardi, IMC
Recordações… Encontrei-me com o Padre Rioli pela primeira vez em Janeiro de 1951 quando cheguei à Tanzânia, logo após a ordenação sacerdotal. Vivia num quartito de poucos metros quadrados na pequena cidade de Iringa, onde estava a começar a fundação da missão. Havia já muitos anos - contou-mo ele - que, ao sábado, ia de bicicleta de Tosamaganga àquela cidade para prestar serviço religioso naquele centro muçulmano - eram 20 kms de pedalada. Depois, voltava à base para exercer a função de secretário do Bispo, Monsenhor Atílio Beltramino. Também era o contabilista da diocese. Fiquei impressionado com a sua “timidez” ao tratar de assuntos com os recém-chegados: tratava-os por “O senhor…” - mas foi método que usou até à morte. Em 1953 ajudou-me a preparar até aos mínimos pormenores a viagem a Pawaga, onde fora enviado para fundar outra missão difícil. A viagem durou dois dias e fê-la com uma camioneta escangalhada que pertencia a um goês. Passados alguns dias, ouvi o ruído duma motocicleta: era ele… a chegar - não sei como. «Vim ver como é que o senhor está, como está instalado e se lhe falta qualquer coisa…» Partiu no dia seguinte, voltando a “moer” o caminho Pawaga-Iringa. Era aquela uma visita como simples confrade, visita de autêntica caridade apenas. Um dia também eu estava a fazer a viagem de Pawaga a Iringa. Tinha feito 50 kms de bicicleta quando encontrei um camião-cisterna que me deu boleia para os restantes 90 kms que ainda faltavam. Cruzei-me pelo caminho com o Padre Rioli. O motorista parou a meu pedido e vou eu…«Então, Padre Rioli, para onde vai com essa bicicleta de museu?». «Vou visitar as escolas das aldeias de Nyang’olo, de Isimani, etc.». «Mas não leva nada para beber nem para comer…». «Ora, meu caro amigo, veja bem: hoje estou rico…tenho comigo uma garrafita de Fanta (laranjada)…estou mesmo rico!». E lá foi ele por aquele caminho poeirento e cheio de pedregulhos, de mais de 200 kms entre ida e volta. Pela noitinha, encontrámo-nos em Iringa, a sua missão: «Padre Crema, encontrei mais duas aldeias onde me pediram para abrir mais uma escola…que maravilha!» A actual e dinâmica missão de Isimani, nos anos 1955-1965 não era mais que uma vastíssima planície quase desabitada. Em pouco tempo tornou-se um verdadeiro “Eldorado”, perfeitamente adequado ao cultivo do milho. Em poucos anos, multidões de wahehe e wabena ocuparam aquele planalto e tivemos que fazer face às necessidades duma grande massa de cristãos, espalhados por todo o lado, procurando oferecer-lhes pelo menos o mínimo de serviço religioso. O Padre Rioli, ajudado pelo Irmão Battista, lançou-se no projecto corajoso de construir uma pequena casa anexa a uma capela. Não havia água naquela zona e era preciso trazê-la de Iringa, que ficava a 70 kms dali. Lembro-me de que, no dia a seguir a um Natal imensamente cansativo dum ano que agora não recordo, o Padre Rioli me confidenciava: «Padre Crema, ontem ouvi confissões desde as nove da manhã até às duas e meia da tarde; depois celebrei a missa de Natal…e houve tantas, tantas, comunhões!». E depois, quantas lotarias e jogos de futebol para avançar com as obras na igreja, que seria a futura catedral de Iringa! Era amado naquela cidade e por todos: cristãos, muçulmanos e sequazes da religião tradicional. De 1969 a 1970 estive a seu lado na paróquia da Consolata: nunca o ouvi levantar a voz ou faltar minimamente ao respeito a alguém. Era de uma delicadeza extrema para com os confrades. Em 1970 ele foi eleito superior regional, cargo em que pôde realizar o seu carisma, especialmente a sua bondade e caridade para com todos, mostrando uma paciência enorme…; nunca ouvi um confrade queixar-se dele. Passámos os últimos tempos juntos em Pawaga (1999-2000). O Padre Rioli, alguns anos antes, tinha perdido uma das cordas vocais. Mas sempre se esforçou por prestar serviço religioso quando lho pediam, incluindo o serviço da Palavra - que exigia dele enorme esforço. Fiquei muito impressionado com a sua devoção à eucaristia. Ainda agora quase que o sinto ao meu lado, no momento da elevação, a repetir com a sua voz forte, de olhos fixos na hóstia consagrada: «Meu Senhor e meu Deus!». P. Egidio Crema |
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