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EDITH STEIN PDF Imprimir E-mail
Por P. Piero Trabucco, IMC   
12 de March de 2006

(Santa Teresa Benedita da Cruz)

Protectora para o Ano 2002

Roma, 11 de Outubro de 2001

Caríssimos Missionários,

As Direcções Gerais de ambos os Institutos - das Missionárias e dos Missionários da Consolata - decidiram colocar os respectivos Institutos sob a protecção de Edith Stein, para o ano de 2002. Edith Stein é uma santa carmelita que foi canonizada há exactamente quatro anos, no dia 11 de Outubro. Fruto do século que há pouco terminou e cujas dramáticas vicissitudes ela soube intensamente viver, mediante o seu testemunho e os seus ensinamentos, poderá acompanhar-nos também a nós, Missionários, numa altura em que damos os primeiros passos neste novo século com uma esperança porventura cheia de trepidação. Tal como o século passado, também este se nos apresenta com uma carga de variados e graves problemas, face aos quais - tal como claramente no-lo mostra o Papa na sua carta Apostólica Novo millenio ineunte (NMI) - “o espírito cristão não pode ficar insensível” (51).

Face aos desafios, tanto antigos como novos, da nossa época, o Papa exorta-nos a que vamos para a escola da “teologia vivida pelos santos”: «Eles dão-nos orientações preciosas que nos permitem acolher mais facilmente a intuição da fé, precisamente em virtude da iluminação que alguns deles receberam do Espírito Santo, ou mesmo até em virtude das experiências por que passaram…» (27).

Foi este o motivo principal que inspirou os dois Conselhos Gerais a fazerem, aos confrades e às irmãs, esta proposta do exemplo de vida e doutrina de Edith Stein, uma santa dos nossos dias.

Dados biográficos

Edith Stein nasceu em Breslávia, que era então uma cidade alemã, e foi a décima primeira dos filhos dum casal de comerciantes judeus. Ainda não atingira os dois anos quando ficou órfã de pai. A responsabilidade do governo da família e dos negócios recaiu por completo sobre a mãe, Augusta Courant, uma mulher forte e dotada de profunda fé na religião hebraica.

Apesar da falta do pai, a menina cresceu serena e rodeada do afecto da sua numerosa parentela. Rica em dotes precoces, com uma memória excepcional e ânsia de aprender, a jovem Edith desenvolve uma consciência clara das suas próprias qualidades. Uma vez concluído o ciclo básico, e com a aprovação da mãe, transitou para o ensino superior, frequentando a Universidade, onde estudou história, filosofia e psicologia. Com o objectivo de aperfeiçoar os seus conhecimentos, deixou Breslávia e foi para Gotinga, onde frequentou os cursos do célebre filósofo Edmund Husserl. Foi lá que encontrou famosos lentes e condiscípulos que virão a exercer grande influência sobre a sua vida, tais como Adolf Reinach, Max Scheler e Max Lehman.

Com o rebentar da guerra de 1914-1918, Edith alistou-se como enfermeira voluntária na Cruz Vermelha, prestando serviço num hospital militar. Mas, a convite de Husserl, bem cedo voltou para a Universidade e para os seus estudos. Formou-se com grau de summa cum laude, escrevendo uma tese sobre a empatia (Einfühlung), acabando por ser nomeada para assistente do próprio Husserl.

A família Stein seguia uma linha estrita de observância religiosa hebraica: havia jejuns, leitura da Sagrada Escritura, orações - elementos estes sempre activos na educação que a mãe dava à sua numerosa progénie. Apesar disso, uma vez chegada à adolescência, Edith abandonou todas as práticas religiosas, a pontos de se considerar agnóstica. Mas não chegou a desaparecer dela uma grande sede de verdade que, apoiada pelo testemunho de fé que alguns dos seus professores e colegas de universidade viviam com inteligente coerência, lhe iria permitir, não só ultrapassar a negação de Deus como até chegar à verdade plena que é Cristo. Viria a escrever, mais tarde: «Foi esse o momento em que a minha incredulidade caiu por terra, o judaísmo empalideceu, e Cristo surgiu radiante à frente dos meus olhos: o Cristo no mistério da Sua Cruz».

As suas últimas incertezas em matéria de fé evaporaram-se quando, no Verão de 1921, embateu na autobiografia de Santa Teresa de Ávila, que leu por completo numa só noite. Foi baptizada pelo Ano Novo de 1922 e, nesse mesmo dia, encontrou-se com Jesus na Eucaristia. Daí para a frente, os seus estudos filosóficos seriam apenas um meio para aprofundar e amar cada vez mais a verdade vivente, Jesus Cristo.

Mas a sua conversão não foi um passo simples: numa primeira fase, o facto de se ter tornado cristã parecia-lhe uma eliminação do mundo ligado às suas raízes étnicas, enquanto que, por outro lado, se sentia profundamente perturbada pelo afastamento dos parentes, sobretudo da mãe. Contudo, sentia que aquele seu passo tinha que ser dado e que ele tinha que ser radical e definitivo. Quisera optar logo por entrar num convento carmelita, mas o seu Director Espiritual opôs-se. Assim, aceitou dedicar a sua vida ao aprofundamento da verdade que descobrira, sobretudo através do estudo do pensamento de São Tomás de Aquino.

Os anos que decorreram entre a sua conversão (1921) e a entrada para o Carmelo (1933) foram duma actividade intensa e ricos em desenvolvimento espiritual. Para além da docência, ela oferecia-se de boamente para fazer conferências sobre assuntos de pedagogia, religião, filosofia e a situação da mulher. Frequentou a abadia beneditina de Beuron, onde passava os momentos mais significativos do ano litúrgico.

Mas a ascensão de A. Hitler ao poder veio bloquear-lhe para sempre o caminho da docência, tanto a ela como a qualquer outra pessoa oriunda do judaísmo. Foi então que se sentiu perfeitamente livre de realizar o seu sonho monástico: entrou para o Carmelo de Colónia na véspera da festa de Santa Teresa de Ávila, em 1933.

A sua idade (42 anos), a sua cultura excepcional, além da fama que já se alargara para fora da Alemanha, não a impediram de viver a vida de noviça e de religiosa na simplicidade e no escondimento.

Por ocasião da tomada de hábito, escolheu o nome de Teresa Benedita da Cruz. Continuou a estudar e a escrever, utilizando a mínima fracção de tempo que tinha à sua disposição: obras religiosas, ensaios filosóficos, traduções e artigos. A 21 de Abril de 1938 fez os votos perpétuos. No último dia daquele ano, Edith teve que se refugiar no convento das Carmelitas de Echt, na Holanda, devido à perseguição nazista contra os judeus. Aproveitou para aprender o holandês e continuou com as suas pesquisas e publicações.

Por fim, no Verão de 1942, enquanto preparava os documentos necessários para ir para a Suíça e tentar escapar à perseguição dos judeus, foi presa. Foi quando disse à irmã Rosa que a acompanhava: “Vem daí, vamos imolar-nos pelo nosso povo”. Foi deportada com outros religiosos para o campo de extermínio de Auschwitz; a 9 de Agosto entrou para a câmara de gás e, assim, veio a coroar com o martírio uma vida de intensa procura da verdade e de seguimento fiel do Cristo.

Uma pessoa estudiosa e mística no contexto da sua história

Edith Stein sempre cultivou um grande interesse pela história, do passado, mas sobretudo do presente. Possuidora de excelentes capacidades especulativas, ela nunca se deixou, porém, fechar nas suas pesquisas científicas ou filosóficas. O seu coração e a sua alma ficaram sempre abertos à realidade do tempo e às vicissitudes, por vezes dramáticas, que atormentaram a Alemanha e a população hebraica. É ela mesma quem no-lo afirma nas suas memórias autobiográficas: «Este amor pela história não se reduzia, para mim, a uma pura e simples imersão romântica no passado; ligava-se-lhe, muito intimamente, uma participação apaixonada nos acontecimentos políticos correntes enquanto devir histórico; e ambos nasciam dum sentido de responsabilidade social excepcionalmente forte, dum sentimento de solidariedade com toda a humanidade e com a comunidade mais próxima» (E. Stein, Storia di una famiglia ebrea, Roma, 1999, p. 173). Ela amava a sua pátria e pagou o preço em primeira pessoa; apaixonou-se pela procura do sentido da história corrente; e empenhou-se na política.

Uma vez tornada cristã, a sua leitura científica da história e o seu empenho sócio-político já não a satisfaziam. Assim, tornou-se cada vez mais forte o seu desejo de discernir os sinais de Deus na história pessoal, na do seu povo, na do seu país e na do mundo inteiro.

Quando já se encontrava fechada na calma do mosteiro de Colónia, Edith vibrava perante as notícias que lhe relatavam o terrível drama que os judeus viviam. Rezava, reflectia e agia. Foi então que escreveu uma carta ao Papa a pedir uma encíclica sobre a questão hebraica. E´ ela mesma que no-lo relata: «Apresentei o meu pedido por escrito; sei que a carta foi enviada lacrada ao Santo Padre, de quem recebi, pouco depois, a bênção, para mim e para os meus parentes. E nada mais» (E. Stein, Sui sentieri della verità - Antologia, Milão, 1991, p. 79).

Através da oração, Edith Stein foi descobrindo, pouco a pouco, nas vicissitudes dramáticas e misteriosas por que ia passando o seu povo, uma vocação toda pessoal: «Debaixo da cruz, eu tive a intuição do destino do povo de Deus, do qual já então havia prenúncios. Pensei que toda a pessoa que compreenda que tudo isto é a cruz de Cristo, deveria pô-la às suas próprias costas em nome de todos os demais. Hoje consigo compreender melhor do que então o que quer dizer ser esposa do Senhor no sinal da cruz, embora nunca se chegue a compreendê-lo completamente, por ser um mistério» (Carta de 9 de Dezembro de 1938).

Com a sua participação nas vicissitudes sociais e políticas da época, Edith Stein convida-nos a comprometermo-nos com o presente e o futuro de todos os povos e de todos os países em que a nossa missão nos colocar, dando eco às palavras do Papa: «O cristianismo é a religião imersa na história» (NMI 5). Em virtude da nossa vocação, a dimensão “social e política” deve ser sempre cultivada com empenho e vivida com seriedade. Enfim, com o seu olhar sereno, Edith pede-nos o empenho, em toda a parte, a bem da ética do respeito, da paz, da convivência, da aceitação da diversidade e do diálogo.

Uma pessoa contemplativa a bem do mundo

Uma vez convertida a Cristo, Edith Stein compreendeu que a sua vida não podia ser vivida senão para Ele. Além disso, as obras de Santa Teresa de Ávila, que foram decisivas para a sua conversão, levaram-na a compreender que a consagração religiosa teria sido o caminho para realizar em pleno o chamamento de Deus. Apoiada por uma índole reflexiva e por uma forte decisão de procurar a verdade, Edith encontrou no Carmelo a sua casa e a realização plena da sua vocação.

Os dez anos que passou no Carmelo foram para ela uma exposição contínua ao ideal contemplativo que, na procura da interioridade, encontra a sua realização plena. «A vida interior é a mais profunda e a mais pura fonte de felicidade para uma Carmelita», escrevia Edith numa carta de 16 de Maio de 1941. Ela explicará depois, mais pormenorizadamente, que sentido tinha para ela esta vida interior, num dos seus últimos escritos, Scienza della Croce: «A alma só se encontra propriamente em casa no seu íntimo, na sua essência e no seu aspecto mais escondido. Com a actividade natural das suas faculdades, ela vai ao encontro do mundo exterior. Mediante a sua outra parte mais rica, ela vai ao centro onde a alma se encontra verdadeiramente em casa, se contempla a si mesma e a sua própria estrutura. A pessoa é, portanto, chamada a viver no seu íntimo, tomando em suas próprias mãos o controle de si mesma, na medida do possível». A pessoa encontra a sua casa nesta interioridade, porque é aqui que encontra Deus.

No entanto, Santa Teresa Benedita da Cruz compreende que a interioridade teria muitas lacunas se não soubesse abrir-se à realidade externa e ao mundo inteiro. É o que confessa numa carta de 12-22-1928: «Antes e logo depois da minha conversão, eu pensava que uma vida entregue à piedade consistisse em viver apenas com o pensamento em Deus; mas depois compreendi que, neste mundo, mais nos é pedido; e que, até na vida mais puramente contemplativa, a relação com o mundo não pode ser cortada. Creio, até, que quanto mais uma pessoa entre em Deus, mais é chamada a sair de si para o mundo, para lhe levar a vida divina». E voltará a afirmá-lo noutra ocasião: «Quanto mais vivemos no recolhimento da nossa própria alma, tanto mais nos treinamos numa atracção que puxa os outros para o seu próprio caminho».

Aqui está, claramente delineado, o binómio de toda a vida apostólica, e que é o mesmo que se afirma na Novo millenio ineunte como exigência dos nossos tempos. «E não será, porventura, um “sinal dos tempos” que hoje se note no mundo, malgrado os extensos processos de secularização, uma vasta exigência de espiritualidade, que em grande parte se exprime exactamente numa renovada necessidade de oração?…Uma oração intensa, sim, que, porém, nada tira ao compromisso com a história: abrir o coração ao amor de Deus também é abri-lo ao amor dos irmãos, tornando-nos capazes de construir a história segundo os desígnios de Deus» (33).

Também nesta acentuação do pensamento de Edith Stein descobrimos o ponto fulcral da nossa espiritualidade missionária, tal como José Allamano queria que a vivêssemos. Se ela for marcada por uma profunda “interioridade”, ela não só elevará a qualidade da nossa vida como até poderá tornar mais fecunda a nossa própria missão.

A ciência da cruz

A cruz ocupa um lugar decisivo na pedagogia da santificação de Santa Teresa Benedita da Cruz e na sua experiência religiosa. É certamente verdade que a cruz continuará sempre a ser o distintivo de cada crente em Cristo, mas na vida de Edith, ela assumiu feições características e de fundamental importância.

O seu primeiro encontro com o mistério da cruz aconteceu em 1917, em casa de Anna Reinach, uma judia que se tornara cristã, e cujo marido, Adolf, tinha morrido na guerra havia pouco e que já tinha sido professor de Edith, e que ela muito admirara. Em vez de entender Anna como uma mulher destruída pelo luto, ela viu-a, antes, como uma amiga cheia duma serenidade inexplicável. Eis como Edith se exprime: «Foi o meu primeiro encontro com a Cruz, a minha primeira experiência da força divina que provém da Cruz e se comunica àqueles que a abraçam…Esse foi o momento exacto em que a minha incredulidade se desmoronou, o judaísmo empalideceu, e Cristo se ergueu diante dos meus olhos: Cristo no mistério da Cruz».

O segundo encontro de Edith com a cruz deu-se durante a leitura da autobiografia de Santa Teresa de Ávila. Porém, com o mistério da cruz, ela bem depressa descobriu o da Ressurreição: o único mistério de morte e de vida, âmago da fé cristã, que bem depressa seria também a sua fé. No interior deste mistério, Edith soube mais tarde viver toda a sua vida cristã, a sua consagração religiosa e até o trágico drama do seu povo mártir da Shoah.

Para Edith, a cruz não foi apenas um mistério para compreender ou para contemplar: foi um ideal para incarnar e viver. Numa carta de 9 de Dezembro de 1939, ela escrevia: «Recebi o nome que tinha pedido. Aos pés da Cruz, eu tinha compreendido o destino do Povo de Deus, que começou então a desvendar-se-me (1933). Eu pensava que aqueles que tinham compreendido que esse destino era a Cruz de Cristo, deveriam tê-la levado às costas em nome de todos. Claro, hoje já conheço melhor o significado de estar desposada com Deus no sinal da Cruz. Mas compreendê-lo mesmo, nunca será possível, porque se trata dum mistério».

Teresa Benedita voltará muitas vezes, nos seus escritos, ao mistério da cruz, especialmente na sua última obra (Scienza della Croce), que acabou por ficar incompleta, e onde a autora procura aprofundar o tema nas suas múltiplas expressões: cruz-sofrimento-purificação, cruz e pecado, cruz como expiação a bem da humanidade. É sobre este último aspecto que Edith se detém com frequência. A 25 de Março de 1939, escrevia à Madre Prioresa: «Querida Madre, peço-lhe que me dê licença para me oferecer como vítima de expiação para impetrar a paz: que o reino do Anticristo, possivelmente sem nenhuma guerra mundial, caia ao chão e se construa uma nova ordem de coisas. Ainda me poderia oferecer hoje, visto que são doze horas. Sei que não sou nada, mas é Jesus que assim quer, e Ele por certo chamará outros mais, nos dias seguintes, a fazerem o mesmo». Ela está perfeitamente convicta da eficácia da Cruz levada com Jesus, pela salvação do mundo: «Toda a pessoa que, na sequência dos tempos, suportou com paciência um destino difícil com o pensamento nos sofrimentos do Salvador, ou voluntariamente assumiu uma vocação de expiação, contribuiu para aliviar o fardo enorme dos pecados da humanidade».

Encontramos em Edith Stein um modelo que nos estimula a aceitar a cruz de cada dia que se manifesta a nós, Missionários, de muitas maneiras: nas nossas limitações, nas nossas fraquezas, na solidariedade com quem sofre, nas canseiras do apostolado. Só a contemplação do rosto sofredor do Crucifixo (cfr. NMI, 25-27) e o acolhimento da lógica da Cruz tornarão eficaz a nossa missão e darão consistência ao nosso compromisso de santidade, segundo as palavras do nosso Fundador: «É através da cruz que nos santificamos, e não através das palavras e nem sequer apenas com orações; elas ajudam, mas o mais importante é levar bem a cruz» (Pietre vive per la Missione, p. 34).

Uma mulher atenta à mulher e ao seu papel na Igreja

Edith foi pioneira no aprofundamento da situação da mulher na Igreja. Foi-o através de variados ensaios de divulgação e conferências, mas sobretudo com a publicação da obra de título: La donna. Il suo compito secondo la natura e la grazia (versão italiana publicada em Roma, em 1987). Nessa obra, sem fazer polémica, mas com visível empenho e paixão, ela descreve o papel da mulher do ponto de vista filosófico-teológico - o que lhe era mais natural.

Sem aprofundarmos os pormenores dessa pesquisa, vamos recordar os pontos que os seus estudiosos têm considerado como as posições mais originais que ela tomou:

- À mulher do seu tempo e de qualquer época, Edith apresenta uma mensagem vigorosa e absorvente, que fica fora das polémicas reivindicativas dos tempos modernos: mulher, sê igual a ti própria! O Criador fez-te única e irrepetível, e as tuas raízes vão até ao mistério de Deus Criador. Ser mulher significa, portanto, participar no plano de Deus criador e ser, no coração da humanidade, sinal e presença do “rosto materno de Deus”.

- Edith Stein não quis simplesmente vir em defesa dos direitos da mulher: ela preferiu abrir e mostrar caminhos mediante os quais a mulher poderá verdadeiramente auto promover-se e auto valorizar-se. Edith exorta homem e mulher a tomarem consciência da sua própria unicidade e, pela promoção das suas próprias qualidades, a atingir a sua realização pessoal.

- Edith não pretendeu tomar posições de força e nem sequer propor soluções definitivas neste terreno. Preferiu chamar a atenção de todos sobre o fundamento último do ser humano, que é o próprio Deus. Ao exortar todos para que reconstruam esse fundamento, Edith indica em que consiste a verdadeira liberdade, a dignidade da pessoa e, portanto, a emancipação da mulher.

- Partindo da perspectiva antropológica, E. Stein deu um contributo válido para a questão feminina, unindo-o depois ao testemunho da sua própria vida, que ofereceu por amor. E precisamente na união entre pesquisa científica e compromisso de vida, ela traçou um caminho privilegiado que, a ser percorrido com atenção e empenho, trará valiosas achegas à solução da questão feminina.

O papel que a mulher desenvolve na sociedade e na Igreja de hoje não tem par. Ele não é apenas de colaboração, e nem tão pouco o de um simples serviço suplente em situações de emergência. Ela pode até realizar o sonho de Edith Stein, que escreveu: “Deus é uno e trino: tal como do Pai procede o Filho e, do Filho e do Pai, o Espírito Santo, assim também a mulher procedeu do homem e, de ambos, procede a posteridade. E ainda: Deus é amor. Mas, entre menos de dois não pode haver amor» (citado em Edith Stein - testimone di oggi, profeta per domani, Roma, 1999, p. 57).

Também a missão e a Igreja serão portadoras do amor de Deus que dá a vida, na altura em que o contributo da mulher e o contributo do homem tiverem acolhimento harmónico e forem valorizados na sua qualidade de reflexo do amor trinitário.  De facto, «a primeira realidade não está em se ser homem ou mulher - mas sim em se ser pessoa humana!»

De que modo falar de Deus depois de Auschwitz?”

Foi com esta pergunta que o Padre Camilo Maccise, Superior Geral dos Carmelitas Descalços, abriu um Simpósio Internacional sobre Edith Stein na Pontifícia Faculdade de Teologia do Teresianum, em Roma, em Outubro de 1998. É com a mesma pergunta que eu desejaria terminar estas minhas reflexões. A doutrina, e sobretudo a vida, de Edith Stein, dão-nos o ensejo de não deixar esta terrível pergunta sem resposta.

Perante os horrorosos males que afligem a humanidade de hoje (pois foi exactamente há um mês que um atentado demoliu as Torres Gémeas de Nova Iorque, fazendo milhares de vítimas), e perante os milhares de crianças que todos os dias morrem de fome, ou a injusta distribuição das riquezas neste nosso planeta, ou mesmo perante o brado cada vez mais insistente dos pobres, a pobreza que estrangula populações inteiras e impede qualquer tipo de desenvolvimento, e até as lutas fratricidas que há decénios continuam nalguns países, é lógico perguntarmo-nos, também hoje: onde estará Deus? Ainda é credível falarmos d’Ele? Como é que o Missionário pode falar de Deus face aos males que afligem a humanidade em que vivemos?

Edith Stein não só procurou penetrar com a sua inteligência no mysterium crucis; ela também, nas palavras da homilia de João Paulo II durante a sua beatificação, «logo desde o momento em que começou a compreender o destino do povo de Israel ‘aos pés da cruz’ (…) acolheu cada vez mais intensamente Jesus Cristo no seu profundo mistério de redenção, para se sentir em unidade espiritual com os múltiplos sofrimentos da pessoa humana e para ajudar a perdoar as injustiças deste mundo, que bradam aos céus». Peçamos-lhe, então, que nos inspire as maneiras que tornem possível e credível anunciar o Evangelho e falar de Deus aos pobres do mundo. À luz da sua doutrina e ensinados pelo seu testemunho, podemos agora formular, pelo menos, três orientações muito úteis:

- a eficácia do nosso anúncio de Deus aos pobres deste mundo será proporcional à nossa capacidade de mostrarmos o Seu rosto de Pai-Mãe que se preocupa com a dignidade de cada pessoa e com os direitos de cada povo;

- a linguagem com que falamos de Deus torna-se compreensível quando cada um nos vir comprometidos no aumento da comunhão, da solidariedade, do diálogo e da fraternidade entre todos;

- mesmo face às situações mais difíceis e trágicas, as nossas referências a Deus devem sempre ir de mãos dadas com a pesquisa e a apresentação de motivos e sinais de esperança.

Não fui capaz de encontrar palavras melhores para concluir a minha digressão sobre este assunto senão no trecho duma oração que foi composta por uma pessoa anónima, condenada à morte em Auschwitz, e me apareceu pela frente quando folheava alguns ensaios sobre Edith Stein:

«Senhor, fazei com que nós sejamos recordados pelos nossos inimigos não como suas vítimas, não como um pesadelo ou como espectros que perseguem os seus passos, mas antes como amparo nas suas lutas para destruir o furor das suas paixões criminosas. Não lhes pediremos nada mais. E quando tudo isto tiver acabado, dai-nos a graça de vivermos como pessoas no meio de pessoas e que a paz volte a esta pobre terra. Paz para os homens de boa vontade e para todos os demais» (Edith Stein - testimone di oggi, profeta per domani, op. cit., p. 6-7).

Conclusão

Que o pedido diário de intercessão, que vamos fazer a Santa Edith Stein durante o ano 2002 na nossa oração, acenda o nosso zelo missionário e nos incite ao aprofundamento do tema bienal: “despenseiros dos mistérios da salvação”. Que o nosso empenho apostólico nunca deixe de ser acompanhado e iluminado pela reflexão e pelo estudo. Que a cruz que tão profundamente marca tanto as nossas actividades como as pessoas com quem trabalhamos possa ser vivida por nós em comunhão com Cristo e como uma oportunidade para nos tornarmos “ministros da salvação” cada vez mais eficazes.

No dia 7 de Outubro faremos o encerramento do nosso Centenário, a nível de Instituto, com uma celebração junto ao túmulo do Beato Allamano em Turim, com a participação de todos os Superiores de circunscrição. Ao mesmo tempo daremos início à consulta inter capitular. Será uma oportunidade para renovarmos a nossa acção de graças a Deus pelo dom do Instituto e pelo bem que se fez nos passados 100 anos. Será também uma óptima oportunidade para toda a nossa Família se voltar para o futuro, apropriando-nos das orientações do Papa na Novo millenio ineunte e aplicando-as à nossa realidade: «O Cristo contemplado e amado convida-nos, uma vez mais, a nos pormos a caminho: “ide, portanto, e ensinai todos os povos, baptizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). O mandato missionário abre-nos o terceiro milénio convidando-nos a ter o mesmo entusiasmo que marcou os primeiros cristãos: podemos contar com a força do mesmo Espírito Santo, que Se infundiu em cada um no Pentecostes e que hoje nos impele a partir de novo, apoiados na esperança “que não conhece desilusão”» (58).

Que a intercessão da nossa Mãe Consolata, do Beato Fundador e de Santa Edith Stein nos acompanhem.

Saudando-vos fraternamente,

P. Piero Trabucco, IMC

(Padre Geral)

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