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À REGIÃO DA ARGENTINA PDF Imprimir E-mail
Por P. Piero Trabucco, IMC   
12 de Março de 2006

Roma, 15 de Novembro de 2001

Caríssimos Missionários da Região da Argentina,

A visita canónica à vossa Região realizou-se no ano centenário do nascimento do Instituto. Esses dois acontecimentos integraram-se de forma harmoniosa, tendo vindo a enriquecer tanto as reflexões comunitárias como as ocasiões comemorativas. Por todo o lado, quer no seio das nossas comunidades, quer no das paróquias, detivemo-nos sobre os seguintes assuntos:

- Sentimos uma necessidade instintiva de voltar ao passado, às nossas raízes, para encontrarmos a nossa identidade, a inspiração e o estímulo para o presente.

- Os aniversários - já no-lo fazia lembrar o Beato Allamano - servem para abrir a nossa vida e o nosso trabalho apostólico ao poder dos ideais da fundação. Fala-se hoje em “re-fundar” os nossos Institutos - não para inventar algo de novo ou de diferente, mas sim para revivermos, no presente, o carisma com aquele vigor e aquele dinamismo próprios do princípio da obra e que o Fundador queria nos seus primeiros discípulos.

- Tanto o jubileu do Instituto como a visita canónica são uma ocasião providencial para olhar em frente. Perguntemo-nos, então: qual será o futuro do Instituto? Que nos esperará para os próximos decénios? Quais são os maiores desafios com que nos deparamos? Estamos prontos para lhes dar uma resposta? De que têmpera deve ser o Missionário da Consolata que, embora inserido neste agitado presente, deve entrever a necessidade de abrir novos caminhos para o segundo século do Instituto?

Estas celebrações culminaram com a assembleia regional de 3 de Outubro, que encerrou com a celebração solene da Eucaristia presidida pelo Núncio Apostólico e contou com a participação de cinco Bispos, muitos sacerdotes, religiosos, missionários leigos e amigos. Muito nos comoveram os largos sinais de amizade por nós e de apreço pela obra missionária dos Missionários e das Missionárias da Consolata que trabalharam na Argentina durante os passados 50 anos.

Um resultado em nada secundário destes momentos de celebração deve ser, para nós, o de encontrarmos nova motivação para apresentar o Instituto, o Fundador, o nosso carisma, a nossa espiritualidade e a vocação IMC às comunidades cristãs, convictos de que, ao fazê-lo, não estaremos a trair a Igreja local mas, pelo contrário, a enriquecê-la com um dom do Espírito Santo. Afinal, bem sabemos que a Igreja de hoje precisa imenso de leigos que saibam interiorizar o espírito do Beato Allamano, o zelo apostólico que o distinguiu, e a sua visão ampla e ecuménica do mundo inteiro.

Ao terminarmos estas palavras de introdução, não queremos deixar de dizer o nosso mais sentido obrigado a todos os que facilitaram a nossa visita de muitas maneiras. Antes de mais, agradecemos a todos vós, caros confrades, por nos terdes esclarecido, em abundância, sobre a vossa vida e o vosso serviço apostólico. E aos que decidiram partilhar connosco a sua caminhada espiritual e a sua vida interior, dizemos: fostes edificantes! Ao Superior Regional, Padre Roberto Lorenzatti, que nos acompanhou numa viagem que contou 7.000 km, nos deu o ensejo de visitar todas as comunidades, e foi tão rico em respostas perante tantas perguntas que lhe fizemos, o nosso muito obrigado. Também queremos deixar aqui um agradecimento especial ao Conselho Regional por ter programado duas reuniões connosco (no começo e no fim da visita): cabe-lhe, agora, a responsabilidade de descobrir a maneira mais eficaz para executar os objectivos e as orientações que a visita canónica apontou.

1. Seis anos de trabalho intenso

A anterior visita canónica, que teve lugar em 1995, exortara a Região da Argentina a empreender uma caminhada dupla e decidida na direcção do melhoramento das nossas obras e da renovação do pessoal a elas afecto. O Capítulo Geral de 1999, que teve por centro das atenções a análise do ad gentes para o Instituto, apontou objectivos bem definidos e convidou os Missionários a tomar decisões com coragem e com clarividência.

Logo no nosso primeiro impacto com a Região notámos que o convite da visita canónica anterior e as orientações do Décimo Capítulo Geral (XCG) não tinham sido em vão. Vejamos quais foram as realizações mais significativas:

- acolhimento e acompanhamento formativo do noviciado continental, que foram cumpridos com dedicação e empenho, apesar da escassez de pessoal;

- empenho no prolongado e, por vezes doloroso, discernimento para o melhoramento qualitativo das nossas obras neste país;

- execução da reestruturação em fidelidade às directivas do Instituto e em conformidade com a sensibilidade da comunidade regional;

- acolhimento cordial do novo pessoal na Região, sobretudo dos confrades africanos e da oferta de ajuda que lhes foi feita em ordem a uma integração eficaz na vida regional;

- o esforço pela instituição de comunidades numericamente significativas, de pelo menos três confrades;

- a coragem demonstrada em enfrentar a questão vocacional, sobretudo mediante a constituição duma equipa integrada numa paróquia especialmente destinada para o efeito;

- o problema dos nossos dois colégios, que há tanto tempo se debatiam entre a dúvida e a esperança, e que já foi levado a peito com vista numa solução de grande alcance;

- a administração dos bens de base para a subsistência da Região ganhou uma solução aparentemente satisfatória, graças ao interesse de todos e à abnegação muito especial de alguns.

1. A reestruturação Regional

Deu-se principalmente nos passados dois anos, mas a sua gestação foi prolongada e trabalhosa. A própria história do IMC na Argentina é reveladora no que se refere a este assunto. De facto, os primeiros anos da nossa presença neste país registaram um movimento contínuo do pessoal, à procura de campos de trabalho capazes de responder ao carisma do Instituto e ao desejo de dedicação missionária do seu pessoal. Assim foi que, passado pouco tempo, se chegou ao nosso estabelecimento em algumas dioceses, o qual veio a durar quase 50 anos contínuos.

O desejo e os pedidos de revisão global das nossas obras começaram a fazer-se sentir com insistência a partir dos primeiros anos da época de 90. Formulavam-se hipóteses e estudavam-se, então, esboços e orientações. Finalmente, o impulso dado pelo XCG foi decisivo para colocar em andamento a respectiva concretização. De forma que, agora, a Região está totalmente envolvida em dois pólos de presença:

- na área de Buenos Aires: há cinco obras IMC - na formação, na AMV, na pastoral e nos serviços regionais, ou à Igreja local. É digna de menção a aceitação recente da paróquia da Consolata, que faz parte expressa do plano de frutuosa conjugação do Centro de Animação Missionária com o trabalho pastoral.

- no norte do país vai-se delineando o segundo pólo: a recente fundação em Jujuy será brevemente seguida de uma outra na diocese de Orán, após a devolução da paróquia de Machagai à diocese de Saenz Peña. Creio que, num futuro não muito distante, também a paróquia de Pirané, em que trabalhamos há já 50 anos, poderá ser devolvida ao clero diocesano. O que permitiria reforçar a nossa presença no norte com uma nova comunidade, que não deverá ficar demasiado longe das que já lá existem.

A aceitação da paróquia de Nossa Senhora da Misericórdia, que fica na zona mais pobre de Mendoza, permitiu-nos continuar o nosso serviço missionário naquela cidade de modo relevante. Mas a sua distância de todos os outros centros da Região permite-nos pensar que, passado que seja um período adequado de trabalho para encaminhar essa comunidade paroquial, o pessoal poderá ser tirado de lá para reforçar os outros dois pólos já mencionados. A não ser que a Região não pense em fundar nesta diocese mais um Centro de AMV.

Durante a visita também se falou da eventual divisão da comunidade de Paso del Rey em duas, embora continuando com uma só paróquia. Essa hipótese, aliás de natureza provisória, foi sugerida mas só no caso de se dar um excedente momentâneo de pessoal e para se darem os primeiros passos na constituição da próxima paróquia. Qualquer iniciativa neste sentido deverá contar com a aceitação do Bispo, sobretudo no que diz respeito à nossa retirada da paróquia actual de Nossa Senhora de Pompeya.

Sobre este assunto, creio que será útil relembrar os critérios que presidiram à primeira fase da reestruturação e que ainda podem encaminhar a próxima fase, ou seja:

- Não se fecha uma paróquia para pura e simplesmente se abrir outra; cada mudança deve ter em mira o verdadeiro melhoramento qualitativo da nossa acção pastoral e missionária;

- Toda a presença IMC se deve caracterizar como centro de irradiação missionária e vocacional, evitando delegar todas as actividades deste sector apenas para o CAM da paróquia da Consolata de Buenos Aires;

- A opção por novas fundações, sobretudo no Norte, também nos garante uma proximidade maior às comunidades, para que se possam tornar mais fáceis os encontros do pessoal missionário, actividades de formação permanente e ajuda recíproca;

- Ao fazer o discernimento das localidades e modalidades de trabalho, devem seguir-se os critérios indicados pelo XCG e pela VII Conferência Regional. O ideal da missão nunca deverá separar-se das possibilidades reais presentes do pessoal, de forma a garantir, depois, a continuidade da obra;

- Cada uma das fases de discernimento deve ter a participação da comunidade regional e sempre, mesmo que a decisão final pertença à Direcção Regional, com a aprovação da Direcção Geral.

1. “O maior bem é o pessoal missionário”

Cuidar do pessoal missionário (cf. VII Conf. Reg., p. 4) é a primeira preocupação do Superior Regional e respectivo Conselho, visto que a actuação missionária duma circunscrição só terá êxito na proporção da qualidade dos próprios missionários. Ora ela não será eficaz se não houver uma aceitação e um empenho efectivo de renovação por parte de cada missionário. É o que os recentes Capítulos Gerais têm reafirmado enfaticamente: as várias iniciativas de formação contínua, que se lançam a todo o momento, devem vir acompanhadas pelo interesse e pelo empenho de cada um. Daí o nosso fraterno convite - aliás nada mais que um eco da preocupação contínua do nosso Pai Fundador: levemos a peito esta formação contínua, sem lhe regatear tempo e cuidado; e reforcemos a nossa convicção de que o trabalho missionário só por si não chega, já que deve vir acompanhado do nosso testemunho de vida.

Assim, seja-me permitido lembrar-vos alguns aspectos referentes à formação contínua e que, aliás, vieram à tona no decorrer da visita às comunidades, como também em diálogos privados:

- A oração: vi com prazer que todas as comunidades conseguem reservar diariamente um mínimo de dois momentos de oração. Esperamos que isso não se torne rotineiro mas, antes, mantenha sempre o valor das coisas que mais contam. Comunidade que reza em conjunto sempre haverá de encontrar os modos e os meios de ficar unida e dar testemunho de comunhão fraterna. A oração comunitária exige e pressupõe a oração pessoal, a reflexão sobre a Palavra de Deus, a devida atenção à centralidade da Eucaristia. Assim, será mais fácil tornar-nos, nós próprios, mestres de oração (cfr. Novo millenio ineunte - NMI): na formação dos jovens, na animação missionária e na pastoral.

- Vou reafirmar uma sugestão que já foi dada na anterior visita canónica, mas que, aparentemente, não foi eficaz: reservai para vós próprios um dia por semana. Deverá ser utilizado para cuidardes de vós próprios e da comunidade: no repouso, no encontro comunitário, na oração mais prolongada. Não tenhais escrúpulos por tirardes um dia por semana às vossas actividades normais, porque bem depressa observareis que os seis dias restantes ganharão em eficácia.

- Também quero reafirmar o valor dos dois tempos fortes de formação contínua que a Região decidiu marcar: um para os exercícios espirituais e a formação, e outro, embora mais curto, a nível de zona. Devo aplaudir a decisão tomada pelo Conselho Regional, de que o primeiro tempo dure dez dias; e que o segundo tempo, devido às grandes distâncias, se dê nas duas zonas (do Norte e do Sul). Que sejam preparados bem; tenham uma duração suficiente para cumprir um programa eficaz; e que cada zona tenha um coordenador que se responsabilize pela sua continuidade.

- Retiros mensais: já estão organizados de maneira regular em Buenos Aires, em turnos, pelas várias comunidades. Continuai com esta iniciativa e não a deixeis ir abaixo. As outras comunidades que se encontram mais dispersas terão de encontrar outras maneiras e dispositivos para os realizarem - ou entre duas comunidades mais próximas, ou em conjunto com o clero diocesano.

- Também notámos que os encontros comunitários semanais ainda sofrem resistência por parte das pessoas. Para fugir-lhes, não tem valor a desculpa de que se dialoga à mesa ou de que há pouca gente na comunidade. Temos que lhes impor um ritmo semanal, se quisermos que resultem e sejam eficazes. Trata-se de um momento privilegiado de diálogo e troca de ideias para aprofundar os temas sugeridos pelo Instituto, para fazer programação de actividades e para avaliá-las de tempos a tempos.

- A Região da Argentina já tem um número bastante representativo de missionários jovens. Já começou um programa de formação para eles, mas deverá ser melhorado e reforçado, sob a coordenação e direcção do próprio Superior Regional. É o que a nossa documentação exige, tal como a necessidade destes jovens, para que melhor se integrem na Região e encontrem respostas pontuais para as suas exigências e para a sua formação.

1. Actividades pastorais e animação missionária

Não nos detivemos muito sobre as actividades pastorais, embora sempre tivéssemos prestado atenção ao relato do vosso trabalho e das vossas iniciativas de evangelização. Afinal, é ao Bispo da diocese e não ao Superior religioso que cabe a obrigação de dar orientações concretas. Apesar disso, gostaria de dar realce a alguns aspectos que também nos dizem respeito na qualidade de Missionários da Consolata e de que não nos podemos eximir.

Talvez tenhamos, até hoje, delegado para outros, e demasiado facilmente, a tarefa da formação na área pastoral, bem como em qualquer reflexão que tenha a ver com a evangelização. Mas, no começo, não se fazia assim: as Conferências de Murang’a ensinam-nos qual deveria ser o nosso empenho com a reflexão sobre este assunto e sobre o contributo todo especial que lhes devemos dar como Missionários da Consolata. O Beato Allamano queria que a nossa pastoral fosse uma pastoral “esclarecida”: quais são os critérios e as opções operacionais que pomos em prática para fazer do nosso trabalho apostólico obra “esclarecida”?

O desenvolvimento recente da teologia dos carismas avisa-nos que já não se pode delegar. Valorizar o carisma missionário no trabalho pastoral é um dever todo específico nosso e é também uma responsabilidade. É por esta razão que se sente no Instituto a necessidade de reflectir, e não só a nível regional, sobre o contributo específico que devemos à evangelização.

Na altura de deixarmos uma paróquia ou uma obra, não pode haver dúvida de que devemos deixar em herança às dioceses comunidades que sejam missionárias, dinâmicas, marianas, sensíveis aos pobres e aos que sofrem, e com um elevado timbre de espiritualidade.

Outra sugestão que queremos fazer é a de preparar uma reflexão, a nível regional, sobre a pastoral das paróquias, tal como sobre as linhas-mestras e as orientações que a guiam, para se poder chegar a um projecto pastoral com critérios comuns. Infelizmente, é frequente o repetir-se de situações de troca de pessoal, com a consequente mudança de estilo e de método pastoral, que acaba por provocar desorientação entre os fiéis. O que disse das comunidades paroquiais também se aplica, e com maior razão, à pastoral dos jovens que está em curso nos nossos dois colégios.

Sobre a animação missionária, simplesmente gostaria de confirmar e reforçar o empenho da Região na caminhada que foi empreendida, ou seja, o do reforço da AMV.

A Argentina é, de facto, um dos países da América com a taxa mais elevada de crescimento numérico em ordenações sacerdotais. Este facto poderá sugerir-nos que o futuro do IMC neste país estará sempre menos inclinado a dar apoio às igrejas com falta de clero e cada vez mais dedicado a favorecer uma animação missionária da Igreja na sua totalidade.

A constituição duma equipa de AMV no centro da capital federal, inserida na realidade da paróquia da Consolata, pareceu-nos ser um projecto válido e merecedor duma tentativa, porque surgiu exactamente da intenção de fazer um novo e decisivo lançamento da animação missionária e vocacional na Região. Houve quem exprimiu certa perplexidade, com base na eventualidade de os Missionários, com o tempo, virem a favorecer mais o trabalho pastoral em prejuízo da AMV. Poderemos evitar esse perigo, se sempre prevalecer o espírito de equipa acima do interesse pessoal, se os objectivos forem claros e aceites por todos, se não se fugir às planificações comunitárias periódicas e às avaliações do trabalho feito. E, depois, também é preciso especificar sempre e cada vez melhor, a caminhada futura que deverá harmonizar o empenho na situação local, com a abertura e o apoio da Região por inteiro.

E porque não sonhar numa segunda comunidade com as mesmas características? Há outras congregações missionárias que estão a chegar à Argentina e se estão a preparar explicitamente para fazer AMV. E nós, que já aí estamos há mais de 50 anos, vamos arriscar-nos a perder o combóio nesta questão de dar uma resposta missionária às necessidades da Igreja?

Mas a acentuação do papel do novo centro de animação missionária não deverá anular aquilo que já várias vezes foi reafirmado no passado, ou seja, que a AMV compete a todos e todos são responsáveis por ela na situação em que se encontram a trabalhar. Além disso, aponte-se para a formação de comunidades que sejam verdadeiros “centros de AMV” nos quais, em conjunto com os Missionários, trabalhem também leigos e religiosos com sensibilidade para a temática missionária e vocacional. Assim, cada uma das nossas comunidades paroquiais deve favorecer, de todas as maneiras possíveis, o crescimento e o desenvolvimento de grupos vocacionais e de grupos missionários.

Quero também dar relevo ao valor significativo que têm para a AMV regional o trabalho do P. Jairo Calderón nas Pontifícias Obras Missionárias e o papel da revista Misiones Consolata. Eles prestam um serviço de qualidade à Igreja Argentina - que deve continuar e deve ser apoiado e partilhado por todos os Missionários da Região.

2. As vocações: promoção e formação

Os jovens deste país - aliás numerosos, vivos e exuberantes - são, sem dúvida alguma, a realidade mais preciosa que Deus confiou ao nosso cuidado pastoral. Eles são o futuro da sociedade e da Igreja; e nós teremos de prestar contas a Deus se não soubermos tratá-los com amor e empenhá-los na construção do Reino.

No final da visita, parece-nos que podemos reafirmar com convicção renovada que a pastoral dos jovens deve ser uma das prioridades da Região da Argentina, que cada missionário e cada comunidade deve assumir com empenho e com decisão, hoje mais do que nunca. Os jovens fazem-nos perguntas e problematizam, cultivam ideais e sonham à larga mas, ao mesmo tempo, têm necessidade de acolhimento e de ser ouvidos. Não os desiludamos com a nossa ausência ou com o nosso magro interesse.

Mas às vezes surge, em alguns Missionários, a dúvida sobre a sua idoneidade para prestar este serviço pastoral devido à sua idade mais avançada. Eu penso que é um erro. Embora seja verdade que o tipo de abordagem possa mudar entre um missionário jovem e outro já de idade, continua também a ser verdade que, se houver vontade de atenção e de aceitação das pessoas, onde quer que se encontrem Missionários prontos a falar de Deus e do Evangelho, e sempre que nos tornarmos disponíveis para partilhar com as pessoas os ideais da nossa vocação, também aí se encontrarão a pastoral vocacional e a pastoral dos jovens.

Encontrámos nas vossas paróquias variados grupos de jovens, vocacionais, e missionários. Que a formação deles não seja delegada a outrem, porque são exactamente os jovens, tal como os doentes, as pessoas que mais precisam da nossa presença. Agradeço a todos os confrades que, com grande disponibilidade se colocam ao serviço da pastoral dos jovens, como animadores ou como formadores, prestando um serviço incomparável ao Instituto e à Igreja. Mas gostaria de exortar todos, jovens e não assim tão jovens, a aceitar este serviço pastoral específico quando lhes for pedido.

A Região da Argentina oferece a todo o continente americano um serviço precioso ao acolher o noviciado continental. Enquanto procuramos, em conjunto com os Superiores Regionais do continente, tornar cada vez mais sólida e internacionalizada a equipa de formação, propomos que esta comunidade se torne em ponto privilegiado de convergência para os confrades da Região, tal como a Casa Regional o é. É este o nosso fraterno convite: que passeis por lá para visitar estes jovens; fazei-lhes sentir que vos interessais, e que são a parte mais preciosa da comunidade regional. Eles precisam de sentir que fazem parte duma família e não apenas parte duma comunidade específica: essa vossa companhia é tão importante na sua formação como a catequese e as reflexões que fazem diariamente.

O que digo do Noviciado, eu o digo também da comunidade dos estudantes de filosofia, no que diz respeito à solidez numérica da equipa, à vossa companhia fraterna e ao interesse de todos na sua formação.

3. O laicado missionário IMC

Em sintonia com as orientações capitulares, a VII Conferência Regional da Região deu atenção a esta realidade que está a nascer e a tomar forma concreta no Instituto inteiro. Ela ainda é jovem, em caminhada, de contornos nem sempre bem definidos, de forma que não faltam interrogações sobre a sua fisionomia concreta. Vós próprios já passastes por isso, a pontos de ter decidido adiar a questão dos Missionários Leigos IMC. Além disso, o facto de trabalhardes em comunidades paroquiais novas aconselhou-vos a suspender o projecto provisoriamente para dar prioridade à formação das comunidades cristãs locais.

A visita às vossas comunidades, que nos deu a oportunidade de ver um laicado vivo e operante em contextos tão variados, sugere-nos que deveis levar em consideração, de novo, e com coragem, o tema do laicado missionário IMC. Favorecem essa ideia vários motivos que passo a enumerar:

- O laicado missionário IMC pretende ser a resposta do Instituto aos leigos que, em estreita colaboração com os Missionários da Consolata, desejam dar um passo adicional na sua doação pela causa do Reino de Deus. Não podemos causar desilusão naqueles que neste momento estão desejosos dum empenho maior na missão da Igreja.

- A Região da Argentina, num passado ainda recente, fez experiências válidas de colaboração com os leigos, tanto a nível paroquial como nos grupos de jovens missionários (cfr. Jumico). A caminhada actual em direcção à constituição do Laicado Missionário IMC não se revela, então, como uma inserção dum corpo estranho no interior da experiência missionária da Região.

- Partilhar com os leigos a espiritualidade e o dinamismo missionário de Allamano é o objectivo final que a constituição do Laicado Missionário IMC pretende atingir. O trajecto dessa marcha pode, portanto, assumir ritmos diferentes e pode variar de Região para Região.

Assim, propomos que ele se percorra com um andamento que reflicta a experiência anterior da Região e a situação concreta actual.

- Sob a coordenação da Direcção Geral, em comunhão com os representantes das várias circunscrições, estamos agora a fazer o estudo dos novos estatutos do Laicado Missionário IMC. Sugerimo-vos, portanto, que participeis para lhe trazerdes a riqueza das experiências anteriores e procurardes, na companhia das outras circunscrições, os esclarecimentos que consigam resolver algumas das vossas dúvidas e dificuldades sobre o assunto.

1. Uma presença de consolação para o país

Aquilo que os Bispos da Argentina escreveram sobre a situação do país no decorrer das suas reuniões e assembleias periódicas, constitui uma denúncia pontual, corajosa e firme dos males que afligem este grande país. Vou citar, como exemplo, algumas das expressões que eles têm usado:

«São muitos os argentinos que se perguntam: que está a acontecer? Também nós reflectimos da mesma maneira e perguntamos: quais serão as causas deste sentimento generalizado de abatimento e de desilusão? Sem dúvida que estamos a atravessar um período muito crítico» (11-11-2000).

«Uns duma maneira e outros doutra, todos têm conhecimento das consequências desta crise: exclusão social e uma ruptura cada vez maior entre ricos e pobres, insegurança, corrupção, violência doméstica e social, falhas graves na educação e na saúde pública, aspectos negativos da globalização e tirania dos mercados. (…). Mas esta crise não consiste apenas em estatísticas. Ela é, antes de mais, um problema humano» (Ibid.).

«A acção política, que é um dos serviços mais nobres que se prestam ao homem e à sociedade, está a tornar-se estéril devido à procura ansiosa, pessoal e sectorial do poder e da riqueza, e está a ser pervertida pelos grupos económicos e financeiros que fazem dela um instrumento dos seus próprios interesses» (12-5-2001).

«Em virtude da sua duração e da sua intensidade, a crise de hierarquia dos valores de que sofrem os nossos governantes, com a respectiva ressonância que têm nas instituições, estão a pôr em perigo a própria identidade e integridade da Nação» (Ibid).

Perante esta crise generalizada, os Bispos não se dão por vencidos; antes, apelam a todas as forças vivas do país para construírem, juntos, um futuro melhor para todos: «Todos, absolutamente todos, e cada qual na missão que Deus lhe confiou na vida, são chamados hoje a entrar em sintonia com as circunstâncias actuais» (11-11-2000). Faz-se um convite especial aos Pastores para que se desdobrem em esforços para recompor o tecido social do país, com base nos valores tradicionais cristãos da justiça, da solidariedade, da fidelidade à palavra dada e da magnanimidade.

Como Missionários da Consolata, nós sentimo-nos interpelados de modo muito particular em virtude do carisma da consolação que está ligado à nossa vocação missionária. Em obediência às orientações dos Bispos e da nossa documentação, vou enumerar algumas opções operacionais que devem estar especialmente presentes na nossa actuação pastoral, na animação missionária e na formação:

- Nas nossas palavras e nas nossas atitudes, não devemos ser semeadores de desconfiança e pessimismo, mas sinais de esperança e optimismo.

- Ensinemos a doutrina social da Igreja; apresentemos aos fiéis as mensagens pastorais dos Bispos; formemos o povo nos valores cristãos, que estão na base de todo e qualquer desenvolvimento que se diga correcto e justo.

- Empenhemo-nos em utilizar o Manual Justiça e Paz na nossa catequese e, especialmente, na formação dos jovens.

- Favoreçamos o reforço da Comissão Regional Justiça e Paz para conseguir o crescimento dos indivíduos e das comunidades na atenção e na sensibilidade para com esta realidade. Além disso, cooperemos na sua difusão entre as comunidades cristãs e nas Igrejas locais.

- Face ao aperto económico generalizado, evitemos com escrúpulo todos os desperdícios e todo o uso leviano do dinheiro que a Providência faz chegar às nossas mãos.

- Procuremos a companhia dos pobres e dos que mais sofrem as consequências desta crise. Apoiemos todas as iniciativas de solidariedade e a acção da Caritas nas nossas comunidades cristãs, favorecendo, assim, o aumento da solidariedade no seio do povo de Deus.

- Não esqueçamos que a oração converte e opera mudanças nos corações com maior eficácia que qualquer outra estratégia pastoral. Rezemos e façamos os outros rezar pelo país, utilizando a oração sugerida pelos Bispos.

1. Administração dos bens em prol da missão

A recente visita do Administrador Geral à Região, tal como a leitura do relatório elaborado pela Administração Regional, deixaram-nos entrever uma situação de relativa serenidade neste campo. A consecução deste objectivo tem raízes profundas e é resultado do empenho não só dos que desenvolveram ou estão a desenvolver um serviço administrativo, como também do esforço de todos os membros da Região em levar por diante, com consciência e empenho, uma administração correcta, evitando despesas inúteis e procurando fundos para as obras missionárias. Mas ainda está muito espalhada pela Região a sensação de que a situação crítica em que se encontra o país poderá ter consequências negativas sobre a nossa situação económica a curto prazo.

Assim, apropriamo-nos de algumas observações que pudemos captar da leitura do relatório financeiro e que poderão tornar-se úteis para um uso cada vez mais correcto dos bens em prol da missão:

- Deve haver empenho em aumentar o sentido da co-responsabilidade mútua e no espírito da partilha dos bens. As metas já alcançadas indicam que aumentou, na Região, a mútua confiança e um maior interesse pelos compromissos regionais, estando a diminuir o individualismo no uso do dinheiro e nos pedidos de ajuda económica.

- Deve haver um inventário de todos os bens que pertençam a uma paróquia ou a uma casa IMC. Eles não são propriedade individual do Missionário: são administrados em nome da Região ou da Diocese. A nível de paróquia, haja o cuidado de tornar co-responsáveis todos os fiéis na manutenção da mesma e no sustento do pessoal que lá trabalha.

- O conhecimento da situação económica da Região será, sem dúvida, um factor de crescimento neste espírito. Portanto, ao menos uma vez por ano, o Administrador Regional deverá apresentar a todos um relatório da situação económica da Região. É oportuno que, para as despesas mais pesadas, se consulte a comunidade regional.

- Em sintonia com a situação crítica que se vive no país, cada Missionário administre os bens que a Providência lhe dá para a missão, com escrúpulo e com grande cuidado.

- Quem detém o cargo de administrador deve ter a oportunidade de receber uma preparação adequada. Que se procurem os modos mais adequados para lha oferecer.

- É desejável que o Administrador Regional possa visitar periodicamente as comunidades locais para ajudar os confrades na área administrativa e manter uma contabilidade correcta.

- É oportuno, e não apenas por razões económicas, que cada paróquia facilite uma colecta de ajuda anual para as nossas casas de formação.

Conclusão

Estamos a concluir esta carta no dia em que, no Instituto, se faz memória dos nossos confrades defuntos. É bom sentir que estamos em comunhão com aqueles que já foram adiante de nós na paz de Deus. Mas também é útil fazer memória destes nossos confrades que, nas várias Regiões do Instituto, escreveram com as suas vidas páginas maravilhosas de história missionária. A Argentina possui, neste campo, tesouros preciosos que se devem conservar e perpetuar, sobretudo em proveito das gerações jovens. Mantenhamos a nossa comunhão com eles e peçamos a sua intercessão!

Por fim, desejamos tornar-nos porta-voz duma vossa tríplice recordação que foi expressa publicamente no decorrer da assembleia final da visita:

 - pelos confrades argentinos que cumprem a sua missão com empenho e dedicação nas várias Regiões do Instituto;

- pelos confrades idosos que, embora já não estejam directamente envolvidos no campo de trabalho, não cessam de contribuir para o bem da Região mediante a oração contínua;

- pelas Regiões da África que presentearam a Argentina com alguns Missionários jovens e entusiastas.

Que a nossa Mãe Consolata e o Beato Allamano vos abençoem e vos acompanhem na vossa missão.

Fraternalmente nos subscrevemos,

P. Piero Trabucco, IMC

(Padre Geral)

P. Aquiléo Fiorentini, IMC

(Conselheiro Continental)

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