Narrow screen resolution Wide screen resolution
PADRE GELINDO SCOTTINI 1933-2001 PDF Imprimir E-mail
Por P. Mario Teodori   
12 de March de 2006

Nasceu a 1 de Outubro de 1933 em Rio do Oeste, Brasil, de Pedro e Eleta Avi. Entrou no Instituto em 1945 pelo Seminário de S. Francisco Xavier de Rio do Oeste. A 2 de Março de 1954, consagrou-se a Deus mediante a profissão religiosa. Fez os estudos de Teologia no Seminário de Santa Teresinha do Menino Jesus em São Manuel e foi ordenado sacerdote a 13 de Dezembro de 1959 pela imposição das mãos de Dom Gregório Warmeling, bispo de Joinville.

Entre 1960 e 1965 trabalhou como assistente e como professor no Seminário de Rio do Oeste, ajudando, ao mesmo tempo, no trabalho pastoral da paróquia, sobretudo na assistência às numerosas capelanias.

Em meados de 1965 partiu para as missões de Moçambique onde trabalhou 9 anos. Juntamente com o P. Vidal Moratelli, foi o primeiro Missionário da Consolata brasileiro a partir para as missões. Em Moçambique, trabalhou na paróquia de Nova Coimbra até 1972 e, depois, em Vila Cabral, sendo director da escola de magistério por dois anos.

De Julho de 1974 a Janeiro de 1976: residiu na Casa Regional, em São Paulo, e foi Director espiritual dos alunos do Seminário Teológico. No triénio 1976-1978 exerceu o cargo de 2º Conselheiro da Região do Brasil e, ao mesmo tempo, desempenhou provisoriamente o cargo de Secretário Regional.

De 1977 a Janeiro de 1978 fez parte da comunidade do Castelinho (actual Centro de Animação Missionária “P.e José Allamano”), como Director substituto dos estudantes de Teologia. Trabalhou em seguida em Erexim (RS), como Director do Seminário. De Fevereiro de 1979 a Dezembro de 1981 foi pa´roco do Santuário-paróquia Nossa Senhora Aqparecida, em Aparecida de São Manuel (SP). Desempenhando ao mesmo tempo o cargo de auxiliar do Mestre de Noviços. De 1982 a 1986 regeu a Paróquia Nossa Senhora da Penha (Bairro Jardim Peri), em São Paulo. Depois de um curso de actualização religiosa e missionária em Roma, voltou a trabalhar na mesma paróquia, como vigário paroquial e encarregado das obras sociais. De 1994 a 1997 exerceu o cargo de Superior da Casa Regional em São Paulo. E de Fevereiro de 1997 a Março de 2001 residiu no Centro de Animação Missionária “José Allamano”, na Pedra Branca, colaborando no trabalho pastoral da paróquia de Nossa Senhora da Penha e na parte administrativa da comunidade do Centro Missionário, até que as forças lho permitiram.

Na noite de 19 de Março, festa de São José, não se sentiu bem. Foi levado prontamente ao Hospital Ana Costa, na vizinha cidade de Santos (SP). Conhecendo a gravidade do caso, os médicos o internaram na U.T.I. No dia 20 de Março foi visitado pelos Padres Eugénio Butti e Joaquim Ferreira Gonçalves, ocasião em que recebeu os sacramentos, em perfeita lucidez. Faleceu às três horas e 50 minutos da madrugada do dia 22 de Março de 2001. Foram múltiplas as causas da morte: choque cardiogénico, infarto agudo do miocárdio, insuficiência coronariana, diabetes mellitus, hipertensão arterial. Tinha 57 anos de idade, 47 de profissão religiosa e 41 de sacerdócio.

O corpo foi trazido a São Paulo e velado na igreja paroquial Nossa Senhora da Penha, no Jardim Peri, onde, no passado recente, trabalhou como pároco durante vários anos. Às 14 horas foi rezada Missa de corpo presente, presidida pelo P.e Agfostinho Romano Zacchetti, Vigário Episcopal, e concelebrada por alguns sacerdotes diocesanos e Missionários da Consolata. Estiveram presentes também os seminaristas de Teologia e numerosas Irmãs da Consolata. Após a leitura do Evangelho. P.e Jordão Maria Pessatti leu o curriculum vitae co-irmão falecido. A seguir, o Vigário Episcopal apresentou as condolências em nome do Cardeal de São Paulo, Dom Cláudio Humes, e focalizou alguns aspectos da vida do falecido: sua disponibilidade e generosidade no trabalho, amor e interesse pela causa das crianças pobres, fortaleza e coragem em suportar a longa e grave enfermidade; alegria e bom-humor na convivência fraterna. Terminadas as exéquias, o cortejo fúnebre rumou para o Cemitério “Chora Menino”, onde está o túmulo dos Missionários da Consolata.

     P. Jordão Maria Pessatti

 

TESTEMUNHOS

“Sou apenas gasto!”

Conviver com P.e Gelindo nos últimos dias que antecederam sua partida “desta para numa melhor” – como popularmente se diz – foi uma experiência marcante para mim, pois o que poderia ser uma convivência “cansativa” com o enfermo, tornou-se uma oportunidade de partilhas e de motivações esperançosas de como podemos superar, ou só mesmo relativizar as enfermidades da vida. A quantos lhe perguntavam como se sentia, P.e Gelindo respondia: “Não sou velho, nem doente, sou apenas gasto!”.

Naquela noite em que ficou esperando por longo tempo no corredor do Pronto Socorro da Praia Grande, embora sentisse fortes dores no peito, ainda reunia forças para confirmar o que havia dito antes: “Podemos evangelizar em qualquer circunstância da nossa vida”. Vendo doentes que entravam na sala de emergência (acidentados, baleados...), gemendo ou gritando de dor, ele me chamou para perto de si e me disse em “portuliano”: “Ha gente peggio di me!”.

Em outra ocasião, quando lhe perguntei se estava com muito sono, ele me disse que não conseguia dormir, nem tampouco o deixávamos dormir (por causa da conversa de enfermeiros e pacientes)... Então chamou o enfermeiro e perguntou-lhe se conhecia alguma coisa a respeito da vida do Papa Pio X... E começou a contar: “Certa noite, o Papa Pio X queria dormir e não conseguia, por causa do barulho compassado das pisadas das botas do guarda pontifício que, de cinco em cinco minutos, passava perto do quarto do Papa. Então Pio X abriu a janela, chamou o guarda e perguntou-lhe:

- Você sabe quem lhe está falando?

- Sei, respondeu o guarda, é o Papa!

- Muito bem, eu sou o Papa e você é o guarda do Papa! Meu filho, já são altas horas da noite e ambos estamos com sono...Vá dormir, que assim eu também dormirei.

Este era o P.e Gelindo que, mesmo em meio aos sofrimentos, encontrava jeito para falar alguma coisa que edificasse; o P.e Gelindo que se emocionava quando se despedia de alguma pessoa querida; que narrava as muitas “estórias” de sua vida missionária; que gostava de contar os sonhos que tivera durante a noite...

Com sei jeito simples, chegava a cativar pessoas carrancudas, sérias e desconhecidas. Dir-se-ia que guardava dentro de si uma dose de simplicidade da criança que atraía com muita facilidade o mundo da infância e da adolescência, durante a celebração das missas, como também em outras circunstâncias.

Padre Gelindo tinha, com certeza, seus defeitos e lacunas, como todo ser humano; e quem conviveu e trabalhou com ele poderia até falar mais detalhadamente sobre isso. Entretanto, a maioria das pessoas que o conheceram, especialmente o povo mais humilde, jamais se esquecerá daquele bom padre que, na jovialidade de seu coração “safenado”, sabia contar alguma anedota, ou sair com alguma expressão original, capaz de criar um ambiente alegre, fazendo com que todos se sentissem à vontade, como esta, que nos últimos tempos de sua doença repetia: “Eu não sou velho, nem doente, sou apenas gasto, pá!”

P. Sérgio Almeida

“…E Deus viu que era bom”

Silenciosamente, deixou tudo e partiu…

O P. Gelindo Scottini foi um grande trabalhador completamente entregue à causa do bem. Trata-se de um dado de facto que comecei a descobrir desde 1974 quando fui visitar a missão de Nova Coimbra pela primeira vez, lá no Lago Niassa, onde trabalhava havia vários anos. O povo gostava dele e ele não se poupava a esforços ou sacrifícios para aliviar o sofrimento daqueles que lhe tinham sido confiados, durante aqueles anos de guerra.

Na escola de magistério de Vila Cabral, hoje conhecida por Lichinga, os alunos apreciavam não só a sua capacidade e seriedade, mas também gostavam do seu estilo simples e alegre de se relacionar. Gostava de cantar e cantava com entusiasmo. Sempre que podia, aproveitava para modular novas vozes sobre a música que tocava. Fazia-o em latim, em português ou em ci-nianja - a língua do lago que amava - sempre que encontrasse alguém que o acompanhasse, explodia nele o prazer de cantar.

Sempre humilde, o P. Gelindo não procurava o protagonismo; soube dar exemplo de pobreza evangélica que, certamente, lhe valeu muita riqueza no céu. Sofria, e via-se, mas ele sempre soube manter o optimismo e a fé, colocando sua vida nas mãos de Deus.

Não creio que estou a exagerar se disser que o P. Gelindo foi um grande exemplo de Missionário da Consolata. Deus, neste caso como no início da criação viu que o P. Gelindo era bom e levou-o consigo para que pudesse contemplar, de perto, este seu querido filho. E agora, lá do céu, continua a cantar os seus cânticos com uma voz ainda mais harmoniosa…E para nós que ficamos, fica o exemplo dum semeador do Evangelho que era incansável e fiel. Fique com Deus, P. Gelindo! E que Ele o faça muito feliz, eternamente feliz, pois você merece!! Até breve, meu irmão.

P. Severino Bordignon

Sempre irmão, tanto na alegria como no sofrimento

Quando recebi a notícia da morte do P. Gelindo, a minha memória voltou aos anos em que trabalhei com ele em Nova Coimbra, agora conhecida por Mechumwa, e depois em Lichinga, na escola de magistério de Nzinje. Voltar a ouvi-lo como se estivesse vivo, com a sua afabilidade à flor da pele, deu-me a oportunidade de reviver momentos de alegria e de elevar a Deus um muito obrigado pela graça de o ter colocado ao meu lado durante tantos anos.

Eram anos tristes, aqueles, cheios de luta pela sobrevivência, guerra, sofrimentos, lágrimas, privações, isolamento, desânimo e guerrilha. Nas planícies do rio Lunho sofria-se todos os dias um verdadeiro purgatório, dramas infinitos, famílias destruídas, decimadas, deportadas. A fome era o pão de cada dia. Tanto de dia como de noite, a metralhadora, a bazuca e o morteiro atroavam por todo o lado.

O P.Gelindo, sempre atento a tudo, saía da aldeia a correr para socorrer os feridos, enxugar as lágrimas dos muitos que ficavam separados das suas famílias, deportados pelos guerrilheiros o pelos actos de represália dos soldados portugueses. E ele, tinha sempre algo de precioso para dar: uma palavra de consolação, uma piada, um sorriso. Não dava dinheiro nem ouro, mas sempre a sua própria pessoa.

O P.Gelindo cantava e cantava sempre. Eram cânticos que os pais, sem o saberem, lhe tinham passado. Eram cantigas tradicionais da região de Trento, que os avós, à procura da sorte, tinham trazido para Santa Catarina (Brasil). Mas, acima de tudo, nunca e mesmo nunca deixava fora do repertório aquela de nome “Boa noite Jesus”. Por vezes, aparecia nele um véu de tristeza: entrevia-se então o seu espírito perturbado: vê-lo assim fazia-me sofrer; mas ele logo se conformava e a serenidade voltava…tornava-se o Gelindo do costume.

Sabia saborear o prazer da feijoada e, ao cantar do galo, quando a noite ainda ia bem alta, enquanto sorvia um cafezinho à brasileira, contava-me os sonhos que tivera: eram momentos maravilhosos, aqueles - de paz e de conforto. Às quatro da manhã já estávamos na igreja, sozinhos, para a meditação, em silêncio. Às vezes abria o coração e contava-me a sua história, desde pequenito até Nova Coimbra. Era duma simplicidade extraordinária. Procurava a face do Senhor a todo o custo: nos torvelinhos da natureza, nos dons que recebera, na sua vocação missionária.

Tinha habilidade para as línguas, até para o ci-nianja; a língua do lago tornara-se a sua língua. Tinha um conhecimento formidável de histórias antigas e, para melhor se incarnar na cultura do lago, sentava-se com gosto nas varandas das casas, junto a multidões de crianças, a ouvir as fábulas e os refrões dos contadores de histórias. Depois, era um prazer ouvi-lo a contá-las, também ele.

Gostava de visitar as comunidades cristãs de Chunga, Metangula, Cobuè e Lupilichi. O meio de transporte mais comum naqueles tempos eram mesmo as suas pernas; mas quando ia a Lupilichi servia-se da avioneta do comandante da Marinha, o Sr. Jesus, que era muito generoso para com os padres missionários. Por lá ficava uma semana; depois voltava todo contente, contando tudo o que tinha realizado.

Recordo-me de que, num Domingo, ao voltar de Chunga, não dizia nada; depois, explodiu num pranto descontrolado e, já a rir, contou-me o que lhe tinha acontecido. Os guerrilheiros da Frelimo tinham entrado na capela à procura de jovens e, naquela confusão, quem foi apanhado foi ele mesmo: arrancaram-lhe os paramentos e aos empurrões, puseram-no fora da capela.

Tinha salvado do fogo o Petulo, um pequenito de 3 anos que tinha ficado ferido na barriga pela explosão duma bomba que fora lançada por um avião português sobre a missão. Infelizmente, a mãe e o bebé que ela trazia às costas não tiveram salvação. E “por Deus”, quase que deixou os ossos em Maniamba. Ele andava nessa missão a recolher material para construir a igreja de Nova Coimbra, que fora danificada por uma bomba. Mas uma noite, caiu uma bomba de morteiro a poucos metros do quarto onde dormia e safou-se por milagre. Voltou à sua missão um mês depois, aproveitando da protecção duma coluna de soldados. Lançando mãos à obra. Reconstruiu a igreja e, com o material que sobrou, ainda conseguiu construir a escola primária.

Quando fui enviado para Unango, acompanhou-ma até Metangula e ali mesmo, em lágrimas, agarrou-me, impedindo-me de entrar para o táxi aéreo…Alguns meses depois, também ele foi enviado, indo parar à escola de magistério de Lichinga, como director. Amou intensamente aquela juventude. Os problemas eram muitos e, às vezes, esgueirava-se para Unango, ficando comigo uma semana. Depois foi enviado para o Brasil, mas nunca esqueceu a sua África.

O tempo passa; mas a recordação que tenho do P.e Gelindo continua bem viva na minha alma. A sua bondade contagiou-me; a sua alegria espontânea curou-me; o seu amor pela missão deu-me sangue novo. Que o bom Deus o tenha na Sua paz e lhe dê tudo aquilo que desejou enquanto viveu neste mundo.

P. Mario Teodori

Fundador

Quem são...

Biênio de Reflexão

Santidade