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II. "QUE VEJAM AS VOSSAS BOAS OBRAS" (Mt. 5, 16) - O TESTEMUNHO DE VIDA - PDF Imprimir E-mail
Por Consolata.org   
12 de March de 2006
Ao descrever os caminhos da missão, a RMi indica o testemunho como "a primeira forma de evangelização" (cfr. 42-43). Já tinha sido esta a ordem proposta pelo decreto conciliar nos números 11-12, onde se esclarece que o testemunho exige uma "presença de caridade", que prepara o ambiente indispensável ao anúncio explícito do mistério de Cristo.
Ao aprofundar este conceito, a encíclica missionária afirma que "a primeira forma de testemunho é a própria vida do missionário (…).O missionário que, apesar de toda as suas limitações e defeitos humanos, vive com simplicidade o modelo de Cristo, é um sinal de Deus e das realidades transcendentes" (42).
Com base na nossa tradição e com a garantia do Magistério da Igreja, vamos agora dar destaque a três aspectos do testemunho relativamente à missão ad gentes: a presença no meio do povo, a espiritualidade da comunhão e a santidade de vida.

1. O missionário vive com o povo

Será proveitoso voltarmos uma vez mais ao que o AG quis dizer a toda a Igreja, mas principalmente aos missionários, descrevendo as várias fases em que a actividade de evangelização se realiza: para estarmos à altura de proclamar a salvação a todos, a Igreja não se deve fechar dentro de si mesma, mas deve integrar-se nos grupos humanos "com a mesma dinâmica com que Cristo, pela sua incarnação, se ligou àquele dado ambiente sociocultural dos homens com quem conviveu" (10). É aqui que se entrevê o tema da inculturação ou da incarnação da mensagem.
Plantada entre os homens, a Igreja manifesta, pelo exemplo de vida evangélica e pela palavra franca, em que consistem a especificidade do mistério de Cristo Salvador e a novidade da sua mensagem (cfr. ibid. 11). Para que esta presença seja um testemunho autêntico, tem que estar inspirada na caridade, que deve alargar-se a todos sem distinções étnicas, sociais ou religiosas. portanto, a Igreja sente a obrigação, e tem o direito, de colaborar com todos aqueles que promovem a pessoa humana em qualquer sector e com qualquer iniciativa, sejam eles governos, grupos sociais ou grupos religiosos (cfr. ibid. 12).
Este impulso conciliar demonstrou ter sido decisivo e gerou aberturas nunca antes imaginadas. Partindo precisamente destas premissas, e quase seguindo o respectivo esquema, a RMi descreve o testemunho como premissa e acompanhamento indispensáveis à evangelização. Remetemo-vos para os números 42-43 da encíclica, que partem da convicção explícita de que "o homem contemporâneo acredita mais nos testemunhos do que nos mestres, mais na experiência do que na doutrina, e mais na vida e nos factos do que nas teorias" (42).
Nós sentimo-nos à vontade neste tipo de considerações. Porque, logo desde o início, os nossos missionários desenvolveram, em comunhão com o Fundador, o método da formação e elevação do ambiente. Na prática, este método tem consistido no convívio espontâneo com as pessoas, num sincero empenho em conhecer a sua vida em todos os campos possíveis. O próprio Fundador confirmou a validade desta atitude na carta circular de 1910 (cfr. Quasi una vita…V, 407-411).
Na sua renovação, o Instituto tem procurado ser fiel a este espírito, como aliás o testemunham as Constituições actualizadas: "Desejamos estar presentes no meio do povo onde trabalhamos de uma maneira simples e fraterna, estabelecendo contactos pessoais, e estando atentos aos seus problemas e necessidades concretas" (73). Também o último Capítulo, ao descrever o significado de "consolação", indica, logo a seguir ao Evangelho, "o convívio com as pessoas" e assim se explica: "O Fundador e os primeiros missionários tiveram a intuição de que o verdadeiro diálogo salvífico ganha muito com uma amigável partilha de vida (…). Esta atitude conserva ainda hoje toda a sua validade" (XCG 49).
A nossa atitude de missionários não pode, portanto, seguir outro caminho. Hoje, tal como ontem, é uma exigência básica do testemunho missionário viver no meio do povo, conhecê-lo e ser solidário com ele num espírito de partilha e colaboração. A reserva e a discrição que a consagração religiosa sugere não exigem que sejamos missionários afastados ou fechados em nós mesmos: nós existimos para as pessoas e para anunciar Cristo Salvador.
Viver no meio do povo significa, além disso, que sejamos solidários com os pobres, em sintonia com a clara opção que a Igreja tem feito nos últimos decénios. De facto, eles são, para nós, a porção preferida do povo de Deus, o locus theologicus do nosso estatuto de missionários, um convite insistente à conversão de vida segundo o conteúdo das Bem-aventuranças, e à fraternidade solidária. Não podemos deixar de adoptar as expressões de João Paulo II numa sua alocução de 23.12.'84: "A Igreja proclamou solenemente fazer sua a opção preferencial pelos pobres. Esta "opção", que os Episcopados da América Latina hoje proclamam com um vigor todo particular, foi repetidamente confirmada por mim…Eu tenho feito e continuo a fazer minha essa "opção"; eu identifico-me com ela. E sinto também que não poderia ser de outro modo, visto que é esta a eterna mensagem do Evangelho: assim fez Cristo, assim fizeram os apóstolos de Cristo; assim fez a Igreja no decorrer da sua história duas vezes milenar".

2. O missionário é perito em comunhão

Quem fala hoje é a nossa comunhão. O nosso trabalho com a Igreja local, com outros missionários, em contacto com os leigos e os numerosos agentes pastorais, exige que sejamos pessoas que fazem da comunhão um estilo de vida. Sabemos que foi sobretudo a vida de amor recíproco e operante das primeiras comunidades cristãs que permitiu ao cristianismo dos primeiros séculos evangelizar a sociedade pagã. Esse milagre pode voltar a acontecer!
A sociedade moderna interpela cada vez mais a nossa capacidade de comunicar Deus aos outros, mesmo sem falar dele. Que é que nos há-de distinguir de outras organizações que trabalham a favor dos povos - por vezes com grande profissionalismo e eficiência estrutural - senão a nossa vida em forma de serviço alegre e amor mútuo? A qualidade das nossas relações de comunhão é a chave da nova evangelização.
Sobre este assunto, o Papa convida-nos, sobretudo a nós, que somos pessoas consagradas e missionários, a que procuremos na espiritualidade da comunhão a chave para o anúncio eficaz e um instrumento precioso para dialogar com todos: "Espiritualidade da comunhão significa, antes de mais, uma olhada do coração, com base no mistério da Trindade que em nós habita, e cuja luz tem que ser colhida até no rosto dos irmãos que estão à nossa volta. Espiritualidade da comunhão significa também capacidade de ouvir o irmão, com fé na unidade do Corpo Místico e, portanto, como 'alguém que me pertence', para saber partilhar das suas alegrias e dos seus sofrimentos, para intuir os seus desejos e cuidar das suas necessidades, para lhe oferecer verdadeira e profunda amizade. Espiritualidade da comunhão também significa ver, antes de mais, o que de positivo existe no outro, para poder acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus…Espiritualidade da comunhão é, por fim, saber 'dar espaço' ao irmão, levando 'o fardo uns dos outros'" (NMI 43).
O apelo do Papa deve encontrar eco muito especial em todos nós em virtude das nossas raízes carismáticas. Como é que não haveríamos de recordar "o espírito de corpo" e o conceito de "acção comum" tão queridos do nosso Pai Fundador? Na nossa tradição, logo a começar com o Fundador, transparece a concepção do Instituto como "corpo unitário" (espírito de corpo e de família), em que cada qual cumpre a sua função, mas na unidade de ideais. É o Instituto que evangeliza como um todo, ainda que os missionários estejam individualmente empenhados em actividades diferentes. A sua eficácia evangelizadora aumenta na proporção do aumento da comunhão entre os seus membros. O que conta é que haja um sentido profundo de "corpo" e que nos sintamos todos igualmente participantes na actividade missionária que a comunidade do Instituto realiza.
Talvez devamos confessar que ainda não tenha desaparecido de nós, por completo, a convicção de que a comunidade é um "obstáculo" para um trabalho missionário eficaz, ou que os confrades de outras culturas sejam um empecilho, em vez de riqueza, para uma fraternidade mais vincada, ou que o meu protagonismo pessoal, em vez da "comunhão de ideais" seja determinante para garantir a eficácia da evangelização. Oxalá uma visita frequente às nossas fontes carismáticas, bem como uma atenção toda especial aos documentos da Igreja e do Instituto, consigam trazer-nos de volta ao caminho de vida que o Beato Allamano sonhou para todos nós.

3. O verdadeiro missionário é o santo

Ao lermos a parte final da RMi, intitulada "o verdadeiro missionário é o santo" (cfr. 90-91), poderíamos ficar com a impressão de que ela foi escrita sob a escolta da doutrina de José Allamano. Claro que não foi esse o caso; mas alegra-nos notar que o Santo Padre, por ocasião do nosso Centenário, quis estabelecer uma ligação entre a sua encíclica missionária e o pensamento do nosso Fundador. O ponto número 3. da Mensagem é, de facto, a síntese daquilo que o Fundador repetiu muitíssimas vezes sobre este assunto. Embora homem realista, ele sonhava com que todos os seus missionários fossem "de primeira qualidade" e dizia: "Devemos ser bons e santos, nós antes de mais; depois tornaremos bons os outros; senão, não seremos bons nem para os outros nem para nós" (Conf I, 279). No pensamento de José Allamano, também a consagração religiosa está ligada ao ideal da santidade: "Se quiserdes ser missionários a preceito, então devereis ser óptimos religiosos; antes de converter os outros é preciso que, antes, sejamos santos" (Conf III, 342; cfr. I, 623, 626; III, 336-342, 436-437). Portanto, o binómio missionário-religioso é, para nós, sinónimo de missionário-santo.
Claro que o empenho com a santidade é uma atitude que é anterior e superior ao testemunho de vida. Neste contexto, consideramo-nos convencidos, por força da experiência, de que os santos são os missionários mais credíveis, porque falam por meio da sua vida. O Fundador dizia: "A excelência (do estatuto de missionário) reconhece-se pelo desejo que todos os santos tiveram de ser missionários, porque estavam cheios de amor por Deus e pelas almas" (Conf III, 370); "Todos os santos são por natureza missionários, porque, em vida, zelaram pela glória de Deus e pela salvação das almas" (Conf III, 349). A Mensagem do Papa tece os seguintes comentários às exortações de José Allamano à santidade: "Não basta renovar os métodos ou os programas para dar novo impulso à missão. Como já tive ocasião de afirmar na encíclica Redemptoris Missio, são necessários antes de mais apóstolos zelosos, porque "o verdadeiro missionário é o santo (90)" (3).


LINHAS DE REFLEXÃO

- Como é que, na tua situação pessoal, realizas a intuição do Fundador que queria que estivéssemos entre as pessoas e solidários com elas? Será que as nossas estruturas missionárias favorecem esta proximidade? Como cultivas o interesse pela aprendizagem da língua e dos costumes do povo com que vives?
- Como achas que deveríamos organizar "a elevação do ambiente" segundo o espírito do Fundador? Que exigências novas nos pede hoje a missão?
- No espírito do Fundador e no da nova evangelização, como é que entendo a espiritualidade da comunhão? Como é que a vivem as comunidades do IMC, no seio da Igreja local, com os fiéis leigos?
- Poderemos ser reconhecidos actualmente como filhos de Allamano pelo empenho com que aprofundamos a vivência do "primeiro santos, depois missionários" e pelo uso dos meios que ele próprio tanto recomendou?
- Será a minha vida actual um "sinal" claro e transparente que dá testemunho de Jesus e do Evangelho às pessoas com quem vivo?

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