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Há um terceiro compromisso que está ligado à missão, e esse é o diálogo - sobretudo o inter-religioso. Desde o decreto Ad Gentes e desde a declaração conciliar Nostra Aetate, este tema tem sido muito aprofundado, de forma que, actualmente, e também por causa das crescentes migrações, ele constitui um dos mais delicados desafios à missão. O Magistério pós-conciliar, especialmente o de Paulo VI e o de João Paulo II, tem intervindo várias vezes na temática do diálogo, na intenção de o promover, de lhe definir os termos e o espírito, e de esclarecer a sua relação com a missão, muito especialmente com o dever do anúncio do mistério de Cristo Salvador. Os respectivos documentos que traduzem essas intervenções são do conhecimento de todos. Vamos limitar-nos a sintetizar os seus conteúdos, para depois sugerirmos as principais atitudes que são exigidas dos missionários. 1. O diálogo, caminho obrigatório para a missão Eis, em resumo, alguns pontos que nos levam a compreender em que realmente consista o diálogo inter-religioso: - Comecemos por esclarecer que a missão ad gentes não se esgota no anúncio e no testemunho: ela inclui outras actividades, entre as quais o diálogo inter-religioso. A RMi fala dele no capítulo que tem por título "Os caminhos da missão" (55-77) e afirma explicitamente que ele "faz parte da missão evangelizadora da Igreja" (55). - O diálogo inter-religioso é um diálogo de salvação, como explica o documento Diálogo e Anúncio (DA), que veio à luz a 19 de Maio de 1991 por obra conjunta do Conselho Pontifício para o Diálogo inter-religioso e da Congregação para a Evangelização dos Povos. A razão fundamental que impele a Igreja para o diálogo é, de facto, e principalmente, de natureza teológica: "Deus, num diálogo que se estende através dos tempos, ofereceu e continua ainda a oferecer a salvação à humanidade. Por isso, para ser fiel à iniciativa divina, a Igreja tem de entrar num diálogo de salvação com todos" (38). Paulo VI, na encíclica Ecclesiam Suam, não hesitou em afirmar que "a Igreja deve ir a diálogo" e que "a Igreja se faz palavra" (192). - O diálogo não nasce da táctica ou do utilitarismo, porque tem motivações religiosas bem claras, tais como: o respeito por tudo o que o Espírito realiza na pessoa; a importância de descobrir "as sementes do Verbo" que se encontram nas tradições religiosas, juntamente com os "sinais da presença do Espírito", que nos ajudam a compreender melhor a mensagem de que somos portadores (RMi 56). - O diálogo tem como pressuposto a paridade entre os dialogantes, que "se refere à igual dignidade pessoal das partes e não aos conteúdos doutrinais, nem sequer mesmo a Jesus Cristo, que é o próprio Deus feito homem, face aos fundadores das outras religiões" (Dominus Jesus -DJ- 22). - As formas de diálogo são múltiplas: diálogo de vida, ou seja, o da convivência ou da partilha entre pessoas; diálogo operante, em que os cristãos colaboram com os demais em actividades de promoção humana; diálogo de intercâmbio teológico, para aprofundar a compreensão das respectivas heranças religiosas; diálogo da experiência religiosa, em que se dá a partilha das riquezas espirituais, tais como a oração, a procura de Deus (DA 42). - O diálogo não dispensa do dever do anúncio, porque está orientado para ele. De facto, o diálogo é tão só uma das acções da Igreja na sua missão ad gentes" (DJ 22). 2. Sentir e fazer diálogo Eis as principais atitudes, e respectivas directrizes práticas, referentes ao diálogo religioso: a. A coragem do diálogo inter-religioso é a primeira atitude a sublinhar. É inútil esconder as dificuldades reais que encontramos no caminho do diálogo: de facto até parece circular por aí um certo pessimismo sobre a sua eficácia ou mesmo sobre a sua conveniência. Assim, por vezes, pode parecer que a vontade de diálogo esteja apenas na parte cristã - então isto transforma-se num travão que dificulta a passagem de uma atitude interior a uma atitude prática, especialmente em relação a certos grupos religiosos mais intransigentes. É verdade que não se encontram orientações claras sobre este ponto na nossa tradição, porque, então, o diálogo não fazia parte dos programas apostólicos da Igreja. Mas agora, o diálogo inter-religioso é considerado indispensável na praxe missionária. Já o nosso Capítulo de 1969, sensível ao impulso dado pelo Concílio, recomendava aos membros do Instituto que estabelecessem "relações de respeito e diálogo com os crentes não cristãos, reconhecendo que Deus, no seu infinito amor, quer que todos os homens sejam salvos (1Tim 2, 4), e que em todas as religiões há sementes e germes da Sua verdade" (190; cfr. também 191-193). O XCG, talvez interpelado pelas dificuldades que os missionários encontram pelo caminho, lança um apelo claro e vigoroso: "o diálogo inter-religioso entrou, assim, de pleno direito, no âmbito da Missão ad gentes, e não podemos eximir-nos a tratar deste tema. Tanto mais que estamos em contacto permanente, angustiante e difícil, com o Islão em África; um pouco por todo o lado encontramos as religiões tradicionais dos povos e novos movimentos religiosos. Iniciámos um trabalho na Ásia, onde o diálogo inter-religioso assume uma importância particular" (71-72). b. A vontade de conhecimento mútuo é o passo seguinte. O desconhecimento do outro cria suspeitas, ao passo que o conhecimento leva à estima mútua. E isto é válido sobretudo no que diz respeito aos conteúdos religiosos. "Um conhecimento e uma compreensão deficientes do credo e das práticas das outras religiões levam à falta de apreço pelo seu significado e, por vezes, até a interpretações erróneas" (DA 52, b). c. Capacidade de auscultação: é uma terceira atitude que é indispensável no diálogo. A auscultação exige serenidade interior, calma, liberdade e inteligência. Eis como o Santo Padre reflecte sobre este tema: "O dever missionário (…) não nos impede de ir para o diálogo intimamente dispostos a ouvir. Sabemos, afinal, que, face ao infinitamente rico mistério da graça (…) na história humana, a Igreja jamais deixará de procurar, com a ajuda do Paráclito, o Espírito da verdade (cfr. Jo 14, 17), a Quem compete exactamente conduzi-la à "plenitude da verdade" (cfr. Jo 16, 13)" (NMI 56). Esta disposição interior de auscultação também tornará possível, da nossa parte, o acolhimento dos aspectos positivos que se encontram nas pessoas de todas as confissões religiosas. d. A quarta atitude consiste em identificarmo-nos sempre com a nossa fé. "A fé fracamente enraizada" é o primeiro obstáculo ao diálogo (cfr. DA 52 , a). Como nos explica a RMi, "O interlocutor deve ser coerente com as suas próprias convicções e tradições religiosas e ficar aberto à compreensão das do outro, sem fingimentos nem recusas, mas na verdade, na humildade, na lealdade, sabendo que o diálogo pode enriquecer a todos. Não deve haver abdicação ou irenismo (…). O diálogo tende à purificação e à conversão interior que, uma vez seguida na docilidade ao Espírito, será espiritualmente frutuosa" (56). e. Um novo modo de pensar: talvez esta seja a atitude mais exigente. E no entanto, é para aqui que nos chama, sem meias palavras, o último Capítulo. Eis algumas expressões particularmente felizes, que merecem aprofundamento: " Não se pode anunciar o Evangelho como se fora dele não existisse nenhuma possibilidade de verdade e salvação. (…) Não pode existir diálogo inter-religioso senão entre duas experiências autênticas de Deus" (XCG 72). E passando às propostas práticas, o Capítulo não hesita em traçar um caminho muito exigente para o diálogo. Depois de ter convidado o Instituto a assumir o diálogo inter-religioso "como rosto, actividade e método novo da missão hoje", pede-se que cada missionário se eduque para o diálogo e assuma atitudes adequadas à sua prática. Principalmente, "rejeite toda a atitude de auto-suficiência, fechamento, intolerância ideológica, fundamentalismo. Coloque-se, pelo contrário, em estado de conversão, a fim de viver a própria fé em profundidade e com convicção" (73). Nesta área, que talvez pouco tenhamos explorado, já podem surgir algumas convicções claras: a missão é de Deus e nós apenas somos humildes colaboradores; o elemento propulsor, decisivo e característico do diálogo inter-religioso autêntico, é o amor que o Espírito Santo infundiu nos nossos corações. Afinal, o amor fala uma língua que toda a criatura pode entender e sempre faz eco espontâneo nos crentes de outras religiões ou entre pessoas de culturas diversas. É neste amor que devemos crescer continuamente, vivendo todas as palavras de Jesus e, sobretudo, seguindo o modelo do Apóstolo dos gentios, esforçando-nos por nos entregarmos "todo a todos". Assim, surgirá espontaneamente, também neste contexto, um anúncio respeitoso, sem a intenção de conquistar alguém, mas apenas como acto de amor. Assim, o caminho indispensável a seguir será o do esvaziamento interior, que nos habilitará a tirar da nossa cabeça ideias, preconceitos e pensamentos que possam constituir obstáculo à aproximação dos irmãos de outras religiões e culturas e nos deixará ver a presença de Deus que salva, na existência de cada criatura. LINHAS DE REFLEXÃO
- Concordas plenamente com a afirmação da RMi de que o diálogo "faz parte da missão evangelizadora da Igreja" (55)? Serias capaz de a fundamentar a partir da tua experiência missionária? - Os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001 modificaram as tuas convicções a respeito do diálogo inter-religioso e das pessoas que têm convicções religiosas diferentes, principalmente as de fé islâmica? - Que elementos carismáticos IMC são capazes de inspirar as melhores atitudes para a realização eficaz do diálogo (convivência com as pessoas, testemunho pessoal do Cristo, justificar a nossa esperança)? - Cultivas uma praxe pastoral corajosa, activa, dentro da doutrina da Igreja, no teu esforço por fazer diálogo inter-religioso? - Para ti, o diálogo é realmente o rosto, a actividade e o novo método da Missão, hoje? - Ainda encontras dentro de ti algumas atitudes que poderiam prejudicar o diálogo, por exemplo, auto-suficiência, fechamento, intolerância ideológica, fundamentalismo? Que poderias fazer para "te converteres" ao diálogo?
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