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IV. "FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM" - A CELEBRAÇÃO DOS MISTÉRIOS DA SALVAÇÃO - PDF Imprimir E-mail
Por P. Piero Trabucco, IMC   
12 de March de 2006
A nossa missão de despenseiros dos mistérios da salvação inclui, por fim, a celebração dos santos mistérios, para além do anúncio, do testemunho e do diálogo. Analogamente, passamos a analisar, sucintamente, a natureza da celebração, o seu nível de enraizamento no nosso carisma, e as atitudes que ela nos exige.

1. Nós celebramos a salvação

A caminhada pessoal de conversão à fé completa-se mediante a integração dos catecúmenos na comunidade, pela celebração dos divinos mistérios e apela à participação na vida da graça. De facto, assim se exprime o decreto conciliar AG: "de seguida, (os catecúmenos) libertos do poder das trevas pela força dos sacramentos da iniciação cristã e sepultados com Cristo, recebem o Espírito de adopção como filhos e celebram a memória da morte e da ressurreição do Senhor com todo o Povo de Deus" (14).
Se a Palavra anunciada é um apelo à fé, a celebração litúrgica é a fé vivida no seio da comunidade reunida à volta de Cristo. De facto, o Senhor enviou os seus Apóstolos não só a pregar a Boa Nova, "mas também a actuar, mediante o Sacrifício, a obra de salvação que anunciavam" (SC 6). E para concretizar essa obra, Cristo torna-se sempre presente na Sua Igreja, especialmente nas acções litúrgicas, de entre as quais se destaca o Sacrifício Eucarístico, que é "fonte e cume de toda a vida cristã" (LG 11; cfr. 1Cor 11, 26).
Decerto que a liturgia não esgota toda a acção salvífica da Igreja, como já vimos anteriormente. Não obstante, ela é o cume para que tende e, ao mesmo tempo, a nascente de onde procede toda a sua virtude (cfr. SC 10). A celebração dos divinos mistérios, nos quais a salvação é ministrada e vivida, é, então, um dos mais exigentes deveres que temos, precisamente porque é o ponto de chegada do caminho da conversão e o princípio da fundação da Igreja (cfr. AG 14.15).

2. A nossa herança

As Constituições apresentam-nos uma síntese simples mas completa do nosso carisma no que toca às celebrações litúrgicas ao promulgarem que "O amor à sagrada liturgia, a maneira devota de a celebrar, de nela participar e de viver o seu espírito, são uma "herança" que o Fundador nos deixou. Ele quer que nos evidenciemos nesta característica e por ela sejamos reconhecidos como seus filhos" (14).
Todos sabemos quanto disse e fez José Allamano para formar os seus missionários na celebração consciente, fervorosa e digna das acções litúrgicas. O "esmero" nas celebrações - como ele próprio admitia com simplicidade - era a "o seu ponto fraco"; e dava graças a Deus por lhe ter dado "este espírito" (cfr. Conf I, 211; III, 181).
Na época de Allamano falava-se geralmente em "cerimónias", mas o espírito com que se vivia a liturgia era iluminado e válido. Basta reler com atenção as exortações do Fundador, para logo nos darmos conta de como era completa a sua compreensão e de quão profunda era a sua fé nos divinos mistérios que se celebram na liturgia (cfr. Conf I, 124-125, 210-211; II, 49, 618; III, 181, 545-547, 689-690).
As convicções do Fundador foram-nos transmitidas com um vigor todo especial. José Allamano pretendia - ou melhor, desejava - poder reconhecer-nos como seus "filhos queridos" (Conf I, 77) precisamente pelo "esmero" nas celebrações. Este deveria ser uma "característica dos Missionários da Consolata" (Conf I, 78), que ele próprio nos transmitia como "sua vontade" (Conf III, 546) e como dádiva: "É minha intenção deixar-vos em herança celebrar sempre muito bem os ritos sagrados" (Conf III, 674). Que não passem despercebidos os dois advérbios que tão bem reflectem a personalidade de Allamano: "sempre" e "muito"!
Podemos afirmar que a nossa Família missionária se tem empenhado, apesar de algumas fraquezas, em cuidar desta preciosa herança. Afinal, o artigo 14 das Constituições, a que já nos referimos, é como que uma conclusão lógica de uma caminhada anterior, por vezes esforçada, feita de fidelidade e de renovação, que teve um dos seus tempos fortes no Capítulo de 1969 (cfr. Doc '69, nn. 42, 298, 314, 459 e outros) e um relançamento significativo no último Capítulo (XCG 54-55).

3. Despenseiros dos mistérios da salvação na liturgia

Perguntemo-nos então: que atitudes devemos cultivar para que a liturgia que celebramos possa constituir e ser reconhecida como realização dos mistérios da salvação? Para responder a esta pergunta, não podemos encontrar nada de melhor que reler integralmente e interpretar a "recomendação" do último Capítulo, que descreve, e quase faz lista, das principais atitudes exigidas.

a. Esforço de compreensão e coerência entre celebração e vida
"O Capítulo recomenda a todos os Missionários que celebrem os mistérios da nossa salvação com alegria, participação, plenitude de significado e espírito, e que se esforcem por viver o que com fé celebram" (XCG 55). Esta atitude tem as suas raízes em José Allamano, que estava convencido de que as cerimónias de per si, ainda que bem sabidas e executadas, de nada serviriam se faltasse nos missionários a consciência clara dos mistérios celebrados e a vontade de os viver (cfr. Conf III, 551, 704).
Aplicando esta convicção à Eucaristia, eis como ele raciocinava: celebrar a Eucaristia é "realizar a Redenção" e "dar a salvação" à humanidade que vive aqui e agora, porque a Santa Missa está directamente ligada ao mistério da paixão, morte e ressurreição do Senhor (cfr. Conf I, 190, 472-473; II, 299-300, 303, 406, 410, 412-413, 609; III, 116, 593, 644, 671). A própria expressão "multiplicar os sacrários", que era tão querida do Fundador, além de exprimir a alegria pela presença de Cristo que reúne à sua volta a nova comunidade cristã, tem um valor soteriológico específico, porque, nas missões, os sacrários são "focos de amor por nós e de misericórdia pelos infiéis" (Conf I. 293). Eis porque o Fundador não ficava satisfeito com uma simples devoção eucarística, mas queria que realmente fôssemos "missionários eucarísticos", "sacramentinos", ou seja, levássemos uma vida centrada na Eucaristia (cfr. Const 12). Este critério de compreensão e de coerência, perspectivado a partir da Eucaristia, aplica-se a todos os outros mistérios que, juntamente com as nossas comunidades, celebramos na liturgia.

b. cumprimento atento e participação dignificada naquilo que celebramos
"Preparem-se as concelebrações com cuidado e sensibilidade pastoral, sem improvisações, sobretudo da homilia" (XCG 55). Também as Constituições falam duma celebração "preparada com esmero" (58).
Bem sabemos que o Fundador exigia preparação, exactidão de cumprimento e dignidade de comportamento nas celebrações litúrgicas. As numerosas citações que acima fizemos também contêm estes elementos. Podemos dizer que a pedagogia de Allamano é muito exigente em relação à "adequação" nas celebrações litúrgicas. Ouçamos, como se fora hoje, qual era o seu desejo em relação às cerimónias: "Esta casa deveria ser sempre um modelo: dá-me tanta alegria vê-las bem cumpridas. Acreditem: se houver amor às cerimónias, haverá muitas bênçãos de Deus (…). Não quero que as façais bem enquanto sou vivo e depois…" (Conf III, 674). Era então o dia 8 de Abril de 1923. Depois de quase 80 anos, por certo que tencionamos ser-lhe fiéis, a fim de que nos possa reconhecer ainda como seus "queridos filhos", ao observar como celebramos e vivemos os tempos litúrgicos.

c. Disposição e capacidade para inculturar e actualizar as celebrações
"Exprimam o mistério de Cristo com uma linguagem e sinais compreensíveis, em sintonia com a realidade e a vida das pessoas. Na celebração da salvação faça-se entrar e exprimir a vida das comunidades cristãs e da humanidade, com as suas alegrias e sofrimentos, riquezas e fraquezas, de modo que seja verdadeiramente salvífica, transformando o comportamento e o relacionamento das pessoas, levando à conversão e à reconciliação; para que dê consolação e vida, sare as feridas (…); suscite o compromisso nas actividades de caridade, apostolado e Missão" (XCG 55-56). E também as Constituições seguem a mesma linha: "A celebração dos mistérios da salvação…seja activamente participada, torne-se fonte de meditação e oração, e estímulo para as obras de caridade e de apostolado" (58).
Temos consciência do problema, nada fácil, da linguagem litúrgica, que não tem apenas a ver com as palavras a pronunciar, mas com toda a questão dos gestos e dos sinais a usar nas celebrações. O objectivo é facilitar a passagem, durante e por meio das celebrações, do divino ao humano, do mistério à vida, e vice-versa. Um tal objectivo exige de nós, que presidimos, uma sensibilidade especial, abertura e capacidade de entrar em sintonia com a comunidade que celebra. De facto, ela tem o dever e o direito de cumprir uma participação consciente, actualizada e personalizada, o mais possível, nos sagrados mistérios.
Não esqueçamos que somos herdeiros de um espírito litúrgico muito intenso, o de José Allamano. E tendo à mão todo este potencial, não será difícil acompanhar as nossas comunidades na entrada, o mais dinâmica possível, na dinâmica da salvação mediante celebrações que estejam à altura de conjugar o Mistério de Cristo com a sua vida concreta.

LINHAS DE REFLEXÃO

- "O amor pela sagrada liturgia, a maneira fervorosa e dignificada de a celebrar, nela participar e colher o seu espírito, é uma 'herança' que o Fundador nos deixou": será que ainda somos fiéis a esta herança? Dá exemplos da tua resposta depois de teres analisado o teu ministério pastoral e o dos Missionários da tua circunscrição.
- Passa em revista os dois momentos litúrgicos mais significativos do teu dia e tece um comentário ao que as Constituições exigem de nós sobre:
· A Eucaristia: "deve impregnar os nosso pensamentos, palavras e acções, ao longo de todo o dia. Da riqueza e profundidade da nossa vida eucarística deriva a força para o nosso apostolado, a irradiação da nossa fé, o íman com que atraímos as pessoas para Cristo" (Const 63).
· A Liturgia das Horas: "Através da Liturgia das Horas, tornamo-nos 'voz de Cristo', que suplica ao Pai a salvação da humanidade, e exercemos a função materna da Igreja de levar os homens a Deus" (Const 66).
- Que consequências concretas já produziu no teu trabalho pastoral-missionário esta "característica" que o Fundador confiou ao Instituto?
- Que relação existe entre a celebração litúrgica da tua comunidade e os outros caminhos de proclamação da salvação: anúncio, diálogo e promoção humana?
- Achas que a tua acção missionária ainda sofre de alguma "sacramentalização" apressada?

Conclusão

Recordando o convite que o Santo Padre fez a toda a Igreja ao encerrar o Grande Jubileu - "Para a frente, com esperança! Abre-se diante da Igreja um novo milénio, à maneira de um vasto oceano, para o qual nos podemos aventurar, contando com a ajuda de Cristo" (NMI 58) - nós, Missionários da Consolata, lançamo-nos para empreender um novo século de evangelização, firmando-nos nas pegadas de Cristo e olhando para o exemplo de muitos dos nossos confrades que foram "santos".
Sentimos que está especialmente próxima de nós a presença da Consolata: que "se dignou emprestar-nos o seu nome e nos acolheu sob o seu manto" (Conf III, 387), que "fez milagres diários pelo Instituto" (Conf II, 308), que "é nossa mãe, de quem nos gloriamos ser filhos predilectos" (Conf I, 177), e que "temos sempre perto de nós, até mesmo na África" (Conf II, 317), porque é Ela que "converte os corações" (Conf II, 273).
Reafirmemos o nosso compromisso de sermos autênticos "filhos de Allamano". Enquanto viveu neste mundo, ele próprio arranjava maneira de garantir a sua presença de pai e de educador, quer na comunidade quer ao lado de cada missionário. Esta presença - e disso temos a certeza - ficou-nos garantida, mesmo no momento actual. Temos uma sua promessa que nos parece ouvir: "Esta noite, os nossos missionários vão partir (…). Um deles ainda há pouco me dizia: "Vou-me embora e nunca mais voltarei a vê-lo". E eu respondi: ora, ver-me-ás no céu! E quando estiver lá em cima, ainda vos abençoarei mais: estarei sempre à varanda" (Conf Irmãs II, 482; cfr. Conf III, 234, 691).
Contando com Cristo, que é único e universal Salvador, com a protecção de Maria Consolata, e com a bênção do Fundador, reafirmemos, com alegria e com esperança, a nossa vontade de "nos aventurarmos para o vasto oceano" da missão: "Duc in altum!" - Faz-te ao largo! (Lc 5, 4).
Com estes votos vos saudamos fraternamente,

P. Piero Trabucco, IMC
P. Antonio Bellagamba, IMC
P. Norberto Ribeiro Louro, IMC
P. Aquiléo Fiorentini, IMC
P. Jean André Benedetti, IMC

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