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PADRE SERGI DONATO (1915-2001) PDF Imprimir E-mail
Por P. Norberto Louro   
12 de March de 2006

Era filho de Salvatore e Bisanti Teresa e nasceu a 12.4.1915 em Galiano del Capo (LC). Entrou para o Instituto em 1934, quando já era estudante do secundário. Fez os estudos eclesiásticos na Casa Mãe e na Certosa di Pesio. Em 1937 consagrou-se a Deus com a profissão religiosa e, em 1941, foi ordenado sacerdote.
Durante a guerra (1941-1945), trabalhou no Seminário Menor de Vittorio Veneto como professor de italiano, de latim, de matemática e de geometria. Em 1946 partiu para Moçambique, onde ficou 14 anos, até 1960. Primeiro foi enviado para Unango; depois para Marrere - sendo o seu trabalho, uma vez mais, o de ensinar. A 26.7.1947, ao escrever aos postulantes da Casa Mãe, dizia: "Eu, sem saber com que mérito, vejo-me chamado 'professor universitário'. As matérias são: latim, aos seminaristas. Latim….ainda bem que o ensinei por algum tempo na Itália…e religião. Neste caso, também nada mal, já que posso muito bem ser catequista. A seguir, vem a matemática e a geometria. Ai! É aqui que o pensamento se abre para o campo da luta e do heroismo.
Desta forma, ao deixar a Itália, sulcando os mares durante alguns meses e chegando à terra dos infiéis…não mudei de situação: o mesmo trabalho e, como quereis saber tudo, devo acrescentar: até o mesmo horário, com a única variante de que o jantar em vez de ser às oito é às sete e meia!"
O trabalho na escola era uma espécie de prisão, o que o levou a sentir a necessidade de fazer um apostolado mais vasto e em contacto directo com o povo. O padre Sergi gostava de andar com o povo e, cheio de entusiasmo, embora um pouco incerto, lançou-se para a pastoral das aldeias. Numa linda carta que escreveu de Unango em 12.9.1947, e também aos seminaristas de Turim, contava o seu método de apostolado: "Nas quintas-feiras de manhã, acompanhado pelo Eugénio, o meu intérprete, parto para dar a minha volta, escolhendo como meta ou uma ou outra das aldeias que me foram entregues. Claro que, ao nos afastarmos de casa, ou pela estrada ou pelos carreiros, sentimos um santo orgulho e uma grande alegria, sobretudo a princípio. Vamos, sim. Mas parta junto de quem? Com que dificuldades? Com que meios?
Antes de tudo vem a dificuldade da língua: é tão difícil esta língua scyao, e eu sei tão pouco ou nada. E no entanto é preciso ir, começar. Procuro decorar bem a fórmula de saudação: "quam-bone", que dá para todas as horas, para todas as pessoas e para todas as ocasiões. E o resto? Veremos. O Eugénio fará a tradução.
E os meios?…Em primeiro lugar estão Deus e a oração. Mas confesso que já não estou de harmonia com o evangelho. De facto, diz Jesus que quando vamos assim, com a finalidade de fazer apostolado missionário, é preciso deixar a casa e tudo o resto, tal como o alforge e o bordão. Mas as freiras fizeram-me três sacolas: uma para amendoins, outra para o sal, e uma terceira para o açúcar. Depois ponho-me a pensar: quando não puder atrair as pessoas e fazer-me entender com a palavra, far-me-ei entender e atrairei as pessoas ao menos com estas coisas.
Mas poucas semanas tinham passado e já o padre Ferrero me escrevia, em resposta, a avisar-me para não fazer o apostolado dos presentes, que seria inútil e prejudicial: dentro em pouco os negros ficariam amigos só por interesse e, sem presentes, nada mais se poderia fazer. Nada disso: é preciso atraí-los interessando-nos pela sua vida, as suas famílias, com a bondade. E é verdade…cuidado portanto em não se deixar manipular pelos presentes. Mas eu, como se trata das primeiras vezes e como sou ainda pata-tenra, ainda ponho as três sacolas a funcionar - por enquanto.
E vamos…Mas vamos ter com quem? Trata-se de gente por natureza desconfiada e maometana. Quando saímos pela primeira vez eu perguntei ao Eugénio: "Não se sentirão ofendidos por irmos visitá-los na sua própria aldeia?". "Não, respondeu o rapaz. Só se fossem outros brancos a fazê-lo. Com os padres isso não acontece porque eles nunca lhes fizeram mal…". Chegados à aldeia, demos com as cabanas quase todas fechadas: as pessoas tinham ido para as terras trabalhar. A primeira pessoa que encontrámos foi uma senhora com uma criança nos braços e acompanhada por uma rapariga de talvez 15 anos. Disparei logo o meu "quam-bone", a que ela respondeu com um longo "ehhh…", que quer dizer obrigado".
Aproximei-me dela para falar, com o Eugénio a traduzir. O bebé agarrava-se com unhas e dentes à mãe. Escondeu a o rosto no seu pescoço e virou-se a chorar: e eu, lanço a mão à sacola do açúcar. A rapariga entrou na cabana e voltou para nos apresentar uma cestinha com frutos do bosque: uma espécie de nêsperas bravas. Só pude provar…
O gesto daquela senhora revelou-me que tinha bom coração e eu senti-me confortado com isso. Mais adiante, vi dois homens a conversar. "Quam-bone". "Ehhh….". Fiquei um bocadinho em sua companhia. O mais velho pediu-me sal; o outro não quis rebaixar-se com essas nicas, mas ficou contente quando o dei também a ele. Conversei com o primeiro, que parecia ser o mais tagarela. Falámos do vento e da chuva , e ambos constatámos que ele era mesmo velho. Mas "força, disse-lhe eu, quando chegares ao céu ficas novo outra vez". O velho riu-se, para logo me perguntar: "Se eu vier à missão, dás-me mais um pouco de sal?". "Sim, disse eu, mas terás que vir mesmo à missão. E porque é que ainda não foste lá?". "Ehhh…porque eu sou velho e tenho que caminhar com um bordão. Queres ver?" E começou a andar em marcha, embora curvo, para trás e para a frente, diante da cabana. "Muito bem, deves ter sido um rapaz jeitoso quando eras jovem". Mas hoje, naquele gesto e naquela roupa dir-se-ia que era um antigo e lendário rei! Esta cena cheia de humor passou e eu disse-lhes adeus.
A minha visita continuou. As crianças, ao verem-me aparecer ao longe, fugiram e esconderam-se. Os avós e as mães, como é de esperar, riam-se de contentamento. Os mais corajosos, como quem quisesse esperar o inimigo sem arredar pé, ao notarem a minha chegada, alegre e a chamá-los pelo nome, descontrolam-se, voltam as costas e põem-se a andar, numa gritaria. Que fazer? Mãos ao açúcar, mãos aos amendoins, mãos ao sal…e ei-los a saltar de tudo quanto é lado, já amigos, sem medo. E quando a visita acaba, seguem-me como uma turba, alegres e durante bastante tempo, já fora da aldeia. É cena que se repete, sobretudo às primeiras vezes.
E como ficou a religião?…Não disse palavra. Falar dela seria, por ora, um erro - que os ofenderia e alienaria. Até seria inútil: porque estes negros se esconderiam sempre atrás das respostas do costume: "Eu já tenho uma religião…é o poder de Deus que me segura. Se Deus quiser, então haverei de me converter…" E mesmo que, a certo ponto, e pelo menos na aparência, nos digam: "Senhor Padre, tem razão!".
Mas afinal em que consistiu o trabalho do apostolado de uma e tantas vezes?…Em conversar e rir com os negros?…E poderá chamar-se apostolado esta estúpida perda de tempo?…Fiquei preocupado com este pensamento e, ao chegar a casa perguntei à Irmã Amabile, que já tem idade e conhece e ama esta gente tal como o avarento o seu dinheiro: "Como faz quando visita as aldeias?…De que fala?…Eu faço assim e assim: vale a pena?…". "Eu faço o mesmo - diz-me ela - e não se pode exigir mais: fala-se, fazem-se perguntas, ri-se mesmo quando não há vontade nenhuma disso…Por ora, que mais podemos fazer senão torná-los amigos nossos?". Deo Gratias! A hora de Deus tem tempo marcado".

Um vez abandonado o ensino, no ano de 1951, o padre Sergi dedicou-se exclusivamente à pastoral paroquial nas missões de Mitúcue, Maiaca Manor e Mana Mitúcue. Era um ambiente muçulmano, totalmente refractário à palavra cristã. Mas ele soube fazer-se aceitar pelos discípulos de Maomé graças àquela carga de amizade simples e cordial que conseguia espalhar à sua volta e graças à generosidade com que ajudava todos os que se encontravam em apuros.
O segredo que o alimentava e o tornava fecundo era o mesmo que revelara aos seminaristas de Turim: "…se quiserdes que o vosso entusiasmo ardente não seja nem hoje nem amanhã uma fogueira de palha, procurai treinar-vos desde já - mas a fundo e com verdadeira convicção - em duas virtudes sem as quais nada valemos: humildade e obediência; principalmente a humildade, pois é por meio dela que, conforme nos ensina o evangelho - saberemos repetir divinamente o "somos servos inúteis", mesmo depois de termos feito muito. Porque, meus caros seminaristas, quando como eu - não digo já que tenhais cabelos brancos, mas antes não tereis cabelo nenhum - e tiverdes os pés já fora da Itália e tiverdes sulcado e deslizado muitos dias pelas águas, começareis a compreender, como eu já comecei a compreender, que é muito importante sermos humildes e sermos obedientes para valermos e fazermos qualquer coisa no mundo" (Unango, 26.6.1947).
O padre Sergi foi enviado para Portugal no ano de 1960. Começou a trabalhar como coadjutor na paróquia de Campolide (Lisboa). Passado um ano, pôde mais uma vez obedecer cegamente (como era costume) e foi transferido para Fátima como superior do seminário. Ao escrever ao padre Domenico Fiorina, Superior Geral, dizia: "Pronto: pela maneira como me chamaram, pareceu-me ser clara a vontade de Deus, a de aceitar e, por isso, nem sequer pensei em avançar com um não de conveniência, embora sinceramente, e muito, me custasse deixar Campolide, onde já me tinha ambientado e me sentia tão bem com os meus queridos e bons paroquianos que, para mim, eram como uma família…" (Fátima, 27.7.1961).
E o padre Donato deu provas de humildade e de fraternidade na comunidade que foi chamado a dirigir: "Já assumi o cargo e não pude nem posso garantir nenhumas qualidades especiais aos confrades: só me apresentei e apresentei a minha boa vontade. Mas, graças a Deus, devo e quero dizer, que encontrei aqui um ambiente com confrades muito bem dispostos a meu respeito: acolhedor, compreensivo, desejoso de ajudar…de forma que até ao presente, ainda não senti medo algum do cargo…A encerrar, garanto-lhe que procurarei sempre merecer este afecto e esta boa disposição dos confrades, tanto porque é meu dever, como porque isso é a primeira e melhor condição para trabalhar bem e construir o reino de Deus" (ibidem).
Em 1963, o padre Sergi pediu insistentemente ao Superior Geral para regressar à missão: "sim, até estou disposto a voltar para a missão; volto de boa vontade, tal como o merecem Deus, os confrades e as almas. Quero que se sinta completamente livre de me mandar, sem considerações humanas, como se nunca tivesse estado na Itália, em Lisboa ou sido superior…". Mas a vontade de Deus dispôs tudo de maneira diferente e ele foi enviado para Ermesinde (1963-1968) como superior do Seminário. A propósito do trabalho que lá desenvolveu, escreve o padre Jaime Marques: "Para além da sua serenidade, da sua simplicidade e da sua alegria, bem recordo a sua profunda dedicação aos seminários. Sentia o dever de procurar os meios para ajudar a manter as várias dezenas de seminaristas. Eram tempos difíceis aqueles, que também se reflectiam nas nossas obras. O padre Sergi não se poupava a sacrifícios. Logo no princípio da semana, ele saía com o seu velho carro e percorria as estradas do Ribatejo e do Alentejo, onde tinha muitos conhecimentos de quem esperava almas abertas à causa. Foi ele que alargou o conhecimento do nosso Instituto e arranjou muitos benfeitores, passando de casa em casa. Ao fim da semana ele voltava a Fátima com o carro cheio de tudo e muitas promessas. Muitos quilómetros e muitos sacrifícios! Enquanto trabalhou no Norte, em Ermesinde, fez o mesmo. O padre Sergi foi um bom servo da missão, dedicando-se de alma e corpo à formação e à assistência dos futuros missionários. Que Deus te pague, padre Sergi! Só por isto, já merecerias o prémio dos apóstolos".
Entre 1978 e 1974, o padre Donato trabalhou na pastoral, como pároco do bairro da Serafina e, depois, desde 1974 até à morte, como capelão na paróquia de Campolide (em Lisboa), e no Asilo dos Velhos da mesma paróquia.
A 15 de Outubro de 2001 foi internado no hospital devido a enfarte do miocárdio, com complicações respiratórias. A situação não melhorou e, assim, foi-se apagando pouco a pouco como uma vela. A 13 de Novembro de 2001, foi para o Pai. Foi-se serenamente, deixando a todos um exemplo de fidelidade à vocação, de bom humor, de dedicação exemplar e de vida coerente.
O seu funeral foi no dia 15: depois da missa, no Asilo dos Velhos, que foi presidida pelo seu grande amigo, o Padre Miguel, antigo pároco de Campolide, e contou com 15 concelebrantes, o cortejo fúnebre chegou a Fátima. O funeral continuou na capela do Seminário, com o Superior Regional, Padre Luís Tomás, a presidir. Estavam presentes numerosos sacerdotes, religiosos e religiosas, e mais de 200 pessoas. Dom Tomás da Silva Nunes, bispo auxiliar de Lisboa e grande amigo do defunto, também participou na concelebração, fazendo a homilia. Disse, entre outras coisas: "Hoje celebramos a festa de Santo Alberto Magno, que teve duas grandes virtudes no mais alto grau: a fé e a sabedoria. Também encontramos estas duas virtudes na vida do padre Sergi: serviu a Deus sem nunca perder o contacto com os homens". No final da celebração, os restos mortais do padre Sergi foram transferidos para o cemitério de Fátima e enterrados no espaço que está reservado aos nossos missionários.
Redacção de Casa Madre


TESTEMUNHOS

Coração de jovem
Para nós, Irmãs dos Pobres, o Padre Donato Sergi foi sacerdote autêntico. Estava sempre e totalmente disponível para tudo e para todos. Apesar dos seus 86 anos, tinha um coração de jovem. O seu sorriso, a sua palavra de conforto, por vezes com boa dose de humor, ajudou muito os idosos desta casa, levando alguns a voltarem a encontrar o seu Deus.
Irmã Celeste

Sacerdote a tempo inteiro
O seu ideal era ser sacerdote a tempo inteiro, gastando-se em celebrações, confissões, enterros, bênçãos e visitas aos doentes. A Paróquia de São Vicente de Paulo deve-lhe muito. Em Campolide não há ninguém que não conheça o Padre Sergi: porque o encontraram pelo caminho, no carro, em visitas aos doentes, em qualquer transacção, ou quando passava duma paróquia para a outra para ajudar os colegas.
P. Francisco Pereira Crespo
Consolador dos aflitos
O Padre Sergi tinha muito afecto pelos doentes. Quando o chamavam à hora do almoço, deixava o prato e saía imediatamente. Eram muitos os que o procuravam. Muita gente, até mesmo padres, vinham à procura do seu conselho. Sabia consolar os aflitos, levantar-lhes o moral e dar-lhes coragem. Até pelo telefone lhe pediam ajuda e consolação.
P. Natale Villanova
Simpático e amável
Conheci o padre Donato Sergi em Turim em 1933, durante o Curso de Teologia. Era um jovem simpático, de quem todos gostavam devido às suas piadas e coisas do género. Era pessoa de fé e oração; tinha grande devoção ao Santíssimo Sacramento e a Nossa Senhora da Consolata. No dia 19 de Outubro de 2001 telefonou-me a pedir-me que o fosse visitar. E disse-me: "Senhor Padre, estou a morrer. Ajude-me a preparar-me bem para a morte!".
P. Giuseppe Zintu
Um amigo até ao fim
Durante a viagem que eu fiz na companhia do padre Sergi a caminho das missões de Moçambique, ele manifestou sempre grande alegria. Era muito sociável e muito fraterno. Foi um grande amigo meu; fazia-me as suas confidências e revelava verdadeiro espírito missionário. Passados alguns anos, quando eu passei algum tempo no Seminário de Águas Santas (Ermesinde), a companhia do padre Sergi foi mesmo agradável. Constatei quanto se sacrificava para ajudar aquela comunidade.
P. Giuseppe Bottacin
Homem de grande simplicidade e experiência
O padre Sergi foi uma pessoa que me marcou profundamente, visto que me encontrei em sua companhia logo no começo do meu serviço sacerdotal e missionário, no Seminário de Ermesinde, entre 1964 e 1967. Era pessoa muito simples, mas de grande perspicácia. Deve ter tido muita paciência comigo, que era novato e sem experiência. Infelizmente, eu não soube tirar melhor partido, nem da sua inteligência nem da sua enorme experiência sacerdotal e missionária. Sempre nos relacionámos muito bem, pois que ele estava animado de óptimo espírito, que a todos conquistava. Guardo dele as melhores recordações. Descansa em paz!
P. Norberto Louro

Fundador

Quem são...

Biênio de Reflexão

Santidade