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Carta do Superior Geral PDF Imprimir E-mail
Por P. Piero Trabucco, IMC   
12 de March de 2006

Roma, 19 de Março de 2002


"COUPER COURT"
- CORTAR PELA RAIZ -


Caríssimos Missionários,

A expressão "couper court", que foi usada pela primeira vez nas obras espirituais de S. Francisco de Sales, tornou-se célebre e passou a fazer parte da espiritualidade, principalmente dos Mosteiros da Visitação. Lê-se, por exemplo, na biografia deste Santo Bispo de Genebra que, poucos anos antes da morte, num retiro feito em Lião, ele terá exclamado: "É preciso cortar pela raiz (couper court) em relação a tudo aquilo que não ajuda no nosso bem espiritual (…). Todos sabemos que os bens terrenos são motivos poderosos de dissipação… Nós cortamos pela raiz".
O Boletim do IMC dá-me o ensejo de mencionar e aprofundar vários assuntos que interessam à nossa vida e à missão. Por isso, nesta reflexão, pensei em retirar das obras de S. Francisco de Sales, Protector do ano passado, este elemento de vida espiritual e procurar aplicá-lo à nossa realidade actual. Ele pode ajudar-nos a estar sempre atentos e vigilantes para que a nossa vida seja um testemunho alegre e contagioso do Evangelho em toda a parte e perante todos.


SOMOS MISSIONÁRIOS CAPAZES DE… ARRISCAR A PRÓPRIA VIDA

A renúncia nunca é um fim em si mesma. Ela está sempre orientada para a consecução dum bem superior. Era dessa maneira que Francisco de Sales motivava os cortes que corajosamente pedia aos seus discípulos, a ponto de lhes pedir para saberem arriscar a sua própria vida por amor de Deus e do Seu Reino.
Para nós, o bem superior é a realização plena da nossa vocação, ou seja, ser missionários transparentes e alegres do Evangelho, para que a nossa evangelização se torne sempre cada vez mais eficaz. Já a encíclica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI nos convidara a isso: "Oxalá o mundo do nosso tempo, que procura, tanto na angústia como na esperança, possa receber a boa nova, não de pessoas tristes, desanimadas, impacientes e ansiosas, mas sim de pessoas cuja vida irradia fervor, que tenham recebido em primeiro lugar a alegria do Cristo, e aceitem arriscar a própria vida…" (EN, 80).
Esse mesmo desejo de que haja evangelizadores eficazes e alegres também seria expresso mais tarde por João Paulo II: "(…) Oxalá este testemunho se torne presente em toda a parte e se apresente universalmente legível. Oxalá o homem da nossa época, em dificuldade espiritual, encontre nele apoio e esperança. Por isso, servi os vossos irmãos com aquela alegria que brota dum coração habitado por Cristo. Oxalá o mundo do nosso tempo receba a boa nova, mas não de evangelizadores tristes e desanimados…" (Redemptoris donum, 16).
A alegria do testemunho e o fervor do anúncio podem, portanto, estar presentes em nós, missionários, só se aceitarmos arriscar a nossa vida. Esse "risco" é um jogo que Deus gosta de jogar connosco e que nós devemos jogar com Ele e, depois, - Deus e nós - num envolvimento cada vez mais alargado até se chegar às pessoas para cujo serviço fomos enviados. Pouco a pouco, ele apoderar-se-á da totalidade da nossa existência, já se não contentando com os seus aspectos secundários, como sejam as sobras do nosso tempo ou os restos das nossas forças. De facto, ele…
- Requer concentração, esforço e empenho, já que quando Deus entra na vida duma pessoa, Ele sempre lhe exige o máximo. O máximo de inteligência, de coração e de vontade. Se Ele é de facto a videira (cfr. Jo. 15, 1-11), cabe-nos sempre a nós ser ramos que dão fruto. "O abandono em Deus", que é uma atitude cristã de importância fundamental, nunca poderá ser uma desculpa para as nossas fugas na falta de empenho.
- Exige o acolhimento do Outro e dos outros na nossa própria vida, sem reticências, queixas inúteis ou fechamentos estéreis: foi isto que Deus conseguiu realizar em Abraão, em Maria e no Beato Allamano, porque eram pessoas disponíveis ao "Sim, Pai, porque assim é do teu agrado!" (Mt. 11,26).
- É um jogo gratuito, de dar sem nada esperar em troca, cuja fruição está precisamente neste dar sem nunca pedir de volta. É a lógica que está subjacente à oração de São Francisco de Assis: "Ó meu Divino Mestre, que eu não procure ser consolado mais que consolar, ser compreendido mais que compreender, ser amado mais que amar. Porque é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, é morrendo que se ressuscita para a vida".
- É, por fim, o jogo das pessoas que querem "voar". É também São Francisco de Sales quem, procurando explicar o seu ideal de vida cristã, que deve tornar-se um movimento dinâmico de virtude e bem, se servia da figura do voo: "O amor de Deus, quando já chegou ao grau de perfeição em que, além de nos fazer realizar o bem, nos faz realizá-lo com diligência, assiduidade e prontidão, recebe então o nome de devoção. As avestruzes nunca voam; as galinhas voam, mas com dificuldade, em voo rasante e raramente; ao passo que as águias, as pombas e as andorinhas voam muitas vezes, expeditamente, e pelas alturas…Em suma, a devoção é agilidade e vivacidade espiritual com que a caridade opera em nós e nós operamos na caridade, prontamente e com enlevo…" (Filoteia, 5/7).


Quando "cortar pela raiz" entra em funcionamento

O empenho de arriscar a vida, que a nossa vocação exige e que o Beato Allamano exprimia com o seu "di più" (tanto mais), exige um empenho constante e perseverante. Ele não pode cumprir-se simplesmente na vaga das boas intenções ou dos sentimentos vazios, mas no terreno firme dum trabalho continuado sobre si mesmos e de atenção contínua a tudo.
Conta-se que uma vez um pianista confidenciou: "Se ficar dois dias sem exercício, logo noto que me falta qualquer coisa; se chegar a uma semana, até os meus filhos notam; mas se chegar a quinze dias, todo o público dá por isso". Poderia acontecer o mesmo connosco se não prestássemos uma atenção contínua a nós mesmos e ao jogo de Deus em nós. Mas, muito provavelmente, os primeiros a notá-lo não seríamos nós, mas sim os outros, quando o nosso desempenho tem falta de compromisso e de entusiasmo, quando a nossa vida não deixa transparecer valores e não revela aquela ligação imediata a Deus. Mas as pessoas, essas sim, notarão logo, e depressa, a nossa falta de atenção para com os outros, um sermão feito mais de "palavras" que de anúncio da Palavra, do nosso ministério impaciente ou pobre em conteúdo…E devemos considerar uma graça se, em dada altura, alguém tiver a coragem de nos dizer claramente qual é a situação, ajudando-nos assim a parar para tomar as providências necessárias.
Uma destas providências que poderá ser muito eficaz em tais circunstâncias é exactamente o "cortar pela raiz" que S. Francisco de Sales quis passar às suas "filhas" e aos seus discípulos, quase como testamento espiritual. Consciente de que a correcção é sempre uma oportunidade de autocrítica e de conversão pessoal por intermédio do amor fraterno, atrevo-me a sugerir algumas situações em que, na minha opinião, esta regra poderia funcionar bem para nós Missionários. Claro que não são as únicas e talvez nem mesmo as mais importantes…


1."Cortar pela raiz" no uso impróprio do computador

Hoje, o computador já se encontra em toda a parte: desde as florestas do Congo aos lugares mais isolados das nossas missões da América, desde a longínqua Coreia às comunidades da Europa. O computador está a tornar-se um valioso colega de trabalho do missionário em toda a parte, permitindo multiplicar o trabalho de escritório e, através da Internet , comunicar com o mundo inteiro com extrema facilidade.
Claro que não é minha intenção cantar as glórias do computador, mas simplesmente chamar a atenção de todos para os inconvenientes que podem surgir quando o utilizamos de modo leviano e impróprio. É o que acontece quando ele, em vez de continuar como instrumento de trabalho, que permite poupar tempo e produzir mais, se transforma num ídolo a quem se imola tempo precioso que deveria ser destinado ao trabalho missionário. De facto, o seu uso pode chegar a monopolizar o interesse e a atenção das pessoas a pontos de se tornar um verdadeiro concorrente contra a vida fraterna das nossas comunidades.
Poderá então tornar-se muito útil a sagacidade de S. Francisco de Sales com o seu "cortar pela raiz" em relação a este instrumento de trabalho, quando notarmos que ele está a roubar-nos o tempo que deveríamos consagrar ao trabalho missionário, ou então dificulta aquela comunicação de vida indispensável entre os membros duma comunidade. Isto para não falar sequer das inúteis e perigosas divagações que o computador também pode facilitar, enchendo o nosso coração e a nossa cabeça de coisas que nos alienam da nossa missão e tornam árida a nossa vida.
O que digo do computador, também o poderia dizer de outros meios de comunicação, e especialmente o uso da televisão que, quando "se torna a única forma de recreio, obstacula e até impede o relacionamento entre as pessoas, limita a comunicação fraterna, e até pode causar danos à própria vida consagrada" (Vida fraterna em comunidade, 34).

2. "Cortar pela raiz" na crítica estéril

Não há nada mais destruidor da fraternidade missionária, da comunhão eclesial e das relações humanas que o espírito de crítica, a oposição sistemática, a ironia e o sarcasmo. É um tipo de passatempo que só merece ser estrangulado logo ao nascer, de maneira decidida e enérgica, com o "cortar pela raiz" de S. Francisco de Sales. Senão, poderá tornar-se uma doença que contagia como uma epidemia, corroendo e travando o ímpeto para fazer o bem e avançando, apesar da sua ilogicidade (criticando todos os que não agem como gostaríamos e fazendo reparos mesmo sobre temas em que não temos a menor competência ou informação!), amortecendo a coragem e as vontades de olhar para a frente com optimismo e com esperança.
A crítica é uma doença que não só destrói o ambiente como também prejudica a própria pessoa que a faz, porque não lhe permite superar complexos e instintos de defesa, e fragiliza a caminhada séria na vida interior. De facto, sempre que tomamos um compromisso sério com Deus, notamos instintivamente que o espírito de crítica enfraquece à medida que em nós ganham maior ímpeto a compreensão, a misericórdia e o amor. No contexto pastoral e missionário, tornam-se particularmente nocivas as invejas que desaguam em críticas e colocam um grupo contra outro, uma pessoa contra outra. É igualmente lamentável o espectáculo de haver um responsável pela comunidade a criticar quem o precedeu, embarcado numa acção nociva de fazer "tábua rasa" a respeito do trabalho de outrem.
O Beato Allamano chamava a este vício o "espírito de crítica" e queria que fosse banido absolutamente das comunidades missionárias: "Ai das comunidades em que entra este espírito! É o princípio do fim, como sempre tenho dito" (VE 123). Ao contrário, a sua ausência teria garantido um futuro ao Instituto: "Peçamos à Santíssima Consolata que afaste do nosso Instituto esta este - o espírito de crítica - e então procederá bem; contaremos a bênção de Nosso Senhor e os empreendimentos do Instituto hão-de prosperar" (VE 124).

3. "Cortar pela raiz" na tentação do consumismo

"Ah, a globalização! É uma desculpa maravilhosa para muita coisa". Esta frase, que foi atribuída a Robert M. Solow, prémio Nobel da economia, é muito explícita sobre a ambiguidade duma realidade que está a influenciar a humanidade actual e de que todos, directa ou indirectamente, sentimos as consequências. Referirei aqui uma só das suas expressões mais características - o consumismo. Ele está intimamente ligado aos meios de comunicação e apresenta-se-nos como a última fronteira da felicidade, baseada na abundância de bens e na multiplicação das necessidades. A sua mensagem tácita, que aliás está na base dos anúncios de publicidade espalhados por toda a parte poderia soar desta forma: - Falta-te uma coisa para seres feliz: vai, compra-a e ficarás satisfeito!
Há situações sociais extremas que, neste campo, são um desafio à nossa vida e ao nosso serviço missionário. Como chamados que somos, por vocação, a sermos solidários com os pobres deste mundo, sentimo-nos impelidos a envolver-nos na luta em prol da saúde, do alimento quotidiano, do direito à educação. Ao mesmo tempo, notamos que a sociedade de hoje está a atrofiar estas necessidades primárias a ponto de nunca se chegar à sua satisfação. Assim, notamos uma corrida desenfreada, até mesmo por parte dos "pobres", aos bens materiais, acabando por identificar o sonho do desenvolvimento social com o consumo desses bens.
Se não houver uma séria acção de discernimento e uma aplicação decisiva da regra de S. Francisco de Sales, o ambiente consumista que nos cerca poderá ter consequências nocivas até mesmo para a nossa vida e para a acção apostólica. Por exemplo, como é possível sermos proféticos no ambiente pobre em que tantos de nós vivem se as nossas residências nadam em "coisas" que os pobres jamais poderão ter e que, portanto, constituem uma instigação ao consumismo? A austeridade de vida de que falam os nossos documentos deve impelir-nos a interrogarmo-nos sempre que hajamos de comprar mais coisas: podemos passar sem isto? O seu uso dará qualidade missionária ao meu trabalho? Serão essas coisas capazes de favorecer, ou ao contrário prejudicar, o meu testemunho do Evangelho?

4. Cortar pela raiz no activismo

José Allamano queria que fôssemos activos, enérgicos, trabalhadores, zelosos. Nas suas conversas espirituais, aparecem frequentemente expressões do tipo "A nossa vida tem valor na medida em que é activa para nós e para os outros"; "Uma pessoa só vive na medida em que é activa por amor de Deus"; "A vossa vida não é uma vida de êxtase, mas de trabalho; de trabalho segundo a vontade de Deus; "Não devemos ter medo de sujar as mãos" (cfr. Pedras vivas para a Missão).
Foi logo desde o princípio que a missão se identificou com a actividade, o trabalho e muitos compromissos. Não só porque "a messe é grande e os operários são poucos" (Mt. 9, 37), mas também porque nos nossos centros missionários desaguam vários ribeiros de iniciativas com tanta abundância que eles se tornam centros propulsores de infinitas actividades. Parece que quem vive a missão em cheio não pode fugir a este contexto de vida laboriosa, de compromissos, de relações contínuas com as pessoas. Mas penso que o Beato Allamano, enquanto por um lado se sentiria feliz ao ver-nos assim metidos no trabalho, pelo outro não deixaria de nos interrogar: qual é a finalidade deste teu correr, do nascer ao pôr do sol? Os teus compromissos diários são uma resposta directa à procura da vontade de Deus, tanto pessoal como comunitária? Os teus dias tão activos ainda te deixam algum espaço para outros compromissos "passivos" que um Missionário não pode recusar?
Temos de confessar que, na actividade frenética dos nossos dias de trabalho, pode andar escondido um germe destrutivo que é capaz não só de tirar o significado à nossa acção apostólica como também de tornar estéril o nosso projecto missionário. Este germe, que se chama "activismo", não nos deixa tomar na devida consideração todas as expressões da nossa vida; nega-nos o tempo necessário para a oração; leva-nos a considerar como uma alienação o esforço pela reflexão e pelo estudo. Se por um lado é verdade que a espiritualidade anterior corria o risco de opor acção e contemplação, o serviço dos nossos irmãos e o de Deus, a actividade apostólica e os momentos de silêncio pessoal, pelo outro constatamos que, hoje em dia, ainda é difícil conseguir a harmonização das várias componentes da nossa vida.
Parece-me ser absolutamente actual, também para nós, aquilo que o Pe. Paolo Manna, que recentemente foi beatificado por João Paulo II, escrevia aos seus Missionários do PIME em Setembro de 1930: "Os nossos missionários por vezes são demasiado missionários: demasiado para fora, demasiado para os outros. É preciso evitar os exageros e saber temperar melhor a vida activa com a vida contemplativa e, em palavras pobres, a vida exterior de visita às comunidades cristãs com a vida de residência, a pregação com a oração, e o trabalho com o estudo. Deus me livre de parecer que estou minimamente a sugerir o descuido ou o relaxamento nas obras de zelo: estou a falar dos exageros a que uma actividade descontrolada poderia levar as pessoas" (Paolo Manna, Virtù apostoliche, EMI, 1997, p. 201).

O "MYSTERIUM LUNAE"

Caros confrades: vou terminar retomando um trecho da Novo millenio ineunte, em que o Santo Padre, mediante uma sugestiva figura patrística, nos exorta a que sejamos um "reflexo" de Cristo para sermos evangelizadores e missionários autênticos: "Um novo século e um novo milénio se abrem na luz de Cristo. Mas nem todos verão esta luz. Nós temos por estupenda e exigente tarefa ser o "reflexo" d'Ele. É o mysterium lunae, tão querido da contemplação dos Padres da Igreja, os quais queriam indicar com tal figura a dependência da Igreja em relação a Cristo, que é o sol cuja luz ela reflecte. Era uma maneira de dizer aquilo que o próprio Cristo disse ao apresentar-se como "luz do mundo" (Jo. 8, 12) e ao pedir aos seus discípulos para serem "a luz do mundo" (Mt. 5, 14). É esta uma tarefa que nos faz tremer, se olharmos para a fraqueza que tantas vezes nos torna opacos e cheios de sombras. Mas trata-se duma tarefa possível quando, expondo-nos à luz de Cristo, soubermos abrir-nos à graça que nos torna homens novos" (54).
A coragem de "cortar pela raiz" em todas as situações que dificultam a nossa caminhada para a santidade ou que travam o nosso ímpeto missionário, poderá tornar a nossa vida menos opaca, e a nossa missão em maior transparência de Cristo. Oxalá o ano de 2002, em que recordamos os 100 anos de evangelização da nossa Família, nos encontre empenhados em tornar cada vez mais eficaz o nosso ministério de evangelização, levando a sério, acima de tudo, a qualidade da nossa vida.
Saúdo-vos, implorando sobre todos vós, principalmente sobre os doentes e os jovens em formação, a intercessão da Virgem Consolata, de São José, e a bênção do nosso Beato Fundador. Também vos peço que me recordeis nas vossas orações.
Fraternamente,

P. Piero Trabucco, IMC
(Padre Geral)

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