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Carta do Superior Geral PDF Imprimir E-mail
Por Consolata.org   
12 de March de 2006

BEATO PAULO MANNA
PROTECTOR PARA O ANO 2003

Roma, 15 de Outubro de 2002


Caríssimos Missionários,

No Domingo, dia 4 de Novembro de 2001, durante uma Liturgia solene de proclamação de mais nove beatos na Praça de São Pedro em Roma, o Papa João Paulo II fez a seguinte afirmação: "Nós vemos no Padre Paulo Manna um reflexo especial da glória de Deus. Porque ele dedicou toda a sua vida à causa missionária. Transparece vivamente em cada página dos seus escritos a pessoa de Jesus, que é centro da vida e razão de ser da missão. Numa das suas cartas aos seus missionários ele diz claramente que "de facto, um missionário não é nada se não personificar o próprio Jesus Cristo… Só aquele missionário que fielmente copiar Jesus Cristo na sua vida é que conseguirá reproduzir a imagem d'Ele nas almas dos outros" (Carta 6). Na verdade não existe missão sem santidade, como eu já disse na Encíclica Redemptoris missio: "A espiritualidade missionária da Igreja é uma caminhada para a santidade. É preciso suscitar um novo zelo pela santidade entre os missionários e em toda a comunidade cristã." (90)".
Ora foi este vigoroso convite à santidade, aliás feito com insistência por Paulo Manna aos seus missionários como ingrediente indispensável à vocação missionária bem cumprida e de que ele próprio deu testemunho sublime, que impeliu as Direcções Gerais dos nossos Institutos a escolher o Beato Paulo Manna como Protector para o ano 2003. A este motivo principal juntam-se mais dois, que tornam a figura deste novo Beato mais próxima da nossa vida de Missionários da Consolata:
1. Paulo Mana cumpriu a sua vocação e projecto de santidade num Instituto exclusivamente missionário, vivendo em plenitude a respectiva vida, espírito e ideais. Ele também convida cada um de nós a identificarmo-nos totalmente com o carisma e o espírito do nosso Instituto, como caminho privilegiado que a Providência nos oferece para realizarmos o nosso projecto de vida, que é o serviço da Igreja mediante a evangelização ad gentes, e para alcançarmos a santidade que o nosso Beato Fundador queria de nós.
2. O último Capítulo Geral e as celebrações centenárias do Instituto dirigiram-nos um convite insistente a reflectirmos sobre o ad gentes com coragem, com abertura de espírito e na docilidade ao Espírito que guia e acompanha a caminhada da Igreja e da missão. O Beato P. Manna não foi cientista ou catedrático. Só viveu e trabalhou sempre no terreno, quer de missão quer da própria Europa, mas sempre atento na leitura, na interrogação e na reflexão com o objectivo de descobrir os novos caminhos da missão, e, bem assim, a metodologia mais adequada para anunciar Jesus Cristo às pessoas do seu tempo. Ele é testemunha da necessidade de o trabalho apostólico andar sempre acompanhado duma reflexão constante, duma análise atenta dos sinais dos tempos, e da simpatia para com as culturas dos povos com que trabalhamos.


QUEM FOI O PADRE PAULO MANNA?

Paulo Manna, o quinto filho de Vincenzo e Lorenza Ruggeri, nasceu a 16 de Janeiro de 1872 em Avellino. A família Manna pertencia à pequena burguesia da Campânia, que incluía empresários, comerciantes e políticos. A sua mãe Lorenza morreu em 1874; assim, o Paulinho foi para Nápoles, para junto dos tios. Voltou a Avellino aos dez anos, já encontrando em casa uma nova mãe, visto que seu pai tinha entretanto voltado a casar. A vida do jovem decorreria serenamente, embora o ambiente familiar tivesse uma certa marca de rigidez moral e espiritual.
Frequentou a escola com dedicação e sempre conseguiu bons resultados nas disciplinas de cariz literário e científico. Costumava passar os meses de Verão com os seus dois tios padres que de boamente tomavam conta dele. Em seguida, eles haverão de se tornar uma referência segura no momento em que Paulo vier a fazer a sua opção de carreira. Em 1887 decidiu entrar para uma Congregação alemã de fundação recente, acabando por ser enviado para Roma para realizar os estudos filosóficos e teológicos. Quatro anos mais tarde, e sempre cada vez mais desejoso de dedicar a sua vida às missões, na sequência de um discernimento aturado e profundo, deixou a Sociedade Católica da Instrução e entrou para o Instituto das Missões Estrangeiras de Milão. Levava consigo a carta de apresentação passada por um cónego de Avellino e endereçada ao Superior daquele Instituto Missionário, onde se lia: "…mas acima de tudo tem óptimo comportamento; na minha opinião, o vosso seminário irá fazer uma boa aquisição".
Em Milão, o Paulo foi-se preparando com seriedade e com paixão para o sacerdócio missionário, integrando o estudo de temáticas teológicas e leituras missionárias, prestando atenção aos relatos feitos pelos Missionários que iam voltando das missões. A 19 de Maio de 1894 foi ordenado sacerdote na Catedral de Milão. O Padre Paulo partiu para a Birmânia (Myanmar), que lhe tinha sido destinada como campo apostólico, passando dois anos a estudar as línguas e a cultura local, à mistura com o exercício do trabalho especificamente apostólico. Mas a sua saúde não conseguiu aguentar a intensidade do trabalho, sobretudo a da febre malária que periodicamente o atingia. Foi assim que, no período de apenas alguns anos, teve de regressar três vezes à Itália - acabando por voltar definitivamente a 4 de Julho de 1907. Foi então que escreveu: "Vejo o meu futuro bastante nebuloso. Parecem-me estar destruídas as muitas esperanças e desígnios de boas obras que tinha em mente; aos 35 anos já me vejo como um inútil, um empecilho e uma complicação até mesmo no Seminário, tanto para mim próprio como para os outros…" . Mesmo assim, aquele regresso prematuro não haveria de ser uma derrota para este zeloso missionário: antes, transformar-se-ia numa reviravolta providencial.
Depois de alguns meses de recuperação, foi confiada ao Padre Manna a redacção da Revista Le Missioni Cattoliche, começando uma actividade que haveria de marcar toda a sua vida de animação missionária e vocacional, que cumpriu sobretudo através da imprensa e através da fundação da União Missionária do Clero. De facto, em 1916, e juntamente com Monsenhor Guido Maria Conforti, Fundador dos Padres Xaverianos e Bispo de Parma, apresentou ao Papa Bento XV o projecto da União Missionária do Clero, no intuito de espalhar entre Bispos, padres e pessoas consagradas, o espírito missionário, deles recebendo vivo apoio.
No começo da década de 20, abriu-se para este dinâmico missionário de Avellino um novo campo de trabalho: o da fundação e direcção do Seminário Meridional para as Missões Estrangeiras em Ducenta (Campânia). Tratava-se da realização de um sonho que há mais de vinte anos trazia no coração, ou seja, o de instituir uma obra vocacional missionária no Sul da Itália.
Em 1924, o Instituto para as Missões Estrangeiras de Milão celebrou o seu primeiro Capítulo Geral. Esta sessão teve uma relevância muito especial para o Instituto, precisamente porque marcou o início dum processo que resultará na fundação do PIME (Pontifício Instituto para as Missões Estrangeiras), juntando os dois "Seminários Missionários" - o de Milão e o de Roma. Antes disso eles eram encabeçados apenas por um "director", que em tudo dependia da Propaganda Fide.
Durante o seu mandato de dez anos, o Padre Manna contribuiu para a redacção das novas Constituições; abriu as portas do Instituto a irmãos leigos; aumentou o número de casas de recrutamento e formação de aspirantes missionários por toda a Itália. Fez uma longa e complicada viagem a todas as fundações missionárias fora da Itália. Durante uma dessas viagens, o Padre Manna concebeu a ideia de escrever as suas Osservazioni sul metodo moderno di evangelizzazione in Asia. Mas uma das obras mais notáveis do Padre Manna como Superior Geral foi a preparação da fundação das Missionárias da Imaculada, o ramo feminino do seu Instituto.
Passados dez anos, e a insistências do próprio Padre Manna, o segundo Capítulo Geral escolheu um novo superior. Finalmente livre daquela incumbência, o Padre Manna teve a oportunidade de voltar a actividades mais condizentes com o seu espírito: acompanhou a fundação do Instituto das Missionárias da Imaculada; tomou decididamente em mãos a direcção da União Missionária e acompanhou o desenvolvimento da Região Meridional do PIME, tendo sido eleito seu Superior Regional. Embora a sua saúde andasse a enfraquecer, o zelo missionário não diminuiu. Continuou a escrever e a publicar trabalhos, fez apelos à Igreja para que levasse a peito a obra missionária - escrevendo a Bispos e a cardeais. Mas a doença que tinha acabou por dominá-lo, vindo a falecer em Nápoles a 15 de Setembro de 1952. A 23 de Junho de 1961, os seus restos mortais foram trasladados para o "seu" Seminário de Ducenta. O processo de canonização arrancou dez anos mais tarde, culminando, em 4 de Novembro de 2001, com a sua beatificação por decreto de João Paulo II.


PAULO MANNA, MESTRE DA MISSÃO

Passemos agora a respigar, da enorme quantidade de escritos seus, os aspectos de metodologia e de espiritualidade que mais coincidem com o carisma e a tradição do IMC. E visto que a sintonia entre santos é sempre notável, não nos admiraremos do facto de o Beato Allamano e o Beato Manna partilharem de tantas ideias: de missão, de espiritualidade missionária, da exigência da vocação apostólica e do estilo de fazer missão. Nesta tentativa de identificar orientações úteis para a nossa espiritualidade missionária e para o nosso trabalho apostólico, procurarei deixar-me guiar, na medida do possível, pelos escritos do próprio Beato Manna.

1. O missionário: uma vida apaixonada por Cristo
O Beato Manna parte da constatação de que a missão e o apostolado são, frequente e infelizmente, identificados com o fazer, com a missão a cumprir, enquanto, por outro lado, se deixa de lado, ou pelo menos se relega para posição secundária, aquilo que é o seu próprio fundamento, ou seja, a espiritualidade. Para o Beato Manna, a espiritualidade, no sentido de configuração da pessoa com Cristo, é a alma da vida apostólica. E disse-o com vigor: "O missionário deve apresentar-se aos infiéis como um outro Cristo. (Virtù Apostoliche (VA), 90). Só quando nos tivermos transformado em Cristo é que nos poderemos apresentar aos povos como verdadeiros apóstolos.
Eis algumas afirmações suas, de entre as mais relevantes:
"O missionário com reservas, que ainda se não deu ou se não quer dar todo, e apenas, a Jesus Cristo, é missionário só de nome. (…) O verdadeiro missionário deve viver o espírito de Cristo e, tal como São Paulo, deve poder dizer: "Para mim, viver é Cristo"" (VA 161).
"A função que a cabeça e o coração exercem sobre o corpo é um exemplo da acção vital que Jesus Cristo deve exercer sobre toda a vossa vida espiritual. Ele e apenas Ele, como princípio único da vossa actividade, é quem vos deve levar a pensar, agir, julgar, querer e sofer tudo com Ele, n'Ele e por Ele. Assim, todas as vossas acções não devem ser mais que uma manifestação exterior da vida de Jesus Cristo em vós. Em suma, deveis realizar o ideal da vida interior tal como foi formulado pelo maior missionário de todos, que disse: "já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim" (Gal 2, 20)" (Discorso ai partenti, 1925).
"Dizem que os missionários são poucos; mas muito menos são ainda os verdadeiros missionários, aqueles que reflectem em toda a sua vida a figura de Cristo! Mas como é que eles haverão de reflectir e imitar Jesus Cristo se não fizerem d'Ele objecto da sua contínua meditação?… Só aquele missionário que copiar fielmente Jesus Cristo para a sua vida e puder dizer com São Paulo : "sede meus imitadores como eu o seu de Cristo", só esse missionário poderá reproduzir a Sua imagem nas almas dos outros. Quem assim não fizer, trabalha em vão e também em vão se queixará de que as suas canseiras não conseguem resposta" (VA 91).
"Procuremos unir-nos a Deus pela meditação, e então é que nos tornaremos instrumentos admiráveis da Sua misericórdia. Não tenhamos ilusões: o zelo apostólico, sem o qual nada seremos enquanto missionários, só pode jorrar dum coração cheio de amor de Deus. Quando o nosso coração estiver unido a Deus na intimidade da meditação e da oração, então sim, "o lume estará aceso" e o nosso amor haverá de sugerir-nos aquele amor habilidoso, prático, perseverante e incansável que distingue o verdadeiro apóstolo de Jesus Cristo" (VA 93).

2. Sejamos activos, mas sem exagero!
O zelo missionário ardia na alma do Beato Manna a pontos de ser uma verdadeira "paixão". E inculcava-o nos seus missionários. Não conseguia imaginar um missionário apático e tíbio, que não ardesse deste fogo. Apesar disso, volta a acenar várias vezes nas suas obras à necessidade de compatibilizar as actividades apostólicas com tempos de estudo, vida comum e tempos prolongados de oração. De facto, sabia como é fácil deixarmo-nos levar pelo activismo, que leva ao amortecer da eficácia da missão e pode esvaziar o próprio missionário de tudo aquilo que é indispensável à sua vida. Demos atenção a estas suas recomendações, em palavras suas.
"Por vezes, os nossos missionários são demasiadamente missionários: demasiado fora, demasiado para os outros. É preciso evitar os exageros e saber temperar melhor a vida activa com a contemplativa e, em palavras pobres, a vida exterior de visita às comunidades cristãs com a vida de residência, a pregação com a oração, o trabalho com o estudo. Que Deus me livre de estar a insinuar, por pouco que seja, mesmo o menor descuido ou relaxamento nas obras de zelo: estou a falar dos exageros a que uma actividade desmedida poderá levar. Aquilo de que tenho medo é exactamente… essa actividade desregrada, a que principalmente os jovens do nosso tempo se deixam levar" (VA 201).
"É esta actividade febril, toda exterior, que leva as pessoas a aplicar o coração, a alma, todas as forças do corpo e do espírito a muitos afazeres, mesmo bons, mas nem sempre queridos por Deus, ou numa medida não querida por Deus. Ora ela deve ser corrigida através dum recolhimento mais profundo de vida interior, ajudado principalmente por uma prática mais perfeita da vida comunitária. Já vi missionários tão envolvidos nas obras missionárias, e tão obcecados com o exterior, que até têm medo da solidão dos seus quartos, gente que quase sente a necessidade de andar sempre a correr, de se agitar sempre e mesmo quando não precisa de andar em correrias; até parecem não saber que o tempo também pode ser utilizado no estudo e na oração na tranquilidade do seu próprio quarto" (Ibid.).
"É lastimável ver como por vezes o missionário, uma vez chegado à missão, se atira de alma e corpo para a acção e diz um adeus definitivo aos seus livros, abandonando-os ao bolor e aos ratos… E assim vamos avançando nas várias coisas às três pancadas, cometendo tantos erros no exercício do sagrado ministério, erros esses de que um dia deveremos dar contas a Deus, visto que foram cometidos por ignorância culpável… Dizer que, na missão, já não há tempo para estudar, é afirmar uma não verdade… Que tristeza nos dá ouvir os sermões daqueles missionários que já não estudam nem se preparam! São sempre as mesmas diatribes e as mesmas improvisações" (VA 212-213).

3. Para salvar é preciso sofrer
Ao indicar-nos o caminho que a Igreja deve fazer neste novo milénio, o Papa João Paulo II convida-nos a contemplar a face sofrida de Cristo e a ouvirmos o seu grito que vem da Cruz: " Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?" (Mt 27, 46). Assim, todo o discípulo do Mestre de Nazaré poderá conseguir aceitar as outras palavras de Jesus: "Quem quiser ser meu discípulo, renegue-se a si mesmo, carregue com a sua cruz e siga-me" (Mt 16, 24). A cruz, o discipulado e a missão constituem sempre um todo indivisível e um enorme desafio para o missionário. Também o Beato Manna volta a este tema frequentemente porque, como diz, as nossas missões passam pelo cadinho de abundantes tribulações.
Hoje em dia, fazer missão na Colômbia, no Congo, em Roraima ou em qualquer outra parte do nosso mundo missionário, significa que a cruz está aí não só para ser contemplada, mas também para ser carregada aos ombros. Ouçamos o sólido argumento do B. Manna sobre o assunto.
"Quem quer que se dedique à salvação das almas deve esperar sofrimento. Ainda mais os missionários, que não têm outro objectivo na vida que o de dar novos filhos a Deus e à Igreja nos países descrentes. Ora, os filhos não nascem sem sofrimento. Foi por morte de cruz que Jesus nos fez nascer para a vida eterna; foi aos pés da cruz que Maria se tornou nossa Mãe. Na ordem do sobrenatural, o sofrimento e, por vezes, a morte, são o fundamento da fecundidade. "Se o grão de trigo cair à terra e não morrer, ficará só; mas se morrer, produzirá muito fruto" (Jo 12, 24). Para poder salvar é preciso sofrer. Os jovens seminaristas e os missionários que não entenderem estes ensinamentos devem voltar para suas casas, porque não podemos tornar-nos salvadores de almas por preço diferente" (VA 223-224).
"Na medida em que participardes nos sofrimentos de Cristo, alegrai-vos" ( 1Pd 4, 14). Poderá parecer uma loucura ter este tipo de esperança; no entanto, é esta e não outra a filosofia do Apostolado; é esta a política de Deus. Se conseguirmos compreendê-la, se soubermos cooperar com ela com uma santa vida missionária, então poderemos cantar vitória no fim, vitória essa que nem precisamos de chegar a ver com os nossos próprios olhos nesta vida mortal" (VA 226).
"É um martírio lento - mas nem por isso menos meritório ou menor segundo Deus - aquele que os nossos missionários sofrem diariamente para propagar a fé, visto que estão sujeitos a tantos inconvenientes, privações, intempéries e doenças… que provavelmente não experimentariam se tivessem ficado na sua terra natal. Ide ler o nosso necrológio: um ou dois dos nossos mortos, tiveram a sorte de derramar o seu sangue pela fé; mas os outros deram a sua vida pela fé gota a gota ou a sacrificaram e abreviaram por estragos provenientes das febres ou de outras doenças cruéis!" (VA 228-229).

4. A obediência é a mãe e guardiã de todas as virtudes
A obediência sempre foi considerada pelo nosso Pai Fundador como o primeiro dos nossos três votos e a virtude missionária por excelência. E as novas Constituições declaram que "o espírito prático de obediência é a virtude fundamental do nosso Instituto" (Const 36), reafirmando assim a doutrina e as orientações que nos foram transmitidas por José Allamano sobre este assunto. Lê-se em A Vida Espiritual: "Nunca me cansarei de o repetir: obediência absoluta, se quiserdes ser bons missionários…Diria que esta deve ser uma virtude inata, para nós; devemos criar o hábito respectivo antes de partir para as missões. Se não existir tal obediência, nada faremos; seria melhor não sermos missionários" (VS 344).
Bastam alguns trechos duma longa carta escrita pelo Beato Manna em 1931 sobre a obediência para confirmar as sólidas convicções e atitudes de realização que o nosso Fundador teve a seu respeito.
"Quero falar dela porque, se não se tiver um sólido espírito de obediência, nunca o nosso Instituto poderá existir nem as missões poderão prosperar, nem se poderá fazer obra comunitária. Esta virtude é o grande elo de disciplina que a todos nos deve irmanar: é o gonzo em que se apoia a nossa obra. (…) Também desejo falar dela porque, principalmente nos tempos que correm, a ideia que se tem do missionário anda mais facilmente associada à de uma pessoa zelosa e corajosa, heróica, do que à ideia, aliás mais verdadeira, de pessoa obediente. O missionário tem que ter zelo, ter coragem e ser invencível, não há dúvida. Tal como um soldado, ele deve ser pessoa heróica: muitas vezes terá de ir até ao limite da coragem, aguentar o sacrifício até ao heroísmo; no entanto, a sua virtude maior não é o zelo, nem a coragem, nem o heroísmo. Ele só será um bom missionário e um invencível soldado de Cristo se for obediente. Coragem, abnegação, heroísmo… se não forem guiados pela obediência, serão muitas vezes um desperdício de energia, por vezes até serão uma autêntica loucura" (VA 252).
-Os nosso superiores devem vigiar para que os jovens se formem para a obediência e não apenas por razões de fé, de que aliás já falei acima, mas que a sua obediência também seja sempre pronta, completa e amorosa" (VA 281).
-Deve-se obedecer a todos, e não apenas aos superiores que nos agradam. Quem entretém preferências desde tipo não está a obedecer a Deus mas sim à criatura" (Ibid.).
-Enfim, obedeçamos com alegria, amorosamente: "Deus gosta de quem dá com alegria" ( 2 Cor 9, 7). A obediência nas coisas difíceis e custosas não poderá ser alegre se não estiver inspirada na fé e no amor. É o amor que alivia e até faz desejar os sacrifícios que a vocação nos impõe. O mesmo se diga da nossa obediência" (Ibid.).

5. Todos os Institutos missionários estão a serviço da Igreja
Um missionário digno do nome não tem outra saída senão vibrar pela Igreja. O amor profundo por Cristo e pela Igreja é, de facto, característica da sua vocação. Os documentos mais recentes sobre a missão e a vida consagrada afirmam este princípio com todo o vigor. O Beato José Allamano designava esse amor pela Igreja e pelo Santo Padre de "apego". E as nossas Constituições, ao desenvolverem esse conceito, exprimem-se nestes termos: "O missionário compromete-se na obra da evangelização na Igreja, de cuja missão se torna mais intimamente participante. O Instituto e cada um dos seus membros caracterizam-se pelo amor, pela fidelidade, pela adesão ao Papa e aos Bispos, e pela observância das directrizes da Santa Sé" (Const. 13).
Nos seus escritos, o Beato Manna, depois de ter afirmado que o missionário deve estar totalmente ao serviço da Igreja, alerta-o frequentemente para a tentação de entreter interesses em qualquer outra direcção ou, então, de se fechar exclusivamente dentro dos horizontes do seu próprio Instituto. E faz algumas afirmações desconcertantes, como por exemplo "Onde as missões são mais fortes, é lá que a Igreja é mais fraca!". Estes pensamentos do Beato Manna deveriam servir-nos para fazer exame de consciência:
"Sejamos apóstolos! Os apóstolos não tinham na sua bagagem outros interesses por que se bater - serviam só e unicamente Jesus Cristo. Sejamos apóstolos e abramo-nos ao largo, para horizontes divinos; trabalhemos com generosidade, desinteressadamente, só pelas almas, só pela Igreja, só pelas coisas do Céu! (VA 196).
Que nunca aconteça entre nós uma missão tornar-se um fim em si mesma: ou que prevaleçam interesses congregacionistas, nacionalistas ou económicos acima dos interesses de Deus e da Igreja. Seria trair a nossa Missão apostólica e acabaríamos por atrasar a implantação do Reino de Deus. Com o assumir da responsabilidade, dar importância à solícita formação dum clero indígena eficiente é um pouco como trabalhar pela nossa própria destruição… e isto, claro, não poderá agradar a quem não trabalha com espírito apostolicamente puro e desinteressado (Ibid.).
Hoje em dia, está inata nas Ordens e Institutos a tendência para crescer, alargar-se em afazeres e obras. Essa disposição, que também nós temos, é digna de louvor se nunca perder de vista o fim a que tudo se dirige - Deus, a Igreja, as almas. Sejamos mais numerosos e mais fortes… não para dominar mas apenas para melhor servir" (Ibid.).

6. A esperança da messe está na semente
O Beato Manna trata frequentemente do tema das vocações. E fá-lo de maneira muito clara e muito vigorosa no dia 1 de Janeiro de 1930 quando, ao enviar uma mensagem de boas entradas aos missionários mais longínquos, dá uma olhada de conjunto sobre o seu Instituto. Desejando que cada qual se sinta responsável pelo alcance da finalidade da sua própria vocação, dá três alertas: "Ai de nós se parássemos de nos esforçar; ai de nós se as Missões dessem sinais de serem fins em si mesmas; e ai de nós se, dia a dia, não nos examinássemos sobre se o que fazemos é aquilo que podemos fazer e o melhor que se possa fazer pela causa de Deus!" (VA 176). Neste contexto, passa a tratar da promoção vocacional e da formação dos novos missionários.
"O dever do nosso Instituto aqui na Itália e dos Padres que assim estão retidos é principalmente o recrutamento e a formação de numerosos e santos operários do Evangelho. Trata-se também da parte mais nobre, mais difícil e mais fundamental do trabalho apostólico. Sem missionários não haverá missões; sem missionários santos, cultos, empreendedores e numerosos não haverá conversão de almas nem fundação de Igrejas. (…) O meu maior e mais vivo desejo é, pois, que todos os que trabalham nesta grande obra sintam toda a responsabilidade da sua missão, toda a importância, a delicadeza e o mérito do seu trabalho. Se é coisa sublime fazer cristandade, mais sublime é ainda plasmar apóstolos. Isto é uma obra absolutamente divina" (VA 177).
A seguir, sublinha que Jesus Cristo é o modelo segundo o qual se devem plasmar os jovens missionários, o fundamento de toda a formação:
-Jesus Cristo é a realidade em torno da qual se deve formar e transformar a vida dos nossos aspirantes a missionários: Ele é a luz que deve alumiar os seus ideais, o alimento com que se devem fortalecer as suas almas. É preciso dar a sentir Jesus ao coração, à alma dos nossos aspirantes, e bem assim à sua inteligência. Deve haver tanta formação espiritual como formação científica; deve fazer-se tanta oração como teologia" (VA 178).
E recomenda que se dê a máxima atenção ao discernimento das vocações:
-Os nossos Directores de Seminário não devem ter escrúpulos em ser severos na aceitação de postulantes e na eliminação daqueles que porventura já tenham sido aceites mas se tenham revelado inadequados: mais vale ser severo que indulgente. Uma selecção que não seja feita a tempo traz ao Instituto gente deficiente num ou noutro aspecto e, como já disse na circular de Abril do ano passado, o Instituto não tem necessidade nenhuma de gente medíocre" (VA 180).

7. Não demos demasiado valor ao dinheiro
Em todos os seus escritos, mas sobretudo no opúsculo sobre o método de evangelização, o Beato Manna é bastante exigente e duro quanto ao uso do dinheiro na missão. Até chega a desejar uma espécie de moratória financeira para as missões, ao afirmar: "É quase para fazer votos que toda a ajuda estrangeira às missões se evapore. Seria uma grande purificação e um passo decisivo na direcção da constituição das Igrejas indígenas" (FM, 118). Não estamos perante uma atitude maniqueísta que só vê maldade e pecado no dinheiro. Esta sua conclusão deriva duma análise aturada da realidade missionária, logo confrontada com as exigências do Evangelho. O Beato Manna prefere tratar deste tema partindo de duas perspectivas específicas: a perspectiva espiritual e ascética orientada para a formação dos missionários (desapego) e a perspectiva pastoral e metodológica (orientada para o crescimento autêntico da Igreja local). Eis alguns trechos:
-Se para converter o mundo fosse preciso o dinheiro, o Evangelho no-lo teria dado a saber. Ao contrário, muita gente hoje pensa que se houvesse dinheiro - e muito! - ah, então poderíamos fazer tudo. E quando há muito dinheiro e pouco de outras coisas, quantos demónios logo aparecem com ele! Quantas vezes já verificámos na história das missões que, onde por desgraça houve dinheiro e poder mas pouca santidade, não só não se converteu grande gente como até os missionários perderam praticamente a fé" (VA 170).
-A propósito das ofertas que pedimos para as missões - por vezes com demasiada ansiedade - gostaria de dar algumas recomendações… mas acabaria por me tornar prolixo. Baste então uma só palavra: não demos demasiado valor ao dinheiro como instrumento de apostolado. Gostaria que todos entendessem a força da palavra "demasiado". O Evangelho não fará grande progresso se andar com as muletas do dinheiro; e mesmo que pareça progredir, será coisa pouco duradoura ou pouco autêntica. Até hoje, quem converte as almas é o Espírito Santo: com a oração, com uma vida penitente e santa, com o zelo dos missionários… e o Evangelho espalha-se melhor através da fé dos neófitos do que através de pessoas contratadas e remuneradas. A propaganda feita à base de dinheiro corta as asas ao Espírito Santo e chega só aonde chegam os meios humanos, quer dizer, nada longe" (VA 170-171).
- É mesmo preocupante observar como a ideia da indispensabilidade do dinheiro entrou na cabeça dos missionários actuais! Já se começa a pensar nele ainda antes de partir para as missões. Muitas vezes, na missão, vêem-se missionários macambúzios e às turras com o Bispo só porque ele não lhes dá tudo aquilo de que pensam precisar… e então escrevem, importunam meio mundo e mandam fotografias, e procuram impressionar, comover, por vezes exagerando e afastando-se da realidade tal qual ela é. E se não houver dinheiro para realizar um dado projecto, pronto, lá vem o desânimo e a lamúria: "mas que quer você? Com nada, nada se pode fazer!"" (Formazione Missionaria), PUM 1988, p. 114).

CONCLUSÃO

Dou-me agora conta de que o respigar que quis fazer acabou por se estender um tanto. Mas é sempre coisa fascinante poder ter entre mãos as obras destas grandes testemunhas da missão… Recomendo a cada um de vós que nelas medite durante o ano de 2003, sobretudo Virtù Apostoliche e Osservazioni sul metodo moderno di evangelizzazione .
Recomendo cada um de vós e o vosso trabalho missionário à intercessão do Beato Allamano e do Beato Manna para que, ensinados pela "teologia vivida pelos santos" a nossa vocação ganhe em profundidade e em eficácia apostólica.
Saúdo-vos fraternamente em Nossa Senhora da Consolata.

P. Piero Trabucco, IMC
(Padre Geral)


CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA
DA MEMÓRIA DE PAULO MANNA,
PRESBÍTERO

A 16 de Janeiro

CÂNTICO DE ENTRADA
"A messe é grande mas os trabalhadores são poucos. Pedi, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a Sua messe" (Lc 10, 2).

COLECTA
Senhor, Deus omnipotente e misericordioso
que nos destes o beato PAULO, presbítero,
como apóstolo da missão ad gentes e da unidade dos cristãos,
concedei-nos, por sua intercessão,
que, unidos na mesma fé, trabalhemos sem cessar pelo advento do Vosso Reino.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

PRIMEIRA LEITURA
Da Segunda Carta de São Paulo a Timóteo: 4, 1-8

SALMO RESPONSORIAL Do Salmo 117 (116)
R: Proclamarei, Senhor, a Vossa salvação

Louvai o Senhor, todos os povos,
Exaltai-o todas as nações. R.

Grande é o Seu amor para connosco,
a sua fidelidade permanece para sempre. R.

CÂNTICO DO EVANGELHO Mt 28, 19-20
Aleluia, aleluia.
Ide e ensinai todas as nações, diz o Senhor.
E eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo.
Aleluia

EVANGELHO
Do Evangelho segundo São Marcos: Mc 16, 14-20

ORAÇÃO SOBRE AS OFERENDAS
Santificai, Senhor, com a vossa bênção
os dons que Vos oferecemos em memória do Beato Paulo
e transformai-os em sacramento de salvação para nós,
a fim de que, ao aproximarmo-nos do Vosso altar livres de todo o pecado,
possamos participar no banquete da vida eterna.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

PREFÁCIO DOS SANTOS PASTORES

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Mc 16, 15
Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura, diz o Senhor.

DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor, nosso Deus, fazei que a comunhão do Vosso sacramento nos santifique e nos renove,
e a intercessão do Beato PAULO,
nos ajude a progredir diariamente na dedicação ao Vosso serviço.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Fundador

Quem são...

Biênio de Reflexão

Santidade