|
20 de Junho de 2002 Caros Confrades, A visita canónica deu-se entre o Dia da Ascensão do Senhor e o Domingo de Pentecostes. A liturgia do tempo brindou-nos com um contexto perfeito para a visita. Os Actos dos Apóstolos descreviam os primeiros momentos da comunidade cristã em Jerusalém e mais para além (Actos, 17, 15-22). Era a voz duma igreja apanhada entre a aceitação e a recusa por parte daqueles a quem a nova mensagem se dirigia, das alegrias pelos resultados da evangelização e consequentes perseguições (Actos, 18, 1-8), das fortes tentações de preservar o passado, e do desejo, ainda mais forte, de abertura à novidade e, sobretudo, de partir ad gentes (Actos, 22, 30 e 23, 1-6). O Evangelho de S. João falava do dom perene do Espírito Santo, como seu mestre, guia e testemunho de Jesus e da sua mensagem (Jo 16, 12-15). O Espírito é o protagonista da missão da Igreja de que dependemos para podermos tornar-nos testemunhas e arautos corajosos do Evangelho de Jesus. Já no Evangelho, Jesus abria-nos o seu coração e partilhava connosco, da maneira mais amorosa, a sua experiência íntima do Pai (Jo 17, 1-11); e convidava-nos a amar-nos uns aos outros do mesmo modo para nos podermos tornar seus discípulos, perseverar na vocação que nos deu e produzir frutos no nosso ministério (Jo 17, 1-11). E também lemos várias vezes no Santo Evangelho aquelas expressões de Jesus que completaram o contexto da nossa visita: "Se eu não for"…"o Espírito não virá"… (Jo 16, 7). As leituras e estas duas expressões parecem ecoar muito bem o timbre da nossa visita. A vossa Delegação tem feito progresso nos anos mais recentes na maior parte da vida religiosa e espiritual dos missionários, no desempenho dos seus ministérios, na renovação dos lugares onde estes mesmos ministérios se realizam. Os visitadores observaram estas mudanças e congratulam-se com os resultados. Mas a Delegação precisa de deixar para trás mais alguns aspectos que ainda a mantêm como que refém dum passado que nunca mais voltará e que impedem as suas asas de empreender voos de futuro. Se não se fizerem certas mudanças num futuro próximo, serão muito mais as que nunca acontecerão no futuro mais longínquo, e as consequências poderão ser desastrosas para o povo de Deus. É destas situações e respectivas consequências que falaremos nas páginas que seguem. Mas, logo no início desta carta de encerramento, queremos repetir um dos refrões mais comuns do Fundador, que afinal são um eco das palavras de Jesus, e fazem parte do estilo das primeiras comunidades: 'Coragem' em dar os últimos passos na direcção da renovação completa e 'para a frente' no caminho de maiores mudanças da vossa vida missionária-religiosa e de maiores resultados nos vossos ministérios. A vossa Delegação não deve ter medo ou ficar na defensiva quanto à sua vida e à sua missão; no entanto, precisa de levantar a cabeça e encarar o futuro com aquela confiança que nasce de quem Jesus é, convosco e para vós, e que nasce de o seu Espírito ser a vossa força e a vossa luz e que também nasce do apoio dos Superiores no processo de renovação, até ao fim. "Se não"… "ela não se dará": a missão só será um sonho; a comunhão será uma quimera; e a transformação por inculturação será vã esperança. Coragem, para a frente - senão… nunca se dará. I. OS PRINCIPAIS CONTEXTOS DA VOSSA VIDA E OBRA A última visita canónica deu-se há sete anos. Foi o ano a seguir à queda do Apartheid, quando todos os sul-africanos se viram extasiados com as realizações milagrosas e não sangrentas das políticas dos seus líderes. A esperança de maior liberdade era grande; as expectativas de maior justiça eram enormes; o anseio pelo trabalho, educação e saúde equitativa para todos criara confiança. O céu acenava à terra da África do Sul; e o futuro parecia conter todas as realizações possíveis ao alcance do povo. Mas passados oito anos, a situação mudou: a esperança está a dar lugar ao desespero; as expectativas estão cada vez mais longe da concretização; o anseio de justiça e vida melhor para todos está a tornar-se frustração para a maior parte. Uma descrição sumária dos aspectos principais das condições actuais na África do Sul bem o demonstram. 1. Uma economia em desalinho A situação económica não poderia revelar-se mais conturbada. Um quarto dos sul-africanos vive na miséria, contando ganhos de menos de 100 Rand por mês, por pessoa. Cerca de metade da população vive em famílias pobres, em que cada pessoa ganha menos de 400 Rand por mês. Cerca de um quarto das crianças abaixo da idade dos seis anos apresentam-se enfezados devido à subnutrição. Entre 1999 e 2000, o emprego formal sectorial diminuiu em 20%, redundando numa perda líquida de um milhão de empregos. Cerca de uma pessoa em cada três economicamente activas vive no desemprego. Em algumas partes do país o desemprego situa-se próximo dos 50%. O problema da terra é uma questão central para o desenvolvimento do país e para o desenvolvimento do povo. Até hoje, a maior parte da terra produtiva existente na África do Sul encontra-se nas mãos da minoria que afinal a obteve de modo injusto. A falta de terra continua a criar desvantagem para milhões de pessoas; priva-as duma fonte importante de segurança económica; e obriga-as a fornecer mão de obra barata, que resulta em lucros ainda maiores para aqueles que já beneficiam mais com a economia. Assim, as garras da pobreza deixam marcas bem visíveis. As crianças sofrem de subdesenvolvimento cerebral permanente. A pobreza torna as moças e as mulheres mais susceptíveis à exploração sexual, colocando-as em alto risco de abuso e de contracção do HIV da SIDA .
2. A maior epidemia de sempre no país A epidemia da SIDA assumiu proporções desastrosas e é agora responsável por uma morte em cada quatro. No ano 2000, 40% das mortes adultas entre as idades de 15 e 49 anos ficaram a dever-se a esta epidemia, que se tornou a maior causa de morte no país. Os estudos mais credíveis prevêem que a SIDA acabará por matar cinco a sete milhões na África do Sul por volta do ano 2010. A falta de comportamento moral das pessoas, junto com a real falta de dedicação do governo nesta área, são os piores inimigos dos esforços pelo controle desta epidemia. As autoridades civis procuram esconder a situação real e, há nada menos de apenas alguns meses, pediu a transferência dos recursos de saúde do tratamento do HIV da SIDA para o das doenças mais convencionais, como, por exemplo, a tuberculose. 3. Os problemas sociais A falta de dignidade que, alimentada pelo desprezo dos mais primários direitos humanos, e por uma economia em que uma proporção relevante dos desempregados não pode contar senão com um trabalho vitalício desinteressante, mal pago e banal, só para sobreviver, dá origem aos problemas sociais que o país actualmente vive: desespero, frustração, crime, violência doméstica, toxicodependência, etc. A África do Sul é um dos países mais violentos no mundo; o suicídio aumenta de ano para ano. A vida de família, aqui como no resto do mundo, foi desfeita por obra de todos os meios modernos de separar os pais dos seus filhos, os maridos das suas esposas, através duma sociedade permissiva cujos valores continuam a deteriorar-se continuamente… Mas na África do Sul a vida familiar também é colocada em perigo por um sistema de trabalho sazonal que leva dezenas de milhares de famílias a viver separadas, trabalhar horas extra, e longas horas de viagem de casa para o trabalho. Embora tenham sido aprovadas, ou se encontrem em discussão no Parlamento, leis que proíbem a injusta discriminação da mulher no local de trabalho e na sociedade; e embora os obstáculos legais ao desemprego e à promoção da mulher tenham sido eliminados, a verdade é que a mulher ainda sofre duma variedade de barreiras culturais, sociais e tradicionais que lhe negam equidade e justiça completas. Em especial, as mulheres negras das áreas rurais sofrem de enorme desvantagem económica relativamente a quaisquer outros grupos no país. Não há dúvida alguma de que a corrupção é um sério problema na África do Sul. No sector privado pratica-se ampla evasão fiscal, dupla facturação e outras formas de desonestidade que privam as restantes pessoas dos recursos necessários. No sector público, a corrupção vai desde o nepotismo ao suborno e ao roubo de propriedade estatal. A falta de segurança é assustadora. As pessoas vivem com medo de ataques de quadrilhas, de roubo à luz do dia, de agressão doméstica e, sobretudo, de homicídio. Trata-se de problemas que não poupam nem o clero em geral nem os religiosos em particular: de facto, em termos de proporção, eles parecem ser os alvos mais comuns. Nas duas dioceses em que trabalhais, dois sacerdotes foram assassinados ainda há pouco tempo. 4. O papel das Igrejas As Igrejas, que tinham sido uma das maiores fontes de esperança e coragem durante o Apartheid, parecem ter perdido alguma influência e autoridade moral. Elas ainda se encontram na frente de batalha contra a SIDA; continuam a ser a voz dos pobres, ainda que não tão forte como outrora; mas estão envolvidas numa batalha moral pela garantia da harmonia e da união, com justiça, no meio de todos os sul-africanos, e pelo domínio da moralidade numa sociedade que está a viver a deterioração da maior parte das suas tradições e valores morais. Mas também as Igrejas têm necessidade de renovar as suas estratégias ministeriais numa sociedade em rápida evolução, e, assim, do seu próprio testemunho, para que todos o possam ver. De facto, a atmosfera materialista e hedonista que reina no país já conseguiu penetrar até em muitos substratos da vida e obra destas Igrejas: a coexistência dos ricos com os pobres, as divisões entre raças, cores e classes, aliás ainda muito fortes na sociedade, ainda encontram bastante espaço nas próprias instituições e práticas das várias Igrejas. II. PRINCIPAIS MUDANÇAS NA DELEGAÇÃO Como Missionários da Consolata, vós não estais livres de todas as influências dos contextos que mencionei. De facto, eles desafiam cada um de vós enquanto indivíduos, enquanto comunidades e enquanto ministros. A nossa breve mas intensa experiência da vossa vida e dos vossos ministérios durante a visita canónica permitiu-nos verificar que vós, nos anos mais recentes, tendes feito nascer, graças a Deus, um vigoroso movimento de renovação que levou a muitas mudanças e que promete bons resultados para o futuro da Delegação, bem como uma influência mais marcada sobre a sociedade. Vamos rever convosco as mudanças que nos parecem mais relevantes, a maioria das quais já tinham sido propostas na visita de 1995 e que foram confirmadas pela vossa última Conferência de Delegação, tendo sido activadas gradualmente sob a liderança dos dois últimos Conselhos da Delegação: Uma presença substancial de Missionários Africanos na Delegação. Actualmente eles constituem um terço da comunidade, sendo que esse número poderá ainda aumentar. Isto foi uma bênção para a Delegação, mas também foi uma fonte de desafios, principalmente para a vida comunitária. A mudança na vida comunitária. Em obediência ao convite do Capítulo Geral e com o apoio do Conselho Geral, tal como do Conselheiro Continental e em virtude da força de vontade do Conselho de Delegação, vós designastes três missionários para a maior parte das comunidades. Os casos ad personam acabarão pouco a pouco, por atrito ou por planeamento adequado. Também esta foi uma guinada que tem trazido novas oportunidades, novos enriquecimentos e novas dinâmicas que a todos interpelam e apelam para um espírito renovado de comunidade e amor mais profundo naquilo que fazeis. A consolidação e a abertura de novas comunidades onde poder exercer os vossos ministérios e cumprir a vossa vocação missionária. Até à última visita canónica, vós tínheis trabalhado principalmente no ambiente rural e só muito recentemente tínheis começado a trabalhar no arciprestado de Newcastle (Madadeni, Blaauwbosch, Osizweni e Newcastle), mal tendo começado a trabalhar em Pretória. Mas agora, vós já consolidastes esses dois grupos e, há bem pouco, fundastes Embalenhle, estando agora a investigar a possibilidade de também fazer uma fundação em Soweto. A diversificação das Dioceses em que trabalhar. Até ao Capítulo Geral de 1993, vós ainda só trabalháveis nas dioceses de Dundee; mas agora, vós alargastes-vos para a Arquidiocese de Pretória, com a possibilidade de entrardes na Diocese de Johannesburg. Esta guinada não diminuiu a vossa presença e assistência à Diocese de Dundee, mas ela certamente abriu horizontes mais vastos para o vosso trabalho, expôs-vos a vários tipos de administração e de práticas pastorais, dando-vos maior familiarização com os sacerdotes e leigos de outras dioceses - elementos estes que são sempre úteis para o enriquecimento das comunidades e dos ministérios. A diversificação dos ministérios que fazeis. Quando trabalháveis apenas no norte da Diocese de Dundee, vós encaráveis comunidades principalmente rurais, que eram numericamente pequenas, tinham muitas missões espalhadas por uma área relativamente vasta, e tinham necessidade de ministérios sacramentais e de desenvolvimento. E vós conseguistes fazê-lo até ao ponto de merecerdes o louvor do Bispo de Dundee, a alegria dos paroquianos e maior qualidade de vida para o povo. Mas nestas novas localidades, vós tendes de encarar enormes massas de gente, que vivem um tipo de vida diferente, e que vos obrigaram a adoptar tipos diversos de ministérios que são mais adequados à realidade dessas localidades. Vós estais a esforçar-vos muito por descobri-los e desenvolvê-los e, possivelmente, os visitadores prestar-vos-ão a sua ajuda. Vós desenvolvestes e consolidastes o Ministério em Equipa. Em todas as fundações mais recentes, aplica-se alguma modalidade de trabalho em equipa, na medida em que os Missionários procuram fazer planeamento em conjunto e se ajudam mutuamente quando há necessidade. Nas paróquias de Damesfontein e Madadeni, este esquema funciona com algum sucesso. Isto poderia muito bem constituir a mudança mais relevante na vossa vida ministerial, se for levado a sério e for cumprido com constância. III. RESPOSTAS FUTURAS PARA OS PRINCIPAIS DESAFIOS Muito tem sido feito, principalmente por este Conselho, para enfrentar os desafios acima mencionados: mas muito há ainda para fazer e, possivelmente, o próximo Conselho continuará o progresso que se pode já ver na Delegação. O ciclo "morte-vida", do "se não…não se dará", de "os opostos na missão", sobre que meditámos na liturgia da visitação, tem de continuar a produzir aquele fruto abundante que nós e vós esperamos para a vossa Delegação. Vós já lançastes alguns alicerces sólidos para dar resposta a alguns dos desafios que já foram descritos ao falarmos dos contextos. Vós também já fizestes mudanças de relevo, principalmente no exercício dos vossos ministérios, mudanças essas que dão boas esperanças para o futuro das Igrejas e das populações com que trabalhais. Passamos agora a partilhar convosco estas actividades e mudanças, fazendo breve descrição de cada uma e apresentando algumas sugestões sobre como melhorar a sua qualidade. 1. Renovação do pessoal para uma vida religiosa e ministérios de maior garra A Delegação foi abençoada com o mais elevado número de missionários na sua história, muitos deles jovens, provenientes da África e da América Latina. Ela pode agora olhar para o futuro com esperança e com senso de continuidade. Em geral, nós observámos contentamento, alegria, e união entre todos vós. Nota-se entre vós um sentido de pertença, de identificação com o IMC, de relacionamentos harmoniosos e de amistosa colaboração. Alguns de vós estabeleceram relacionamentos com outros confrades, o que muito ajuda em alturas de crise ou de dificuldades. Mas também notámos alguns vestígios de racismo, que se exprime em palavras, atitudes e, por vezes, até em demonização mútua devido à sua extracção, em termos de país ou de continente. Também sentimos que ainda existe um problema de identidade de grupo, que se manifesta até mesmo em algumas asserções que se lêem nos vossos relatórios de visita canónica. Para potencializar ainda mais os dados positivos do vosso pessoal e também para corrigir os que são negativos, queremos sugerir o seguinte: - olhai uns para os outros como membros da mesma família, mais do que como cidadãos deste ou daquele país; - resisti aos estereótipos e aceitai os colegas como indivíduos, com a sua personalidade específica; - evitai fazer comentários negativos a respeito de outros com base na sua cidadania, seminário de formação, etc.; - pedi desculpa quando vos disserem que certas expressões ou atitudes são ofensivas aos outros; - evitai aceitar toda a crítica, emenda, recados ou brincadeiras inspirados em racismo ou em discriminação com base na raça ou na nacionalidade; - evitai correr riscos desnecessários, principalmente ao viajar de noite. Alguns dos lugares onde viveis são perigosos e vós precisais de ter todo o cuidado em não vos expordes a perigos injustificados; - melhorai a inserção dos membros mais jovens, fornecendo-lhes um estudo mais metódico da língua, reflexões sobre as práticas culturais, e procedimentos pastorais adequadas ao lugar de trabalho, contabilidade, etc.; - estabelecei um sistema de assistência contínua aos missionários jovens para que eles se sintam bem tratados e possam encontrar ajuda em momentos de crise; - continuai e melhorai o programa de formação contínua, para que os missionários sejam mais santos, mais dedicados às suas comunidades, melhor equipados e mais vibrantes nos seus ministérios; - trabalhai todos por uma mais sadia identidade da Delegação, a fim de que a calhandrice duma "Delegação Cenerentola" se transforme numa forte crença de que todos vós sois como qualquer outro grupo do IMC, que o Conselho Geral tem estado ao vosso lado e vos tem ajudado com o pessoal e com a confiança. Águas passadas não moem moinhos; e tudo aquilo que se fez que, segundo vós, tiver estragado a vossa imagem, deve ser esquecido, devendo vós apontar para o presente e para o futuro. O Conselho Geral está pronto para vos assistir; esperamos que respondais positivamente a esses esforços e vos torneis aquilo que se planeou que fôsseis - um grupo jovem e jovial do Instituto a viver a vida e o espírito do Instituto, e a trabalhar com dedicação na evangelização desta parte do país, que revela tantas das facetas do ad gentes que o Conselho Geral vos propôs. 2. Uma chamada mais forte à santidade para contrabalançar a degradação dos valores da sociedade A última visita canónica assinalou a necessidade de desenvolver esta área da vossa vocação. E vós respondestes sendo fiéis aos dois tempos diários de oração. Alguns de vós rezam o terço em comum uma vez por semana; outros têm meditação em privado mas feita à mesma hora; outros reflectem sobre as leituras dominicais em grupo. Ninguém nos deu a conhecer um plano pessoal de vida, mas nós convidamo-vos a escrever esse plano, tal como a vossa Conferência de Delegação vos pediu. Visto que a maior parte de vós não tem as noites comprometidas, sugerimos que, à noite, para além das vésperas, façais alternância de reza do terço, leitura espiritual, adoração eucarística às Quintas feiras, ou outros exercícios escolhidos por cada comunidade. Procurai ser fiéis ao espírito de oração e a todos os exercícios espirituais que são exigidos pelas Constituições (56-68), às características da nossa santidade que elas propõem , principalmente as devoções Eucarística e Mariana, à prática da direcção espiritual, ao plano pessoal de vida, para que o vosso progresso na santidade possa ser constante, tal como o Pai Fundador queria de todos nós (5). Estes exercícios e características deveriam encontrar a sua unidade no espírito do Fundador e o seu pluralismo nas aplicações exigidas pelas culturas das populações (6). A vossa renovação enquanto pessoas, discípulos de Jesus e membros de comunidades, é um pré-requisito para qualquer futura mudança nas próprias comunidades, nos ministérios e numa resposta adequada a todos os aspectos dos contextos em que viveis. "Só quem pertence completamente a Deus pode pertencer totalmente aos outros" (XCG, p. 34). 3. Uma vida comunitária que é um testemunho necessário numa sociedade dividida A sociedade sul-africana ainda é uma sociedade dividida e aparentemente irreconciliável. As igrejas, e principalmente os religiosos, precisam de se tornar pontos de referência para a unidade, a justiça e o amor. A última visita canónica insistiu muito sobre este ponto. Vós tendes avançado bastante no melhoramento da vossa vida comunitária. A maior parte das vossas comunidades tem três membros e, embora tenhamos ouvido algumas queixas a respeito desta prática, a maior parte das reacções tem sido positiva. Para além das razões pertinentes ao cumprimento dos requisitos da vida religiosa, também se devem referir as razões de eficácia nas transacções e o melhoramento dos serviços que se prestam às comunidades que servis. Cada comunidade prepara o seu PCV (Plano Comunitário de Vida); algumas até fazem uma avaliação durante o ano. Todas fazem reuniões de comunidade. E existe um bom ambiente na maior parte delas. A internacionalidade e os grupos etários por país estão bem representados nas vossas comunidades. Sois dezassete missionários nessa Delegação e pertenceis a oito nacionalidades e quatro continentes. Alguns de vós já são idosos, ao passo que a maioria é jovem. É uma perfeita representação da vossa sociedade. Isto deveria estimular-vos a promover a união nas vossas comunidades no meio da diversidade, coexistência pacífica de diversos povos e ajuda mútua para atingir os mesmos objectivos. Isto faria das vossas comunidades sinais claros para todos emularem, se quiserem viver como um país multicultural, multirracial e internacional. O progresso que vos foi pedido na última visita canónica tem-se concretizado bastante bem e dá esperanças ainda maiores para o futuro. Para melhorar ainda mais os resultados, nós, para além das recomendações que fazemos na rubrica "Pessoal", sugerimos que gasteis algum tempo juntos para fazer mais socialização, mostreis o respeito mútuo devido entre irmãos, e vos ajudeis mutuamente na resposta às necessidades ministeriais e vitais. 4. Uma vida religiosa que seja o melhor testemunho daquilo que sois Vós partilhastes connosco a vossa fidelidade aos compromissos e votos religiosos. E ficámos felizes em o testemunhar. No entanto, também ouvimos comentários sobre a superioridade da vida missionária em relação à vida religiosa. Alguns defendem "maior flexibilidade" no tratamento da vida religiosa para que os missionários possam ficar mais livres para fazer missão, à custa dos seus compromissos religiosos. Face a estas realidades, nós convidamo-vos a ter em maior apreço este aspecto do vosso carisma, que afinal remonta ao desejo de José Allamano: primeiro santos - depois missionários. Ao cumprir o voto de obediência, procurai tornar o ministério da liderança dos vossos superiores menos difícil, oferecendo sempre uma colaboração honesta, sincera e sentida, principalmente nos momentos de crise ou de dificuldade. Mantende-vos abertos à itinerância que o Capítulo recomendou tanto a nível interno como a nível internacional. Recomendamos a prática do voto de pobreza, aliás em maior consonância com o estilo de vida dos trabalhadores pobres do que com o da classe média alta. Descobri a felicidade nos bens que tendes, não nos bens que gostaríeis de ter. Lembrai-vos daquela frase do jornalista Ennio Faliano: Per essere felici bisogna desiderare soltanto quello che si ha (ou seja: "Para ser feliz, deves desejar apenas aquilo que já tens"). Questionai sempre a vossa compra de bens, de computadores, de telemóveis e de outros objectos que são comuns no meio das pessoas desafogadas, mas não entre os trabalhadores, na África do Sul. Continuai a melhorar a "caixa comum", a partilhar as bênçãos de Deus e dos benfeitores com todos os outros missionários, para que haja maior equidade entre vós e uma melhor possibilidade de trabalho para todos. Na diocese de Dundee, vós tendes a dita de o Bispo vos fornecer meios de transporte e algum dinheiro para a subsistência do pessoal. Mas não abuseis destes dons e recordai-vos de que eles poderão durar pouco tempo; que a situação poderá mudar em breve. Preparai-vos para esse momento para que possais estar prontos para aguentar quando ele chegar. Para além das exigências das Constituições sobre o modo de praticar o voto de castidade, convidamo-vos a ter muito cuidado na maneira como vos relacionais com as mulheres no contexto cultural da África do Sul. Sede abertos e sinceros no vosso comportamento sexual, principalmente quando houver directivas dos vossos superiores. As novas normas que foram aprovadas pela Conferência Episcopal não deixam grande espaço para subterfúgios, para respostas nebulosas ou para equívocos. E a insistência do governo em analisar todas as acusações de mau comportamento sexual deve ser levada a sério, ou então arriscar ter de ir a tribunal, o que será um escândalo para o público e trará mau nome ao resto do clero e dos religiosos. 5. Ministérios para os grandes aglomerados actuais das cidades sul-africanas No ponto II, nós descrevemos as principais mudanças que se deram na Delegação desde a última visita canónica. A maior parte delas tem a ver com os ministérios e com o modo como reagistes às exigências do contexto sul-africano para os modificar. Ficámos bem impressionados e estimulamo-vos a lhes serdes fiéis, principalmente às mudanças que autorizam o envolvimento dos leigos no trabalho da Igreja. O primeiro problema vital que resolvestes foi o da escolha do vosso ad gentes. Vós descobristes que os casos "não-cristãos" são raros nos locais onde trabalhais, de forma que não os poderíeis ter tomado como uma prioridade para a Delegação. Escolhestes então como vosso ad gentes a pobreza urbana dessas enormes áreas sul-africanas. Transferistes a maior parte das vossas fundações das áreas rurais para as áreas industrializadas. Fizestes do arciprestado de Madadeni a vossa primeira missão deste tipo; o êxito foi tão bom que o Bispo declarou essa vossa base como "a melhor paróquia da diocese" - e estais a fazer o mesmo em Mamelodi e em Embalenhle. Pedimos ao Bispo para dialogar connosco sobre o futuro de Damesfontein, na intenção de agir da mesma forma. A aprovação provisória de Soweto, na Diocese de Johannesburg, poderá adicionar uma terceira localidade, de forma que os vossos esforços se concentrarão nesta escolha feita pelo Capítulo. Nestes locais, a vossa evangelização tem que ter precedência sobre a sacramentalização; a preparação de líderes leigos deverá tornar-se uma prioridade para vós; o trabalho com os jovens, que já prospera em todas as missões, deve intensificar-se; a ajuda às vítimas da SIDA, que já faz parte das vossas preocupações diárias, deve aumentar; a inculturação, que já é visível na liturgia e nas celebrações, também deveria ganhar raízes noutras áreas da vida da Igreja; o diálogo ecuménico e inter-religioso deveria tornar-se um ministério importante. Os visitadores congratulam-se convosco e incitam-vos a continuar esta caminhada. Fazei da evangelização a charneira da vossa vida e das vossas actividades. Nos vossos encontros bimensais, fazei comparação de dados no campo da evangelização e ajudai-vos mutuamente partilhando das actividades que ensaiais e daí uma vista de olhos aos resultados. Neste contexto, os visitadores incitam-vos a continuar a vossa pesquisa sobre uma fundação no Soweto, bem como a analisar a situação de Damesfontein: o local onde a missão se encontra, o uso a dar àquele espaço, o alto custo de servir as missões afastadas, etc., para maior diversificação das nossas missões e melhor desempenho dos vossos ministérios e equipamentos. Estas recomendações foram-nos sugeridas não só pela necessidade de diversificar as nossas obras mas também pela chegada de um novo Bispo para Dundee, o qual poderá ter planos e ideias próprios. 6. A importância de dois ministérios para os Missionários Há dois ministérios que são extremamente importantes para nós, missionários: o da missão - animação vocacional e o da Justiça-e-Paz. a. Animação missionária e promoção vocacional É responsabilidade vossa fazer a animação missionária de todas as paróquias confiadas ao IMC, e também de todas as Dioceses em que trabalhais. A Igreja e o país precisam deste ministério para se tornarem mais universais, mais abertos aos outros, e mais receptivos às diferenças de raça e de nacionalidades. Sentimo-nos felizes ao notar que organizastes uma comissão para a Animação Missionária e Vocacional, a qual continua a actuar e preparou óptimos programas e actividades para o cumprimento deste papel dos Institutos missionários. Mas chegou o tempo de nos interrogarmos: haverá algo mais que possamos fazer para promover este ministério? Se sim, que será? Os Bispos das Dioceses em que trabalhais estão abertos a esta actividade, bem como ao vosso recrutamento nas respectivas Dioceses. Pedimo-vos que façais disto uma prioridade durante os próximos três anos e façais uma análise da necessidade dum animador a tempo inteiro, da possibilidade de criar grupos vocacionais do tipo Filhos de Maria, da necessidade de haver uma casa só para esta finalidade, da urgência de ajudar a organizar comissões diocesanas para as vocações de todos, da possibilidade de trabalhar com outras congregações, e de tudo o mais que for necessário para levar a cabo um programa mais robusto de animação missionária. Outro problema preocupante para esta Delegação é a falta absoluta de vocações. É preocupante porque priva o Instituto de membros, mas também porque a Igreja local precisa de ter pessoal sul-africano para as Dioceses, e para que os Institutos religiosos se incarnem no terreno e tenham melhor aceitação por parte do povo. O IMC já está neste país há 30 anos. Durante muito tempo, foi-vos aconselhada a promoção de vocações diocesanas, visto que a Diocese de Dundee não tinha padres diocesanos. Fizeste-lo e os frutos estão à vista. Mas nos passados 12 anos, foi-vos pedido que fizésseis trabalho de recrutamento para o IMC. Como é que é possível não haver sequer uma vocação IMC? Não as há para todos os outros? Não as procuramos? O Núncio disse-nos que os dois seminários de Pretória estão repletos, a pontos de os Bispos terem de comprar um convento para responder aos pedidos. Poderá ser isto um sinal de mudança neste campo? Poderá ser também um sinal para vós no sentido de pôr em andamento um plano mais agressivo de recrutamento? Neste contexto, vós fizestes um pedido no sentido de se convidarem as Irmãs da Consolata e os Missionários Leigos da Consolata para a África do Sul. Talvez fosse boa ideia estudar esta possibilidade. Mas porque não serdes vós a formar o vosso próprio grupo de leigos para poderem ajudar no nosso trabalho missionário na África do Sul e noutras missões do IMC? b. O Ministério Justiça-e-Paz Também nesta área vós compreendestes a importância de uma congregação missionária contribuir, por pouco que seja, para os esforços que a Igreja e outras instituições religiosas e civis andam a fazer. Recentemente, vós organizastes uma comissão para liderar este tipo de acção. A nossa recomendação vai no sentido de que esta comissão, ao trabalhar em união com outras entidades semelhantes vos possa inspirar a integrar este aspecto tão importante nos vossos ministérios: porque o país necessita dele; a missão assim o exige; e a evangelização, feita sem ele, ficaria truncada. Quando a África do Sul derrotou o Apartheid, a maior parte dos Africanos sentiu que a África do Sul poderia tornar-se um modelo de sociedade justa para os outros Estados Africanos, além de também ajudar os países vizinhos na sua luta pela criação duma vida melhor para todos. Mas não foi isso que aconteceu! Como vimos antes, a África do Sul defronta-se com numerosas situações de injustiça dentro das suas próprias fronteiras, tendo-se tornado fonte de relações injustas e de injustas práticas económicas com os países vizinhos. A necessidade deste ministério tem aumentado e o nosso Instituto deveria estar na vanguarda da promoção deste novo tipo de justiça-e-paz. 7. As Finanças, uma maneira de fazer melhor serviço de missão e de evangelização Um projecto, seja de que natureza for, necessita de meios para poder atingir seus objectivos. A missão, sendo um projecto de origem divina, não faz excepção. Desta forma, todos os que servem neste projecto missionário de Deus, deveriam ter muito cuidado na selecção dos meios necessários para levar o trabalho de evangelização a bom termo. A Diocese de Dundee, consciente da vossa vigorosa iniciativa e usando os talentos de um dos nossos confrades, desenvolveu uma rede sofisticada de estruturas capazes não só de cultivar a fé das comunidades cristãs, como também de aceitar aqueles que procuram a verdade em Jesus Cristo: lindas igrejas e capelas, salões paroquiais, centros pastorais, orfanatos, escolas, etc.. E podemos chegar a todos estes lugares por óptimas estradas. Sem dúvida, um investimento fantástico! Assumindo a consciência de que estes são meios e não objectivos finais, recordemo-nos também de que cada um dos meios, para poder alcançar a meta, deve ser da mesma natureza do projecto, que para nós consiste na evangelização. Então, este projecto, no seu conjunto, deveria orientar-vos para aproveitar ao máximo todos estes meios materiais para consolidar a igreja local mediante a formação de comunidades cristãs apostólicas, a promoção missionária e vocacional, e a preparação de líderes que estejam plenamente conscientes do seu papel fundamental na comunidade. Em suma, investir na formação. Ao mesmo tempo, fazei com que estes meios materiais se tornem, cada vez mais, sinais da vossa pobreza efectiva, permitindo-vos viver com o povo, preparar projectos de consolação para o povo, e fazê-lo crescer na sua responsabilidade para com a Igreja. A este respeito, alegrámo-nos ao vermos que instalastes uma base sólida de corresponsabilidade na administração dos bens das paróquias. Os conselhos paroquiais têm muita responsabilidade pelos bens e as comunidades cristãs sentem que a igreja lhes pertence. São claros sinais desta postura os contributos que fazem para os bens paroquiais e para o sustento dos seus pastores. Por ora, a situação económica da Delegação ainda é boa, embora o administrador tenha já dado um alerta de que já estais a roer no capital de reserva, e por várias razões: a mudança que houve na procura de fundos, diminuição do número de missionários que procuram donativos, e o aumento do custo de vida. Seria lamentável se, devido a estes factores, também se houvesse de adicionar a prática menos atenta do voto de pobreza devido ao aumento das exigências pessoais e comunitárias desnecessárias e injustificadas. Dado que a Delegação não possui entradas fixas, é imperativo que todos poupeis o mais que puderdes e useis todos os meios financeiros provenientes da Providência e dos benfeitores para a evangelização e para os pobres. Apoiamos uma larga colaboração entre o Administrador da Delegação e as administrações locais mediante a troca de informação, a preparação de relatórios financeiros exactos, e uma contabilidade mais cuidada, generalizando os procedimentos a todas as comunidades. Incitamos todos os administradores a exigirem um orçamento a todas as comunidades e a acompanharem todas as despesas bem de perto, para evitar más surpresas no fim do ano. Com alguma sorte, tudo isto vos ajudará a fazer uma administração rigorosa dos bens em prol da missão. CONCLUSÃO
Ao encerrarmos esta visita, desejamos dar-vos a conhecer a nossa alegria, os nossos agradecimentos, as nossas preocupações e as nossas esperanças. Foi uma verdadeira alegria estar convosco e participar por alguns dias da vida das vossas comunidades, das vossas orações, dos vossos sentimentos, etc. A alegria aumentou com a maneira como nos recebestes e nos tratastes. Sentimo-nos à vontade com o vosso grupo e seremos felizes quando houver uma razão para voltar a visitar-vos. Para todos vai o nosso obrigado e a nossa gratidão. Em particular para o Conselho da Delegação, que partilhou connosco todos os aspectos da Delegação sem reservas, e ao Superior Delegado, P. José Luis Ponce de Leon, que nos acompanhou durante toda a visita, manteve alto o nosso moral com o seu bom humor, e nos ajudou com a sua discreta presença e as suas respostas discretas às nossas perguntas. Mas essas alegrias e essa gratidão ficam um pouco comedidas por uma preocupação que muitos de vós nos manifestaram: a de que as mudanças e os novos caminhos adoptados pela Delegação ainda são demasiado recentes para se poder falar de consolidação da Delegação. Este facto deveria alertar-vos a todos, especialmente o novo Conselho, para trabalhar no mesmo sentido do passado recente, para consolidar as realizações, e deveria levar o Conselho Geral a prestar-vos uma assistência ainda maior nos anos que seguem. Os nosso votos vão na direcção de três áreas fundamentais da vossa vida e do vosso trabalho. Primeiro, mostrai um compromisso mais forte com a santidade, aumentando, em quantidade e em qualidade, as vossas orações em comunidade, criando o vosso plano pessoal de vida, e arranjando um director espiritual que vos assista. Em segundo lugar, continuai a cuidar mais da vida comunitária. Fazei da vossa comunidade um lugar de discernimento, de forma que a vossa caminhada possa ser inspirada pelo Espírito colectivamente discernido, uma comunidade de reconciliação onde o que realmente conta é o espírito de fraternidade continuamente renovado pelo amor e pelo perdão, uma comunidade de serviço, ajudando-vos mutuamente, uma comunidade alegre, mais interessada nas virtudes do que nos defeitos dos outros, uma comunidade de pessoas livres, não condicionada por nacionalidades ou raças, mas sim pelo desejo de se tornar sinal da globalidade a que a humanidade é chamada. Em terceiro lugar, que os vossos ministérios se sintonizem com as necessidades das pessoas, com os contextos em que eles e vós todos viveis, quais sinais da presença de Deus e orientação da história da humanidade. Que as Pessoas da Santíssima Trindade, cuja festa celebrámos no dia em que deixámos a África do Sul, vos inspirem a uma relação profunda com cada uma das Pessoas Divinas, a uma vida comunitária justa e harmoniosa, em tudo semelhante àquela que elas vivem e à dedicação que têm pela criação e pela humanidade que encontrará expressão nos vossos ministérios, para promover o Reino de Deus. P. Antonio Bellagamba, IMC Vice Superior Geral P. Norberto Ribeiro Louro, IMC Conselheiro Continental
|