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Era filho de Elia e Mariana Massola e nasceu em Caprie, a 14 de Novembro de 1910. Em 1922, com 12 anos, entrou para o Instituto, onde foi recebido pelo Padre Fundador, que afectuosamente o tratava por "Pinot". Fez o Noviciado em Valfrè e professou em Rosignano, no ano de 1929. Foi ordenado sacerdote em 1933, indo para professor no Seminário Menor de Favria Canavese. Chegou a Adis Abeba, Abissínia, a 12 de Janeiro de 1937, tendo ficado encarregado da direcção das escolas da capital reservadas para os indígenas. O padre Bonaudo, por ocasião do 60.º ano de sacerdócio, que celebrou em 1993, assim contava a sua história: "Ainda recordo, como se fosse hoje, os primeiros baptismos que administrei a um grupinho de 10 órfãos que acolhi na missão de Gore. Juntamente com outro confrade, comecei a construção da gafaria para hospedar os muitos leprosos que viviam naquela zona e que estavam marginalizados, sem ninguém que se interessasse por eles. Perante tantos e tão graves problemas que apareciam na missão, voltavam-me à memória todos os conselhos dados pelo Padre Fundador durante a nossa formação. Quando a noite chegava, à luz duma vela, eu escrevia aos amigos benfeitores, e a Providência manifestava-se de mil e uma maneiras. O avião sobrevoava a missão todas as semanas, deixando cair pacotes de géneros alimentícios, remédios, alfaias… eram centenas de mãos erguidas ao céu quando viam passar "os cavalos do céu", em agradecimento aos pilotos italianos. O vigário apostólico, mons. Luigi Santa, visitava-nos duas vezes por ano. Eram dias de grande festa, aqueles. E foi mesmo durante uma destas visitas que nasceu o projecto de construir a igreja. Não houve problemas burocráticos nem adiamentos administrativos: as obras começaram imediatamente. Nós dois dividimos entre nós as várias funções: a escola e a gafaria ficaram para mim; as obras, para o meu colega. A maior parte dos operários era pagã, de crença muçulmana, mas tudo corria em boa harmonia. Entretanto, as lições de catecismo ocupavam-me continuamente: de manhã ensinava os rapazes e à noitinha, os adultos. Não havia livros; por isso, todo o ensinamento era de viva voz. Os catecúmenos, que eram sempre fiéis às aulas, eram o núcleo mais exigente do meu trabalho. As obras da igreja acabaram dentro de dois anos, tendo chegado também os sinos, da Itália. Foram momentos de grande alegria, aqueles que nos deram a ouvir os seus harmoniosos repiques - que se espalhavam pelos vales vizinhos. Eram a voz de Deus a chamar à salvação". Com o rebentar da guerra, o padre Bonaudo foi para capelão da Marinha militar, em resposta a um pedido urgente do Capelão-chefe para lhe darem um sacerdote para a base de Massaua, no Mar Vermelho. No dia 6 de Abril de 1941, a base caiu nas mãos dos ingleses, acabando ele por ficar prisioneiro e ser enviado para um campo de concentração no Sudão. Ali se dedicou ao serviço religioso de oito mil soldados italianos, também prisioneiros. A disenteria e o tifo fizeram hecatombe, e o padre Bonaudo lá foi confessando, dando os últimos sacramentos aos moribundos, consolando os vivos e enterrando os mortos. Conseguiu mesmo convencer as autoridades a permitirem a construção dum monumento funerário no cemitério no qual os mortos encontravam a última morada: "A 2 de Novembro de 1941, consegui inaugurar esse monumento aos nossos prisioneiros mortos, com a presença e a participação de todos os oficiais ingleses e italianos e do pessoal de saúde. Celebrou-se missa em sufrágio de todos os mortos e depois benzi a pirâmide que fora construída em sua memória… A disenteria também me atingiu - a infecção era inevitável por ter de passar o dia inteiro ao lado dos miseráveis e fedorentos catres dos doentes. Ainda me recordo bem daquele grupo de tendas onde os médicos se viram obrigados a colocar os doentes incuráveis, para evitar que os outros se impressionassem à vista da morte lenta dos seus companheiros. Naquelas tendas… no meio dos condenados à morte, no meio dum cheiro nauseabundo que sufocava a respiração, entre os ais e o medo horripilantes dos moribundos, mas que tinham perfeito conhecimento da situação e em pleno uso das suas faculdades mentais, lá, naquelas tendas de morte onde os médicos já não entravam senão para verificar o óbito… eu passava de leito em leito a administrar os últimos sacramentos e a preparar estes pobres infelizes para a última viagem, em conversas de horas e horas, deles recebendo as últimas recomendações e as últimas saudações para eu levar às suas famílias tão distantes. E estando perfeitamente conscientes daquilo que lhes iria suceder dentro de dias, algumas horas e breves minutos, todos aceitavam o seu fim com resignação… todos morriam confortados com os sacramentos. Das nossas últimas conversas nem tudo se pode referir, nem tudo se pode escrever. Afinal, tratava-se da morte no exílio, na mais horrível desolação do deserto, na mais negra solidão do cativeiro… e eu dava-lhes aquele último beijo em nome dos seus filhos que naquele mesmo momento se tornavam órfãos, e em nome dos seus entes queridos que nunca mais abraçariam. Quando eu finalmente me levantava de cada um daqueles leitos miseráveis, reinava a tempestade no meu coração, eu sentia-me profundamente triste, os meus lábios tinham um sabor de morte, e eu rezava a Deus para que aceitasse a oferta da vida que eles Lhe tinham feito e os admitisse imediatamente às alegrias do céu. Desde então, também eu deverei ter verdadeiros amigos no paraíso!". Esgotado e contagiado com aquele vírus, o padre Bonaudo acabou por ter que ser levado à cabeceira dos moribundos numa maca. Um dia, um dos seus assistentes disse-lhe: "Senhor padre, onde quer que o ponhamos?" - ao que ele respondeu: "abram a minha cova no meio dos outros". "E assim fizeram; fizeram uma cruz e pediram-me para a benzer. A seguir eu disse-lhes: "Ainda não a ponham lá". E Deus salvou-me; por milagre, a minha cova ficou vazia, ao passo que a cruz, infelizmente, foi para outro". É comovente o testemunho que o capelão Anfosso Giovanni escreveu ao padre Prina no dia 1 de Janeiro de 1945 a respeito do padre Bonaudo: "Regressei do cativeiro há alguns meses e apresso-me a cumprir a grata obrigação de assinalar a Vossa Paternidade o trabalho e o comportamento verdadeiramente dignos de elogio do Rev.mo padre Giuseppe Bonaudo da Consolata, com quem tive a sorte de estar no Sudão desde Julho de 1941 até Janeiro de 1942. Em condições de vida e de clima dificílimos, durante uma horrível epidemia de disenteria bacilar e de tifo, o padre Bonaudo sacrificou tudo para poder dar assistência espiritual e material aos doentes que eram mais de um milhar. O seu trabalho incansável granjeou-lhe não só a admiração das autoridades inglesas como também o nosso sentido afecto. Os 53 mortos do campo de Zeidab (Sudão) receberam, todos eles, a sua assistência e a sua consolação. O cemitério que os guarda foi tratado amorosamente pelo padre Bonaudo, que dele conserva a planta. Assim, já assinalei ao Ministério da Marinha a obra do padre Bonaudo, capelão da R. N. Eritreia, com proposta de louvor". Mesmo naquela trágica situação do campo de concentração, o padre Bonaudo não deixou de pensar nas suas missões: "Todas as noites, antes de fechar os olhos, não consigo evitar que o meu pensamento corra até às nossas maravilhosas missões de Gimma; a Santíssima Consolata não pode deixar morrer aquela semente que, tendo já despontado, tanto prometia. Os ventos desta tempestade poderão bem fazer vergar a copa da árvore, mas nunca arrancar-lhe as raízes, por que elas foram regadas com muitas lágrimas e até com o sangue dos nossos corajosos confrades" (6.3.1943, em carta ao padre G. Barlassina, superior geral). A 6 de Junho desse mesmo ano, escrevia ele do campo de concentração no deserto ao mesmo padre Barlassina: "Soubemos que a Casa Mãe foi atacada e o Instituto foi transferido para várias casas; sobe até Deus a oração diária e confiante para que a Santíssima Virgem guarde as nossas missões e faça de mãe providente a todos os seus filhos dispersos. Há tantos momentos tristes para nós, prisioneiros, que acabamos por nos consolarmos falando com Deus. Só Ele poderá valorizar tantos sacrifícios, como este tormento de ficar longe do ministério apostólico pelo qual fomos chamados e enviados, e também os anos mais produtivos que acabam passando entre as malhas do arame farpado e as capacidades pessoais que se vão desgastando…" Em meados de 1943, dá-se uma troca de prisioneiros. Os capelães militares já podem regressar à pátria, mas é-lhes pedido um serviço voluntário complementar. Assim, o padre Bonaudo e alguns confrades da Consolata, aceitam ficar para continuar a prestar assistência aos prisioneiros italianos. Em Outubro é transferido para a Inglaterra, onde continuará a assistir os seus compatriotas em vários campos espalhados pela Escócia. Na primeira metade de 1946, pouco tempo antes de regressar à pátria, o padre Bonaudo recebeu do pároco inglês de Swadlincote (Burton-on-Trent) o seguinte testemunho comovedor: "Caro padre Bonaudo: o dia que esperou com tanta alegria aproxima-se rapidamente…Sei que cumpriu o seu dever e responsabilidade para com os prisioneiros de guerra com grande lealdade, com prudência e com caridade. Muitos dos seus homens exprimiram-me o seu apreço por tudo o que fez para os consolar, fortalecer e levantar o moral. Por causa do nosso clima, a terra daqui não é tão fértil e produtiva como na vossa pátria, mas os seus homens demonstraram ser óptimos trabalhadores, como o têm testemunhado muitos colonos. Espero que me escreverá uma vez por outra quando voltar para a Itália. Haverei de apreciar para sempre a sua amizade e haverei de o recordar como a um sacerdote de Deus bom, fiel e consciente, que mantém acesa a lâmpada da fé no meio de todas as dificuldades e restrições de vários anos de cativeiro. Foram muitos os corações que foram tocados, despertados e inspirados pelo alto grau do seu bom exemplo pessoal. Não o digo por adulação mas sim porque sinto que merece que qualquer um lhe ofereça este humilde tributo, agora que a sua presença na Inglaterra está para acabar. Todos nós somos fracos e mortais e, assim, precisamos por vezes de palavras de encorajamento e gratidão, pelo menos para nos estimularem a fazer esforços ainda maiores pela glória de Deus e pela salvação das almas… Encomendo-me às suas orações , com os melhores votos e bênçãos, seu devotíssimo em Cristo. Padre Joseph Degen". No ano de 1947, o padre Bonaudo foi destinado ao Canadá: "O cardeal Émile Léger acolheu-nos na sua diocese de Montréal e confiou-nos o serviço e a fundação de duas paróquias para os imigrantes italianos. Entretanto construiu-se um Centro Missionário, onde acolhemos as primeiras vocações missionárias canadianas e onde se deu início à animação vocacional na Província de Québec". Em 1969, passados 22 anos de vida no Canadá, pediram ao padre Bonaudo para colaborar na obra de São Pedro Apóstolo, da Propaganda Fide, trabalhando nos seminários que dela dependiam e que estão espalhados pelos vários territórios de missão. Foram "dois anos de trabalho intenso, de contactos com a realidade dos seminários de língua inglesa e francesa, de relacionamento com os seminaristas e os benfeitores da Europa. Foi uma experiência preciosa para mim, porque pude constatar o progresso constante na formação do clero indígena". Mas o desejo de trabalhar nas missões tornava-se cada vez mais forte; no entanto o Instituto estava ocupado com o reforço dos vários centros vocacionais espalhados pela Europa. Foi assim que, em 1971, o padre Bonaudo foi enviado para a Irlanda, onde pouco antes tinha sido aberta uma casa, na cidade de Dublin: "Tivemos caloroso acolhimento da parte dos párocos irlandeses e dos vários colégios, permitindo-nos dar a conhecer as nossas missões, as suas necessidades e os nossos projectos de evangelização. Além do mais, criámos a revista Consolata Missions, que se tornou um meio de animação vocacional e de informação sobre as actividades em terra de missão. Passados alguns anos na encantadora Irlanda, fui dar ajuda aos confrades da Inglaterra (1976). Fiquei encarregado da correspondência com os benfeitores ingleses e com a difusão da nossa revista, tendo assim a oportunidade de tocar com a minha própria mão na generosidade daqueles fervorosos católicos ingleses para com as obras missionárias, sobretudo o apoio ao nosso seminário internacional de Londres". Mas os anos passam; e o peso da idade vai-se manifestando, tal como os achaques. Assim, em 1988, o padre Bonaudo voltou para a Itália, residindo em Turim até ir para Alpignano. A 7 de Junho de 1993, por ocasião do seu 60.º ano de ordenação sacerdotal, dizia: "Peço ao Pai que mande novos obreiros para a sua vinha e agradeço-lhe de todo o coração pelos meus 60 anos de sacerdócio". A recordação mais importante da sua vida está ligada ao dia 16 de Fevereiro de 1926, que foi o dia da morte do Padre Fundador no Santuário da Consolata: "Todos passaram a beijar a mão do nosso Pai moribundo, que nos abençoou pela última vez dizendo a todos, um por um, "tratai bem as pessoas, tomai a peito as pessoas". A lembrança dele ficaria indelével e seria a força animadora de todas as actividades durante toda a minha vida". No dia 12 de Abril de 2002, pelas cinco da manhã, e assistido pelo padre Giovanni Genta, o padre Bonaudo voltou para o Pai. O funeral foi no dia 13 de Abril, em Alpignano. Na homilia, Dom Aldo Mongiano colocou em evidência o entusiasmo de formador, a exuberância apostólica e a grande generosidade do padre Bonaudo. À tarde, acompanhados pelos padres Genta e Garrone, os seus restos mortais foram transferidos para Caprie, onde o Bispo de Susa, Dom Alfonso Badini Confalonieri presidiu à eucaristia de exéquias. Durante a celebração, o grupo dos marinheiros e a filarmónica da sua terra prestaram-lhe honras. No final foi recitada a oração do Marinheiro. O padre Genta, da sua parte, apresentou ao povo o testemunho da vida apostólica e missionária deste caro confrade. A seguir, o corpo foi sepultado no cemitério de Caprie.
A Redacção de "Da Casa Madre"
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