|
Era filho de Ricardo e Fortunata Bazzacco e nasceu em Pederobba a 10 de Junho de 1911. É ele próprio quem nos conta a sua vocação: "Eu era um garoto muito vivo, como todos os daquela idade, quando, no fim da educação primária o coadjutor do pároco me perguntou lá no oratório: "Porque não vais para padre?". Mas não tive a coragem de dizer logo que sim. Fiquei perturbado com aquela pergunta, tal como Nossa Senhora ao ouvir o anjo. E refugiei-me no consentimento da minha mãe. Eu era o último de sete filhos e ela já era viúva há 12 anos. Hoje em dia pergunta-se se é possível ter vocação numa idade tão tenra. Mas não se deve esquecer que as difíceis condições familiares de então levavam os rapazes a ser capazes de tomar decisões e saber governar-se antes do tempo previsto. Em casa, até altas horas da noite, eu embrenhava-me avidamente nas narrativas missionárias, por entre os juncos dos chineses! E a semente da vocação pegou! Os dias na casa paroquial passavam rapidamente. Havia lá disciplina de seminário. De manhã, muito cedo, havia missa e meditação, mesmo sem saber o que eram. À noitinha, terço e leitura espiritual pegada com a função religiosa vespertina da paróquia. Durante o dia, havia trabalho e, se possível, estudo". A sólida formação que recebeu do seu pároco foi aperfeiçoada e complementada durante os anos de seminário. A 4 de Outubro de 1924, Vladimiro entrou para o Instituto pela Casa Mãe de Turim. Alguns dias depois, veio a conhecer o Pai Fundador: "A ocasião foi a da partida dos Missionários e das Missionárias da Consolata para a Somália. A minha voz de ardina na Praça da Consolata para vender o periódico La Consolata despertou o interesse de José Allamano, que se fez à janela e me sorriu. Não se debruçou, mas apareceu-me como que emoldurado pelas linhas da janela contra o fundo escuro do seu quarto que fica acima do portão de entrada para o pátio do Santuário. Lembro-me bem dele, sorridente e com aspecto bem disposto… Penetrado pelo olhar e pelo sorriso do Padre Allamano, assim começava eu a dar os meus primeiros passos de pequeno Missionário da Consolata". O padre Vladimiro irá recordar para sempre, com emoção, os vários encontros que teve com o Beato Fundador, a alegria de lhe dedicar um pequeno poema, e de receber dele rebuçados. Feita a profissão em 1929, foi ordenado sacerdote em 1934. Começou o seu apostolado como assistente e professor no seminário de Parabita. Passado apenas um ano, em 1935, partiu para a Etiópia, onde ficou até 1943 - um período glorioso mas também tempestuoso que descreveu em I miei ricordi di Etiopia. A princípio, o padre Vladimiro foi destinado à missão de Lekempti, onde se ocupou com o ensino, uma ou outra construção e a manutenção da missão. Em 1937 foi transferido para a nova missão de Argio, melhor dizendo, uma missão a levantar do nada. A sua primeira obra foi uma grande cabana-escola. Precisava de madeira para fazer portas, janelas e, sobretudo, um tecto. Dois meses de trabalho na missão de Compto às ordens do Irmão Isaia Roncalli, como ajudante de carpintaria, deram-lhe o direito ao material necessário para a construção. Mas ao mesmo tempo também iam crescendo a casa dos padres e a das irmãs. Visitava as aldeias de mula, ia a Lekempti buscar géneros alimentícios e ocupava-se do moinho que as autoridades italianas tinham confiado à missão. É o próprio padre Bazzacco quem nos conta, com entusiasmo e com saudade, a vida em Argio: a sua linda posição, o bom clima, o óptimo relacionamento com o povo. "Um dia em Argio trazia sempre o bulício de várias pessoas. Interessavam-se por mim e eu por eles. Para a população, eu tornara-me professor e missionário, tal como os de Compto e de Lekempti. Viam-me de batina branca tanto em casa como na escola. Eu era diferente dos outros brancos. Estavam de olho em mim e faziam comentários entre si. Confiavam em mim e saudavam-me respeitosamente. Eu aceitava os convites que me faziam para ir a casa de pessoas importantes e a casa de alunos, falando a sua língua. Os novos chefes daquela zona eram Oronos e apreciavam a minha presença nas suas festas de família, nos casamentos, nos nascimentos e nos funerais". O padre Bazzaco também tinha um excelente cavalo (de nome Nino) que usava para "explorar a planície travando conhecimento e fazendo amizade com as pessoas. A cavalo, de batina branca… aquilo para as pessoas era uma novidade. Sobretudo para as mulheres… até que uma delas ganhou coragem e me disse: "Porque não nos ofereces essa saia branca? É muito linda!". Daí em diante deixei de trazer batina no meio da gente. Só a usava para festas e paradas por ocasião das festas patrióticas italianas". Os dias de Argio, apesar da dureza dos começos da missão, foram os mais belos para o padre Vladimiro, abençoados pela alegria com a chegada do padre Angelo Burati, com quem o acordo foi sempre o melhor. Coube a ele, chegado por último, o serviço dos jovens e da escola; ao padre Vladimiro coube o desenvolvimento da missão, a construção das capelas, as visitas às famílias e a evangelização directa. No estabelecimento comercial dum indiano, o padre Bazzacco tinha cobiçado um sino, com cerca de 20 quilos de peso, que parecia talhado para a sua missão. O preço não era nada baixo, mas queria tanto tê-lo que renunciou à compra de botas novas (de que precisava desesperadamente) e o comprou por 17 táleres. O padre Burati pregou-o numa árvore, fazendo-lhe um nicho. - E as pessoas perguntavam: - porque é que o sino toca? O som metódico daquele sino tornou-se boa catequese. - É o toque das trindades; o anjo saúda Maria. - E quem é Maria? - É a Mãe de Deus que toda a Etiópia venera excepto os muçulmanos. Os muçulmanos da planície eram muitos, mas não muito fanáticos. - Foi de Maria que nasceu Jesus, o redentor do mundo… O som do sino ia repetindo, dia a dia, o chamamento da Senhora. Ninguém reclamava, nem sequer os muitos sacerdotes coptos. E de todas as quatro igrejas coptas de Argio se podia ouvir o toque daquele sino, pregoeiro do mistério de Deus". Mas havia nuvens a acastelar-se no horizonte… de forma que todos os sonhos centrados na missão de Argio se desvaneceram com a entrada da Itália na guerra: "tivemos de abandonar tudo… uma triste história, um triste abandono". No dia 1 de Abril de 1941, o padre Quinto Gardetto, superior da missão de Lekempti, e também a irmã Eliodora, foram assassinados pelos "partigiani" durante a sua viagem a Adis Abeba. Pouco depois, foi tramada uma tentativa de sequestro do próprio padre Bazzacco para servir de refém: mas ele foi avisado pelos seus colaboradores e assim escapou da armadilha. A situação tornara-se demasiado perigosa até para os próprios missionários, agora já equiparados aos invasores italianos. Assim, o padre Vladimiro, de nó no estômago, foi forçado a deixar a sua maravilhosa Argio e refugiar-se em Gimma, a sede do vicariato, montado na sua mula. Chegou a Bedelle, a cerca de meio caminho de Gimma e foi alistado como capelão militar, indo parar para a frente de batalha em Dembi. Enquanto se dirigia a fazer uma visita a um posto militar, um "caça" inglês fez pontaria nele com uma rajada de metralhadora. Salvou-se agachando-se ao lado dum tronco duma grande árvore, contra a qual o avião se assolou, mas sem resultado. Os italianos renderam-se; o padre Vladimiro também ficou prisioneiro, tendo sido levado para Gimma. Uma vez lá, no acto de levar um doente ao hospital, mais ninguém lhe ligou meia, ficando assim em liberdade. Chegou finalmente à sede do vicariato onde, em clima de semi-liberdade, foram reunidos todos os confrades vindos das várias missões. Porém, depois de algum tempo, foram levados para um campo de concentração em Berbera, na Somália, à margem do Mar Vermelho. Depois de dois meses foram transferidos por via marítima para o Fort Victoria, na Rodésia do Sul. O cativeiro, que partilhou com numerosos confrades, durou cerca de dois anos, tendo sido devolvido à Itália em Julho de 1943. Mas os superiores tinham conhecimento da capacidade que o padre Vladimiro tinha em sobreviver às dificuldades; por isso fizeram-no logo superior-ecónomo da casa de Comotto, que então estava apinhada de irmãos, padres e irmãs, vindos de outras casas por causa da guerra. Também tinha que pensar no sustento dos confrades que tinham ficado em Turim, na Casa Mãe bombardeada. Assim, da Casa de S. José de Comotto saía diariamente serviço de abastecimento: verduras, galinhas, ovos, salame e tudo o mais que a sobrevivência exigia. Acabada a guerra, o padre Bazzacco, que na missão tinha demonstrado especial capacidade de programação e construção de prédios, ficou encarregado de superintender aos trabalhos de reconstrução da Casa Mãe, que fora destruída nos ataques aéreos. Em 1954 foi para Varallo Sesia; depois para Palermo, entre 1957 e 1960; e a seguir para Génova, entre 1960 e 1966, sempre com funções administrativas e, por vezes, como superior das comunidades. Desde 1967 até 1970 esteve encarregado do "empório" de Milão; de 1970 até 1974 ficou em Roma, onde se ocupou com a burocracia referente aos projectos e pedidos de licenciamento para a reestruturação da Casa Geral. Desde 1974 até 1977 foi superior da Casa dos Irmãos de Alpignano. Durante este período frequentou o pequeno hospital Koelliker com funções de reabilitação de crianças e adultos deficientes, sobretudo poliomielíticos. Foi um trabalho que realizou com dedicação e competência, despertando a confiança e a plena satisfação com a sua preparação técnica e com o seu modo manso de tratar das crianças poliomielíticas. A seguir, o padre Vladimiro estendeu a sua colaboração, como capelão, ao Cottolengo di Broglio (VC) até que, em 1981, passados quase 40 anos, voltou para a Etiópia onde, a princípio, ofereceu a sua competência de administrador ao hospital-gafaria de Gambo e, depois, na pastoral em Shashemane. Em 20 de Junho de 1984, festa de Nossa Senhora da Consolata, todos os confrades se reuniram em Meki para celebrar os 50 anos de sacerdócio do padre Vladimiro. O orador de linha foi o padre Edoardo Rasera, que garantiu: "A alegria do padre Vladimiro pelo dom do sacerdócio que viveu durante estes 50 anos é também uma alegria nossa; e se a vida deste nosso missionário está toda tecida de graças - como no-lo garante - temos a certeza de que elas pousaram sobre cada um daqueles que o padre Vladimiro encontrou na sua caminhada. A Etiópia beneficiou delas de modo todo especial, terra esta que aprendeu a amar a exemplo do Fundador e que, depois de tantos anos de exílio, voltou a pisar". Sobrevieram problemas de saúde que o obrigaram a voltar para a Itália. Assim, em 1986 já o encontramos como capelão da Clínica Solatrix de Rovereto. De 1989 até 1996 vemo-lo em Turim, ajudando na Capela do Fundador. Em 1996, retirava-se para a Casa Beato Allamano em Alpignano. A 10 de Maio de 2002, pelas 08:35 da manhã, uma paragem cardio-circulatória levou-o para a Casa do Pai. O funeral foi no dia seguinte. Presidiu à missa de exéquias o padre Giovanni Genta, que recordou as últimas conversas eucarístico-marianas com o padre Bazzacco, bem como a renovação da sua consagração ao Instituto a que dera 78 anos da sua longa vida. Depois das despedidas da comunidade, os seus restos mortais foram sepultados em Alpignano. A Redacção De "Da Casa Madre"
|