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Carta do Superior Geral PDF Imprimir E-mail
Por Padre Bruno Forte   
12 de March de 2006
17 de Abril de 2003
Quinta-feira Santa


Caríssimos Missionários,

«Jesus Cristo fez-nos reis e sacerdotes para Deus Seu Pai; a Ele glória e poder para todo o sempre. Ámen». Estas palavras do livro do Apocalipse (1,6) servem de abertura à Missa Solene do Crisma neste dia em que recordamos a instituição dos Sacramentos da Ordem e da Eucaristia. E a oração colecta continua nestes termos: «Ó Pai, que consagraste o Teu único Filho com a unção do Espírito Santo e o constituíste em Messias e Senhor, concede-nos que, como participantes da Sua consagração, sejamos também nós testemunhas da Sua obra de salvação neste mundo». A Eucaristia, o Sacerdócio e a Missão – são as três realidades que aparecem e tornam a aparecer, cruzando-se, neste dia santo, e formando a sinfonia divina que designamos por Mistério Pascal, mistério central da nossa fé.

Todos nós, quer sejamos sacerdotes quer não, somos interpelados por estes mistérios litúrgicos não só porque eles são a alma do culto cristão, mas também porque eles dão vida à nossa missão. E nós devemos esforçar-nos por vivê-los como missionários, conscientes de que, sem eles e sem a sua relevância profunda na nossa vida e na das nossas comunidades cristãs, a missão teria pouca consistência e fraco dinamismo.

Foi o que declarou com grande clareza o Concílio Vaticano II quando, ao referir-se ao mistério da Eucaristia, nos convidou a aproximarmo-nos desta fonte de vida para nela encontrarmos “a fonte e o vértice de toda a evangelização” (PO 5). E como que em continuação desse mesmo tema, o Papa Paulo VI convidou os sacerdotes a abrirem alma e coração ao mundo inteiro sempre que celebrem a Eucaristia: «Cada missa, mesmo que celebrada privadamente pelo sacerdote, não é assunto privado mas sim um acto de Cristo e da Igreja que, no sacrifício que oferece aprendeu a oferecer-se a si mesma como sacrifício universal, aplicando a força única e redentora do sacrifício da cruz pela salvação do mundo inteiro. É que cada missa que é celebrada é oferecida não só pela salvação de alguns, mas também pela salvação de todo o mundo» (Mysterium Fidei, 32).
De facto, é na Eucaristia que se exerce, ininterruptamente, a obra da redenção do mundo.

Não pretendo neste momento alargar a ilustração do tema da ligação íntima entre a Eucaristia e a Missão. Prefiro partilhar convosco aquela resposta que o teólogo italiano Bruno Forte deu a esta pergunta: “Qual é o significado duma Eucaristia celebrada individualmente?”. Além disso, este trabalho é um comentário claro e pontual ao nº 63 das nossas Constituições: «Escolhidos para anunciar aos povos o mistério da morte e ressurreição do Senhor, damos a máxima importância à celebração diária da Eucaristia. Vivemo-la como “o tempo mais belo da nossa vida” (VE 384), qual “acção” apostólica, que exprime e realiza a união da comunidade.
A Eucaristia deve impregnar os nossos pensamentos, intenções e acções ao longo de todo o dia. Da riqueza e profundidade da nossa vida eucarística deriva a força para o nosso apostolado, a irradiação da fé, o íman com que atraímos as pessoas para Cristo».

Carta a um amigo sacerdote

Perguntavas-me: porque hei-de celebrar a Eucaristia todos os dias? Não chegará o encontro Dominical em que toda a comunidade cristã está presente? E porque haverei de celebrar quando estou sozinho ou mesmo com quatro gatos pingados? Não se acaba por esvaziar a celebração da morte e ressurreição de Cristo do seu sentido comunitário?

Vou tentar responder-te não só a partir das minhas convicções teológicas (que são as da Igreja e têm sido explicitadas a partir do início do segundo milénio), mas também à luz da experiência espiritual que tenho acumulado durante vários decénios de sacerdócio. Para o fazer, vou já directamente ao assunto: somos padres para quê? Quem é que nos obrigou a entregar toda a nossa vida ao ministério do evangelho da reconciliação, da eucaristia e da caridade? Só poderá haver uma resposta: foi Jesus Cristo. Somos padres porque Ele quis que fôssemos, nos chamou e nos amou dessa forma, e ainda nos quer e ama dessa mesma forma. E Ele é sempre fiel no amor. O sentido da nossa vida, a verdadeira razão de ser da nossa vocação não consiste numa certa coisa, mesmo que fosse a mais bela deste mundo, mas sim numa pessoa. E essa pessoa é Ele, o Senhor Jesus. Somos padres porque, certo dia, Ele Se chegou a nós (e cada um de nós bem sabe como foi: ou pela palavra dum testemunho, ou num gesto de caridade que nos impressionou, ou no silêncio duma caminhada de auscultação e de oração, ou até no sofrimento duma vida que nos parecia malbaratada sem Ele…).

A Ele que assim nos chamava, nós demos um sim; e de então para a frente, acendeu-se em nós uma chama de vivo amor que, com a Sua graça, nunca mais se apagou. E é ainda essa chama que nos faz arder por Ele, desejá-l’O e querer aquilo que Ele quer que tenhamos – não estou a exagerar nem a usar palavras caras. Na verdade, não teríamos podido ser padres e continuar a sê-lo apesar de tudo, com fidelidade, se não tivesse sido Ele a dar-no-lo, a viver em nós, a voltarmos sempre a enamorarmo-nos d’Ele. É este amor – e tu bem o sabes – que nos leva a realizar todas as obras que levámos a cabo por amor dos outros: desde o simples e nu acolhimento do coração à auscultação perseverante e paciente dos outros, até ao esforço de lhes transmitir o sentido e a beleza da vida vivida por Deus e pelo Seu Evangelho, até às obras de caridade e ao empenho com a justiça, partilhando principalmente a ânsia de justiça dos pobres e procurando ser a voz dos que não tinham voz. Claro que nos parece sempre pouco o que tenhamos podido fazer ou tenhamos de facto realizado: mas o que é verdade é que – se algo de verdadeiro e belo fizemos pelos outros – fizemo-lo porque foi Cristo a dar-nos a graça de o fazer; foi Ele que Se deu a nós e nos tornou capazes de gestos de gratuidade que jamais poderíamos ter sequer podido pensar ou sonhar por nossa conta.

Este extenso pressuposto – que afinal é o testemunho humilde da nossa vida de chamados e de amados por Cristo – leva-me a explicar-te a razão pela qual sinto necessidade de celebrar a eucaristia todos os dias: não se trata de um preceito, já sabes, mas duma necessidade, e não só emocional (pelo contrário, por vezes a emotividade parece evaporar-se totalmente…) mas sim verdadeira, profunda e inevitável. É a necessidade diária de encher a minha vida com Ele: foi Jesus quem nos disse que basta a cada dia a sua malícia (cfr. Mt 6, 34), quer dizer, que cada dia que passa tem a duração apenas suficiente para aguentarmos com a luta de manter a fé. O sol nasce todos os dias para nós e, dia a dia, a nossa alma sequiosa de amor precisa que o sol do nosso bem-Amado o atinja e o aqueça uma vez mais. Se Ele é a nossa vida, o sentido e a beleza da nossa vida, a verdadeira motivação de sermos o que somos e fazermos o que fazemos a serviço do evangelho, então não poderemos deixar de O procurar onde Ele se oferece por nós. Que dirias tu duma pessoa enamorada que, se pudesse fazê-lo, nunca sentisse a necessidade de encontrar, mesmo diariamente, a pessoa amada? Se isto se aplica ao amor humano, frequentemente tão frágil e volúvel, como não se há-de aplicar ao amor que não ilude nem trai, o amor que nos leva a viver no tempo para a eternidade, o amor de Deus em Jesus Cristo, que é a nossa vida? É por isso que eu preciso de O encontrar todos os dias, novamente. E onde poderia eu encontrá-lo senão onde Ele me prometeu e garantiu o dom da Sua presença? “Isto é o meu corpo – este é o cálice do sangue da nova e eterna aliança, derramado por vós e por todos para remissão dos pecados”. Sim, Jesus, eu sinto necessidade de Ti todos os dias: e se no Domingo Te encontro na festa do primeiro e do último dia, no oitavo dia da Tua ressurreição e da nova vida que dás à Igreja e ao mundo, a graça que Tu me dás de poder celebrar diariamente o memorial da Tua Páscoa enche-me de alegria e de paz. Na verdade, eu não ando sozinho pelo caminho do meu ministério: és Tu que sempre vens ter comigo, dia após dia, com a Tua palavra de vida; és Tu que me visitas nos irmãos e nas irmãs que colocas no meu caminho; és Tu que me pedes amor, nos pobres e em qualquer pessoa que tenha necessidade do amor que me chamas a dar-lhes; és Tu – no cume de tudo isto e como fonte viva deste rio de vida e amor – que Te tornas presente na eucaristia, a fim de que eu me alimente de Ti, viva de Ti e Te ame hoje e por toda a eternidade.

Então, porque é que eu celebro a eucaristia todos os dias e tudo faço para que ela nunca falte? Porque é que a celebro mesmo quando comigo só estão a Virgem Maria, os anjos e os santos e um ou outro crente perdido (ou mesmo até sem ele ou sem ela: pode sempre acontecer!)? Para Te encontrar a Ti, Jesus, minha vida, amor que dás sentido a tudo e tudo transformas em mim, amor que até tornas uma pessoa como eu em pessoa capaz de receber graça e perdão. Eu celebro diariamente para Te pedir que todos Te venham a conhecer e a amar-Te da maneira que só Tu podes tornar capaz cada pessoa de o fazer. Celebro diariamente para encontrar o meu Amado, para viver de Ti, Senhor Jesus, para me fazer conquistar e transformar cada vez mais pela Tua beleza – para ser – malgrado eu próprio – o reflexo fraco e enamorado de Ti, Bom Pastor. E, ao encontrar-Te, posso então dizer com verdade que celebro pelos outros e com eles, mesmo que não estejam fisicamente presentes, porque eu encontro em Ti o povo que me confiaste e a Ti entrego o seu amor e os seus sofrimentos, ainda que muitos deles nunca o venham a saber. Foi este o ministério de intercessão que me confiaste, de oração pelos outros e em sua vez, mesmo por aqueles que nunca conheci ou que nunca conhecerei, aquela oração que posso viver verdadeiramente apenas em união contigo, em Ti e por teu intermédio, porque Tu és o Sacerdote da nova e eterna aliança, entregue pela vida, pela alegria e pela beleza de cada uma das Tuas criaturas.
Isso mesmo, porque Jesus não é apenas verdadeiro e bom: é também belo, melhor dito, é a Beleza que salva, o bom pastor que nos guia pelas pastagens da vida, onde fica a beleza que não conhece ocaso. Ao celebrar todos os dias, eu espero tornar-me também um pouco mais verdadeiro, melhor, mais belo n’Ele, que chega até mim na Igreja como o único bem, a bondade perfeita, a beleza que transfigura tudo. E eu penso, amigo meu, que bem lá no fundo do teu coração de padre, servo da reconciliação e testemunha do evangelho, tu sentes idêntica necessidade. Peço-te por isso que nos encontremos todos os dias no altar da vida: eu levar-te-ei a ti e tu levar-me-ás a mim e, em conjunto, será Cristo a levar-nos, a levar a nossa cruz e a dos outros que devemos carregar, a dar-nos a Sua vida de ressuscitado, que venceu o pecado e a morte para os derrotar em nós e nos nossos colegas de caminhada, neste tempo e pela eternidade.

Padre Bruno Forte

Agradeço ao Padre Bruno pelo seu lindo testemunho, em meu nome e no vosso, e termino com os melhores votos que peço emprestados à Liturgia Pascal: “Ide e levai a todos a alegria do Senhor ressuscitado, aleluia, aleluia!”.
Fraternamente,

P. Piero Trabucco, IMC
(Padre Geral)

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