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1 de Março de 2003 Caríssimos Missionários, A visita canónica à vossa Delegação, que tinha sido programada para o mês de Dezembro de 2002, fora suspendida por várias razões. Tendo sido confirmada depois para o mês de Fevereiro, ela ficou incerta até à véspera por causa da precariedade da situação política que o país atravessa. Graças a Deus, que ela pôde ter lugar serenamente na primeira quinzena do mês de Fevereiro e nos deu a oportunidade de tocarmos com os nossos próprios dedos nalgumas das muitas dificuldades que o povo está a enfrentar há já bastantes meses, em todas as áreas. Juntamente com o Padre Norberto Louro, desejo agradecer ao P. Agostinho Barbosa e ao seu Conselho por nos terem facilitado esta visita que, embora breve, nos permitiu visitar todas as comunidades e dialogar com os confrades com calma. Também tivemos a oportunidade de visitar os Bispos das dioceses em que trabalhamos, passar meio dia com os Leigos Missionários da Consolata, visitar obras e dialogar com muitos colaboradores leigos. Também tivemos momentos relevantes de reflexão e celebrámos a festa do Beato Allamano na companhia das Missionárias da Consolata, durante a qual pudemos agradecer a Deus pelo dom da nossa vocação missionária que vivemos na Família que o Fundador nos passou em herança como dom do Senhor à Sua Igreja e ao mundo inteiro. A VENEZUELA ACTUAL Como era fácil de prever, a visita teve como cenário a situação social e política que a Venezuela está a viver actualmente e que influencia gravemente todos os sectores da vida nesse país. Achamos que devemos descrever, mesmo por alto, a situação que se criou nos meses mais recentes e que, embora feita ecoar em toda a parte pelos meios de comunicação social, nem sempre é fácil de compreender. Fazemo-lo com a esperança de que tal descrição possa facultar aos confrades de outras Circunscrições o conhecimento do contexto em que hoje vivem o povo, a Igreja e os nossos Missionários que aqui trabalham. No dia 26 de Abril de 2000, os Bispos da Venezuela tinham escrito uma carta ao Presidente Hugo Chávez, já que estavam preocupados com os contínuos ataques do Governo à Igreja e rebatiam, ponto por ponto, as acusações que lhe tinham sido feitas. E terminavam a carta desejando a retoma do diálogo sereno entre todas as forças do país, no mútuo respeito e tendo em mira o bem comum. Também citavam um trecho do documento de Medellín, que explicava o papel da Igreja a nível político: «A nossa missão pastoral é essencialmente um serviço de inspiração e de educação das consciências dos fiéis, para os ajudar a compreender a responsabilidade da sua fé na vida pessoal e social… A falta duma consciência política nos nossos países torna imprescindível a acção educadora da Igreja, com o objectivo único de que os cristãos considerem a sua participação na vida política da Nação como um dever de consciência e como exercício da caridade no seu sentido mais nobre e eficaz, em prol da vida da comunidade» (Medellín, doc. Justicia, 6 e 16). Infelizmente, as preocupações dos Bispos com o destino da Nação, devido ao choque contínuo entre Governo e Oposição, revelaram ter bom fundamento. Essa polarização de posições aumentou até criar uma fractura profunda na Nação, com tomadas de posição até mesmo violentas em defesa do Presidente, bem como de condenação da sua actuação, por parte duma oposição cada vez mais alargada e activa. Esta fractura do País tornou-se visível até mesmo entre as forças armadas, que deveriam garantir a unidade de todos. Os últimos dois anos ficaram marcados por proclamações e manifestações a favor ou contra a actuação do governo. A instabilidade política e as tensões sociais tiveram como consequência um gradual e constante desgaste da situação social do povo, fazendo aumentar enormemente a faixa, aliás já ampla, de pobres. Nasceu então a violência aberta, que atingiu o auge na primeira quinzena de Abril de 2002 quando, entre manifestações e saques, houve 17 vítimas e centenas de feridos. O governo de Hugo Chávez, constrangido inicialmente a demitir-se, retomou de novo o poder no espaço de 24 horas. Das tristes vicissitudes desses dias surgiu a Comissão para o Diálogo com o objectivo de resolver as tensões mais preocupantes no país. Mas ela não estava a conseguir resultados concretos e assim, a partir do dia 2 de Dezembro de 2002, começaram as greves gerais e parciais em muitos sectores da produção, principalmente no petrolífero. As consequências foram e continuam a ser nefastas, sobretudo para os sectores mais fracos da sociedade. Até ao presente, o Governo e a oposição ainda não deram sinais de disponibilidade para levar a sério o diálogo como saída indispensável para tirar o País da presente situação de inércia em todos os sectores. As posições ainda estão muito rígidas: o Governo, que se sente forte devido à sua legitimidade constitucional, acusa a oposição de estar a destruir a Nação; a oposição, por sua vez, aponta o dedo ao totalitarismo crescente e à incapacidade do Presidente em ver nas marchas das multidões a vontade popular que pretende uma mudança na própria cúpula do Governo. O povo venezuelano demonstrou nestas circunstâncias uma paciência enorme por ter sobrevivido, dia após dia, sujeitando-se a filas de horas e horas para conseguir o combustível necessário para o seu trabalho ou para cozinhar. Também escasseiam os bens de primeira necessidade; e a moeda desvaloriza-se cada vez mais porque, devido à greve do pessoal da indústria petrolífera, a fonte primária da riqueza do País se enfraqueceu. A pobreza vai crescendo e, em consequência, também tem aumentado a delinquência comum, sobretudo nas grandes cidades. São numerosos os imigrantes que estão a regressar aos seus países de origem, privando a Nação de mão de obra preciosa. Perante este panorama, a Igreja não deixou de se fazer ouvir e, através da Comissão dos Bispos, veio apelar a todo o povo da Venezuela para: - Trabalhar pela paz, visto que a paz é o primeiro e máximo bem do País. O Governo foi convidado a reatar as negociações e a aceitar todas as mediações tanto internas como externas ao País. - Reconhecerem-se como irmãos, usando meios, atitudes e palavras que facilitem a reconciliação nacional. Os Bispos convidam o povo a, sobretudo, descartar as ideologias e a desonra do outro. - Considerar a Igreja como defensora da unidade, e não como criada de qualquer partido político ou grupo social. De facto, ela deve trabalhar para bem de todos, na defesa dos direitos humanos, na denúncia da injustiça e na proclamação da verdade. - Comprometer-se com o bem comum, promovendo e acompanhando toda e qualquer iniciativa que favoreça o encontro, o diálogo e a paz entre os cidadãos. Ao mesmo tempo, sente que não pode esquecer na sua acção os mais necessitados. - Proclamar a esperança, mas sem criar falsas expectativas ou ilusões. Os dirigentes políticos e os meios de comunicação social devem dar ouvidos a todos e não devem cair na ratoeira da tomada de posições partidárias. A oração pela paz deve ser intensa e constante. Esta panorâmica do país é necessária, visto o carácter de excepção da situação actual que o povo da Venezuela vive. Da nossa parte, como Missionários da Consolata, não podemos deixar de nos sintonizar e favorecer, no meio do povo, as atitudes que os Bispos sugerem. A nossa acção deve, além disso, sintonizar-se com todas as Igrejas locais em que trabalhamos, sobretudo através das Comissões de Justiça & Paz. TRINTA ANOS DE PRESENÇA IMC NA VENEZUELA A visita canónica deu-nos a oportunidade de, antes de mais, manifestarmos a nossa gratidão ao Senhor da Messe que nunca deixa de suscitar apóstolos na Sua Igreja nem deixa de os acompanhar nas suas tarefas de evangelizadores. Também agradecemos aos numerosos Missionários que, durante trinta anos, fizeram um trabalho extraordinário em numerosas dioceses, muitas vezes entre dificuldades nada pequenas. Agora vamos lembrar, muito rapidamente, as opções que a Delegação tem concretizado ao longo da sua história, para tornar mais fácil a compreensão das actuais. De facto, não podemos esquecer que a quase totalidade do pessoal actual conta com menos de cinco anos de presença. - A Delegação da Venezuela sempre se distinguiu por decisões missionárias claras e fortes, de entre as quais merece destaque o trabalho missionário entre os indígenas Guajiros e a evangelização da população de extracção africana de Barlovento. A constatação do movimento constante e maciço da população na direcção das grandes cidades levou a Delegação a fazer duas fundações missionárias em zonas pobres, na periferia de Barquisimeto e, depois, em Caracas. - Logo desde o princípio, os nossos confrades sentiram a necessidade de fazer animação missionária na Igreja da Venezuela, quer através duma colaboração activa com as Obras Missionárias Pontifícias, quer através da activação intensa do Centro de Animação Missionária de Barquisimeto. Esta componente do nosso serviço missionário foi em várias ocasiões reconhecida pelos Bispos como modo excelente de servir a Igreja local. - A nossa acção missionária entre os indígenas foi sempre considerada uma opção característica do nosso serviço missionário. Esta convicção levou a última Conferência Regional a escolher uma nova forma de serviço entre as populações indígenas do país. - A Delegação repetiu a experiência de outras pequenas circunscrições onde, para tornar possível a renovação do pessoal, se recorreu ao “avvicendamento” com outras circunscrições. Por esta razão, nos últimos dez anos, a Direcção Geral tem implementado e favorecido uma troca intensa de pessoal e a chegada de novas forças. Sem dúvida que esta medida, se por um lado poderá ter enfraquecido a Delegação ao tirar-lhe forças capazes e experientes, por outro lado trouxe novas ideias, criando até uma maior unidade de propósitos dentro da Circunscrição. - De acordo com as orientações do XCG, a Delegação decidiu reafirmar a directriz referente à composição de cada comunidade por três membros. Se por um lado este dispositivo trancou a possibilidade de novas fundações, pelo outro ele está a apresentar vários benefícios tanto para o pessoal como para o serviço missionário. A visita reafirmou não só a validade dos compromissos missionários já assumidos como também o projecto duma nova fundação entre os indígenas, que se encontra actualmente em fase de análise em conjunto com as Missionárias da Consolata. Ao mesmo tempo, também confirma as observações apresentadas pela Direcção Geral no acto de aprovar os Actos dessa mesma Conferência. Elas foram feitas no intuito de favorecer o desenvolvimento da Circunscrição, evitando que uma ou outra dimensão da nossa vida e do nosso carisma viesse a sofrer. O PESSOAL MISSIONÁRIO “Os pagãos esperaram tantos séculos que bem poderão agora esperar mais um pouco…”. Estas palavras do Fundador foram dirigidas a quem, dentro do Instituto, queria queimar etapas durante a fase de formação básica, ou então não dava toda a importância à preparação do pessoal e à sua formação específica para a missão. A tentação de apontar exclusivamente para o trabalho missionário, descuidando ou minimizando o tratamento do pessoal, não aconteceu só nos primeiros tempos do Instituto, podendo-se encontrar sempre, em todas as épocas e estações. Assim, também os visitadores, sobretudo após os diálogos realizados com os Missionários, sentem o dever de reafirmar que a primeira preocupação duma Circunscrição deve centrar-se no cuidado para com o pessoal. De facto, só um grupo de Missionários plenamente identificado com a sua própria vocação e ocupado em restaurar as suas forças a partir da fonte perene da fé e do carisma, além de bem integrado na comunhão fraterna, é que poderá realizar evangelização autêntica. Assim, apoiados pelos sábios e paternos ensinamentos de José Allamano, vamos reafirmar agora alguns aspectos da nossa vida, aos quais devereis continuar a consagrar um interesse todo particular. 1. Cuidemos da vida comunitária A vida comunitária não é um aspecto meramente periférico na vida cristã, principalmente na nossa. Não foi sem razão que João Paulo II veio propor com vigor a toda a Igreja que se torne “casa e escola de comunhão”: «Eis o grande desafio que se nos depara para o milénio que está a começar, se quisermos ser fiéis aos desígnios de Deus e também dar uma resposta às profundas expectativas do mundo» (NMI 43). Com igual coragem proclamou o XCG: «O Missionário da Consolata, por vontade do Fundador, não faz missão sozinho. A comunhão de vida e de trabalho é para nós um valor básico (cfr. Const. 22). Estarmos juntos em fraternidade e em comunhão torna-se um método e um modo de nos apresentarmos ao mundo como verdadeira comunidade apostólica» (p. 29). Estas convicções, que estão na base do nosso “credo”, impelem cada um a sentir o seu confrade não como um simples colaborador no trabalho, mas como uma pessoa que lhe pertence e cujas alegrias e sofrimentos, desejos e necessidades, se tornam, pouco a pouco, seus. Por isso, cada qual deverá esforçar-se por ver no outro tudo o que há de positivo, valorizando-o como dom que Deus concedeu, tanto a si próprio como à comunidade. Cuidar da vida comunitária significa também dar tempo aos outros, ao diálogo que vai para além da convivência, para alcançar uma profundidade de comunicação que nos faz crescer - tanto quem oferece como quem recebe. 2. Solidifiquemos a oração Uma comunidade autêntica alimenta-se diariamente de oração, daquela acção que o Beato Allamano considerava “o nosso primeiro dever” (VE 407). Reafirmamos a norma emanada pelo XCG segundo a qual cada comunidade deve programar «pelo menos dois encontros diários de oração qualitativamente significativos, tal como a prática da “lectio divina” como forma privilegiada de inspiração para a vida pessoal e comunitária» (p. 33). Todas as comunidades se encontram pela manhã para a reza das Laudes, mas constatámos que as comunidades apostólicas têm dificuldade em se reunirem à noite para rezar em conjunto, visto que os compromissos pastorais se concentram sobretudo nas horas da noite. Poderia resolver-se facilmente o problema talvez dando maior importância à Hora Média. Aplaudimos a louvável iniciativa que todas as comunidades estão a cumprir, a de se encontrarem um dia por semana para reflectir sobre a Palavra de Deus do Domingo seguinte. Não só é bom instrumento de ajuda à pregação como também é um verdadeiro momento de lectio divina. Gostaríamos também de vos convidar a rezar com o povo. A isso também nos exortam as Constituições: «Como missionários sentimo-nos solidários com a comunidade cristã local e, de preferência, rezamos com ela; ajudamo-la a crescer espiritualmente, reconhecendo e valorizando os elementos de oração e contemplação, próprios do povo e das Igrejas locais» (Const. 59). 3. O descanso é um dever As actividades apostólicas deixam-nos, por vezes, pouco tempo para descansar. Só com dificuldade conseguimos sair da densa agenda dos compromissos semanais para um dia dedicado completamente a nós mesmos para o descanso, a formação, a leitura e uma actividade desportiva, de que os jovens sentem tanta necessidade. As tensões que frequentemente aparecem em nós e na convivência comunitária até poderão ter a sua origem nesta falta de repouso suficiente. Não se deve esquecer tão pouco o período anual de férias, que o nosso Directório Geral sugere que seja de três semanas. Pedimos ao Superior Delegado que se encarregue de verificar, nas suas visitas às comunidades, que o repouso se encontre adequadamente previsto no PCV. 4. A formação deve ser “contínua” Ao longo da visita tivemos a oportunidade de percepcionar uma certa dificuldade em levar a cabo a formação contínua, quer a nível das comunidades quer a nível das pessoas, uma formação que seja de facto constante e incisiva. Há queixas de que o número limitado de pessoal na Delegação torna difícil, por vezes, a concretização de programas de certa amplitude, com pessoal qualificado e por tempo prolongado. Embora constatemos a verdade desta interpretação, também conseguimos entrever caminhos vários que possam desembocar na afirmação da “continuidade” da formação na vida de cada missionário. Eis alguns: - É conveniente que as vossas assembleias de Delegação aumentem o tempo dedicado ao aprofundamento dos temas formativos. - A Direcção de Delegação deve dar a conhecer a todos as iniciativas que a Igreja da Venezuela realiza em prol dos padres e dos religiosos. Cada missionário deve comprometer-se pessoalmente a participar anualmente numa destas iniciativas de formação. - Deve haver dedicação de tempo, principalmente servindo-se do “dia semanal da comunidade”, para fazer leitura de livros e revistas úteis, que hoje em dia são abundantes e ricos de informação. - Também se deve analisar a possibilidade de utilizar as acções de formação da vizinha Colômbia, para poder oferecer aos Missionários da Delegação uma ajuda extraordinária, sempre que haja necessidade. 5. O pessoal jovem e recém-chegado tem exigências especiais A Delegação tem uma quantidade razoável de Missionários jovens, a quem o Instituto tem andado a dedicar uma atenção formativa toda particular, há já algum tempo. Conhecemos bem os respectivos motivos. Achamos conveniente lembrar aqui algumas acções de formação que poderão realizar-se convenientemente em prol dos confrades mais jovens ou novos na Delegação: - Devem continuar e incentivar-se as acções de formação a favor dos confrades com menos de cinco anos de ordenação sacerdotal ou de profissão perpétua. - Os confrades recém-chegados à Venezuela devem receber ajuda no conhecimento da realidade do País e na caminhada espiritual da Igreja. Também devem receber uma introdução ao conhecimento das opções missionárias da Delegação, bem como do estilo de trabalho dos confrades. - Os confrades novos e jovens devem ter fácil acesso a leituras e cursos de formação na Igreja local. A ACÇÃO MISSIONÁRIA O nosso ministério de presença e de evangelização situa-se num contexto conjuntural especialmente difícil, nos dias de hoje. O momento político e a situação social do País só ajudam à acumulação de novos desafios à nossa acção missionária, além de tantos outros que a Delegação registou há três anos no contexto da realização da V Conferência Regional. Fazer mera acção pastoral não seria difícil, face aos contínuos pedidos dos sacramentos que os fiéis fazem e face às muitas manifestações de religiosidade popular. Mas transformar estes serviços pastorais numa acção missionária é muito difícil e debate-se com muitos obstáculos. Vou lembrar aqueles que surgiram com maior frequência durante a visita: - A situação de pobreza e marginalização da maior parte da população que servimos, com os consequentes, e cada vez mais frequentes, actos de violência, abuso de droga e prostituição. - O complexo da “minoria étnica” da população do Barlovento favorece uma situação de passividade face ao desenvolvimento social e económico, de fraco interesse pela sua própria cultura. A pobreza e a heterogeneidade sociocultural das populações que vivem em Carapita (Caracas) e em El Ujano (Barquisimeto) tornam hostil o ambiente em que vivem e tornam difícil a apropriação das suas próprias raízes culturais. - A percentagem da população que vive nas nossas paróquias mantém-se a níveis muito baixos. Nalguns casos, calcula-se que a sua participação não vá além dos 2 a 3 por cento. Embora a enorme maioria da população se diga religiosa, ela só manifesta a sua religiosidade em alguns momentos “sociais” como são o do baptismo, o da primeira comunhão e o dos funerais. Nem se esqueça que há uma quantidade crescente de pessoas que está a passar para as igrejas evangélicas ou para outros movimentos ou grupos pseudo-religiosos. - A qualidade de vida dos nossos “fiéis” é em geral muito baixa: fraca educação religiosa, indiferença face aos desafios que podem advir dum cristianismo mais autêntico, e fraca participação na vida da Igreja. - Nem sequer o mundo jovem está suficientemente presente nas comunidades paroquiais, respondendo ainda pouco aos convites dos nossos agentes de animação missionária. Além disso, os jovens revelam uma grande dose de instabilidade e pouco desejo em se comprometerem de maneira significativa. - Este ambiente eclesial e religioso, como seria de esperar, produz pouco clero e poucas pessoas consagradas. Mais escassos ainda são aqueles que se tornam disponíveis para partir em missão, devido ao grande apego à família. - Por fim, a missão parece muito secundária na vida e nos interesses dos fiéis. A Igreja, embora mostre alguns sinais positivos de que está a despertar, ainda dá pouca atenção a esta dimensão da sua vida. Esta grande série de dificuldades, longe de causar desânimo, deve tornar-se um estímulo para a nossa acção missionária. A visita e os diálogos, aliás, não revelaram desânimo; pelo contrário, revelaram um grande desejo por parte de todos num empenho renovado no serviço missionário. Destes diálogos gravámos algumas expressões que levaremos daqui como um viático: os tempos de Deus não são como os nossos: a nós cabe-nos semear; somos Missionários da Consolata e, por isso, devemos ser sinal de consolação e de esperança entre os mais pobres; quanto mais difícil for a situação do povo, e quanto mais crítica for a do país, tanto mais nos sentiremos realizados como missionários; a aridez do terreno em que trabalhamos leva-nos a não invejar os campos de trabalho noutros continentes… Passamos agora a identificar alguns aspectos da acção missionária que mereceram maior atenção durante esta visita. Temos consciência de que estamos a ser parciais, mas conforta-nos o facto de a V Conferência da Delegação já ter tratado destes assuntos de maneira ampla e exaustiva. 1. Formação, formação e mais formação… Tal é o segredo para evangelizar com eficácia: ela é o caminho para formar verdadeiras comunidades cristãs; é a concretização duma dimensão carismática de marca IMC. Antes de mais nada, e de modo muito especial, cuide-se a formação dos catequistas e dos animadores leigos: são eles que haverão de chegar onde nós jamais poderemos ir, dada a extensão e a complexidade das comunidades que nos estão confiadas. A família é o núcleo central, tanto da sociedade como da Igreja. Portanto, devemos encontrar o modo acertado de melhorar a instrução religiosa dos adultos e das famílias, num momento histórico em que o núcleo familiar está a registar uma larga e profunda crise. Prefiram-se os grupos e movimentos que têm o carisma especial da pastoral familiar. A homilia dominical – além duma reflexão mais simples no decorrer de cada celebração eucarística – é meio precioso e importante à nossa disposição para fazer crescer os nossos fiéis. 2. Promover as organizações leigas Na Novo Millenio Ineunte, o Papa convida a Igreja a cuidar das organizações leigas e a utilizar o seu grande potencial para uma nova evangelização: «Promover as várias organizações leigas, quer nas formas tradicionais quer noutras mais novas dos movimentos eclesiais, continuam a dar à Igreja uma vivacidade que é dom de Deus e constitui uma autêntica “primavera do Espírito”. Claro que é preciso que estas associações e movimentos, da Igreja universal como das Igrejas particulares, funcionem em plena sintonia eclesial e em obediência às directrizes da autoridade dos seus pastores. Mas também é válido para todos o aviso, exigente e peremptório, do Apóstolo: “Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias. Examinai tudo; retende o que for bom” (1 Tes 5, 19-21)» (46). Neste contexto, são dignos de referência aos Leigos Missionários da Consolata, que tivemos a alegria de encontrar e conhecer. A sua formação é tratada em conjunto pelos Missionários e pelas Missionárias da Consolata. Alguns já fizeram experiência de serviço missionário fora do seu próprio País; outros estão a preparar-se para isso. Desejamos que o novo Estatuto os possa guiar agora para uma identidade cada vez mais clara e para uma formação cada vez melhor, no espírito missionário do Beato Allamano. 3. Dar continuidade ao trabalho missionário Sem dúvida que a mobilidade do pessoal missionário e a consequente descontinuidade do trabalho prejudicam muito a eficácia da acção apostólica. Infelizmente, este movimento interno do pessoal na Delegação torna-se inevitável, por vezes, devido ao reduzido número de membros. O Conselho da Delegação procurará contornar esses inconvenientes, mas nós lembramos que há outros elementos que podem imprimir continuidade ao trabalho pastoral: - um projecto comunitário e apostólico que tenha sido redigido e analisado pela comunidade é garantia de trabalho sério e de longo alcance. - O envolvimento do pessoal leigo no nosso trabalho e a formação de ministros competentes e zelosos são elementos indispensáveis para um trabalho missionário duradouro. - O Missionário que chega a uma dada comunidade deve possuir sabedoria suficiente para entender que não veio para fazer tábua rasa do trabalho dos outros. Deve acolher, continuar, fazer discernimento e, terminado esse processo, até poderá avançar para modificações que melhorem a situação que encontrou. 4. Método esclarecido José Allamano queria que os seus Missionários tivessem um método “esclarecido”, quer dizer, reflectido, analisado e consensual. Já se tornou prática sólida no Instituto a redacção conjunta e anual da programação comunitária. É um momento importante e precioso que se deve utilizar da melhor maneira, para tornar a nossa acção apostólica cada vez mais eficaz. Notámos com prazer como cada comunidade tem de facto um projecto comunitário de vida. Ele tem a ver principalmente com a nossa vida comunitária e projecta a nossa vida diária, interessa-se pela formação permanente. Soubemos de alguns missionários que, sobretudo durante os Exercícios Espirituais anuais, escrevem o seu projecto pessoal de vida. É um instrumento que tem raízes na espiritualidade de Santo Inácio e ajuda muito a traçar o caminho formativo de cada um, levando em consideração as várias dimensões da vida. Além disso, existe nalgumas comunidades o projecto apostólico, que é redigido pela equipa IMC em conjunto com os colaboradores leigos. Ele ajuda a interpretar a realidade, traça linhas de acção, analisa as orientações práticas e determina os objectivos. Até poderá incluir a caminhada de vários anos, dando continuidade e solidez ao trabalho. Exortamos a todos a que se sirvam destes instrumentos; mas queremos também sublinhar um aspecto que por vezes não aparece: o da revisão de plano. De facto, não basta planear; é preciso saber voltar frequentemente e reler o projecto – por revisão atenta. Sobre a capacidade de fazer tal revisão é que se joga, muitas vezes, a eficácia de qualquer projecto de vida e de trabalho. 5. Animação Missionária e Vocacional (AMV) Este aspecto da nossa actividade missionária não interessa apenas aos respectivos animadores, embora sejam os mais interessados nisso. Ele toca de perto todos os membros da Delegação precisamente porque todos, em virtude da sua vocação, são chamados a animar missionariamente o povo de Deus e a despertar novas vocações para a Igreja. Para além dos resultados, o mais das vezes escassos e até desanimadores, temos de reafirmar a nossa fé no Senhor da Messe, que continua a chamar e a enviar operários para a Sua vinha. A nós, cabe-nos a tarefa de acompanhar a caminhada vocacional dos jovens e apoiá-los, para que a sua resposta possa ser autêntica e corajosa. Convencidos da importância que a AMV assume na Delegação, queremos lembrar alguns aspectos que podem integrar os que foram descritos amplamente na V Conferência: - Cada paróquia deve ter um ou mais grupos vocacionais, como expressão mais significativa do compromisso com a pastoral dos jovens. - O grupo vocacional deve ter em mira acompanhar os jovens na sua caminhada de fé até ao ponto em que já consigam perguntar a si mesmos: “Que queres, Senhor, que eu faça?”. - Os Leigos Missionários da Consolata devem ser envolvidos na animação missionária do povo de Deus, pondo a bom uso a sua formação e experiência missionárias. - Procuremos colaborar com as Obras Missionárias Pontifícias (OMP), principalmente disponibilizando-nos para fazer animação do sector jovem (Joven Misión). - No orçamento anual deve incluir-se uma dada soma para a produção de material útil para a animação missionária e vocacional. Os jovens do nosso Seminário, com o apoio do Formador, devem analisar a possibilidade de publicar um folheto vocacional, tendo presente a experiência positiva de outras Circunscrições. - O dia 16 de cada mês, dedicado ao Pai Fundador, deve assumir também o carácter de dia de oração pelas vocações e deve servir de ocasião para fazermos a proposta vocacional. 6. Formação Permanente Consideramos positiva a iniciativa posta em prática pela Delegação de comprar uma nova casa para o Seminário. A sua relativa distância em relação à Casa Regional poderá garantir uma autonomia sadia a essa comunidade, mas não deve afastá-la da comunhão com os confrades. Todos se devem empenhar em passar por lá de forma regular para cumprimentar os nossos jovens e para partilhar com eles a experiência missionária. Notámos um empenho sério dos jovens na sua própria formação. Fazemos votos para que ele seja indicativo duma maior perseverança vocacional daqueles que batem à nossa porta para se tornarem Missionários da Consolata. É preciso duplicar o nosso empenho para que o número de jovens em formação aumente: é quanto exigem, não só o desejo do aumento de vocações como também a qualidade da sua própria formação. ORGANIZAÇÃO
No contexto organizativo da Delegação, desejamos acenar a alguns aspectos que foram considerados durante a visita canónica. 1. Reestruturação da Casa Regional O projecto, que está em análise há já vários meses, ainda não pôde ser concretizado por várias razões. A Direcção da Delegação conta, no entanto, poder fazê-lo dentro em breve, não só para poder oferecer ambientes mais sadios e adequados aos confrades da comunidade, como para melhor poder acolher os Missionários durante as ocasiões de reuniões periódicas. 2. Administração A recente visita do Administrador Geral confirmou a existência duma praxe administrativa correcta na Delegação. O empenho da Direcção Geral em ajudar financeiramente a Delegação não deve porém desculpar nenhum Missionário de procurar os recursos necessários tanto para si como para a comunidade. É conveniente que os subsídios destinados à evangelização e aos pobres sejam distribuídos com circunspecção e em momentos relativamente breves. Exortamos a todos que continuem a solidarizar-se com as dificuldades económicas das muitas pessoas em necessidade neste momento de crise generalizada no País, e sugerimos que se analise qualquer projecto concreto de ajuda aos que sofrem os apertos económicos, em sinal concreto de partilha e de solidariedade. Mas que seja feito coma ajuda da Comissão Justiça & Paz. 3. A nova fundação entre os indígenas Ela foi proposta pela V Conferência e a sua concretização está agora em fase de análise, sob a forma de projecto comum com as Irmãs Missionárias da Consolata. Já foram dados alguns passos a nível de pesquisa, esperando-se poder ter pessoal suficiente que possibilite a sua abertura, com a chegada praticamente iminente de novos Missionários. CONCLUSÃO Chamados por vocação a levar a consolação ao mundo, sentimo-nos mais que nunca próximos e solidários com o povo venezuelano, neste momento histórico de grande sofrimento. Façamo-lo no estilo que vem do nosso carisma, anunciando Jesus Cristo, que é a revelação amorosa da ternura do Pai para com todos os que sofrem. Procuremos ficar com o povo, ouvindo, ajudando e consolando. Ao fazermos promoção humana, tenhamos sempre viva a consciência de que ela deve dar a todos a verdadeira consolação-libertação. Enfim, comprometamo-nos, sempre em virtude do nosso carisma, a colocar-nos do lado dos pobres e daqueles que sofrem, lutando com eles em prol da justiça e da paz. Que a nossa Mãe Consolata nos ajude e nos acompanhe. E que o nosso Pai Fundador, em cuja festa litúrgica anual vivemos esta visita de cada seis anos nos abençoe. Confiemos à intercessão de ambos o nosso empenho em produzir, agora, aquilo que semeámos na reflexão e na oração. Fraternamente, P. Piero Trabucco, IMC (Padre Geral)
P. Norberto Ribeiro Louro, IMC (Conselheiro Geral)
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