Narrow screen resolution Wide screen resolution
Padre ANTONIO GIUSTETTO (1928-2002) PDF Imprimir E-mail
Por P. Giovanni Tebald   
12 de March de 2006
«Prometi a Deus que ficaria sempre no Quénia»

«O abaixo assinado seminarista António Giustetto, do Seminário Diocesano de Saluzzo, desejando consagrar-se à vida religiosa e à evangelização dos pobres infiéis, faz a Vossa Paternidade o humilde pedido de ser admitido no Noviciado do Instituto Missionário da Consolata». Era o dia 19 de Outubro de 1948 quando este pedido foi deferido pelo Superior Geral. O nome de António Giustetto aparece no Boletim Oficial entre os 28 candidatos daquele ano, que foi o último da administração de Mons. Barlassina. Naqueles tempos, a missão escorria nas veias do Instituto: os territórios do Chaco, do Rio Branco e do Rio Madalena acabavam de ser abertos à evangelização e apareciam pela primeira vez na revista Missioni Consolata e no Da Casa Madre, inspirando entusiasmo e expectativa.
O António tinha amadurecido na sua vocação missionária durante os anos da escola média no Seminário de Santo Agostinho e durante os estudos liceais no Seminário de S. Nicola de Saluzzo, por contacto com os “propagandistas” daqueles tempos. Do registo académico do ano lectivo 1947-1948 emerge que era um rapaz de alta facturação: 10 em comportamento, oito em grego escrito e oral, oito em italiano escrito e oral, seis-sete em latim, oito em arte (numa escala de 0 a 10 valores). Mais fraca era a matemática. Enfim, era um aluno de tendência humanística, de fino gosto, de sensibilidade à flor da pele. Terminado o Noviciado na Certosa di Pesio, cursou filosofia e teologia no Seminário Maior do IMC em Turim. Foi ordenado sacerdote em 28 de Junho de 1953 na catedral de Turim pelo cardeal Maurílio Fossati, tendo como testemunhas Nicola Baravale e Giuseppe Garneri.
O Padre Giovanni Genta, que partilhou com ele os anos que passou em Turim, escreve: «Conheci-o nos anos dos estudos teológicos; éramos colegas de carteira, tal como mandava a ordem alfabética e, depois, encontrei-o em Chuka, Meru. De carácter humilde, nunca tocou trombeta para chamar a atenção sobre o trabalho que fazia, principalmente no campo académico, estando convencido de que o estudo era um meio indispensável para combater a miséria, a doença, a ignorância e para nos desenvolvermos enquanto pessoas. O seu coração abria-se às crianças e aos órfãos que não podiam ir à escola devido à pobreza das famílias.
Por sorte encontrou ajuda e amizade entre os benfeitores do secretariado missionário diocesano de Turim. Tal como Jesus Cristo, passou pelo mundo a fazer o bem».
O António nascera na freguesia de Santo Stefano em Villafranca Piemonte (TO) a 29 de Dezembro de 1928. Ainda era pequeno quando testemunhou a morte do seu pai António e a dor da sua mãe Margherita. Após a ordenação, foi prefeito e professor em Benevaggiena (Cuneo) e Biadene (Treviso) até que partiu para os Estados Unidos (1960), onde se inscreveu na Faculdade de Educação da Catholic University of America, que outros confrades também frequentavam. Durante o ano lectivo 1960-1961 o Padre Giustetto fez investigação em filosofia da educação: teorias modernas da educação, história da educação e educação de seminaristas. Acabaria por ser uma preparação apropriada à formação dos seminaristas IMC e dos africanos. Infelizmente, a acumulação dos estudos, a dificuldade de adaptação e a distância entre Silver Spring e a Universidade, causaram-lhe abatimento, pelo que teve de interromper os estudos e passou a cuidar da pequena comunidade juntamente com o Padre Moncher. Entretanto, apoderara-se dele a impaciência; e a África começou a chamar por ele. A partir de 5 de Setembro de 1962 e até 1968, já trabalhava no Nkubu Seminary de Meru. Um professor-nato, meticuloso na sua leccionação e bom educador, formou aqueles que depois se tornariam os padres da Igreja local de Meru. Passou depois a Chuka, como presidente da Chuka Commercial School.
Escreveu dele o padre Livio Tessari, que o conheceu no Quénia: «Recordo com satisfação a sua actividade a favor da juventude e das famílias de Chuka. Com a divisão das terras e a eliminação das aldeias, muitos ficaram sem trabalho e a juventude sem futuro. Para resolver este problema, o padre Giustetto instituiu uma escola comercial para a emancipação da mulher, graças aos auxílios da população local e dos seus amigos. É recordado hoje pelos seus programas de formação religiosa e social. Entre outras actividades de formação, chegou a compor um manual de estenografia da língua ki-swahíli, que foi usado na escola e acabou por ser adoptado por muitas escolas oficiais do Quénia.
Depois desta maravilhosa experiência no campo do ensino, o padre António foi designado para a animação missionária na Itália (1971-1973). Tratou-se duma amarga experiência que teve lugar num contexto já muito mudado, por aqueles anos. Voltou para o Quénia e, de Nairobi, acabou por confessar ao padre Mario Bianchi, superior geral: «Percebi que acabaria num falhanço pessoal, com o consequente desânimo na minha vida missionária. Talvez uma pessoa mais optimista, mais extrovertida e mais zelosa tivesse conseguido enfrentar aquele tipo de trabalho, mas eu simplesmente não tinha coragem… Por isso, continuei a insistir para voltar ao Quénia». A insistência que teve de fazer para levar os superiores a permitirem o seu regresso, tornou-se um motivo de sofrimento para o padre António. «Espero bem que mo concedam – escrevia ele – e, humildemente, peço perdão».
Entretanto, abria-se-lhe uma segunda fase de intenso trabalho nas missões do Quénia. Durante os anos 1973-1975 foi pároco de Amung’enti, Meru, uma missão que fora fundada entre 1911 e 1913. Depois, entre 1975 e 1983, foi professor na Kevote Boys High School, Embu, que surgira durante os anos dos Mau-Mau e da Independência do Quénia.
O Padre António Giordano, mais que qualquer outro, acompanhou-o de perto e conseguiu captar alguns aspectos interessantes do seu carácter e do seu trabalho.
Eis o seu testemunho: «Encontrei-me com o Padre António no ano de 1957 em Benevaggiena durante o mês de Agosto, quando me mandaram, ainda estudante de teologia, a fazer de prefeito aos seminaristas da escola média, rendendo os padres que ali eram prefeitos e professores: o Padre Piol, o Padre Genta e o Padre Giustetto. Este último tinha organizado uma pequena orquestra de ocarinas e de flautas – que ele acompanhava e dirigia com o acordeão. Era prefeito e professor exigente, diziam os rapazes; mas que também era compreensivo. Sabia conquistar a estima dos alunos, inculcando o respeito pela autoridade. Depois voltei a vê-lo alguns anos mais tarde em Washington, onde frequentava um curso de Missiologia. Conseguiu o diploma que procurava e partiu para Meru. Só tive a oportunidade de trabalhar com ele entre 1986 e 1988 quando estava encarregado da contabilidade na administração regional em Nairobi. Naqueles anos eu era o responsável pela Consolata School, que tinha uns sessenta professores, quarenta dos quais eram estrangeiros, sempre a precisarem de autorizações de trabalho. O Padre António ajudou-me neste trabalho ingrato; passava horas diante dos guichets até conseguir aquilo que procurava. Note-se que a Associação Nacional de Professores era muito avessa a conceder postos de trabalho a outros. Durante aqueles anos o Padre Giustetto foi ecónomo da casa regional de Nairobi.
Era um missionário austero e pobre, a começar por si próprio. A sua espiritualidade assentava na austeridade, na oração e na vida sacramental. Quando foi transferido para a missão de Timao, senti falta dele, exactamente como acontece quando se perde um amigo sincero. E foi então que começou o seu calvário: teve um ataque de coração. Encontrei-o mais tarde em Alpignano, mas ele já era apenas uma sombra do que fora – voluntarioso, forte, sereno, moderado, compreensivo, brincalhão, duro, manso, calado, conversador. Fiquei profundamente chocado. O ideal da missão e o amor pelo Instituto fundira tudo isto numa só pessoa. Empunhava, de dentes cerrados, a missão, que era a alma da sua vida. Tinha prometido a Deus que jamais sairia do Quénia. E só o deixou para vir descansar e morrer perto da casa que o vira nascer. Tinha 74 anos – 53 de profissão e 49 de sacerdócio».

P. Giovanni Tebald

Fundador

Quem são...

Biênio de Reflexão

Santidade