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| O acolhimento mútuo |
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| Por P. Piero Trabucco, IMC | |
| 12 de March de 2006 | |
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O ACOLHIMENTO MÚTUO 20 de Junho de 2003 Caríssimos Missionários, Saúdo-vos com as palavras que o Apóstolo São Paulo dirigiu aos cristãos de Roma – “Acolhei-vos, uns aos outros, como Cristo também vos acolheu para glória de Deus” (Rm 15, 7). Na verdade, eu gostaria de tratar do tema acolhimento mútuo. O nosso Instituto, que se caracteriza por um acentuado pluralismo em termos de pessoas, mentalidades e culturas, precisa de reflectir sobre este angustiado convite de São Paulo para nele poder encontrar inspiração tanto para as ideias como para a orientação concreta da vida. A palavra de Deus dá-nos a oportunidade de arrancar para essa reflexão a partir duma perspectiva de fé. Por isso, vou deter-me sobre alguns aspectos que podem dizer respeito imediato às situações que o Instituto e as nossas comunidades estão a viver. Nesse âmbito, vou limitar-me a falar do acolhimento mútuo que devemos ter uns para com os outros, na qualidade de membros duma mesma família. Não vou, portanto, falar do acolhimento que é mais amplo e tipicamente missionário, e que se deve a qualquer pessoa que de nós se aproxime. “Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no reino dos céus” (Mt 18,3). São Mateus usa estas palavras surpreendentes como abertura do quarto discurso de Jesus. Os discípulos só vivem realmente o reino quando se tornam comunidade. E tornam-se comunidade quando cumprem na sua própria vida o ideal da “criança do Evangelho”. A figura da criança aparece aqui como um modelo para todos os que desejarem fazer parte da comunidade cristã, precisamente porque, em conformidade com a antiga mentalidade semítica, a criança não era “nada”. O simples direito de existir advinha-lhe do facto de “pertencer” a alguém. Jesus pega na criança que nada tem, nada pode fazer, e de tudo tem necessidade, para logo a colocar no centro da sua comunidade. E juntamente com ela estão todos os que são fracos, pobres, necessitados, frágeis e vulneráveis. Assim, é candidato à comunidade cristã todo aquele que se sente e é pecador, com necessidade de salvação, e está disponível para se deixar ajudar. Tal como é o caso da criança, assim também o é o de todo o membro da comunidade de Jesus: a sua única força é a fraqueza que o torna carente da ajuda dos outros e, portanto, “filho” do Pai e “irmão” de todos os outros. Desta forma, fica banida da comunidade cristã toda a auto-suficiência, precisamente porque ela nega a possibilidade de nos tornarmos filhos do Pai e irmãos dos nossos irmãos. O auto-suficiente, afinal, não precisa de Deus, que se define como Pai, nem pode pertencer àquela grande família onde todos são irmãos, por obra e graça de Quem se tornou o nosso primeiro Irmão, Jesus Cristo. Este trecho de São Mateus pode dar-nos, também a nós, algumas sugestões interessantes para conseguirmos obter a noção correcta do espírito de acolhimento: - A comunidade que Jesus quer ter é o contrário da comunidade de elite. Porque não é feita de pessoas santas e perfeitas, os bem-queridos do Mestre não são os sabichões nem os eruditos, nem sequer são as pessoas eficientes os melhores candidatos: só quem chega a sentir-se “criança” é que possui os requisitos para pertencer a esta comunidade-família de Jesus. - O acolhimento do outro é possível se tivermos desenvolvido uma perspectiva suficiente e correcta de fé, segundo a qual, no centro da comunidade não ficamos nós, nem os nossos “sagrados” direitos, os nossos programas de vida ou de trabalho. No centro desta comunidade fica Jesus e aqueles que Ele escolher, ou seja, os irmãos necessitados, os mais fracos, os mais frágeis. Como é grande a distância entre esta perspectiva e as nossas pretensões de “eficientismo”! - Podemos fazer parte desta comunidade não apenas aceitando o outro, mas sentindo-nos nós próprios como crianças. De facto, todos nós padecemos de fraquezas e fragilidade; todos precisamos continuamente de alguém que nos levante e nos acompanhe. Mas como é difícil admitir esta grande verdade! A nossa tendência inata é, pelo contrário, esconder, fingir ou pretender. E é assim que acabamos por chegar a perder tantas oportunidades de crescer na comunhão, alcançar e oferecer perdão, sentir a alegria de sermos irmãos do mesmo Pai… “Quem receber um menino como este em Meu nome, é a Mim que recebe” (Mt 18,5) Há ocasiões, frequentes nestes tempos, em que um Conselho Regional ou uma comunidade local é convidada a fazer discernimento sobre se pode ou não acolher um irmão “ferido”, um daqueles a quem o Evangelho oferece faixa de prioridade no acesso ao Reino. São momentos cruciais e, por vezes, até de sofrimento. Trata-se da “criança” do Evangelho a bater à porta, a pedir não só entrada na estrutura da nossa comunidade, mas também um lugar no coração de cada um dos membros. São momentos de graça que, para além do resultado prático do discernimento, nos dão o ensejo de aferir o grau de maturidade da nossa comunidade e de fazer uma avaliação, honesta e sem batota, da solidez da nossa fraternidade. Nestas circunstâncias, a oração ao Espírito deve ser prolongada e insistente, para podermos decidir o que é verdadeiro e bom, tanto para nós como para o outro. A comunidade poderá chegar a dizer “não” ao acolhimento de um irmão baseada em motivos sérios em que porventura se debata. Se fechar a porta, deveria ser apenas para melhor se poder preparar, para colocar tudo em ordem, para que o Hóspede que voltar a bater possa encontrar um lar no meio de nós. No entanto, não pode ser motivo suficiente para negar a um irmão a possibilidade de ter acesso a uma Região ou a uma comunidade, o facto de ele poder tornar-se um ónus. Como, por exemplo, o seu temperamento pouco bem disposto, a dificuldade na convivência, ou um passado tingido de fracassos. Menos ainda se pode aduzir como desculpa para a recusa o desejo de se querer ser mais eficientes no trabalho, a necessidade de multiplicar as actividades, o travão que tal presença poderia ser para os outros. Se assim fosse, acabaria eliminada a condição primária e fundamental para realizar o Reino de Deus a cujo serviço consagrámos toda a nossa vida. Como Missionários, nós somos enviados ao mundo para anunciar e mostrar que o Reino de Deus já está no meio de nós. Esta atitude perante o sinal da caridade e do amor é uma força profética que podemos inserir na nossa evangelização; é um sinal de credibilidade que podemos mostrar ao mundo; é um esforço que pode aumentar a eficácia do nosso trabalho. O Evangelho alerta-nos contra sermos nós a escolher as pessoas que temos de amar e servir, e, ao contrário, para o dever de estarmos sempre prontos a acolher aqueles que Deus nos pode mandar. Além disso, não devemos esquecer que cada pessoa que se junta à comunidade ou à Região traz consigo qualidades, talentos e defeitos que de qualquer maneira irão contribuir para uma nova viragem. De facto, cada troca de pessoal instala um mecanismo que, se for correctamente accionado e encaminhado, leva ao crescimento e ao enriquecimento de todos. É por esta razão que podemos afirmar que a chegada de cada irmão à Região ou à comunidade local deverá ser sempre considerada como um “dom” da Divina Providência. Até mesmo quando a bagagem das suas limitações acabasse por ser muito pesada… “Eu era peregrino e recolhestes-me” (Mt 25,35) A comunidade do Reino não é uma comunidade do tipo eficiente, engendrada pelos Superiores com todo o cuidado, onde cada aresta foi esmerilada a rigor, onde cada obstáculo foi suprimido e cada saliência foi aplainada. O teste de aferição será o que se encontra em São Mateus, 25, 31-46; e nele só passarão as comunidades e os indivíduos que tiverem sido capazes de, em cada ocasião, terem feito as obras de misericórdia, de amor, de acolhimento, de magnanimidade, de paciência e de perdão. Voltando agora à realidade da nossa Família Missionária, vemo-nos hoje confrontados com novos desafios que muitas vezes radicam exactamente no internacionalismo e no multiculturalismo que já nos marcam. A nossa capacidade de fazer acolhimento e dar hospitalidade mede-se não só pela nossa capacidade de dar resposta ao pobre e ao marginalizado com que nos encontramos no decorrer da nossa actividade missionária, como também pelo que fazemos ao irmão que está ao nosso lado, que é membro da nossa comunidade e que, no entanto, é tão diferente de nós em termos de raça, cultura, mentalidade e formação. Ele torna-se para nós o hóspede que temos de acolher, para quem devemos arranjar espaço, e não só em casa, mas sobretudo no nosso coração e na nossa vida. A hospitalidade correcta também implica que se resista à tentação de querer formatar o outro à minha imagem e semelhança, obrigando-o a adoptar o meu estilo de vida, à procura da plataforma comum para os relacionamentos de uns com os outros. Deverei, pelo contrário, ter a coragem de reconhecer ao meu irmão o seu direito de “cidadania plena”, deixando-o tal qual ele é e deixando-lhe fazer a sua caminhada lenta e trabalhosa na inculturação numa situação nova. Como tornar eficaz o acolhimento do outro Ainda que o assunto se preste a considerações muito mais vastas, gostaria de tentar recolher sob a forma de resumo alguns princípios e normas que sirvam para tornar mais viva e mais eficaz o nosso acolhimento mútuo no seio das nossas comunidades locais e em todo o Instituto. Vou servir-me da clássica obra de J. Vanier, La Comunità – luogo del perdono e della festa (A Comunidade – lugar do perdão e da celebração). Aquilo que distingue uma família religiosa de qualquer outra agregação social é que, nela, a pertença que dá identidade e o espírito que irmana não foram criados por nós mas por Deus, que no-los facultou como um presente seu. Foi Ele que nos escolheu e nos colocou nesta Família; foi Ele que a todos nos tornou irmãos. E como agora pertencemos uns aos outros, já me não será permitido dizer ao outro: não és meu irmão! Eu não amo a comunidade; amo sim as pessoas que fazem parte da comunidade. De facto, quem conta, nela, são as pessoas em concreto, que eu devo acolher como são, de forma que elas possam desenvolver-se conforme o plano que Deus tem para elas. Talvez todos tenhamos entrado para o Instituto porque sonhávamos com a missão. Mas, pouco a pouco, viemos a compreender que ela não poderia ser o objectivo número um. Primeiro é Deus e depois é a Família-Igreja em que vivem muitas pessoas que Deus ama e que eu também devo amar. Só desta maneira, através duma vida de família, é que eu poderei realizar o sonho da missão. Nós só estaremos em condições de acolher o outro se nós próprios já tivermos feito experiência do acolhimento que nos fizeram, Deus e os irmãos, tais quais somos, com a nossa fraqueza e fragilidade. É fácil acolher outra pessoa quando precisamos dela, quando os seus talentos encaixam com a realização dos nossos programas, ou então quando temos necessidade de preencher uma vaga. Já será, por outro lado, mais difícil acolher uma pessoa “de que não precisamos”, quando a sua entrada na comunidade só faz aumentar o nosso trabalho e os nossos problemas, ou se transforma em “mais uma chatice”. No entanto, é precisamente nestas circunstâncias que chegamos a entender o acolhimento enquanto obra do Espírito. Para nos tornarmos acolhedores, para transformarmos as nossas comunidades em lugares onde o amor mútuo se nota no ar e logo contagia quem se aproxima de nós, precisamos de alimento. E para nós, será alimento o maná que Deus nos oferece diariamente na Palavra e na Eucaristia. A capacidade de viver o dia a dia no mais alto grau é um alimento indispensável, tal como o são a atenção, a saudação, um gesto de delicadeza que diga ao outro que tem valor, a casa que procuramos tornar acolhedora para que todos sempre se sintam à vontade, o diálogo interpessoal e comunitário favorecido por uma planificação atenta dos nossos dias. Por fim, aprendamos a perdoar-nos e a recomeçar tudo: trata-se duma regra de ouro para qualquer comunidade, mas que o é muito especialmente para aquelas onde o acolhimento mútuo, por razões várias, é pão duro que temos de comer todos os dias. O perdão é a alma duma comunidade cristã onde todos, desde o responsável até ao último que chegou, devem exercê-lo na medida evangélica dos setenta vezes sete. Fechar-se ao perdão seria o mesmo que retirar o oxigénio aos pulmões da própria comunidade, sacrificando-lhe toda a retomada e esperança de futuro. Quantas situações de vida missionária nos levam a viver até ao limite das nossas forças! Quão facilmente nos deixamos levar pela actividade que nos espreme as nossas energias até ao ponto de nos fazer secar a nossa afectividade mais profunda! Mas há anticorpos para este tipo de doença: a capacidade de repousarmos e fazer descansar o corpo, tal como restaurarmo-nos no silêncio e na oração. Se as pessoas por vezes não são capazes de fazer este tratamento por si, cabe à comunidade providenciá-lo. Porque é doença a sério se uma pessoa se torna hiperactiva, falta aos compromissos comunitários por causa do “trabalho”, e não trata de si, por andar toda envolvida no serviço do próximo. O reverso da medalha… Falámos até aqui da necessidade do acolhimento fraterno, de comunidades abertas, do perdão concedido. Não vou terminar sem antes acenar à realidade do irmão ferido que precisa de acolhimento. Não podemos esquecer que esse tal “irmão ferido” posso ser eu, visto que, dentro de cada um de nós há sempre chagas abertas que nem nada nem ninguém pode aliviar. Essa chaga é o resultado dos nossos fracassos, é a realidade das nossas fraquezas e a consciência das nossas próprias incoerências. Essa chaga será para sempre fiel companheira de viagem; e nem sequer as mais maravilhosas actuações ou as mais acertadas comunidades conseguirão fazer cicatrizar. Não só porque o nosso coração, com sede do infinito, não se satisfaz com coisas passageiras e que, por outro lado, também estão sempre marcadas pelo sinal da morte…Mas sobretudo porque há sempre as limitações diárias e os fracassos que cada um carrega consigo, juntamente com as fragilidades de toda a ordem e com os ideais que nunca tiveram realização. Então, como é que vamos carregar com esta bagagem de fraquezas e de incoerências que tanto sofrimento e mau estar pode acarretar a nós próprios e aos outros? Eis algumas sugestões: Antes de mais, devemos esforçar-nos por deixar cair a máscara. Especialmente as máscaras que fabricamos inconscientemente para esconder a nossa pobreza, a nossa vulnerabilidade, as feridas, e que nos levam a isolarmo-nos e a refugiarmo-nos no trabalho ou nos livros. Aceitar a verdade sobre nós mesmos com realismo e com fé constitui o primeiro passo necessário para que haja cura. O segundo passo consiste em encontrar a chave de superação, que é possível mesmo dentro das nossas próprias limitações, fracassos e erros. De facto eles são uma porta sempre aberta que nos dá acesso ao Pai que acolhe, perdoa e cura. É nosso companheiro nesta viagem Aquele que sentiu a nossa humana fragilidade – tanto que chegou a gritar: “Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste?” (Mt 27,46). Lembremos também a palavra do Fundador, quando nos convidava a considerar o crucifixo como «um amigo que consola e ajuda, nos sustém nas dificuldades e no cansaço; nos livra de tantos perigos; sustém-nos quando estamos cansados e faz-nos sentir a alegria de sofrer por amor de Deus» (Pietre Vive, 56). O passo seguinte consiste em acreditarmos, apesar de tudo, na capacidade que a comunidade e os confrades têm para nos curar. Por isso mesmo é que nunca devemos cortar relações com ninguém, isolando-nos e fechando-nos em nós mesmos. Seria render-se ao mais certo fracasso. E também devemos chegar a aceitar com realismo os eventuais condicionamentos que a comunidade possa criar, quando as melhores soluções não são viáveis. Por fim, quem sabe e aceita ter necessidade é capaz de procurar ajuda; abre-se com quem o pode ajudar e nunca recusa a mão que lhe é estendida. Uma área ainda muito pouco aproveitada é a da psicologia. De facto, podemos receber grandes benefícios dos especialistas no campo do acompanhamento das pessoas em necessidade. Tenho consciência de que apenas dei um olhar furtivo a muitas situações que podem estar presentes em nós mesmos e nas nossas comunidades mas que exigem atenção, discernimento e tratamento. No entanto, devo encerrar por ora, fazendo votos para que estas linhas sejam uma ocasião de maior aprofundamento a nível de Circunscrição, se por acaso certas situações assim o exigirem. Que a Consolata, “Mãe do amor” e “experiente no sofrimento” acompanhe e console cada um de vós. Saúdo-vos fraternalmente, P. Piero Trabucco, IMC (Padre Geral) |
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