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| À Região da Itália |
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| Por P. Piero Trabucco, IMC | |
| 12 de March de 2006 | |
À REGIÃO DA ITÁLIA11 de Junho de 2003 Festa de São BarnabéCaríssimos Missionários, A visita à Região da Itália, que começara com o Padre António Bellagamba no mês de Fevereiro de 2003 no Piemonte, continuou depois com o Superior Geral em Abril e Maio, chegando a todas as restantes comunidades da Região. Os dois visitadores foram acompanhados pelos Padres J. A. Benedetti, Conselheiro Geral para a Europa, e Franco Gioda, Superior Regional. Esta alternação entre dois visitadores foi, naturalmente, algo de inédito, aliás possibilitada pelo último Capítulo Geral, e cujos aspectos positivos se revelaram sobretudo na oportunidade de se estudarem os vários problemas que a extensão da Região e a complexidade das suas actividades levantam, a partir de pontos de vista diversos em termos de perspectiva, sensibilidade e enquadramento. Por outro lado, a convergência das várias interpretações da realidade e das sugestões práticas, que aqui se encontra descrita, reforçou ainda mais a convicção dos visitadores, ou seja, a de que a Região da Itália continua a desempenhar um papel muito significativo no momento histórico que o Instituto está a viver. “Eis que jorravam águas de debaixo do limiar do templo…; e por toda a parte onde chegava a torrente, aí havia vida” (cfr. Ez 47, 1-9.12) O percurso que fizemos pelas várias comunidades da Região deu-se nos tempos litúrgicos da Quaresma e da Páscoa. A meditação diária sobre a Palavra de Deus, que muitas vezes conseguimos fazer juntamente com os confrades nas celebrações eucarísticas, deu-nos o ensejo de nos determos sobre alguns temas que têm uma relevância toda especial para nós, missionários. Vamos recordar apenas uma, que aliás gostaríamos de propor a todos os confrades da Região. Vem no livro de Ezequiel 47,1-9.12 e descreve a visão que o profeta teve quando estava sentado nas margens do rio Kedar, na Babilónia. Corriam tempos difíceis para o povo de Israel: deportação, escravidão, perda da pátria e do templo, ameaça constante de contaminação religiosa. As esperanças de um próximo regresso à pátria iam-se desvanecendo, e a dura realidade do exílio fazia-se sentir com toda a sua amargura. Quanto irá durar isto? Quando é que Deus se irá recordar do Seu povo? A originalidade deste trecho sagrado está exactamente em indicar e propor ao povo que Deus é o único segredo de qualquer esperança futura e é também o poder de construir algo de novo e duradouro. Por esta razão, é que aparece, ao centro desta grande visão, o Templo de Jerusalém, de onde brota uma água com poderes para tornar fértil a terra árida, transformando-a num paraíso terrestre. O significado profundo desta visão profética alumia o caminho para o renascer da esperança até mesmo nas situações mais difíceis e mais desesperadas, tais como deveriam ser as de um povo sem pátria. Colocar Deus no centro da nossa própria existência significa, para um crente de qualquer época, que tudo se pode transformar em graça e toda a situação se pode transformar numa experiência de salvação. O importante é saber captar o sentido, descobrindo a sua presença. A visita à Região da Itália revelou, de alto a baixo, como está bem marcada, nos missionários que aqui vivem e trabalham, a sensação de se encontrarem num momento particularmente crucial, com poucas prospectivas claras e estimulantes. A idade mediana do pessoal continua a subir; as prospectivas vocacionais mantêm-se muito reduzidas; o ónus das obras e dos edifícios pesa muito nos ombros daqueles que são chamados a administrá-los. As prospectivas de uma mudança de rumo na situação corrente ainda não se vêem no horizonte. E no entanto, é preciso saber olhar em frente, com esperança, com confiança e com inteligência. Assim, pensamos que também não nos será difícil captar na visão de Ezequiel um estímulo a que não desanimemos face às dificuldades actuais. Também hoje em dia a mesma água que purifica e cura, que dá vida e restaura, continua à disposição, a jorrar da nascente perene do Mistério Pascal e assume a forma daquilo a que chamamos “espiritualidade” ou “vida segundo o Espírito”. Continua a ser indispensável, porém, lançar mão dos meios concretos para ir buscá-la. Para a prevenção da síndroma do envelhecimento e do activismoHá uma dupla síndroma que está a contagiar muitos Institutos religiosos que trabalham no continente europeu. Os nossos missionários que vivem e trabalham na Itália também poderão estar expostos a esse perigo; de forma que se impõe o dever de nos prevenirmos adequadamente contra ele. A primeira delas revela-se num pessimismo persistente perante a realidade da Igreja e do Instituto, acabando por desaguar na nostalgia do passado ou então na aceitação passiva e resignada da situação corrente. A segunda, que já é uma reacção às dificuldades presentes, transparece num activismo excessivo, na resistência a reflectir e a fazer um discernimento sereno – acabando por se transformar no desejo de assumir compromissos desproporcionados em relação às próprias forças. O envelhecimento do pessoal – como bem sabemos – resulta da queda abrupta das vocações, que aconteceu na Itália e em todos os países da Europa a partir dos anos 70. Basta dar uma olhadela às estatísticas para nos darmos conta desta verdade irrefutável. Em 1972, os membros italianos do IMC eram 931, ao passo que em 2003 já são só 467. Mas a queda mais marcante deu-se a nível dos jovens em formação. Em 1972, os seminaristas professos italianos eram 95; os noviços somavam 24. Passados trinta anos, só temos 3 seminaristas professos e nenhum noviço. Desde 1977 até 2003 foram 53 os missionários de origem italiana a fazer a profissão perpétua, à média de dois por ano. Não se prevê uma melhoria desta tendência para o futuro mais próximo. As causas desta queda dramática são por demais conhecidas. Perante este cenário, poderá sobrevir a outra síndroma, igualmente negativa, até por que é mais dissimulada nos aspectos que assume. Ela reveste-se de laboriosidade e abnegação e empurra os missionários, principalmente os de idade mediana e os de idade mais avançada, a gastarem-se sem controle. Recusamo-nos a amortecer o bulício de actividade que só era possível quando as comunidades tinham o dobro do pessoal. Assim, acabamos por penalizar não só a saúde física e o repouso necessário como também os momentos de oração, a reflexão comunitária e a formação contínua. Já os missionários mais jovens são frequentemente constrangidos a assumir compromissos para que ainda se não sentem preparados ou aptos. Por vezes, são expostos a situações demasiado exigentes, vendo-se a gerir actividades e obras sem o apoio de um grupo de trabalho ou da própria comunidade. É possível que esta nossa descrição pareça um tanto negativa à primeira vista; mas, afinal, ela não se afasta das muitas análises feitas ao panorama actual que confronta os religiosos da Itália. O realismo continua a ser uma atitude virtuosa que nunca se pode pôr de lado, mesmo à custa de termos de evitar fixar as nossas atenções apenas sobre os aspectos negativos. Existem muitas coisas positivas no panorama eclesial italiano e no serviço missionário que a Região presta a esta Igreja. Se nos detivemos nos elementos problemáticos, e mais tarde voltaremos a considerá-los, foi para que juntos procuremos individualizá-los correctamente e desvendemos a cura mais adequada. A nossa terapia é a santidade e o discernimento comunitárioAutomaticamente, perguntamo-nos sobre que orientações daria o Pai Fundador aos seus missionários que trabalham na Região da Itália neste momento crítico e que poderão estar sujeitos ao desânimo ou à tentação de se lançarem para a ocupação desregrada. Pensamos que poderíamos sugerir duas: 1. Viver segundo o Espírito Não se pode enfrentar este tema sem fazer pé sobre a breve mas tão incisiva passagem das nossas Constituições que rezam: «A evangelização dos povos é a finalidade que nos caracteriza na Igreja; realizamo-la para glória de Deus, com santidade de vida, conforme o significado que o Fundador lhe atribuía, quando proclamava: “Primeiro santos, depois missionários”. Este fim deve impregnar a nossa espiritualidade, orientar as opções, qualificar a formação e as actividades apostólicas; em suma, orientar toda a nossa vida» (Const 5). Santidade de vida ou vida segundo o Espírito foi sempre o objectivo básico que José Allamano propôs aos seus missionários. Se um dia o Instituto viesse a perder de vista esta meta, não duvidamos que o Fundador não hesitaria um só instante em lhe negar reconhecimento, como faria a algo totalmente alheio ao seu espírito e ao seu projecto missionário. As contingências actuais, como porventura outros momentos cruciais da história do Instituto, não poderão ter outra saída senão o retorno às fontes do carisma. É lá que encontramos a chamada vigorosa e insistente à santidade de vida, qual condição indispensável para sermos missionários da Consolata. Actualmente, a Igreja, com uma insistência que ao mesmo tempo nos espanta e nos causa admiração, continua a repropor aos Religiosos uma medida recalcada de espiritualidade para que alcancem a santidade, que é sua vocação específica na Igreja. Basta uma citação tirada da Instrução Partir de Cristo: «Trata-se de fazer mira sobre a espiritualidade entendida no sentido mais forte do termo, quer dizer, da vida segundo o Espírito. A vida consagrada de hoje exige sobretudo um relançamento espiritual, que ajude a traduzir para o concreto da vida o sentido evangélico e espiritual da consagração baptismal e da sua nova e especial consagração» (20). 2. A prática do discernimento «As dificuldades e as interrogações que a vida consagrada vive nos tempos actuais podem reflectir a introdução dum novo kairós, um tempo de graça. Neles se esconde um apelo autêntico do Espírito Santo a que descubramos as riquezas e as potencialidades desta forma de vida» (Partir de Cristo, 13). Cabe-nos então a grave e importante tarefa de viver de forma positiva o nosso “dia de hoje”, prontos a discernir a vontade de Deus e os caminhos que Ele nos abre a cada momento. Por esta razão, o discernimento é tão importante para nós, missionários, como o é a procura e a realização da vontade de Deus, que o Pai Fundador tão insistentemente inculcou. Está fora de questão que é um momento histórico de grandes transformações o que estamos vivendo. Fala-se de “tempo de crise” ou de “crise generalizada” que não perdoam nada nem a ninguém, nem sequer as coisas mais sólidas ou os valores mais consolidados. Neste nosso tempo abundam as incertezas, as ambiguidades e as dúvidas. Que poderemos nós fazer para aí descobrir o kairós e os caminhos que o Senhor nos indica? O imperativo do discernimento! Sem querermos entrar agora nas modalidades concretas da sua utilização (cfr. Boletim IMC, 90), vamos lembrar algumas atitudes que não devem estar ausentes, se é que queremos mesmo descobrir a vontade de Deus a nosso respeito e a respeito do nosso serviço missionário na Itália, e assim injectar em nós próprios motivos de esperança: - O discernimento deve fazer-se sempre na companhia de uma fé profunda em Deus, convencidos de que Deus e o homem são os construtores da história, até mesmo da pequena história do nosso Instituto. - Precisamos de interpretar com frequência a realidade que nos envolve. O convite que veio do último Capítulo Geral não só nos exorta a activá-la em cada Circunscrição como até nos dá o exemplo (XCG 9-17). Sugerimos aos responsáveis da Região que, em especial, facultem esta interpretação da realidade italiana aos missionários estrangeiros e aos que regressam à pátria depois de alguns anos de ausência. - Manter viva a esperança no futuro, sabendo que Deus não nos abandona. Passada a noite, lá virá a luz. A comunidade regional deve estar envolvida o mais possível nos vários processos de discernimento face às decisões regionais de maior relevo. - Cada pesquisa que fazemos deve fazer-se acompanhar duma atitude de honestidade, evitando tanto idolatrar como demonizar o presente. Procuremos sempre abrir os olhos ao mal existente, mas também às sementes de bem que nunca faltarão. E o diálogo nunca deve faltar mesmo quando, na procura de vários caminhos, nos pudéssemos vir a encontrar em posições opostas. Uma Região decidida a ser “credível e visível”A conferência do ano 2000, que foi um momento significativo da Região unificada, decidiu conjugar o realismo com a esperança, acentuando talvez esta segunda mais do que o primeiro, num projecto que adoptou o moto: “Sermos credíveis e visíveis na Itália”. Decalcando rapidamente as pistas que foram traçadas por essa Conferência, vamos agora apresentar alguns pensamentos que amadureceram durante a Visita e dar realce a alguns aspectos e assuntos que mereceram maior consideração nos diálogos que tivemos com os confrades. Vamos apresentá-los de modo esquemático, com a esperança de que sejam úteis ao Conselho Regional e se tornem em mais um estímulo para a caminhada que a Região encetou. A comunidade regional e o seu espíritoA visitação deu-nos a oportunidade de entrar em contacto com uma realidade regional rica e complexa. Ela conta 21 comunidades, algumas das quais numericamente muito significativas; há 152 missionários na média etária dos 70 anos; as casas de formação são duas: uma para aspirantes e postulantes, e outra servindo de noviciado; conta 5 paróquias, com cinco comunidades a cuidarem de igrejas públicas ou de santuários. São numerosas as actividades administradas pela Região, algumas das quais ultrapassam o âmbito regional, servindo o Instituto todo (por exemplo, serviço aos doentes, cursos de formação, de língua italiana, etc.). Perante este cenário tão complexo e variegado, são necessárias visitas e estadias frequentes do Superior Regional em todas as comunidades. Trata-se de um meio indispensável que garante a unidade da Região e faculta o aumento do espírito de corpo. A primeira visita do ano deve ser programada para acompanhar as comunidades locais na redacção do seu projecto comunitário de vida; e a última deve ser para partilhar com ela uma revisão global do ano anterior. O Conselho Regional, no seguimento das indicações fornecidas pela Conferência passada, decidiu que o Director Regional para a animação missionária e vocacional (AMV) sirva a tempo inteiro e se dedique especialmente a cuidar do pessoal designado para esta actividade que é tão exigente. Esta opção está correcta não só porque se orienta para criar unidade nas actividades de AMV como, antes de mais, para apoiar os próprios animadores, que por vezes poderão sentir-se isolados no seu serviço e desproporcionados aos muitos desafios. Também importa que ele partilhe da vida e actividades dos seus confrades através de visitas prolongadas às comunidades. Por fim, a presença do Administrador Regional nas comunidades locais, no âmbito das suas competências, é igualmente tida em apreço e considerada útil. A comunhão e a participação são mais dois elementos de capital importância para crescermos juntos e nos tornarmos uma família. A comunidade local não só deve reunir-se diariamente para fazer oração como também deve reservar um tempo apropriado por semana para fazer a reunião comunitária. Ela faculta a partilha conjunta dos problemas da comunidade, do Instituto e da Igreja. Trata-se de um momento útil para nos ouvirmos uns aos outros, para manifestar o que vai na alma, para estudar a caminhada da comunidade, para fazer revisões e reprogramações em conjunto. Estas ocasiões, especialmente no caso de comunidades maiores, são indispensáveis e devem ter precedência sobre qualquer outro compromisso. A comunhão e a participação devem ser vividas a nível regional com encontros periódicos, noticiários, comunicações frequentes através do correio electrónico. Estendemos a todos um convite: o de aplicar o máximo empenho para que a comunidade local se torne e permaneça sempre como a alma da nossa comunhão. Bem sabemos como podem ser fáceis as fugas à vida de comunidade, talvez sob a máscara de outros compromissos de apostolado, ou da procura do descanso ou do divertimento. Ora isso, pelo contrário, até poderá prejudicar gravemente a vida comunitária e amortecer o compromisso apostólico. Por fim, vamos mencionar mais um meio fundamental para manter e aumentar o espírito de vigilância, criativo e positivo na Região. É o da formação permanente. Sem aprofundar o tema, limitamo-nos a sublinhar a oportunidade de se repetirem anualmente algumas iniciativas regionais de formação contínua, com a duração de alguns dias, aliás já testadas como evidentemente frutíferas. Deve dar-se particular atenção aos missionários jovens, incluindo momentos formativos específicos, que apareçam inseridos na programação anual e que se dêem sob a presidência do Superior Regional, se possível, ou de um membro do seu Conselho. “Ide também vós para a minha vinha…”O texto do Evangelho que narra como o patrão manda operários para a sua vinha a qualquer hora, traz-nos à memória uma lei básica do Reino – a de que o padrão da eficiência não é sempre a carta-trunfo. O zelo, a fé, o amor, esses sim, são os ingredientes que todos, tanto jovens como idosos, gente experimentada ou gente novata, podemos utilizar; e são eles a garantia de que os frutos podem nascer até mesmo dos terrenos mais áridos e das situações menos propícias. O pessoal da Região poderá parecer, à primeira vista, pouco apto para o trabalho da vinha, que é a sociedade italiana de hoje, onde os desafios são tantos e as dificuldades, até mesmo no interior da Igreja, parecem insuperáveis. E no entanto, Deus continua a dizer não só aos jovens da primeira hora mas também aos de idade mediana e aos idosos: “ide também vós para a minha vinha…”. Que todos vão para a mesma vinha, ainda que cada qual tenha um papel específico – todos irão cultivar o mesmo terreno ao qual a Providência nos chamou, todos de volta do mesmo projecto que o discernimento comunitário especificou. Desde alguns anos para cá, trabalham nesta vinha da Itália missionários de extracções geográficas e culturais diferentes. O internacionalismo não pode ser apenas um dado de facto. Ele deve tornar-se o desafio que interpela a vida de cada um e que se pode transformar num testemunho precioso, tal como o atesta o XCG: «A internacionalidade das nossas comunidades exprime a catolicidade da Igreja e torna-a visível. (…) Testemunham que é possível viver em fraternidade, superando todas as barreiras raciais, culturais e sociais» (p. 29). Gostaríamos de, neste momento, deixar aqui uma palavra para as várias categorias de missionários que encontrámos na Região e que, sobretudo no diálogo pessoal, nos abriram a sua alma: Aos missionários idosos: Sois numerosos; contais com uma rica experiência de trabalho apostólico noutros países e continentes; regressastes a casa por razões diversas; muitas vezes sentis-vos desorientados e quase como estrangeiros no vosso próprio país; trazeis muitas vezes no coração uma nostalgia pungente pelo campo missionário que tivestes de abandonar. Mas a vossa missão ainda não acabou e ainda não chegou a altura de recolher os remos na barquinha. Para o missionário, a altura da reforma nunca vem. Ainda vos espera uma tarefa importante, até muito preciosa, na economia do Reino e do Instituto. Há três compromissos que gostaríamos de vos lembrar e de vos confiar: - O testemunho: é de fundamental importância para o povo de Deus e para as nossas comunidades. Em vós se encontra a vida que fala, que anuncia e que propõe. Numa sociedade cansada de palavras, a vossa existência, que ficou transfigurada por anos de missão e de doação à causa do Reino, é de uma eloquência sem par, sobretudo quando vivida na serenidade, no optimismo e na esperança. Além disso, a vossa presença é especialmente preciosa para entusiasmar os jovens que, embora no meio de tantas contradições, são sempre muito sensíveis àquilo que é verdadeiro e autenticamente evangélico – e se deixam fascinar por isso. - A oração: à medida que as vossas forças vão enfraquecendo, o espírito torna-se mais vigilante na oração e mais atento durante a contemplação. No decorrer da Visita, tivemos a sorte de encontrar muitos missionários que se tornaram ricos em oração, capazes de incarnar aquilo que o falecido Mons. Carlo Cavallera deixou escrito em “Quando la missione diventa contemplazione”. Na economia sagrada do corpo místico, como são preciosos os momentos que se passam diante do Santíssimo Sacramento, o desfiar contínuo das contas do terço, a contemplação silenciosa e o sofrimento de que se faz oferenda! - O ministério pastoral: apesar da acumulação dos anos, vós ainda quereis ser úteis em actividades pastorais. De facto, o ministério da reconciliação, a Eucaristia celebrada com devoção para o povo de Deus, a disponibilidade para acolher as pessoas que precisam duma palavra de consolação e de um conselho, as visitas aos doentes… são actividades acessíveis a muitos missionários idosos que bem incarnam aquele versículo do salmo 92,15: “Até na velhice darão frutos, conservarão a sua seiva e o seu frescor…”. Aos missionários de idade mediana: O vosso número não é grande; e no entanto pede-se-vos uma enormidade de tarefas, de responsabilidade nada indiferente. Gastais-vos com entusiasmo e com zelo, até vos deixardes avassalar, nalguns casos, pelo excesso de actividade para poder chegar a tudo e para poder responder a todos. E assim, dia após dia, a vossa vida pode sofrer de stress ou de aridez. Além disso, alguns de vós até já poderão estar na segunda ou na terceira substituição sem ter tido tempo para uma temporada num trabalho “missionário” com o qual aliás tínheis sonhado. A todos vós gostaríamos de dizer: - cuidai da vossa pessoa, procurando um descanso suficiente e períodos bem programados para a leitura e para a oração. Não descuideis a vossa vida espiritual, sob pena de enfraquecimento de todo o vosso serviço missionário. - Cuidai da comunhão com todos, mas muito especialmente apreciai a vida comunitária, principalmente se fordes responsáveis por comunidades. Afastai a tentação do protagonismo, que sacrifica a comunhão e divide a comunidade . Não concentreis responsabilidades, mas distribuí tarefas a todos os que vivem à vossa volta, tanto a confrades como a colaboradores leigos. Procurai sentir o irmão que vos está próximo como “alguém que me pertence” (Vita consecrata, 51) cujas alegrias e sofrimentos, desejos e necessidades vos exigem partilha completa. - Cuidai da formação contínua, tanto vossa como da comunidade. A vós sobretudo, devido ao papel que talvez desempenheis nas comunidades, e devido às responsabilidades que vos foram confiadas, se aplicam à letra as palavras da Instrução Partir de Cristo: «Será então da máxima importância que toda a pessoa consagrada fique formada na liberdade de aprender ao longo da vida, em qualquer idade e situação, em qualquer ambiente ou contexto humano, de qualquer pessoa e de qualquer cultura, para que se deixe instruir por qualquer fragmento de verdade e de beleza que encontra à sua volta” (15). Aos missionários jovens: O vosso número é relativamente pequeno quando comparado com os dados dos anos anteriores na Região da Itália. Alguns de vós provêm de outras Circunscrições, sobretudo da África. Todos vos encontrais a fazer a vossa primeira experiência missionária. O vosso campo de trabalho é a AMV, sem dúvida muito exigente. Também a vós queremos dizer neste momento: - Obrigados por terdes aceitado o desafio nada fácil de trabalhar no campo vocacional e de trabalhar na Itália. Tal como o XCG declarou, o vosso trabalho é ad gentes e extremamente necessário para o futuro da missão e do próprio Instituto. Fazei este serviço pela missão entre os jovens com amor. - Desejai fazer uma introdução adequada ao vosso trabalho, sobretudo no início desse serviço. Isto aplica-se tanto aos que provêm de outras Regiões como aos italianos que fizeram a formação básica no estrangeiro. Pedimos ao Conselho Regional que estes nossos confrades fiquem inseridos em verdadeiros grupos ou comunidades de trabalho e não abandonados a si próprios. - Já saístes do Seminário, mas a vossa formação continua. Periodicamente, no decorrer de cada ano, marcai um encontro com o Superior Regional para aprofundar, com ele, a vossa vocação, para partilhar as vossas primeiras experiências de vida missionária e de trabalho, e para vos poderdes identificar cada vez mais com a vossa Família missionária. Arranjai todos um Director Espiritual que vos ajude a crescer e a superar eventuais dificuldades. - Reuni-vos com frequência para partilhar com os jovens tempos prolongados. Por um lado, a vossa presença continua sempre a ser um meio indispensável para conhecer e dialogar com a juventude; pelo outro, também deveis dar testemunho dum modelo de vida alternativo, que consegue reservar tempos necessários e suficientes para a oração, o repouso e a comunidade. As vocações na Itália: entre o Inverno e a PrimaveraAs vocações continuam a ser o objectivo prioritário da Região da Itália, como se reafirmou na Conferência Regional do ano 2000. Os missionários que trabalham neste país sabem que é para este objectivo que se orientam todas as suas actividades e todo o seu esforço. Apesar do amplo empenho dos anos passados, os resultados continuam a ser escassos neste campo. Não vamos entrar na análise dos motivos que servem de base a esta situação – os quais vão muito além do âmbito do nosso Instituto e que atingem todas as comunidades religiosas da Itália. No contexto desta visita canónica, preferimos deter-nos sobre alguns temas que foram objecto de maior debate e confirmar certas convicções que deveriam tornar-se património comum do maior número possível dos missionários que trabalham na Itália. 1. Não deve faltar a coragem de lhes fazer propostas Há a sensação bastante difusa na Região de que, embora as iniciativas no campo vocacional sejam muitas, ainda continua a haver incertezas e reticências em fazer uma proposta vocacional missionária clara aos jovens. Talvez a base desta atitude consista numa certa desconfiança do missionário quanto ao jovem, ou talvez o complexo da delegação (do “não me compete!”), ou então a incapacidade de entrar em diálogo vital com o mundo dos jovens. E no entanto, este serviço é, sem dúvida, o melhor que possamos prestar a uma pessoa que se interroga sobre o seu futuro e sobre o sentido da sua vida. Nos termos da programação regional, cada comunidade da Região, especialmente as que são especificamente de AMV, devem projectar iniciativas vocacionais. Essas iniciativas, que costumam designar-se por “pontos de luz”, devem ter o apoio e o interesse de todos os missionários. Elas são as pontas de diamante de todas as outras actividades de animação missionária. Os nossos jovens formandos, por outro lado, podem ser agentes privilegiados da dita proposta, face à sua fácil interacção com outros jovens e com outros da mesma idade. Seriam iniciativas que deveriam contemplar também o devido estudo e organização da participação dos nossos jovens formandos. 2. Iniciativas vocacionais marcantes Têm sido muitas as iniciativas vocacionais realizadas nos últimos anos na Região da Itália no intuito de atingir os jovens e apresentar-lhes a beleza da vocação missionária. Algumas evidenciaram maior impacto e eficácia. Registaremos três tipos de iniciativas que, no nosso parecer, podem servir de inspiração a todas as comunidades e de assunto de discernimento – e que serão fecundas na medida em que se integram mutuamente: - Escolas de oração e direcção espiritual Só quem passa por uma experiência forte na escola do Mestre é que é capaz de ouvir a sua chamada e segui-Lo em missão. Exercícios espirituais, jornadas de espiritualidade, lectio divina constante, tudo isto tem contribuído para criar nos jovens o gosto pela oração e pelo silêncio. Alguns frutos desta caminhada já são visíveis; outros não tardarão a chegar. - Compromisso com a justiça, a paz e a integridade da criação é parte intrínseca da missão. Convidar os jovens a integrarem iniciativas em prol da paz, em projectos de solidariedade e partilha com os pobres, na defesa dos direitos humanos, em campanhas de sensibilização sobre temas ecológicos e de promoção do comércio equitativo e solidário, equivale a tocar em cordas íntimas da sensibilidade juvenil e dar início a um diálogo que, ao integrarem pouco a pouco outras dimensões da fé cristã, também poderão desabrochar em caminhada vocacional. - Contacto directo com a missão: tornou-se para vários dos nossos jovens uma experiência decisiva que os leva a fazer a pergunta. “será que Deus também não me chame para a missão?”. Hoje em dia, numa sociedade como a italiana, as viagens intercontinentais tornaram-se mais fáceis e estão acessíveis a muita gente. Se forem preparadas com uma formação adequada e se forem acompanhadas a rigor, na comunhão entre a Circunscrição que manda e a que recebe, tais experiências tornam-se um meio precioso para fazer a proposta vocacional missionária. - Caminhada personalizada Cada vocação cristã nasce e amadurece somente num encontro íntimo entre a pessoa e Jesus Cristo, numa autêntica relação discípulo-mestre. No mistério duma vocação, nós só conseguiremos ser mediadores e porta-vozes de Quem chama. É Ele que dá a graça. Cabe-nos a nós favorecer o clima e oferecer os meios para que os jovens possam entrar neste diálogo amoroso com Cristo. Referimo-nos a dois: a direcção espiritual e o acolhimento dos jovens nas nossas comunidades para uma experiência de vida e de missão. Na Itália há cinco centros específicos de animação vocacional. São eles os primeiros a dever oferecer aos jovens estes dois meios. Mas qualquer comunidade nossa pode ser um lugar adequado para o “vinde e vede” (Jo 1,39), se lá se acharem missionários realizados na sua vocação e felizes por trabalharem para o Reino de Deus, quer dizer, capazes de atender, dar testemunho de vida e fazer acompanhamento espiritual. - Os nossos jovens formandos Notámos com alegria que o seu número tem aumentado nestes últimos anos, embora ainda não sejam numerosos. A Região da Itália sente-se feliz por poder acolhê-los e por lhes oferecer tudo o que for preciso para o seu discernimento vocacional, tal como para os preparar para responder definitivamente à chamada para o nosso Instituto. Desejamos sublinhar três aspectos da sua caminhada formativa: - Convém insistir, logo desde o início da sua formação, na centralidade da vida espiritual, na dimensão missionária típica do nosso carisma e na responsabilidade dos jovens como primeiros agentes da sua formação. - Embora a sua caminhada formativa ainda esteja na fase inicial, devem apresentar-se-lhes gradualmente experiências pastorais significativas que correspondam à nossa vocação. Lembramos além disso que a sua presença entre jovens da mesma idade pode tornar-se uma proposta vocacional forte e significativa. - Elemento formativo a ter presente logo a partir do momento da sua entrada na comunidade é aquele que se refere à comunhão de bens e à austeridade de vida que a vocação missionária implica. Também devem ser expostos, durante a sua primeira formação, a experiências de trabalho, para ajudarem a comunidade até do ponto de vista financeiro. Neste contexto, desejamos exprimir a nossa alegria pela disponibilidade que o Conselho Regional exprimiu em acolher e inserir o Seminário Teológico de Roma na Região da Itália, do ponto de vista jurídico. 5. Leigos Missionários da Consolata Consciente de que Deus também chama os leigos a segui-Lo na missão, o último Capítulo Geral convidou todo o Instituto a abrir-lhes as suas portas e a acompanhá-los na realização da sua vocação missionária segundo o carisma de José Allamano. O novo Estatuto, cuja redacção terminou recentemente, também favorecerá pistas comuns a todas as Regiões, embora permita aos leigos uma autonomia justa na realização da sua vocação. Os visitadores desejam fazer um convite a todos os missionários que se encontram na Itália: é o de remover as últimas hesitações que ainda persistem, para que possamos oferecer a nossa disponibilidade e o nosso acolhimento aos leigos que nos procuram e que nos pedem que os acompanhemos na realização da sua chamada missionária específica. A Região já realizara anteriormente iniciativas diferenciadas a favor dos missionários leigos. O pedido que o Capítulo Geral nos fez foi que trabalhássemos no sentido de forjar uma caminhada unitária em todo o Instituto. Ora isto não sacrifica a peculiaridade das experiências passadas; até exalta a sua complementaridade, garantindo um futuro aos leigos que querem viver a missão em comunhão connosco e segundo o espírito do Beato Allamano. Animar missionariamente a ItáliaO último Capítulo Geral foi muito explícito a respeito do papel e do significado que a animação missionária deve ter na Europa. Tudo o que ele afirmou ilumina a realidade actual da Itália e sugere orientações úteis. Lembremos algumas passagens: «O Capítulo acha que as circunscrições da Europa e da América do Norte devem continuar a animação missionária e vocacional como sua tarefa principal. Reconhecendo que as mesmas exigências da animação missionária existem também para os outros Continentes e consciente da escassez de pessoal no Instituto, pede-lhes que refaçam um projecto de animação missionária e vocacional compatível com estas exigências. Tendo em mira a qualificação do pessoal próprio deste sector, escolham âmbitos prioritários de acção, como a promoção da reflexão teológica, os meios de comunicação social, a animação juvenil, a cooperação e a solidariedade» (p. 87). Vamos deter-nos sobre alguns aspectos que a visita canónica encarou com particular atenção. 1. Ad gentes na Itália Em conformidade com as directrizes capitulares, que abriam as portas a um ad gentes IMC até mesmo na Europa, a Região da Itália, tendo feito um atento discernimento, optou por fazer trabalho pastoral na paróquia de Platì, na Calábria. Esta localidade, em que as pessoas – especialmente a juventude – vivem em profundo clima desviante, serve bem para um trabalho pastoral que podemos classificar de ad gentes. Além de darem um contributo pastoral precioso e de re-evangelização numa Igreja local com grande falta de clero, os nossos missionários estão disponíveis para acolher os nossos jovens formandos e outros ainda em discernimento vocacional ou à procura de experiências significativas. Estamos presentes nesta paróquia há já dois anos. Ainda não é possível tirar conclusões. No entanto, podemos já indicar algumas orientações que serão úteis para a caminhada futura e que surgiram durante a visita: - o trabalho de pastoral e de evangelização deve andar sempre de mãos dadas com a atenção às exigências da animação missionária e vocacional das comunidades da Região; - a simples presença pastoral não é suficiente. Ela deve ser “iluminada missionariamente”, ou seja, deve reflectir um plano pastoral estudado com toda a atenção, que leve em conta a complexidade da situação local e as características evangelizadoras do nosso carisma; - a necessidade de um trabalho de consolação e reconciliação impõe-se-nos com certa urgência. As experiências feitas neste campo por algumas das nossas Circunscrições poderão ajudar a delinear uma metodologia adequada para o trabalho de Platì. - Convém favorecer o encontro das pessoas da localidade com outras experiências eclesiais e pastorais significativas. Os leigos e os jovens vindos de fora poderão ser o trunfo para poder superar uma mentalidade fechada e condicionada pela má vida. - A comunicação frequente com outras comunidades da Itália poderá tornar-se um meio indispensável para evitar que esta experiência fique isolada e para que possa exercer um papel importante no contexto da animação missionária da Região. 2. Semear missão com confiança e às mãos cheias Um olhar abrangente sobre a realidade da animação missionária confirmou a nossa convicção de que é preciso explorar ao máximo as potencialidades que a Itália ainda oferece. Basta recordar a riqueza de experiência missionária de tantos dos nossos confrades, o impacto que as nossas duas revistas missionárias podem ter sobre o público italiano, a difusão dos livros missionários que a Editora EMI publica, tanto em quantidade como em qualidade, o nosso website que é actualizado continuamente e dirigido ao público sobretudo jovem, a biblioteca, o museu e a livraria de Turim. Além disso, os numerosos grupos de apoio e voluntariado que estão ligados às nossas realidades missionárias na África ou na América, e que funcionam no território da Região, devem ser acompanhados. Se forem devidamente acompanhados e formados, poderão tornar-se animadores missionários incomparáveis das nossas Igrejas locais. Os seminários menores do passado conseguiram formar fileiras de jovens que, embora não tenham escolhido a vida consagrada no Instituto, continuam ainda hoje a ser sensíveis aos valores da missão e ao empenho cristão. São colaboradores preciosos para disseminar os valores da missão nas paróquias, no mundo do trabalho, nas escolas e nas famílias. Apoiamo-vos a que incentiveis a nossa presença, ou a presença de leigos nas escolas, para sensibilizar a juventude para os valores da globalidade, da interculturação, do conhecimento dos povos. É um meio que a Região volta a valorizar e que conta com um acolhimento cordial em muitos lugares. E constitui um primeiro contacto e diálogo com os jovens, que depois poderão continuar, em diversas modalidades, fora da escola. Os meios mais tradicionais de animação missionária, tal como as jornadas missionárias e as semanas de sensibilização, a difusão da imprensa missionária, a formação de grupos de oração pelas vocações devem ser acarinhadas e devem andar juntas a outros meios mais modernos, tais como as intervenções na televisão local, nos programas de rádio, nas semanas de estudo e de aprofundamento, e por aí fora. Não se pode esquecer, por fim, o brotar de iniciativas de AMV mesmo a nível continental. Também elas podem revestir-se duma importância própria no contexto social actual e em termos da nossa presença no continente. A Região da Itália, devido à natureza das obras e ao número de pessoal, pode desenvolver nele um papel especial de estímulo e de animação. 3. Vigilantes na temática da justiça e da paz O Capítulo Geral lembra-nos que «com a consciência crítica do Evangelho tornamo-nos a voz dos excluídos de qualquer espécie e damos-lhes voz. É um critério de acção missionária proposto em muitos documentos do episcopado latino-americano bem como na Ecclesia in Africa… Anunciar o verdadeiro Deus da vida revelado em Jesus Cristo quer dizer também lutar contra todos os ídolos e opressões, mesmo quando algumas tomadas de posição trazem consigo contestação e conflito» (p. 51). Se é verdade que a missão não se reduz a isto, devemos porém afirmar com clareza que ela também é isto mesmo. Tanto a sociedade como a Igreja em todos os continentes estão a tornar-se cada vez mais sensíveis a estes temas e querem ver em nós, missionários, que estamos mais expostos do que muitas outras pessoas da Igreja às formas mais variadas de injustiça social e às contradições duma globalização frequentemente selvagem, pessoas, ao mesmo tempo, sensíveis e equilibradas, corajosas e prudentes. Também nesta área nós devemos ser pessoas capazes de consciencializar os outros com todos os meios à nossa disposição. Interajamos de boamente com organismos eclesiais e não eclesiais, interessados no assunto, mas cuidadosos, procurando afastar-nos da facção e no partidarismo. As várias campanhas de sensibilização que nasçam dos contextos das nossas situações missionárias também devem ser acolhidas favoravelmente e devem contar com a colaboração de todos. O nosso serviço entre os imigrantes tem já uma história de várias décadas e assumiu características peculiares a nível local. Ele representa um campo de compromisso que nos interpela na qualidade de missionários. Esta forma de apostolado deve ter como referência constante as directrizes emanadas da Igreja local. A visita indicou-nos que a comunidade regional está a crescer neste espírito, por integração dos documentos da Igreja, embora com alguma tensão e com necessidade de clarificações ulteriores. A coragem de fazer uma podaQuando falamos de “poda” neste contexto, queremos referir-nos ao “redimensionamento” ou redução dos nossos compromissos missionários. Antes de mais, comecemos com o que diz o Capítulo Geral : «Cada circunscrição elabore na sua Conferência um programa de redimensionamento e qualificação na linha das orientações do Capítulo. Assim, faça uma revisão dos seus compromissos; determine quais são os que deve deixar e especifique tempo e modo; assuma outros compromissos por meio de convenções claras com os Ordinários locais, de acordo com as possibilidades efectivas da circunscrição e com os âmbitos indicados pelo Capítulo; tenha consideração pelos missionários que, por motivos de idade ou outros, não estão em condições de se adaptarem às mudanças» (p. 48). A Conferência Regional fez eco deste texto ao afirmar: «A Conferência está consciente de que se devem fechar centros na Itália e confia à Direcção Regional a concretização desta orientação» (n. 12). Neste momento pede-se aos responsáveis pela Região a coragem de fazer uma poda, sabendo que só assim as comunidades poderão retomar uma caminhada mais decidida e mais serena. Por isso, propomos que o Conselho Regional elabore o mais depressa possível um programa de redimensionamento para, assim, pôr em prática aquilo que o Capítulo Geral por sua vez pediu à Conferência Regional: “que determine os que deve deixar, especificando tempo e modo”. Para tal, devem-se contemplar momentos de discernimento e consulta das comunidades regionais. Respigar por entre uma situação ampla e complexaUm relatório de fim de visita canónica não poderia pretender analisar todas as situações duma Região tão vasta e tão intricada como a da Itália. Seleccionaremos apenas algumas das que vieram à tona com especial insistência no decorrer dos diálogos pessoais ou durante os encontros comunitários. 1. O cuidado dos idosos e dos doentes Vamos falar disto em primeiro lugar para dizer um “obrigado” sincero à Região pelo serviço desinteressado e generoso que tem prestado aos idosos e aos doentes, até de outras Circunscrições. Este sentimento de gratidão é extensível a todo o pessoal que gasta as suas energias com zelo e amor nesta área. A enfermaria de Turim continua a cumprir um papel precioso como primeiro acolhimento dos missionários com necessidade de tratamento, na coordenação dos serviços médicos e hospitalares para os casos de internamento de médio prazo. As instalações parecem estar adequadas ao serviço que está a prestar. É preciso reafirmar que há necessidade de informação atempada e pontual por parte das Circunscrições que estão a mandar missionários com necessidade de tratamento. É demasiado frequente acontecer que o pessoal da enfermaria se vê a funcionar em situação de emergência ou na incapacidade de dar todos os tratamentos necessários aos muitos casos que se lhes apresentam. O hospital Koelliker também presta um serviço precioso a muitos dos nossos confrades doentes, principalmente no caso de emergências e serviços de ambulatório. Dentro em breve começarão as obras da nova casa “Beato Allamano” em Alpignano, que virá substituir as edificações actuais que foram compradas pela Câmara e reabilitadas para servir os munícipes. Assim, esperamos que a nova sede possa oferecer um acolhimento cada vez melhor aos confrades idosos e doentes e se conforme, finalmente, com os parâmetros legais. A nova casa será um pouco maior que a actual para poder responder positivamente aos numerosos pedidos de benfeitores que também pedem para ser nossos hóspedes. 2. A caminho duma colaboração mais larga A situação precária em que se encontra o pessoal da Região, tal como a grande multiplicidade dos compromissos a que deve atender, sugerem que encetemos com coragem a caminhada para uma colaboração ainda maior com o pessoal leigo, tanto assalariado como voluntário. Num passado não muito distante, cada comunidade procurava enfrentar as suas necessidades com os seus próprios recursos, desde os serviços domésticos até aos serviços mais específicos de animação missionária. Começámos agora a abrir as portas das nossas comunidades aos leigos e estamos a descobrir como é providencial esta co-responsabilidade nos projectos apostólicos, mesmo naqueles que possam parecer especificamente nossos enquanto missionários. É uma página nova que estamos a abrir e sobre a qual começamos a escrever coisas maravilhosas: mas devemos fazê-lo com humildade e com empenho e com aquele espírito eclesial a que os documentos da Igreja vivamente nos exortam. Durante muitas décadas, a Região pôde fruir do serviço precioso que as Irmãs Missionárias prestavam às nossas comunidades, sobretudo nas casas de formação. Actualmente, a sua presença está limitada apenas à comunidade dos confrades idosos de Alpignano. No entanto, vão-se descobrindo novas modalidades de colaboração, sobretudo no campo da animação missionária. Devemos dar-lhes agora o nosso fraterno contributo, tal como os últimos Capítulos Gerais nos têm exortado a fazer. 3. Economia de solidariedade O generoso contributo dos benfeitores e a perspicácia dos confrades que trabalham na Itália não só garantem a auto-suficiência económica da Região como até conseguem oferecer quantias sólidas de dinheiro para a ajuda às obras missionárias, em fraternidade e em solidariedade. Enquanto todo o Instituto está ocupado no aprofundamento da carta “Pobreza, economia e missão”, aproveitamos para exortar os missionários da Região da Itália, a que aproveitem para aperfeiçoar ainda mais, no espírito daquela carta e em espírito de diálogo com as Regiões, os seus contributos de solidariedade a favor de numerosos projectos missionários, apoiando-se na Cooperazione Missionaria Onlus. Deve dar-se especial atenção aos grupos de apoio a projectos missionários, que estão presentes em grande número na Região. Procure-se o melhor caminho para aperfeiçoar a coordenação com a Região e com a comunidade local, tendo presente a formação missionária. A relativa prosperidade económica de que gozam as comunidades não deve favorecer a falta de atenção ou a leviandade em relação à prática da pobreza religiosa e ao testemunho de austeridade que a nossa vocação missionária exige. As propostas de partilha dos bens, tanto dentro da Região como com as outras circunscrições, e bem assim as sugestões que tenham em mira criar novos estilos de vida devem ter acolhimento favorável, e por parte de todos. Queremos mencionar aqui, em especial, o Ufficio Eredità que, mediante contacto com muitos benfeitores e o esmero nas práticas de herança, garante à Administração Geral um auxílio sólido para as nossas obras missionárias. Todos os missionários da Região devem colaborar de boamente com os encarregados desse Secretariado, procurando manter relações cordiais com os benfeitores e manifestando de bom grado a gratidão a todos os que, com seus bens, ajudam o Instituto a cumprir a sua missão. 4. Paróquias e igrejas públicas A visita deu-nos o ensejo de entrar em contacto com uma realidade pastoral exigente e complexa, expressa pelas actividades que se desenvolvem em cinco paróquias e igual número de igrejas públicas. Lembramos, antes de mais, que as directrizes referentes às paróquias na Europa e na América do Norte, e que foram expressas no Capítulo Geral de 1987, não foram corrigidas pelos Capítulos subsequentes. Portanto, ainda têm plena validade. O texto capitular sobre o assunto afirmava: «Devido à especificidade da nossa vocação, o Capítulo mantém que as paróquias não se devem nem assumir nem reter como instrumentos de animação missionária e vocacional ou para ocupar pessoas que não podem ser destinadas a outro lugar» (n.9). O próprio relatório do Conselho Regional, que foi preparado para a visita canónica e acareado pelos confrades nos diálogos e nos encontros comunitários, revela perplexidade e dúvidas quanto à nossa presença bastante difundida em paróquias. Salvo algumas excepções, as nossas paróquias não conseguem, de facto, dar resposta à finalidade específica da animação missionária e vocacional que é própria da Região. Importa, por isso, que nas convenções que se fazem com as Dioceses e no estudo da reestruturação regional se tenham presentes as normas do Instituto, avançando para um redimensionamento gradual, embora real, desses compromissos. O contrário se deve dizer a respeito das igrejas públicas que são administradas pela Região e oferecem aos missionários a oportunidade de funcionar pastoralmente e, ao mesmo tempo, podem facilmente tornar-se meios eficazes de animação missionária e vocacional. Os confrades encarregados destas igrejas devem trabalhar sempre em comunhão e em colaboração com a respectiva comunidade, mas tendo sempre presente a responsabilidade do Superior local. ConclusãoQueremos terminar pedindo prontas desculpas por não termos dado o suficiente relevo, neste relatório, a todas as obras que visitámos nem a todas a s actividades com que entrámos em contacto. Teria sido obra demasiado difícil. Agora é tempo de agradecer a todos vós o acolhimento que nos fizestes e o muito que quisestes partilhar connosco. São sinal dum espírito de família vivo e de participação intensa na vida do Instituto e da Região. A presença do Superior Regional, o Padre Franco Gioda, que nos acompanhou durante toda a visita, nos ajudou e nos serviu de estímulo. O nosso muito obrigado ao Conselho Regional com quem nos reunimos duas vezes e que foi rico em indicações e sugestões. Um muito obrigado também às Missionárias da Consolata com quem nos encontrámos nas suas várias comunidades espalhadas pelo país. Acompanharam-nos com a sua simpatia e com orações. Que o Beato Fundador, que da Casa Mãe continua a ser para todos os missionários um chamariz, mestre e guia, vos acompanhe no vosso trabalho e vos abençoe. Em Maria Consolata, saudamo-vos fraternalmente. P. Piero Trabucco, IMC (Padre Geral) P. António Bellagamba, IMC (Vice Superior Geral) P. Jean A. Benedetti, IMC (Conselheiro Continental) . |
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