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Padre FRANCESCO CATTOI PDF Imprimir E-mail
Por P. Giuseppe Villa   
12 de Março de 2006

PADRE FRANCESCO CATTOI

1913-2003

Filho de Ermanno e Camila Tranquillini, o padre Francesco Cattoi nasceu em Mori (TN) a 11 de Fevereiro de 1913. Chegou a Turim em 1929 no meio de um bando de “aguiotos” que descera do Santuário da Madonna del Monte, Rovereto. Professou em Rosignano em 1931 e foi ordenado sacerdote em 1936. Em 1937 foi enviado para o Tanganyika, onde trabalhou no escondimento durante 63 anos.

Entre 1937 e 1948 fez apostolado como coajutor de pároco nas missões de Madibira, Wasa, Mdabulo e Ujewa. Entre 1948 e 1966 foi pároco de Matembwe. Entre 1966 e 2000 voltou a servir a missão como coadjutor em Sadani, Madibira e Kifumbe. Em Maio de 2000 retirou-se para Alpignano.

No ano de 2001, assim respondeu ao superior geral, padre Piero Trabucco, que lhe dera os parabéns pelos setenta anos de profissão religiosa: «Agradeço-lhe, ou melhor, ajude-me a agradecer a Deus e à Santíssima Virgem da Consolata porque setenta anos são muita coisa e eu não sei como agradecer ao Instituto e a todos os que me ajudaram a receber graças sem conto.

Estive 63 anos na África, na Tanzânia, onde passei a minha vida. Trabalhei na pastoral e na promoção humana e, de repente, vi-me com 88 anos de idade. Agora estou em Alpignano para rezar e oferecer sacrifícios em preparação para a convocação do Patrão da seara e receber a recompensa apesar das minhas faltas, para as quais peço a Sua misericórdia. De novo lhe agradeço e peço orações para que seja recebido com tantos outros missionários no Paraíso».

No dia 8 de Maio de 2003, pelas 18:55, e assistido pelo padre Genta, foi para o Pai.

O padre Alessandro Di Martino, na concelebração eucarística de despedida que teve lugar no dia 10 de Maio, descreveu-o como uma pessoa mansa, conciliadora, amiga do povo, pronta a ajudar os outros e escrupulosa na vida religiosa. «Quando foi nomeado superior de Matembwe, que é uma missão isolada dentro de um feudo luterano, fizeram-lhe a vida negra mas ele investiu todas as suas capacidades mentais e emocionais para que aquela missão fosse aceite como missão católica, vindo a sofrer coisas  que só ele saberia contar».

De facto, em 1958 ao escrever ao superior geral, ele mencionou as dificuldades por que passava: «Tenho dificuldade em trabalhar no meio destes luteranos e também no meio desta gente que cada vez mais se torna materialista. Julgo que cerca de oitenta por cento da população adulta se foi para a cidade por a terra não render. As escolas funcionam bem; mas nos externatos a luta com os luteranos é sempre feroz: fazem-nos fechar uma escola, depois pedem que a abramos noutro local. Assim, espero pelo menos que, ao lançar a boa semente um pouco por todo o lado, algo se venha a colher num ou noutro lugar, como já está a acontecer». O padre Francesco reconhece as suas limitações, confessando ao seu Bispo: «não tenho coração de leão».

Disse ainda o padre Di Martino a seu respeito: «O seu temperamento manso, se calhar até demasiado conciliador, em conjunto com os magros resultados, num contexto tão complicado, chegaram a condicionar a sua vida, levando-o a aceitar segundos lugares até ao fim. Mas do seu contacto diário com as pessoas, ele conseguiu juntar conhecimentos profundos no campo cultural e, como amante da natureza que era, adquiriu ampla experiência no campo da botânica local.

Ainda agora é preciso fazer um esforço para descobrir o verdadeiro padre Cattoi missionário. Vale a pena perguntarmo-nos se tudo isto que está sob a capa do escondimento discreto conseguirá justificar uma vida consumada em missão. Certamente que não: transparece o amor, a paixão por um ministério missionário de 63 anos, uma vida religiosa escrupulosamente vivida, que nos revelam os alicerces sólidos que serviam de apoio ao seu coração.

Não tinha títulos académicos mas ficou fiel ao ser padre-mesmo, missionário de missão. Não terá “paveias” de que se gabar (quase sempre com muita palha); não deixará obras imponentes que o recordem, mas podemos acreditar que as suas mãos vão cheias de pequenas mancheias de bom grão. E são esses que, ainda hoje, enchem os celeiros de Deus».

A seguir tomou a palavra o padre Giuseppe Bargetto que, por acasos da vida foi companheiro do padre Cattoi durante 30 anos, todos eles vividos em fraterna amizade.

De cara séria e olhos a brilhar, procurou contar o que estava a acontecer: depois da morte da sua mãe, ele chorara, mas nunca mais. E agora, reapareceu-lhe esta necessidade profunda que não conseguia controlar. Passou assim a recordar a ocasião em que, no ano de 1950, ao chegar ao Tanganyika, foi mandado por Monsenhor Beltramino para ser coadjutor do padre Francesco Cattoi, que era o superior daquela missão de Matembwe, a 100 quilómetros do centro, situada sobre duas encostas em que foram plantados milhares de eucaliptos para a proteger do vento.

Com toda a simplicidade e confiança, o pároco apressou-se a propor-lhe que fizesse funcionar um antigo moinho. Foi uma carga de trabalhos aquela viagem com um saco de milho para moer e, por cima, o regresso com os burros carregados de sacos de milho, levando o peso com paciência mas sem grandes galopadas. Houve outros encargos manuais que o coadjutor tirou ao padre Cattoi, permitindo-lhe assim que se entregasse à pastoral e à catequese. Ao mesmo tempo, também lhe davam a oportunidade de cultivar a horta, que era a sua paixão – e as hortaliças nunca faltavam na missão.

As exigências da missão separou-os; mas voltaram a encontrar-se em Sadani e mais tarde em Kifumbe. Assim juntos, passaram tempos tranquilos, cheios de partilha, de forma que juntarem-se e contar tudo, era um alívio, amizade e acção de evangelização.

De seguida, o padre Francesco aceitou sair da África para voltar à Itália onde, um tanto contrariado, também o padre Bargetto se lhe juntaria, porque já se andavam a empilhar sérios problemas de saúde também para ele.

O padre Giuseppe Bargetto terminou o seu testemunho de lágrimas nos olhos. Não nos admirámos com isso, porque tudo aquilo que nos contara dera-nos a entender o significado da amizade na vida missionária. Até o Pai Fundador chorou quando o seu amigo Tiago Camisassa faleceu – depois de 42 anos de companhia. Numa família, até o pranto é uma liturgia que fala de fé e amor.

O corpo do padre Cattoi descansa agora no cemitério de Alpignano.

P. Giuseppe Villa

P. Giuseppe Mina

e Redacção de “Da Casa Madre”

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